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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A "Clínica Gross" de Thomas Eakins

A pintura Clínica Gross, criada pelo pintor americano Thomas Eakins (1844-1916) em 1875, é um belíssimo trabalho visual relacionado à medicina e um marco na história da arte do século 19.

Clínica Gross. Thomas Eakins, 1875. Jefferson Medical College, Philadelphia.

A fim de aprimorar a qualidade técnica de suas pinturas, Thomas Eakins participou de um curso de anatomia do Jefferson Medical College, em 1874, tendo então oportunidade de assistir palestras presididas pelo professor Dr. Samuel D. Gross, que na época destacava-se como um dos cirurgiões mais ilustres e influentes dos Estados Unidos.

Os conhecimentos anatômicos e as habilidades desenhísticas de Eakins fez dele o escolhido para testemunhar a operação cirúrgica e retratar a lição ministrada pelo Dr. Gross.

O quadro mostra o professor Dr. Samuel D. Gross, do Jefferson Medical College, demonstrando uma operação conservadora para osteomielite do fêmur no anfiteatro cirúrgico. Esta cena sangrenta fora excessivamente criticada imediatamente após Eakins concluí-la, por ser considerada altamente dramática e poderosa.

Em decúbito lateral direito, à esquerda do cirurgião, encontra-se o paciente - um adolescente do sexo masculino - com a coxa esquerda exposta sendo submetido à remoção de um segmento do fêmur. O médico, com seu rosto severo e calmo, é retratado com os dedos sangrentos de sua mão direita segurando um bisturi ensangüentado na ponta. O rosto do paciente é obscurecido pela toalha encharcada de clorofórmio que o anestesista está usando para administrar anestesia geral.

Sentado atrás Dr. Gross aparece um funcionário da clínica que registra as notas do ato operatório. Vemos na tela o ambiente cirúrgico da época, que se assemelha a um grande teatro, com várias camadas de alunos observando o processo em torno do paciente. Há incluído entre o grupo o autorretrato de Eakins, que está sentado à direita da grade do túnel, desenhando ou escrevendo. Em pé no túnel aparece, à esquerda, o filho do Dr. Gross, o também cirurgião, Samuel W. Gross.

Vê-se nessa pintura um curioso fato histórico: antigamente, para testemunhar o honesto trabalho do cirurgião, um membro da família era obrigado a estar presente durante a cirurgia. A angustiada figura do sexo feminino que aparece à direita do Dr.Gross é a mãe do paciente, que se encolhe com horror diante do sangue do filho e bloqueia sua visão cobrindo os olhos com as mãos em garra.

A Clínica Gross retrata um heróico médico executando calmamente a múltipla tarefa de instruir os alunos e os assistentes enquanto opera. O quadro tem um importante lugar na história da medicina, tanto porque honra o surgimento da cirurgia como uma profissão de cura (anteriormente, não havia cirurgia conservadora para osteomielite, que era tratada com amputação), e porque nos mostra o teatro que parecia uma operação cirúrgica no século XIX.

Hoje, o quadro, outrora difamado, é admirado como uma notável pintura histórica do século XIX e considerado um dos mais excelentes retratos da arte americana.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os Barbeiros-cirurgiões na Arte

Durante a idade média, a cirurgia foi pouco beneficiada pelos progressos da anatomia. Os cirurgiões ainda eram considerados inferiores e, por conseguinte, mal remunerados. Nos séculos XVI e XVII, eram os barbeiros-cirurgiões - barbeiros que atuavam como médicos - que exerciam toda a prática manual da medicina através de pequenas cirurgias. Os profissionais desta área pertenciam a uma classe desprestigiada, cujo trabalho era basicamente mecânico, sem preparação científica. Somente em 1686, após a recuperação de Luís XIV de uma fístula anal crônica, nas mãos do cirurgião Félix, é que a prática cirúrgica provou ser nobre e rentável.

Uma gravura satírica, datada de 1570, demonstra bem a imagem que o público possuía dos barbeiros-cirurgiões, nela aparecem macacos utilizando os instrumentos dos barbeiros para tirar sangue, extrair dentes e cortar cabelos:

Isaac Koedyck (1616 -1677), sensibilizado com as críticas dirigidas a quem tratava dos humildes camponeses, documentou em sua obra a figura do barbeiro-cirurgião. Em duas de suas pinturas, eles aparecem trabalhando cuidadosamente nos pacientes:

O Barbeiro Cirurgião, Isaac Koedyck, 1647.

Um Cirurgião Barbeiro Cuidando do Pé de um Camponês, Isaac Koedyck, 1650.


Na literatura: Em “O Físico - A epopéia de um médico medieval”, Noah Gordon traz-nos um barbeiro cirurgião como personagem de sua obra magna. Barber, um homem amoral a viajar pelas cidades da Inglaterra, prometia cura para as enfermidades, vendendo seu específico: um xarope para quase todas as doenças. O velho barbeiro cirurgião ensinou muitas coisas a Rob, protagonista do livro que algum tempo depois viria a ser médico. Desde a arte do malabarismo até o método cirúrgico.

REFERÊNCIAS:
FIGUEIREDO, B. G.: ‘Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI(2): 277-91, jul.-out. 1999.
MARGOTTA, R. "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Revolucionária Experiência de Ambroise Paré

"Não te atrevas a me ensinar cirurgia, tu que nada mais fizeste a não ser ler livros. Cirurgia aprende-se trabalhando com as mãos e os olhos." Ambroise Paré

Ambroise Paré, que iniciou sua carreira como aprendiz de cirurgião-barbeiro na França, revolucionou a história da cirurgia através da introdução de diversas inovações na prática médica. Até então vista como uma atividade não médica, relegada à confraria dos barbeiros, a cirurgia resumia-se a atos operatórios drásticos e muitas vezes brutais, em que a preservação dos tecidos ficava em segundo plano. O texto abaixo, escrito pelo próprio Paré, descreve um momento transcedente na história da cirurgia:

“No ano de 1536, Francisco, rei da França, enviou uma grande força expedicionária ao Piemonte para conquistar Turim. Ao ataque maciço de nossas forças, os defensores das fortificações defenderam-se desesperadamente, matando e ferindo muitos soldados com vários tipos de armas, mas especialmente armas de fogo. Os cirurgiões tiveram muito trabalho. Eu, para dizer a verdade, era ainda um principiante; nunca vira tratar ferimentos produzidos por bala. Tinha lido no oitavo capítulo do primeiro livro de Giovanni da Vigo, Delle ferite in generali, que tais ferimentos eram perigosos por causa da pólvora, e que o melhor meio de tratá-los era a cauterização com óleo fervendo. Eu sabia que isso causaria uma terrível dor; só depois de me certificar que os cirurgiões usavam mesmo o óleo na mais alta temperatura possível, tive coragem de imitá-los. Faltando-me o referido óleo, fui obrigado a usar uma mistura de gema de ovo, óleo de rosas e terebentina. Naquela noite não dormi; assediava-me o pensamento de que muitos pacientes morreriam porque eu não havia cauterizado suas feridas com óleo fervente. Antes do nascer do sol levantei-me e fui olhá-los. O que vi superou as minhas mais otimistas expectativas, porque aqueles a quem eu tinha tratado com a mistura por mim elaborada quase não sentiam dor e suas feridas não estavam inflamadas. Outros, a quem eu tinha cauterizado, estavam com dores terríveis e com a parte afetada pelo ferimento inflamada. Nesse momento, decidi que não mais cauterizaria os pobres homens feridos a tiros de arcabuz.” Ambroise Paré, 1538.

Ambroise Paré (1517-1590) era de uma família de cirurgiões-barbeiros do interior da França. Trabalhou no Hôtel-Dieu, em Paris; como não sabia grego nem latim, foi recusado pela universidade. Tornou-se então cirurgião militar, ocasião em que fez a revolucionária experiência acima e que foi apenas o início de uma longa série de contribuições à cirurgia.

Não é de admirar que tenha se tornado o cirurgião de quatro reis da França, Henrique II, Carlos IX, Francisco II e Henrique III. Paré criou novos instrumentos cirúrgicos e próteses, introduziu importantes modificações na técnica operatória, por exemplo, na ligadura de vasos. Salvou a vida de números nobres, mas também salvou Coligny, líder dos huguenotes, o que quase lhe custou a vida nos massacres da noite de São Bartolomeu, em a 23 de agosto de 1572, teria sido executado pelos furiosos católicos se o rei Carlos IX não intercedesse em seu favor. Modesto, disse de um oficial a quem salvara: “Eu cuidei dele; Deus o curou”.

REFERÊNCIAS:
1.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996
2.MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Circuncisão do Menino Jesus

"E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido." Lc 2:21

A exérese do prepúcio, conhecida popularmente por circuncisão, é praticada há mais de 5 mil anos. Após a onfalotomia, o procedimento representa o tipo mais antigo de operação cirúrgica. De acordo com a bíblia, seguindo a tradição judaíca, a Virgem Maria levou Jesus, oito dias após seu nascimento, a um sacerdote para ser circuncidado.

Esse momento marcante na vida de Cristo foi representado por muitos artistas, inclusive pelo pintor italiano Andrea Mantegna num belíssimo quadro intitulado Circuncisão:

Circuncisão (1470); Andrea Mantegna (1431-1506); têmpera sobre madeira em trípico; Galeria Uffizi (Florença)

Num close do cirurgião (sacerdote), identificamos um bisturi de lâmina fixa em sua mão direita. Já na bandeja que lhe é apresentada pelo instrumentador (criança que o auxilia), vemos uma tesoura e uma atadura:

Detalhe do sacerdote com o bisturi e da criança segurando a bandeja de instrumentação cirúrgica

No Século XIV, Jean Purcelle (1300-1355) conhecido como o mais perfeito iluminador gótico da Escola de Paris, também documentou a circuncisão de Cristo em sua arte:

A Circuncisão de Cristo; Jean Purcelle (1300-1355); Breviário Martin de Aragão.

Outras representações:


A Sagrada Circuncisão de Jesus; Friedrich Herlin, 1466; Rottenburgo ob der Tauber.

Circuncisão de Cristo,1600; Guido Reni; Museu de Siena.

REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2.Steinberg L. _ The Sexuality of Christ in Renaisance Art and in Modern Oblivion,1992
3.Timothy J. Etherington; The Circumcision of Christ; Box D-266, NT 503D Greek Exegesis I

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pleurotomia na Literatura Alemã

"A camaradagem entre o médico e o enfermo merece plena aprovação, e pode-se admitir que só quem sente a dor alheia é capaz de ser salvador e guia dos que sofrem também." Thomas Mann

Riquíssima em terminações nervosas e sensitivas para a dor, a pleura parietal recebe a inervação através dos nervos frênico, intercostais e ramos do plexo braquial. É comum os pacientes queixarem-se de dor durante procedimentos em que é necessária a pleurotomia, sobretudo quando a anestesia local, quase sempre insuficiente para evitar o incômodo, não é feita de modo adequado. Thomas Mann, em sua Der Zauberberg, descreve com maestria a técnica de drenagem pleural e os impactos que a dor desta causou em seu personagem:

[...] Mas a anestesia local não penetra fundo, meus senhores; apenas a carne envolvente. Quando cortam através dela, sente-se, na verdade, apenas uma espécie de pressão ou de pisadura.. Eu estava deitado, com o rosto coberto para não ver nada. O assistente segurava-me da direita, e a Superiora, da esquerda. Era como se me apertassem e comprimissem, mas tratava-se somente da carne que abriam e retiravam por meio de pinças. Então ouvi o Dr. Behrens dizer: “Agora!”, e nesse instante, cavalheiros, começou a apalpar a pleura com um instrumento rombudo... Deve ser assim para que não a fure antes do tempo... Apalpam-na em busca do lugar apropriado para fazer o furo e introduzir o gás... Enquanto ele fazia isso, enquanto passeavam o instrumento por toda a extensão da minha pleura – oh, meus senhores! –, eu não pude mais; tive uma sensação totalmente indescritível. A pleura, cavalheiros, é coisa que não deve ser tocada; não é direito que a toquem, ela não o admite, é tabu, está revestida de carne, isolada e inatingível de uma vez por todas! E agora a haviam posto a descoberto, e o conselheiro apalpava-a. Senhores, comecei a enjoar. Horrível, pavoroso, meus senhores! Eu nunca teria pensado que pudesse existir sensação tão medonha, tão miserável, tão abjeta, nesta terra e em parte alguma do mundo, fora do inferno. Desmaiei. Tive três síncopes ao mesmo tempo, uma verde, uma parda e uma violeta. Além disso penetrava um fedor através do desmaio. O choque pleural atacou-me o olfato, meus senhores. Aquilo fedia loucamente a hidrogênio sulfurado, assim como deve ser o cheiro do inferno. Com tudo isso notei que me ria, enquanto perdia os sentidos; mas não era como se ri uma criatura humana, não! Era o riso mais nojento e mais indecente que já ouvi em toda a minha vida. Pois o apalpamento da pleura, senhores, produz as cócegas mais infames, mais exageradas, mais desumanas. Nisso mesmo consiste aquela maldita e vergonhosa tortura. É o que se chama o choque pleural, que Deus queira que os senhores nunca cheguem a experimentar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MANN, Thomas; A Montanha Mágica, 1924