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domingo, 4 de dezembro de 2011

São Bartolomeu: O padroeiro da Dermatologia

São Bartolomeu (ou Natanael) foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo. Ele aparece na ponta esquerda da mesa na Santa Ceia, pintada por Leonardo da Vinci.

Segundo fontes históricas, após haver convertido muitas pessoas ao cristianismo, São Bartolomeu teve o corpo esfolado e decapitado em Albanópolis, atual Derbent, na província russa de Daguestão, a mando do governador.

A pele escalpelada de São Bartolomeu é vista no Juízo Final da Capela Sistina, um declarado auto-retrato de Michelangelo:

Detalhe de Juízo Final (1541). Michelangelo Buonarroti (1475-1564). Afresco. Capela Sistina (Vaticano).
São Bartolomeu aparece à esquerda da figura central de Jesus, empunhando o instrumento do seu suplício – uma faca cirúrgica – em sua mão direita, e a própria pele com a mão esquerda. A pele, esfolada, é o símbolo de seu sofrimento.

Michelangelo pintou São Bartolomeu com uma pele nova e perfeita; no entanto, o próprio rosto do artista, angustiado, é retratado numa pele velha e flácida, como a representar a face de um pecador.

A velha pele substituída por uma nova significa a renovação pregada pelo cristianismo. A respeito dessa purificação conseguida através do martírio, Michelangelo – além de pintor, exímio poeta – escreveu o seguinte poema ao completar a pintura em foco:
Como se fosse uma velha serpente esgueirando-se
Por uma estreita passagem
E perdendo sua velha pele,
Poderia me renovar,
Abrir mão de meu estilo de vida e de todos os desejos humanos.
Tenho perfeita consciência de que, quando se está coberto
Com uma pele mais forte,
O mundo passa a não significar nada. (Michelangelo, 1541).
Tradicionalmente, São Bartolomeu foi consagrado o santo protetor contra as doenças de pele e, também, o padroeiro da Dermatologia.

REFERÊNCIAS:
1. Biografia: "São Bartolomeu, o apóstolo". Sociedade das Ciências Antigas.
2.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
3.BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004.

domingo, 9 de outubro de 2011

Ceratose seborréica em pintura de Francisco Goya

A pintura em que Francisco Goya y Lucientes (1746 -1828) registra a família real espanhola no ano de 1800, mostra uma lesão elementar na região frontal direita da Infanta Maria Josefa (1744-1801), irmã de Carlos IV (1748-1819).



Família de Carlos IV, 1800-1, de Francisco Goya y Lucientes (1746-1828). Museu do Prado, Madri.
Maria Josefa é a quarta figura que aparece da esquerda para direita. Esta manifestação dermatológica pigmentada é sugestiva de ceratose seborréica, merecendo o diagnóstico diferencial com lentigo.


Destaque para lesão sugestiva de ceratose seborréica ou lentigo.
A lesão dermatológica representaria apenas um artefato de pintura. Entretanto, este elemento pictórico aparece também num esboço produzido anteriormente por Goya:

Infanta Dona Maria Josefa (1800-1).Francisco Goya y Lucientes, Museu do Prado, Madri.

REFERÊNCIAS:
1.Souza,E.M. Vallarelli, A.F; “dermatologia nas artes”. An Bras Dermatol. 2009;84(5):556-8

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Afecções dematológicas em autorretrato de Rembrandt (1659)

Condições dermatológicas comuns, tais como verrugas e nevos, são regularmente observadas em pinturas. Uma análise deste autorretrato pintado em 1659 por Rembrandt van Rijn (1606-1669) requer atenção meticulosa aos detalhes da reprodução exata de sua pele.

Autorretrato, 1659, Rembrandt Harmenszoon van Rijn. Oleo sobre tela, 84,5 x 66 cm, Galeria Nacional de Arte, Washington, DC, USA

De uma perspectiva dermatológica, é notável a representação de dermatocálaze, xantelasma, telangiectagias e rosácea associada a rinofima:


Hankey (1998) propôs que esta constelação de sinais, juntamente com o edema periorbital, a escassez de cabelos e sobrancelha, a palidez e a obesidade, poderia significar um diagnóstico subjacente de hipotireoidismo com secundária hipercolesterolemia.

Ao longo da trajetória artística, Rembrandt produziu cerca de cinquenta autorretratos, tecendo um catálogo psicológico de seus humores e das várias fases de sua vida. As obras formam uma biografia única e íntima na qual o artista se retrata com uma sinceridade extremada e despida de qualquer vaidade, refletindo sua jornada pelo autoconhecimento.


REFERÊNCIAS:
SALTER, V. “Medical conditions in works of art”. British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2.

domingo, 17 de abril de 2011

Arterite Temporal e Polimialgia Reumática numa Pintura de 1436

Dentre as obras de arte mais discutidas entre os doutores que visitam o museu municipal de Bruges, na Bélgica, destaca-se um trabalho concluído por Jan van Eyck há mais de 500 anos, representando a Virgem com o Canon Van der Paele. O canon é particularmente o foco do interesse médico.

A Virgem com o Canon (1436). Jan van Eyck. Museu municipal de Bruges (Bélgica).

Oftalmologistas diagnosticaram ligeiro estrabismo divergente e lagoftalmo. Além disso, a distorção produzida pelas lentes que aparecem sobre o manuscrito em suas mãos sugere que esse canon era míope e não presbiope, como se poderia esperar em sua idade.

Também dermatologistas têm comentado anormalidades em sua pele. Eles observaram alguns nevos celulares na face, um cisto sebáceo na orelha esquerda e um epitelioma labial que fora obliterado pela restauração da  pintura em 1934.


Pormenor de  A Virgem com o Canon evidenciando o espessamento das artérias temporais.

Reumatologistas ficaram impressionados com a aparência que van Eyck registrou da região temporal de Van der Paele. São nítidamente visíveis as artérias proeminentes, bem com a formação de cicatrizes e perda de cabelo na frente da orelha esquerda e entre as sobrancelhas. Mesmo sem uma biópsia, muitos clínicos consideraram esse aspecto característico de arterite temporal.

Estudos históricos posteriores evidenciaram que ele tinha dor e rigidez no braço esquerdo. O edema difuso em sua mão esquerda indica uma esclerose crônica observada em pacientes com ombralgia de longa duração ou a síndrome de ombro-mão, uma das características de polimialgia reumática.

Segundo a acta da catedral, após onze anos de serviço regular, der Paele passou a apresentar suas primeiras dificuldades durante um culto que acontecia numa manhã de novembro, no ano de 1431. Em setembro 1434 o canon, "em vista de sua debilitação geral", obteve permissão para manter seus rendimentos, apesar de não freqüentar o serviço.

Nessa época, julgando próximo o seu fim, resolveu convidar Jan van Eyck para fazer um retrato especial, em que aparecia ao lado da Virgem, para decorar a Igreja em sua memória. A pintura foi concluída em 1436.

Ele morreu em 25 de agosto de 1443. Os dados históricos que contém registros sobre sua saúde apoiam o diagnóstico clínico de arterite temporal associado a polimialgia reumática, visto que esta última condição ocorre em 40% dos casos de arterite de células gigantes. A dor reumática com rigidez matinal, associada a fraqueza geral, forçou o van Paele a abandonar suas atividades matinais. Esta debilitação, não fatal, permitiu que ele sobrevivesse ainda por doze anos, uma história compatível com o curso natural da polimialgia reumática.

REFERÊNCIAS:
1.Antônio Carlos Lopes, tratado de Clínica Médica, 2 edição, Roca, 2009.
2.DEQUEKER, JV. “Polymyalgia rheumatic with temporal arteritis, as painted by Jan Van Eyck in 1436”.CMA JOURNAL/JUNE 15. 1981/VOL. 124.

domingo, 20 de março de 2011

Alopecia areata retratada por Francisco Goya

O óleo sobre tela O casamento, produzido por Francisco Goya em 1792, fora encomendado pelo imperador Carlos IV, da Espanha, para a decoração de um dos apartamentos reais de sua residência em El Escorial.

O Casamento, 1791-2. Francisco Goya y Lucientes. Museu do Prado (Madri).

A lesão alopécica localizada no vértice do couro cabeludo da criança que aparece encostada à roda, de costas, tem uma coloração esbranquiçada, um aspecto circunscrito, e a superfície lisa.

Tais características sugerem o diagnóstico de alopecia areata, uma doença multifatorial com componentes auto-imunes, onde ocorre uma importante perda de cabelos e presença abrupta de área ou áreas alopécicas. As causas reais permanecem desconhecidas, mas acredita-se que a fisiopatologia envolve a imunidade celular por meio dos linfócitos CD8 que atuariam sobre antígenos foliculares. A ativação dos linfócitos do infiltrado perifolicular próprio da alopecia areata produz a liberação de citocinas (IL-1 alfa e beta, TNF) que inibem a proliferação das células do folículo piloso, interrompendo a síntese do pêlo sem destruir o folículo.

A lesão característica é uma placa alopécica lisa com coloração da pele normal atingindo qualquer área pilosa do corpo, preferencialmente o couro cabeludo.

Outros possíveis diagnósticos seriam tinha tonsurante do couro cabeludo ou alopecia não-tonsurante, como a tinha favosa.

REFERÊNCIAS:
1.Vallarelli AFA,, Souza EM. Dermatologia nas artes. An Bras Dermatol. 2009;84(5):556-8.
2.Rivitti EA. Alopecia areata: revisão e atualização. An. Bras. Dermatol. vol.80 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2005

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lepra no Antigo Testamento

O que é, nos dias de hoje, a lepra da Bíblia? A lepra bíblica é a mesma doença que atualmente conhecemos como hanseníase? A resposta resumida é que a Bíblia não menciona de maneira explícita ou inequívoca a hanseníase (nome com o qual atualmente designamos o complexo clínico de sinais e sintomas causado pelo Mycobacterium leprae). O termo “lepra”, durante séculos, foi utilizado para designar diversas doenças dermatológicas de origem e gravidade variáveis.

1. Falou mais o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo:

2. Quando um homem tiver na pele da sua carne, inchação, ou pústula, ou mancha lustrosa, na pele de sua carne como praga da lepra, então será levado a Arão, o sacerdote, ou a um de seus filhos, os sacerdotes.

3. E o sacerdote examinará a praga na pele da carne; se o pêlo na praga se tornou branco, e a praga parecer mais profunda do que a pele da sua carne, é praga de lepra; o sacerdote o examinará, e o declarará por imundo.


Estes versículos fazem parte do capítulo 13 do Levítico, que é inteiramente dedicado ao diagnóstico da lepra. A doença parece ter sido frequente na antiguididade, mas – e talvez por causa disso – o rótulo pode ter incluído vários outros problemas de pele. Além disso, havia o estigma; o contágio com enfermidades da pele muitas vezes envolve o contato íntimo, com todas as implicações possíveis. Durante muitos anos, os sacerdotes estiveram à frente do cuidado de pessoas que sofriam de lepra. À época de Moisés não existia ainda o templo de Jerusalém; mas, na construção deste, foi previsto um lugar especial para o exame de suspeitos. A doença é a maneira pela qual Deus castiga os pecadores e os inimigos do povo eleito: “Se não guardares e não cumprires as palavras da Lei e se não tiveres temor ao nome glorioso e terrível do Senhor teu Deus, Ele te castigará, e a teus filhos, com a praga” (Deuteronômio, 28:58-59).

A lepra é conhecida como "a doença mais antiga do mundo", afetando a humanidade há pelo menos 4000 anos e sendo os primeiros registros escritos conhecidos encontrados no Egito, datando de 1350 a.C..

REFERÊNCIAS:
1. Lepra na Bíblia: estigma e realidade / Stanley George Browne . — Viçosa : Ultimato, 2003.
2. Bíblia Sagrada – Tradução de João Ferreira de Almeida.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Rinofima na Arte

Denomina-se rinofima a desfiguração do nariz resultante de uma intensa hiperplasia das suas glândulas sebáceas. Considerado o estágio final da acne rosácea, caracteriza-se pelo aparecimento de grandes cistos sebáceos de retenção decorrentes da obstrução dos duelos de drenagem das glândulas do ápice e asas do nariz.As alterações morfológicas têm início com a dilatação e engurgitamento dos vasos capilares e se fazem acompanhar de distorcão grosseira do tecido subcutâneo, das cartilagens alares e do músculo nasal. Essa desfiguração do nariz se processa de modo lento e progressivo; apesar de acometer jovens e mulheres, é mais prevalente em homens idosos.

O rinofima tem despertado a curiosidade de médicos e de artistas de diversas áreas. William Shakespeare faz referência à doença em sua obra Henrique V. Entretanto, é na pintura que essa deformidade está mais dramaticamente representada. Domenico di Tomaso Bigordi Ghirlandaio, conhecido por Ghirlandaio, pintou, em 1480, o óleo sobre madeira Um Velho e Seu Neto, também chamado O Ancião e a Criança:

O Ancião e a Criança (1480).Domenico Ghirlandaio ( 1449-1494). Óleo sobre madeira , 62 x 46 cm Museu do Louve (Paris)

Durante muito tempo, as identidades do velho e da criança eram simplesmente desconhecidas. Pensava-se que o ancião fosse um membro da família Ridolfi, uma vez que o quadro de Ghirlandaio esteve durante muitos anos com essa família.Posteriormente, estudiosos de arte, analisando o quadro Francesco Sassetti com seu Filho Teodoro (pertencente ao acervo de Jules Bache, de Nova York) e estudando um retrato a óleo existente no Museu de Arte de Estocolmo (Suécia), e ainda os afrescos da capela privativa do Palácio dos Sasseti, concluíram que o quadro, atualmente exposto no Museu do Louvre (Paris), representa Sasseti e Teodoro.

Em 1528, Joos van Cleeve (1485-1540) pintou o Retrato de um Ancião. A obra, atualmente exposta no Museu do Prado (Madrid), retrata o famoso matemático e geógrafo Sebastián Münster (1489-1552). Münster, que lecionava na Universidade de Heidelberg (Alemanha), e na Universidade da Basiléia (Suíça), era muito conhecido por ser o autor do livro Cosmografia Universal (1544), onde aparece a primeira descrição geográfica do mundo feita por um alemão.

Retrato de um Ancião (1580). Joons van Cleeve (1485-1540).Óleo sobre tela , 62 x 47 cm. Museu do Prado (Madrid)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.