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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fisiologia do coito: análise do desenho de Leonardo da Vinci

O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma. (Leonardo da Vinci).
Os desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) foram, ao longo dos séculos, imensamente admirados por artistas, médicos e historiadores. A maioria deles são datados no período entre 1487 e 1513. Somente a partir de 1503 Leonardo viveria sua fase mais ativa de pesquisa anatômica, adquirindo um conhecimento mais exato da anatômia humana através da dissecção de cadáveres. Este fato justifica as imperfeições anatômicas encontradas nos desenhos arquitetados durante a primeira metade deste período.

Referência específica é aqui feita para os desenhos que ilustram a anatomia masculina e feminina no ato do coito. Suas representações sobre o intercurso sexual são uma tentativa de esclarecer e ilustrar a fisiologia apresentada nos livros didáticos do seu tempo. De suas posses literárias mais consultadas, destacam-se os textos de Mondino di Luzzi e Avicena. Ao ler estes livros e outros, Leonardo acessou às ideias de Hipócrates, Aristóteles, Platão e Galeno.

Um breve olhar para o personagem masculino na gravura abaixo revela o incrível "encanamento" interno projetado por Leonardo para descrever a fisiologia aristotélica sobre a reprodução humana:

"O Coito" (1492)
A ilustração evidencia dois canais no pênis, um mais baixo, ligado ao trato urogenital através da uretra, e um canal superior, que passa para a medula espinhal por meio de três vasos.

Detalhe evidenciando os dois canais no pênis.
Segundo a antiga filosofia grega, a "essência" de um bebê seria fornecida por uma "semente universal" pertencente ao macho. Este ingrediente procriador derivaria de um “espírito animal” – material fisiológico fabricado a partir de sangue arterial na base do cérebro e transferido para todas os partes do corpo através dos nervos.

O sêmen desceria a partir do cérebro através de um canal que pode ser visto na coluna vertebral do homem. Isso explica a conexão desenhada por Leonardo entre a coluna e o pênis.

Aristóteles acreditava que os testículos não desempenhavam nenhum papel na procriação, e que apenas forneciam um líquido para lubrificar a vagina durante a relação sexual. Leonardo, que discordou deste conceito, desenhou um grande vaso sanguíneo transferindo a “semente” para o testículo, ilustrando assim o ponto de vista galênico de que os testículos fabricam espermatozóides a partir do sangue. 

A ausência de ovários na figura de sexo feminino é justificada pela crença aristotélica de que os ovários não possuem papel reprodutivo. A fêmea serviria apenas como o solo em que a semente masculina é plantada. Leonardo, portanto, mesclou nesta ilustração os argumentos galênicos e aristotélicos para fisiologia do coito.

Interessante observar a representação dos dois nervos supostamente encarregados de provocar a ereção e a ejaculação: um deles, produto da fantasia de Leonardo, provém diretamente do coração, – ideia não tão absurda se considerarmos o pensamento da época de que tal órgão era o responsável pelo amor. O outro nervo tem suas raízes à nível sacral, o que, evidentemente, esta mais de acordo com o conhecimento atual da fisiologia do coito.

Um curioso detalhe pictórico é a adição de um vaso sanguíneo ligando o fundo do útero à mama. De acordo com o pensamento medieval, este vaso hipotético levaria o sangue menstrual suprimido para as glândulas mamárias, causando assim o aumento das mamas e a lactogênese. Não há como negar a genial associação do pintor, que vincula ambos os órgãos por meio de uma conexão direta, séculos antes de Ferguson descrever o reflexo que leva o seu nome.

Não há dúvida de que o gênio renascentista, pai das grandiosas inovações artísticas da época, era excepcionalmente atento e criativo também nas suas engenhosas representações anatômicas.


REFERÊNCIAS:
1.Coleção Os Pensadores, Aristóteles, Abril Cultural, São Paulo, 1.ª edição, vol.II, agosto 1973.
2.MORRIS, A. G.“On the sexual intercourse drawings of Leonardo da Vinci”.SAMT DEEL69 12APRIL1986.
3..TOPOLANSKI, R. “OBRA EL ARTE Y LA MEDICINA.” CAP 7: La obstetrícia y la ginecologia.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Enfermaria nº 6", de Anton Tchekhov

“O repouso e a satisfação não estão fora do homem, mas dentro de si próprio.” Anton Tchekhov

Confeccionada em 1892 pelo célebre escritor e médico Anton Tchekhov, Enfermaria nº 6 é um conto que discorre de maneira sublime sobre a concepção filosófica da saúde mental, através de um passeio literário por um hospital psiquiátrico provincial.

Graças ao gigantismo do autor, a obra ficou consagrada como uma das mais impactantes histórias difundidas entre o público médico.

A trama principal transita em torno de quatro personagens portadores de transtornos mentais. O autor busca extrair, do cerne da loucura, a riqueza emocional de cada ser humano, infundindo delicadamente a idéia de que a enfermidade psíquica provém de um estado de hipersensibilidade aos
infortúnios a que estamos suscetíveis.

Ivan Dmitrich Gromov, de origem nobre, trinta e três anos, antigo oficial de diligências do julgado e secretário provincial, sofre de mania da perseguição [...] mostra-se sempre excitado, inquieto, num estado de grande tensão, como se esperasse algum acontecimento confuso e indefinido [...] tem uns tiques estranhos e doentios, mas os finos sulcos, que um profundo e sincero sofrimento deixou no seu semblante, denotam inteligência,e os seus olhos deixam transparecer um brilho carinhoso e sadio [...] Seu discurso é desordenado, febril, como em delírio; nem sempre se compreende o que diz; mas mesmo assim deixa perceber, pelas palavras e pela voz, qualquer coisa que denota extrema bondade. Quando fala, distinguem-se nele o louco e o homem. É difícil traduzir para o papel os seus desvarios. Fala da maldade humana, da violência que espezinha a justiça, da bela vida que com o andar dos tempos reinará na terra, das grades e das janelas, que a cada instante lhe recordam a obstinação e a crueldade dos opressores.”

Andrei Efimich, médico chefe do hospital, classificado inicialmente pela sociedade como um individuo sadio, estabelece uma relação de íntima amizade com um dos pacientes. Este último, a despeito de seu problema mental, exprime ser portador de peculiar inteligência quando aceita entabular diariamente conversas de conteúdo filosófico com o médico.

Com sua maneira singular de compreender a vida, o paciente influencia Andrei Efimich a ponto de modificar seu modo de ver e entender os pacientes ao mostrar-lhe o quão difícil é estar submetido à internação psiquiátrica. O médico, sensibilizado, passa a lidar com os enfermos de forma nunca feita antes, e esse estilo inteiramente novo de agir faz com que ele seja declarado insano e internado junto aos outros na enfermaria número 6.

Além de objetivar extinguir o preconceito contra os portadores de distúrbios mentais, a obra russa também enfatiza, dentre outros assuntos relevantes, as evoluções medicinais do período, a necessidade de uma boa relação médico-paciente e a importância do intelectualismo nas relações sociais.


REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, A. A ENFERMARIA Nº 6 e outros contos. Trad: Maria Luísa Anahory. Editora Verbo. Lisboa, 1972.

sábado, 26 de março de 2011

Friedrich Nietzsche - a medicina como uma profissão humana, demasiada humana

O principio fundamental da medicina humanística é a cura abrangente, tratando não só do corpo, mas também da alma do doente, através de uma conexão médico-paciente em que faz-se necessário a empatia, a paciência e a compaixão.

Em 1878, o pensador alemão Friedrich Nietzsche publicou Humano, Demasiado Humano, visando instituir a idéia de que o homem precisa ser um “espírito livre” a fim de descobrir e aplicar seus valores.


O capítulo cinco da obra, que aborda os “sinais de cultura superior e inferior”, traz uma máxima em que o filósofo expõe sua opinião sobre as características essenciais de um médico verdadeiramente humano:
...ele deve, além disso, ter uma eloquência que se adapte a cada indivíduo e que lhe atinja o coração; uma virilidade cuja simples visão afugente a pusilanimidade (a carcoma de todos os doentes); uma flexibilidade diplomática ao medicar entre os que necessitam de alegria para a cura e os que, por razões de saúde, devem (e podem) dar alegria; a sutileza de um agente policial ou advogado, que entende os segredos de uma alma sem delatá-los - em suma, um bom médico requer atualmente os artifícios e privilégios de todas as outras classes profissionais: assim aparelhado, estará em condição de tornar-se um benfeitor de toda a sociedade, fomentando as boas obras, a alegria e fecundidade do espírito, desestimulando maus pensamentos, más intenções e velhacarias (cuja fonte asquerosa é com frequência o baixo-ventre), instaurando uma aristocracia de corpo e de espírito (ao promover ou impedir matrimônios), eliminando com benevolência todos os tormentos espirituais e remorsos de consciência: apenas assim o "curandeiro" se transforma em salvador, sem precisar fazer milagres nem se deixar crucificar (Humano, demasiado humano, 1878; Nietzsche).
O aforismo de Nietzsche idealiza um médico não apenas empático, reflexivo, profissional e confiável, mas também um “instituidor de bem estar”; no entanto, a tendência atual da prática médica segue, lamentavelmente, em direção oposta: à medida que progridem os meios tecnológicos para diagnóstico, o exercício focado no âmago do próximo regride. Cada vez mais o jovem médico é exposto à alta tecnologia e menos ao lado humanístico e filosófico da medicina. Não esqueçamos que, utilizar meios técnicos ajuda a descobrir e a curar certas enfermidades, mas é através do tratamento baseado na radiografia psíquica e social do homem acometido pelo sofrimento, que reside a capacidade de salvá-lo.
Tranqüilizar a imaginação do doente para que não tenha mais que sofrer com idéias que tem de sua doença, mais que com a própria doença – acho que já é alguma coisa!E não é mesmo pouco! Compreendem agora nossa tarefa?(Aurora, 1881; Nietzsche)
Sejamos, pois, como sugere Nietzsche, médicos humanos, médicos de alma, simplesmente médicos.

REFERÊNCIAS:
1.NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
2.NIETZSCHE, F. Aurora. Tradução de Antonio Carlos Braga. São Paulo: Editora Escala, 2007.


domingo, 12 de dezembro de 2010

"O Ingênuo" de Voltaire

Uma pequena grande obra que revela a peculiar sensibilidade crítica do filósofo francês Voltaire, é o conto O Ingênuo, onde o protagonista é um hurão honesto e sincero, espantado com as ridículas convenções sociais da França do século XVIII.

Com seu estilo literário único, Voltaire se mostra um genial pensador iluminista que nos leva a meditar sobre nossos hábitos, religiões e, não raro, profissões

Em determinado momento, Voltaire ataca os “médicos da moda”, culpando-os pela piora do estado de saúde dos pacientes vítimas de um inadequado exercício da prática médica:

Mandaram chamar um médico da vizinhança. Era um desses que visitam os doentes correndo, que confundem a doença que acabaram de ver com a que estão examinando, que exercem uma cega rotina em uma ciência à qual nem toda a maturidade de um espírito são e prudente poderá tirar seus perigos e incertezas. Agravou o mal com uma precipitação em prescrever um remédio em moda da época. Há modas até na medicina! Essa mania era bastante comum em Paris. [...] Mandaram chamar outro médico. Este, em lugar de ajudar a natureza e deixá-la agir em uma jovem criatura cujos órgãos a induziam para a vida, só se preocupou em contrariar o seu colega. Em dois dias a doença tornou-se fatal. (O Ingênuo - 1767)

O texto acima destaca a importância de valorizar a individualidade de cada paciente. Certamente, o caminho para a cura é o tratamento não somente da doença, mas do doente.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Suicídio na Literatura

O suicídio é um fenômeno complexo que tem atraído a atenção de escritores, teólogos, médicos, sociólogos e artistas através dos séculos; Não apenas um problema filosófico, o tema ocupa hoje um importante lugar nas questões de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), quase 1 milhão de pessoas morrem por suicídio por ano, a freqüência ocupa a terceira posição entre as causas mais comuns de falecimento da população da faixa etária de 15 a 35 anos, sendo uma das 10 maiores causas de morte em todos os países.

10 de Setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, uma iniciativa da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio juntamente com a OMS. O dia foi criado com o objetivo de promover o compromisso mundial com medidas para prevenir a principal causa evitável de mortes prematuras.

O escritor alemão Hermann Hesse, descreveu sua visão do “homem suicida” na obra clássica O Lobo da Estepe (1927). O livro conta a história de vida do complexo Harry Haller, personagem que padece de esquizofrenia. À época em que o livro foi escrito, a preocupação com a prevenção do suicídio era escassa na sociedade, em parte porque a compreensão da saúde mental estava apenas começando a engatinhar. Ao fim do texto, Hesse deixa claro o quão necessário é alertar a todos sobre a importância de estudar o homem, não apenas “o mecanismo dos fenômenos vitais”, mas, principalmente, seu estado mental:

É próprio do suicida sentir seu eu, certo ou errado, como um germe da Natureza, particularmente perigoso, problemático e daninho, que se encontrava sempre extraordinariamente exposto ao perigo, como se estivesse sobre o pico agudíssimo de um penedo onde um pequeno toque exterior ou a mais leve vacilação interna seriam suficientes para arrojá-lo no abismo. Esta classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino porque para eles o suicídio é a forma de morte mais verossímil, pelo menos segundo sua própria opinião. A existência dessa opinião, que quase sempre é perceptível já na primeira mocidade e acompanha esses homens durante toda sua vida, não representa, talvez, uma particular e débil força vital, mas, ao contrário, encontram-se entre os suicidas naturezas extraordinariamente tenazes, ambiciosas e até ousadas. Mas assim como há naturezas que caem em febre diante da mais ligeira indisposição, assim propendem essas naturezas a que chamamos "suicidas" e que sempre são muito delicadas e sensíveis à menor comoção, a entregar-se intensamente à idéia do suicídio.

Se tivéssemos uma ciência que possuísse coragem e autoridade suficientes para ocupar-se do homem em vez de fazê-lo simplesmente no mecanismo dos fenômenos vitais, se tivéssemos uma verdadeira Antropologia, uma verdadeira Psicologia, tais fatos seriam conhecidos de todos.

O filósofo francês Albert Camus, em seu célebre ensaio O Mito de Sísifo (1942) aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. Preocupado com o tema, Camus escreveu:

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia.


A criação do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio representa um enorme avanço na área de saúde mental.


REFERÊNCIAS:
1.Gunnel D, Frankel S. Prevention of suicide: aspirations and evidences. British
Medical Journal, 1999, 308: 1227-1233.
2.Prevenção do suicídio: um manual para médicos clínicos gerais,OMS; Genebra, 2000.
3.HESSE, Hermann. “O Lobo da Estepe”, Rio de Janeiro: Record, 1998.
4.CAMUS, Albert. O mito de sísifo: ensaio sobre o absurdo. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989