sábado, 19 de junho de 2010

História da Artrite do Artista / Pierre A. Renoir

"A dor passa, mas a beleza permanece." Renoir

No entendimento particular de que a genialidade é maior que a arte e de que a própria arte pode se traduzir facilmente através da genialidade, focalizo Pierre Auguste Renoir. Segundo o reumatologista Valderílio Azevedo, este conceito particular de genialidade está centrado numa tentativa de utilização por parte do ser humano de seus dons naturais em busca da superação de suas limitações e enfrentamento das ameaças à sua existência individual e da própria sociedade de que é parte. Nesse sentido, Renoir é considerado um gênio. Qualquer um que entre em contato com uma coleção de pintura francesa do século XIX sentirá, ao ver os quadros de Renoir, as mais joviais e festivas comemorações à vida retratadas. Suas pinturas, tão belas, são uma festa para os olhos. Renoir retratou a beleza da figura humana, da natureza e das paisagens, traduzindo-as em um espetáculo de cores, de alegria e júbilo com a vida. Mesmo sofrendo intensamente ao final de sua existência, não parou de pintar e de produzir arte.


Pierre Auguste Renoir (1841-1919) nascido em 25 de fevereiro de 1841, em Limoges (França), foi vítima de uma artrite reumatóide grave nas últimas décadas de sua vida. Há dúvida sobre o ano em que as manifestações surgiram, estudiosos crêem que em torno de 1892, quando Renoir tinha cerca de 50 anos de idade. Quando já com 60 anos (1903) a doença assumiu uma forma mais agressiva, e a progressão o fez ficar muito deficiente, principalmente a partir dos 70 anos de idade, nos últimos sete anos da sua vida. Apesar da ausência de registros médicos, é possível, graças às fotografias, cartas pessoais e notas biográficas de pessoas que o conheciam intimamente, ter uma idéia razoável sobre o curso de sua doença:

Fig.1: Fotografia do ano de 1896. Renoir com 55 anos. Observando atentamente a imagem, é possível vizualizar o inchaço das articulações metacarpofalangeanas:



Fig.2: Em 1903, vemos que a artrite assumiu uma forma mais agressiva. A fotografia revela que Renoir, na idade de 62 anos, tenta com dificuldade segurar o seu inseparável cigarro em suas mãos deformadas:


Fig.3: Quando Renoir tinha 71 anos, a natureza agressiva da doença atacou-o de tal forma que resultou na anquilose de seu ombro direito e rupturas de tendões extensores dos dedos e punhos, levando a função deficiente das mãos. Com essas mãos deformadas, ele continuou a enrolar seus cigarros e, segundo seu neto, produziu mais de 400 obras.


Uma série de imagens ilustra como a doença afetou suas pernas e pés. Em 1901, com 60 anos de idade, quando seu filho caçula Claude (Coco) nasceu, ele precisou usar uma bengala para se locomover (Fig.4). Já em 1908, tornou-se difícil andar com apenas uma, e Renoir passou a utilizar duas bengalas (Fig.5).





Fig.6: A partir de 1912, Renoir passou a ocupar uma cadeira de rodas. Nesta fotografia ele está sentado ao lado de suas telas e de sua modelo Dédée (Blonde à la Rose 1915).



Fig.7: As deformidades dos pés progrediram a tal ponto que o fez incapaz de usar sapatos. Seus pés tinham de ser envolvidos em chinelos de lã.



Fig. 8: A doença não impedia que Renoir continuasse seus passeios, e quando precisava ir a lugares em que era difícil chegar através da cadeira de rodas, o pintor pedia para ser transportado em sua liteira por seus amigos e familiares.



Há evidências de que a artrite reumatóide afetou não apenas as articulações. Alguns relatos afirmam que no início da doença Renoir foi acometido por uma pleurite e, posteriormente, por uma paralisia facial, que foi tratada com eletroterapia. Em 1904, na faixa etária de 63 anos, ele começou a perder massa magra por causa da caquexia reumatóide (Fig.9). Cinicamente, ele relata isso em uma carta: "É impossível ficar sentado porque sou extremamente magro. Não pode haver gordura em quarenta e seis quilos. Meus ossos estão furando a minha pele, apesar do meu bom apetite".

Fig. 10: Apesar das dores consideradas incapacitantes, da deformidade progressiva de suas mãos, da anquilose no ombro, e da dificuldade de segurar o pincel, Renoir continuou a realizar seu belíssimo trabalho. Quando ficou difícil segurar a paleta na mão, ele pediu para que ela fosse fixa, como uma mesinha rotatória, no braço de sua cadeira de rodas.Além disso, Renoir, para adaptar sua técnica de pintura, pedia que sua esposa amarrasse os pincéis em suas mãos.



Após 1912, os nódulos existentes em suas costas tornaram-se muito incômodos. No ano de 1913, estes nódulos foram removidos pelo Dr. Prat (cirurgião do Hospital Belvédère, em Nice). Em 1918 foi descrita uma gangrena no pé, mesmo ano em que, apesar de muito cuidado, ele desenvolveu escaras. É interessante observar que, surpreendentemente, o artista começou a esculpir durante os últimos 12 anos de sua vida. Quando a doença que o acometia já estava num estado bem avançado, Renoir fez um busto e mais tarde um medalhão (fig. 11) da cabeça de seu filho caçula.


Em 03 de dezembro de 1919, Renoir veio a falecer devido a uma pneumonia, depois de passar várias horas da noite pintando uma natureza morta, para representar as maçãs que Coco, seu filho predileto, trouxe-lhe numa cesta no dia anterior.

A atitude demonstrada por este artista no enfrentamento de seus problemas de saúde por meio das técnicas que utilizou para superar a dor e continuar pintando mesmo com as restrições imposta pela atividade da artrite reumatóide e por suas sequelas articulares, numa época em que as opções do tratamento eficaz desta enfermidade eram de certa forma muito pobres, faz dele um objeto de grande admiração.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.BOONEN, A., REST, Jan van; “How Renoir coped with rheumatoid arthritis” BMJ 1997;315:1704-1708
2. Azevedo, V; A Beleza e a Dor: artistas visuais famosos e suas doenças reumáticas; Curitiba: Artes Gráficas e Editora Unificado, 2008.
3.WHITHE , B; "Renoir, his life, art and letters". New York: Abrams, 1984.
4.LOUIE, J; "Renoir, his art and his arthritis." In: Appelboom T, ed. Art, history and antiquity of rheumatic diseases. Brussels: Elsevier, 1987:43-4.

8 comentários:

  1. História triste e linda ao mesmo tempo.Como é importante a familia e os amigos numa vida tão dolorosa.

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  2. Parabéns pela revisão tão completa. As fotos foram muito ilustrativas, vi claramente a mão reumatóide, e a gravidade das deformidades impressionou-me muito, ele devia sofrer dores insuportáveis. Só um grande artista para continuar a produzir suas obras até o fim da vida!!!!

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  3. Prezada Renata,

    parabéns pelo seu blog.

    Envie-me seu email que eu te enviarei diversos artigos por mim publicados em revistas internacionais sobre artistas visuais e doenças reumáticas.

    Dr Valderilio Azevedo

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  4. Exemplo, exemplo, exemplo. Um verdadeiro artista da vida. E tem gente que reclama...

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    1. O site romantizou a personalidade dele viu? Ele não era essa flor nobre que resistiu a tudo sorrindo não.

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  5. "A dor passa e a beleza permanece."
    Vi os relatos e imagens e gostei muito.
    Assisti ao filme Renoir e senti todas as dores dele... Sou portadora de artrite reumatoide e também elaboro trabalhos manuais, que pioram, e muito, o quadro de dor.

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  6. Linda sua história , linda suas pinturas .

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