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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Anatomia do coração no teto da capela sistina, por Michelangelo

Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana, descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo.

A Sibila de Cumas é considerada como a mais importante das dez sibilas conhecidas. Tinha o dom da profecia, e fazia suas previsões em versos. É conhecida como a "sibila de Cumas" por ter passado a maior parte de sua vida nesta cidade, situada na costa da Campânia (Itália).

Apolo, deus que inspirava as profecias da sibila, prometeu-lhe realizar o que desejasse. A Sibila então colocou um punhado de areia em sua mão e pediu-lhe para viver tantos anos quantos fossem as particulas de terra que ali tinha. Mas esqueceu-se de rogar, também, pela eterna juventude, assim foi que com os anos tornou-se tão consumida pela idade que teve de ser encerrada no templo de Apolo em Cumas. Conta a lenda que viveu nove vidas humanas com duração de 110 anos cada.

Michelangelo retratou a Sibila de Cumas como uma profetisa robusta e musculosa, apesar do rosto envelhecido.

Embutido neste afresco, situado no teto da Capela Sistina, nota-se uma fiel representação anatômica da vista anterior do saco pericárdico e dos grandes vasos sanguíneos:

A Sibila de Cumas. Capela Sistina (Itália).
Pistas: O manto sobre a perna direta da sibila tem o formato da representação leiga de um coração. Os dois querubins à esquerda. O querubim de trás repousa a mão sobre o precórdio do querubim que está à frente.



Achados anatômicos: A bolsa pendurada pela alça que emerge logo abaixo do livro adornada com uma franja vermelha, que deixa aparente a extremidade de um rolo de papel, corresponde à vista anterior do saco pericárdico e dos grandes vasos. A veia cava corresponde à alça da bolsa (a), e a emergência da aorta corresponde à ponta do rolo de papel (b). A franja vermelha corresponde à borda do diafragma (c) inserida ao pericárdio.

A coxa e a perna direita da sibila de Cumas chamam a atenção tanto pelo volume como pela cor vermelha iluminada. Também nesta cena Michelangelo retratou, sob outra perspectiva, o coração com o saco pericárdico aberto:


Observa-se acima o coração envolto pelo pericárdio e as duas coronárias – direita (d) e esquerda (e) – percorrendo os seus trajetos estão representados no manto sobre a coxa direita da sibila.

REFERÊNCIAS:
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fisiologia do coito: análise do desenho de Leonardo da Vinci

O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma. (Leonardo da Vinci).
Os desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) foram, ao longo dos séculos, imensamente admirados por artistas, médicos e historiadores. A maioria deles são datados no período entre 1487 e 1513. Somente a partir de 1503 Leonardo viveria sua fase mais ativa de pesquisa anatômica, adquirindo um conhecimento mais exato da anatômia humana através da dissecção de cadáveres. Este fato justifica as imperfeições anatômicas encontradas nos desenhos arquitetados durante a primeira metade deste período.

Referência específica é aqui feita para os desenhos que ilustram a anatomia masculina e feminina no ato do coito. Suas representações sobre o intercurso sexual são uma tentativa de esclarecer e ilustrar a fisiologia apresentada nos livros didáticos do seu tempo. De suas posses literárias mais consultadas, destacam-se os textos de Mondino di Luzzi e Avicena. Ao ler estes livros e outros, Leonardo acessou às ideias de Hipócrates, Aristóteles, Platão e Galeno.

Um breve olhar para o personagem masculino na gravura abaixo revela o incrível "encanamento" interno projetado por Leonardo para descrever a fisiologia aristotélica sobre a reprodução humana:

"O Coito" (1492)
A ilustração evidencia dois canais no pênis, um mais baixo, ligado ao trato urogenital através da uretra, e um canal superior, que passa para a medula espinhal por meio de três vasos.

Detalhe evidenciando os dois canais no pênis.
Segundo a antiga filosofia grega, a "essência" de um bebê seria fornecida por uma "semente universal" pertencente ao macho. Este ingrediente procriador derivaria de um “espírito animal” – material fisiológico fabricado a partir de sangue arterial na base do cérebro e transferido para todas os partes do corpo através dos nervos.

O sêmen desceria a partir do cérebro através de um canal que pode ser visto na coluna vertebral do homem. Isso explica a conexão desenhada por Leonardo entre a coluna e o pênis.

Aristóteles acreditava que os testículos não desempenhavam nenhum papel na procriação, e que apenas forneciam um líquido para lubrificar a vagina durante a relação sexual. Leonardo, que discordou deste conceito, desenhou um grande vaso sanguíneo transferindo a “semente” para o testículo, ilustrando assim o ponto de vista galênico de que os testículos fabricam espermatozóides a partir do sangue. 

A ausência de ovários na figura de sexo feminino é justificada pela crença aristotélica de que os ovários não possuem papel reprodutivo. A fêmea serviria apenas como o solo em que a semente masculina é plantada. Leonardo, portanto, mesclou nesta ilustração os argumentos galênicos e aristotélicos para fisiologia do coito.

Interessante observar a representação dos dois nervos supostamente encarregados de provocar a ereção e a ejaculação: um deles, produto da fantasia de Leonardo, provém diretamente do coração, – ideia não tão absurda se considerarmos o pensamento da época de que tal órgão era o responsável pelo amor. O outro nervo tem suas raízes à nível sacral, o que, evidentemente, esta mais de acordo com o conhecimento atual da fisiologia do coito.

Um curioso detalhe pictórico é a adição de um vaso sanguíneo ligando o fundo do útero à mama. De acordo com o pensamento medieval, este vaso hipotético levaria o sangue menstrual suprimido para as glândulas mamárias, causando assim o aumento das mamas e a lactogênese. Não há como negar a genial associação do pintor, que vincula ambos os órgãos por meio de uma conexão direta, séculos antes de Ferguson descrever o reflexo que leva o seu nome.

Não há dúvida de que o gênio renascentista, pai das grandiosas inovações artísticas da época, era excepcionalmente atento e criativo também nas suas engenhosas representações anatômicas.


REFERÊNCIAS:
1.Coleção Os Pensadores, Aristóteles, Abril Cultural, São Paulo, 1.ª edição, vol.II, agosto 1973.
2.MORRIS, A. G.“On the sexual intercourse drawings of Leonardo da Vinci”.SAMT DEEL69 12APRIL1986.
3..TOPOLANSKI, R. “OBRA EL ARTE Y LA MEDICINA.” CAP 7: La obstetrícia y la ginecologia.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Anatomia Grega: Por Que a Palavra "Hímen" Denomina a Membrana Situada no Vestíbulo Vaginal?

Segundo a mitologia, Hymen (ou Hymenaios), filho de Apolo e Afrodite, é o deus grego do casamento. Seu culto era celebrado durante as núpcias do casal. Hymeneu era o termo empregado no conjunto de hinos cantados durante a cerimônia.

Himeneu Travestido Assistindo à Dança de Honra a Príapo, 1635. Óleo sobre tela, 167 × 376 cm. Museu de Arte de São Paulo.

Hymen, em Grego, quer dizer, originalmente, "membrana". Em 1550, Andreas Vesalius, médico belga fundador da moderna anatomia, usou o termo especificamente para a membrana situada no intróito vaginal.


George Rennie (1802-1860). Escultura em Mármore. Cupido empunhando a tocha de Himeneu, 1831. Londres, V&AM.

Os gregos acreditavam que Hymen precisava comparecer a todos os casamentos, pois caso contrário, o resultado do matrimônio seria desastroso. Pelo fato do deus presidir as celebrações de núpcias, foi sugerido que havia uma conexão entre esta divindade, o casamento e o hímen vaginal.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dioramas Anatômicos do Dr. Frederik Ruysch

O anatomista holandês Frederik Ruysch (1638-1731), conhecido como o médico que melhor desenvolveu técnicas de preservação de órgãos e tecidos, destacou-se no mundo das artes por fazer incríveis arranjos artísticos com suas peças anatômicas.

Ruysch possuía o seu próprio museu de curiosidades sobre temas alegóricos da morte e da transitoriedade da vida e, dentre as exposições, havia uma série de dioramas montados a partir de partes corporais e estrelados por melodramáticos esqueletos fetais.

Ruysch,Frederik. Thesaurus Anatomicus. 1701

Criativo, Ruysch construiu as paisagens geológicas utilizando cálculos biliares e fez das veias e artérias "árvores"; e mais, tecidos ramificados de pulmões e vasos menores serviram para construir a grama de muitos dos seus arranjos.

Na maioria dos dioramas, observa-se crânios a lamentar a efemeridade da humanidade através do choro em elegantes "lenços" feitos de mesentério ou meninges cerebrais; acompanham também suas preparações diversas citações e exortações morais, enfatizando a brevidade da vida e da vaidade das riquezas terrenas.

Ruysch,Frederik. Thesaurus Anatomicus. 1701

Suas preparações anatômicas atraíram notáveis personalidades para o seu museu, incluindo o czar Pedro - O Grande, da Rússia, que estava tão fascinado com o trabalho artístico de Ruysch, que em 1717 comprou toda a coleção do médico. Vários dos itens ainda estão na posse do Museu da Academia de Ciências de São Petersburgo.

LEIA MAIS:

A Lição de Anatomia do Dr. Ruysch

REFERÊNCIAS:
RUYSCH, Frederik. Thesaurus Anatomicus Primus, 1701. Amsterdam.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Capela Sistina: Estruturas Neuroanatômicas Ocultas em "A Separação da Luz e das Trevas" / Michelangelo Buonarroti

"Em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso ele se espelha." Trecho de soneto de Michelangelo.

A SEPARAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS (A cena representa a número I na ordenação feita pelos livros de arte. Nela, com os braços levantados, o Criador afasta as trevas à sua direita a luz à esquerda).

É inquestionável que Michelangelo Buonarroti (1475-1564), por possuir um fascínio intenso pela anatomia humana, realizou inúmeras dissecações de cadáveres.

Em um artigo publicado em 1990, Meshberger argumentou convincentemente que no afresco A Criação de Adão, localizado no teto da capela sistina, Michelangelo ilustrou um cérebro humano.

Apresentamos agora uma outra estrutura neuroanatômica oculta nos afrescos pintados por Michelangelo. Dessa vez, é em A Separação da Luz das Trevas, onde encontramos, embutida no pescoço do Criador, especificamente uma visão ventral do tronco encefálico:


Observar a perfeição com que Michelangelo ocultou as estruturas anatômicas em A Criação de Adão e A Separação da Luz e das Trevas, leva-nos a concluir que o artista possuía um profundo conhecimento da anatomia do cérebro.

LEIA MAIS:

O Anatomista Michelangelo em "A Criação de Adão".

REFERÊNCIAS:
Suk, Ian BSc, BMC; Tamargo, Rafael J. MD, FACS. “Concealed Neuroanatomy in Michelangelo's Separation of Light From Darkness in the Sistine Chapel”. Neurosurgery: May 2010 - Volume 66 - Issue 5 - p 851–861.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"A Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch" / Jan van Neck

Frederik Ruysch (1638-1731) foi um botânico holandês, anatomista e um dos pioneiros em técnicas de preservação de órgãos e tecidos. Ele estudou medicina na Universidade de Leiden, onde obteve seu diploma em 28 de julho de 1664. O principal interesse de Ruysch era anatomia, para a qual nutria uma paixão desde a sua juventude (conta-se que ele pagava coveiros para abrir as covas para que ele pudesse fazer investigações anatômicas nos cadáveres!).

Ruysch foi o primeiro a demonstrar a existência de vasos sanguíneos em quase todos os tecidos do corpo humano, destruindo assim a crença galênica de que determinadas áreas do corpo não tinham suprimento vascular. Também investigou detalhadamente as válvulas do sistema linfático, as artérias brônquicas e os plexos vasculares do coração, e foi o primeiro a apontar a nutrição do feto através do cordão umbilical. Graças às originais técnicas de preservação de tecidos, Ruysch é considerado o médico que melhor fazia preparações anatômicas.

Pintado por Jan van Neck em 1683, A Lição de Anatomia do Dr. Ruysch é o único quadro que retrata numa lição anatômica não o cadáver de um adulto, mas de um natimorto:

A Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch (1683). Jan van Neck. Óleo sobre tela, 142 x 203 cm. Museu histórico de Amsterdã.

É interessante observar que uma criança está presente à aula de anatomia. Trata-se do filho do Dr. Ruysch, o pequeno Hendrick, que na ocasião tinha apenas 9 anos de idade. Hendrick auxiliava o pai nas preparações anatômicas e, impulsionado por esta prática, apaixonou-se também pela anatomia. O jovem Ruysch, que ao crescer tornou-se médico, tem em suas mãos o esqueleto de um recém nascido.

O quadro é tipicamente holandês, nele van Neck utilizou propositalmente a coloração escura para que o feto se destaque.

LEIA MAIS:

Dioramas Anatômicos do Dr. Frederik Ruysch

REFERÊNCIAS:
1.N. T. Hazen:Johnson’s Life of Frederic Ruysch. Bulletin of the History of Medicine, Baltimore, 1939; 7: 324.
2.P. Scheltema:Het leven van Frederik Ruysch. M.D. dissertation, 1886.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Por que a primeira vertebra chama-se atlas? / Atlas Segurando a Abóbada Celeste

A primeira vértebra chama-se atlas em alusão ao deus da mitologia grega Atlas, que, por conta de um desentendimento com Zeus (deus dos deuses), recebeu o castigo de ter que carregar, para o resto da vida, o mundo sobre seus ombros. Como a primeira vértebra cervical suporta o peso da cabeça, é chamada de atlas para lembrar o sacrifício imposto ao deus grego.

Atlas Segurando a Abóbada Celeste ou Atlas de Farnese (150 d.C.) Escola Romana. Museo Nazionale Archeologico (Nápoles).

A escultura acima representa Atlas segurando a abóbada celeste. A obra possui 2,1m de altura e o globo cerca de 65 cm de diâmetro. A estátua foi esculpida por volta de 150 d.C. e ficou conhecida pelo nome do cardeal italiano Alessandro Farnese, que a comprou, na segunda metade do século XVI. Ela é uma reprodução romana de uma original grega.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A origem da expressão "tendão de Aquiles"

O tendão é assim chamado em honra de Aquiles, famoso personagem da Ilíada - poema épico grego - de Homero.

Aquiles, quando criança, foi batizado em um lago sagrado chamado Stix. Sua mãe o segurou pelos tornozelos e ele, de cabeça para baixo, foi imerso no lago. Ao retirá-lo da água, todo o seu corpo estava bento, exceto os tornozelos, que haviam permanecido enxutos. Aquiles desconhecia o fato de que seus tornozelos não estavam bentos e, portanto, eram vulneráveis. Durante um combate na guerra de tróia, uma flecha adversária o atingiu no tendão calcâneo (tendão de fixação distal dos músculos gastrocnêmio e sóleo no osso calcâneo), pondo-o fora de combate.

Essa pintura em vaso grego representa uma cena da Ilíada de Homero. Nela, vê-se o guerreiro grego Aquiles fazendo um curativo no braço de seu amigo Patroclo:


Aquiles tratando Patroclo. Vaso grego com figura em vermelho (500 a.C). Staatliche Museum (Berlim)

Em 1693, um anatomista francês chamado Phillipe Verheyen foi acometido de gangrena diabética na perna direita. Antes de se submeter à cirurgia de amputação do membro inferior doente, Verreyen pediu ao seu amigo ortopedista que, após a cirurgia, guardasse o membro amputado porque desejava, passado o período de convalescença, dissecar seu tendão calcâneo. Verreyen lembrou-se então do episódio ocorrido com Aquiles e passou, a partir daquele momento, nas suas aulas em público, a usar o nome tendão de Aquiles.

Aquiles Morrendo; estátua localizada nos jardins do Achilleion, em Corfu.

Atualmente com a abolição do uso dos termos eponímicos em Anatomia, o tendão de Aquiles voltou a ser chamado de tendão calcâneo.

REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
BEZERRA, A.J.C; DIDIO, L.J.A; PIVA JUNIOR,L. Terminos anatomicos en la iliada de Homero; Rev. Chil. Anat., 9(1): 73-77, 1991.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Estruturas Anatômicas Torácicas na Capela Sistina - Michelangelo

“Deus mandou o homem profundo sono e enquanto ele dormia tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela [...] fez uma mulher” Gênesis 2:21

Em meio aos afrescos que pintou no teto da Capela Sistina, Michelangelo espalhou um número considerável de estruturas anatômicas ocultas em sua obra. Em “A Criação de Eva” encontramos uma artística representação de estruturas contidas no tórax humano:



Cena: O Criador ordena que Eva se levante de dentro do tórax de Adão. Este repousa ao lado de um tronco seccionado que se ramifica e se trifurca mais acima.

Pista: O tórax esquerdo aberto de Adão. Além disso, o manto de Deus possui um volume dorsal muito grande em relação ao posicionamento dos pés, como se estes estivessem deslocados para a frente.

Achados anatômicos: Se observássemos dentro do tórax aberto de Adão, veríamos a lateral do pulmão esquerdo. Essa visão corresponde exatamente à forma do manto sobre o corpo do Criador. Compare a forma do manto com a figura anatômica do pulmão esquerdo. E Adão repousa sobre o tronco da árvore, que apresenta uma forma muito semelhante à de um segmento de árvore brônquica. Pode-se argumentar aqui que qualquer estrutura dendrítica de uma árvore é capaz de representar a árvore brônquica. Porém, chama a atenção nessa cena o fato de Michelangelo ter pintado, no Paraíso, um pedaço de árvores com ramos seccionados e desprovidos de folhas. Concluí-se, portanto, que essa estrutura complementa a representação do pulmão.



CONFIRA:

O Anatomista Michelangelo Revelado no Teto da Capela Sistina

Michelangelo: O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso - Anatomia da Região Cervical


REFERÊNCIAS:
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman (Rembrandt)

Sucessor do Dr. Tulp, Joan Deyman também contratou Rembrandt para pintar sua lição de anatomia. Infelizmente, seu rosto não ficou para posteridade por meio desse quadro, datado de 1656, porque um incêndio, ocorrido em 8 de novembro de 1723, danificou a obra que estava exposta o Colégio Médico de Amsterdã. Para recuperar o quadro, dando-lhe estética, os especialistas em restauração foram obrigados a recortar a cabeça queimada do anatomista.

Rembrandt. A lição de anatomia do Dr. Deyman (1656). 100 x 134 cm. Rijksmuseum, Amsterdã.

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman é raríssima, pois trata-se de uma neurodissecação (os dois hemisférios cerebrais podem ser facilmente identificados).Por trás do cadáver identificamos o professor, cujas mãos, segurando um bisturi, é tudo o que restam dele.Na pintura, o anatomista é retratado retirando a foice do cérebro do espaço formado pela fissura longitudinal. O corpo que aparece é de Joris Fonteijn, um ladrão conhecido como “Black Jan”, condenado a morte em 27 de janeiro de 1656.A calota craniana é segurada por Gijsbert Kalkoen, filho de Matthys Evertsz Kalkoen (também pintado por Rembrandt, 24 anos antes, na Lição de Anatomia do Dr. Tulp). Talvez esta seja a única lição em que o corpo é colocado sobre a mesa na posição podo-cranial. Para pintar o cadáver nessa perspectiva, Rembrandt provavelmente inspirou-se na pintura O Cristo Morto (1480), de Mantegna.


O Cristo Morto,1480, Andrea Mantegna.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sete Curiosidades na "Lição de Anatomia do Dr. Tulp" de Rembrandt van Rijn

Este óleo sobre tela em estilo barroco fora encomendado pela Associação de Cirurgiões de Amsterdã e retrata uma aula de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp. Concluída em 1632 pelo pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "A Lição de Anatomia do Dr. Tulp" tornou-se a obra de arte mais conhecida pelos médicos.



Vale a pena destacar alguns detalhes pitorescos do quadro:


  1. O nome do pintor e a data da conclusão da pintura podem ser vistos em um quadro de avisos pendurado na parede ao fundo do laboratório de anatomia. Rembrandt, para não macular sua bela obra, preferiu não colocar sua assinatura como se faz usualmente.

  2. O aluno mais próximo do Dr Tulp tem à mão uma folha de papel, na qual imaginava-se que estavam escritos os nomes dos músculos do antebraço que estão sendo mostrados, impressão que se desfaz quando percebe-se que, imediatamente acima do chapéu do Dr. Tulp, há uma pincelada grafando o número 1. Assim, o primeiro nome da lista é o do Dr. Tulp, os outros sete números correspondem ao nome dos alunos presentes na aula.

  3. A obra contém um erro onde menos se podia esperar: Os músculos flexores superficiais, na pintura, estão nascendo do epicôndilo lateral (aqui, na verdade, originam-se os músculos extensores e supinadores do antebraço.) Os músculos flexores superficiais do antebraço se originam do epicôndilo medial do úmero.

  4. O corpo dissecado pertencia a Adriaan Adriaans, também conhecido por Aris Kint, um ladrão que havia sido enforcado por roubo.

  5. Estudiosos da pintura acreditam que o braço esquerdo pintado não é o braço de Aris Kint, mas de um outro cadáver previamente dissecado por Tulp (É bastante perceptível que o antebraço esquerdo é maior que o direito).

  6. Segundo mostrou o raio X da pintura, inicialmente a mão direita do cadáver não tinha dedos. Rembrandt pintou-a posteriormente com base na mão de outra pessoa (É uma mão delicada, com unhas bem cortadas, nada lembrando a de um ladrão). Considera-se a possibilidade de Aris Kint ter tido a mão cortada quando ainda vivo, pois no século XVII, em algumas situações, havia na Holanda a prática jurídica de se amputar a mão do ladrão como pena prévia à pena capital.

  7. A Lição de Anatomia do Dr. Tulp está exposta no Museu Mauritshuis, Em Haia, interior da Holanda. A casa onde funciona o Museu pertenceu ao colonizador Maurício de Nassau, e no subsolo encontram-se expostas gravuras de Debret enfocando o Brasil.











REFERÊNCIAS:
BEZERRA, A.J.C.; DIDIO, L.J.A.; PIVA JÚNIOR, L. Dissecation of Rembrandts Anatomy of Dr. Nicolaas Tulp. Arch. Ital. Anat. Embriol., 96(2): 153-164, 1991.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Michelangelo: O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso - Anatomia da Região Cervical

"Não há nenhum animal cuja anatomia ele não dissecasse, e trabalhou em tantas anatomias humanas que aqueles que haviam passado suas vidas nisso e feito disso sua profissão dificilmente saberiam tanto quanto ele." Condivi, A Vida de Michelangelo


A CENA:

O paraíso retratado por Michelangelo mostra duas situações distintas:

Esquerda: O pecado original (Note a figura feminina sobre a árvore que oferece o fruto proibido a Eva – representa a serpente)
Direita: A expulsão do paraíso (Nessa segunda etapa, os rostos de Adão e Eva aparecem envelhecidos)

ACHADOS ANATÔMICOS:

A intenção de Michelangelo seria a de representar a região cervical. Atente ao fato de que o anjo que ordena a expulsão aponta a espada para a cervical de Adão. Este estica o pescoço, flexionando a cabeça para esquerda.


Tronco junto ao dorso de Eva: Representação do arco aórtico com as coronárias emergindo da base (pequenas raízes), o tronco braquicefálico à direita, artéria carótida comum, artéria carótida interna e externa.


a) arco aórtico; b) veia jugular; c) artéria carótida com sua bifurcação; d) nervo hipoglosso emergindo junto à veia jugular e cruzando a artéria carótida externa.

Árvore principal: Não possui uma linha de continuidade com o galho em que Adão apóia as mãos. Tem-se a impressão de que esse galho está emergindo da parte posterior do tronco, mas, se isso ocorresse, porque estaria projetado para o lado esquerdo, como foi retratado, e não para o plano ao fundo? Nota-se também o braço direito da figura da serpente, apoiado junto a porção superior do tronco, e o braço esquerdo que cruza o galho da árvore no plano anterior.

LEIA MAIS: O Anatomista Michelangelo Revelado no Teto da Capela Sistina - http://migre.me/LLZy


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo",São Paulo: Arx, 2004
CONDIVI,A; "Life of Michelangelo",TRAFALGAR SQUARE.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Desenhos Anatômicos do Gênio Da Vinci

Quem afirma que é melhor assistir a uma apresentação de dissecação a ver estes desenhos, teria razão, se fosse possível observar todos os detalhes mostrados nos desenhos em um único corpo e numa única aula, o que, sem dúvida, é inverossímil; ao passo que eu já dissequei mais de dez corpos humanos, destruindo vários membros e removendo as minúsculas partículas de carne que circundam as veias, sem causar nenhuma efusão de sangue além do imperceptível derrame das veias capilares. E como um único cadáver não fosse suficiente, houve a necessidade de prosseguir por fases, usando outros até a satisfação completa de meus conhecimentos; repetindo o processo, aliás, duas vezes, para compreender as diferenças. E, embora você devesse adorar tais coisas, é possível que se sinta repugnado ou que não tenha a coragem necessária para passar a noite ao lado de tantos cadáveres. Ainda que não tenha medo, é igualmente possível que não seja habilidoso no desenho, qualidade essencial para as representações; ou ainda que possua tais habilidades, talvez não conheça as regras da perspectiva; ou se conhecê-las, talvez não compreenda os métodos de demonstração geométrica e de estimativa de força muscular; ou, finalmente, é possível que seu forte não seja a paciência, e que não trabalhe com afinco”. Leonardo Da Vinci

Gênio em pintura e desenho, arquitetura e engenharia, o cientista e inventor Leonardo revelou-se também um grande anatomista. Artista, levando a perfeição ao limite da obsessão, estudou profundamente as estruturas do corpo humano.

A julgar pelas ilustrações e notas em seus trabalhos, parece que pretendia escrever um grande tratado sobre anatomia em colaboração com Marco Antônio della Torre, de Verona. Leonardo analisou o sistema muscular e reconheceu a ação específica de cada músculo, além de estudar as válvulas das veias. Ele desenhou as artérias coronárias e seu curso, mas não acertou a localização do septo que divide as partes esquerda e direita do coração (Se tivesse acertado, teria talvez descoberto a circulação sanguínea).

Pesquisou a estrutura dos ossos, representou o tórax, a bacia, a coluna vertebral e o crânio, que desenhou em planos ainda utilizados em atlas anatômicos.Descobriu a glândula tireóide, bem como a existência de várias outras. Analisando o sistema urogenital, fez anotações impressionantes sobre a placenta, o cordão umbilical e as vias de nutrição fetal. Examinou ainda o sistema nervoso central e periférico, bem como os órgãos dos sentidos.

Fig.1: As proporções do corpo humano segundo Vitruvius (1492)

Uma das gravuras mais conhecidas de Leonardo, é uma homenagem ao arquiteto romano Marcos Vitruvius, autor de um livro que afirma que um homem com as pernas e os braços abertos caberia perfeitamente dentro de um quadrado e de um círculo, figuras geométricas perfeitas, e que o centro do corpo é o umbigo. Da Vinci desenhou as dimensões do homem no Universo (círculo). A obra tornou-se o mais famoso desenho de proporções do corpo humano no mundo.

Fig.2: O Coito (1492):

Fig.3: Estudo de um ventre: Gravura demonstrando a posição do feto no útero - 1510

A placenta mostrada nesse desenho não é de mulher, mas sim de vaca. Segundo algumas fontes, Leonardo nunca dissecou um corpo humano feminino.

Outros desenhos anatômicos feitos por Leonardo:



Fig.4: Vista do crânio (1489)



Fig.5: Estudo da fisiologia do cérebro (1508)



Fig.6: Estudo do ombro e pescoço (1510)



Fig.7: Estudo do coração (1508)


Fig.8: Os principais orgãos do sistema urogenital feminino (1507)



Fig.9: Estudos do esqueleto humano (1507)

Fig.10: Estudos do braço mostrando os movimentos feito pelo bíceps (1510)


Fig.11: Estudo de braços e mãos (1474)


"Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça." Leonardo da Vinci.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998
SOTTANI, F.; CASTELLI, G. Catálogo da Mostra Leonardo da Vinci: Disegni Anatomici dalla Biblioteca Reale di Windsor. Firenze, Palazzo Vecchio, mag./set. 1979.

sábado, 8 de maio de 2010

O Anatomista Michelangelo Revelado no Teto da Capela Sistina

"Em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso ele se espelha." Trecho de soneto de Michelangelo

A CRIAÇÃO DE ADÃO - O criador está dentro de um corte sagital do crânio. Podem ser observados a calota craniana com as três camadas - Osso compacto interno, externo e díploe (a), o lobo temporal (b), a hipófise (c) e o tronco cerebral (d).

A ligação de Michelangelo com a medicina foi reflexo da efervescência cultural e científica do Renascimento. Antes de fazer o esboço das figuras que iria esculpir, Michelangelo empreendia uma investigação minuciosa, analisando corpos e fazendo moldes em cera ou madeira das estruturas. As primeiras sessões de dissecação de que participou, ainda adolescente, aconteceram por iniciativa de Elia Del Medigo, médico-filósofo que frequentava o palácio de Lorenzo de Medici.

Segundo um artigo publicado em 1990 pelo médico norte-americano Frank Lynn Meshberger no Journal of the American Medical Association, há uma interpretação, baseada na neuroanatomia para A criação de Adão: o contorno que se inicia no quadril do anjo em frente ao criador e continua ao longo dos ombros de Deus corresponde ao sulcus cinguli (fenda que separa os lobos parietal e temporal). A encharpe verde pendente corresponde à artéria vertebral em seu curso ascendente, curvando-se em torno do processo articular e fazendo contato com a superfície inferior da ponte cerebral, representada pelas costas do anjo que se estende lateralmente abaixo da figura do criador. O quadril e a perna esquerda do anjo corresponde ao cordão espinal. a haste e a hipófise são representadas pela perna e pelo pé do anjo na base da figura.

Nesse mesmo trabalho, Meshberger chama a atenção, ainda, para um detalhe sutil "... os pés de Deus e de adão possuem cinco dedos; no entanto, o do anjo, que representa a haste e a hipófise, possui um pé bífido. A perna direita desse mesmo anjo está flexionada no quadril e no joelho. A coxa representa o nervo óptico; o joelho, o quiasma óptico transeccionado; e a perna, o aparelho óptico."

Meshberger concluía o estudo afirmando que a intenção de Michelangelo seria a de representar Deus fornecendo a Adão o intelecto.

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Michelangelo: O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso - Anatomia da Região Cervical

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MESHBERGER, Frank Lynn. "An interpretation of Michelangelo's creation of Adam based on neuroanatomy, Journal of the American Medical Association, vol.264, n-14, Blackwell publishing, 1990
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004