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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Janela da alma: um filme sobre o olhar.

O desejo de fazer um documentário sobre o "olhar" através das deficiências visuais inspirou os míopes João Jardim e Water Carvalho a produzirem o encantador filme Janela da Alma.


Walter relatou que, ao pensar no roteiro, a pergunta inicial era: que tipo de personalidade os entrevistados – escritores, cineastas, fotógrafos – tinham formado na vida, a partir dessa “cegueira”, dessa necessidade de enxergar com óculos? Mobilizado por esta curiosidade inicial, optou por fazer um ensaio sobre a capacidade de enxergar o mundo de maneira enriquecedora, apesar de uma afecção tida geralmente como obstáculo, como a miopia ou a retinose pigmentar.

O filme procura mostrar de qual forma a deficiência visual tem sido vivida como eficiência por muitos artistas que precisam do “olhar” para criar.
As pessoas não sabem mais ver, pois não têm mais o olhar interior. Vive-se um tipo de cegueira generalizada (Depoimento do fotógrafo Evgen Bavcar; cego).
São depoimentos reflexivos de algumas figuras emblemáticas da cultura artística: Saramago, Manoel de Barros, João Ubaldo, Win Wenders, Evgen Bavcar, Walter Lima Jr, Marieta Severo, Antonio Cícero, Paulo César Lopes, Arnaldo Godoy, Marjut Rimminen, Hermeto Paschoal e, também, Oliver Sacks (neurologista britânico conhecido na área médica por ter escrito livros em que conta interessantes casos clínicos romanceados).
Os olhos são a janela da alma, o que vemos é mudado pelas nossas emoções... desespero, conhecimento, eu não posso ver, mas posso ver, vejo com os olhos da mente.(Oliver Sacks)
Revelações fantásticas destes portadores de doença ocular chamam a nossa atenção para as particularidades do viver, fazendo-nos um convite a enxergar o que não vemos.
“E se fossemos todos cegos? Cegos da razão, cegos da sensibilidade, cegos de tudo aquilo que faz de nós não um ser funcional no sentido da relação humana, mas ao contrário, um ser agressivo, egoísta, um ser violento. E o espetáculo que o mundo nos oferece é justamente esse, um mundo de desigualdade, de sofrimento, um mundo sem justificação. Podemos até explicar o que se passa, mas não tem justificação.” (Depoimento do escritor José Saramago).

Se expandir-se é enfrentar o próprio limite, o que de fato amplia a visão é também o que a impede, é a necessidade de ver além que nos faz buscar sentido no invisível.


REFERÊNCIA:
RIBAS, MC; "Depoimentos à meia luz: a Janela da Alma ou um breve tratado sobre a miopia". ALCEU - v.3 - n.6 - p. 65 a 78 - jan./jul. 2003.

domingo, 6 de novembro de 2011

A Cegueira de Claude Monet

Quando um cantor perde a voz, ele se aposenta. Também o pintor que não enxerga deve abandonar a pintura, mas isso eu sou incapaz de fazer. Claude Monet.
Impressão: Nascer do Sol (1872). Claude Monet. Óleo sobre tela, 48x63cm. Marmottan Monet (Paris).
Em 1873, o impressionante artista Oscar-Claude Monet (1840-1926), com a impressionável pintura Impressão, Nascer do Sol, gestou o termo impressionismo para um movimento artístico inteiramente novo .

A técnica de Monet, - considerada mais tarde como umas das belas do mundo - mostrava-se bastante peculiar. Caracterizada pela representação da luz e movimento utilizando pinceladas soltas, as imagens formadas nas telas aparentam ser de perto apenas borrões, mas, ao distanciar a visão, o examinador passa a enxergar as formas nitidamente.

Monet não imaginava que, por conta de uma doença ocular, a “impressão” do estilo que fundou se projetaria fielmente em sua vida. Com a progressão da doença, ele passaria a ver o mundo turvado e delineado por manchas coloridas, tal como o representava em suas telas. Também ele, assim como os observadores de suas obras, precisaria alcançar de longe a limpidez que não mais estaria diante de seus olhos. O pintor conseguiria, mais tarde, se distanciar e encontrar tal nitidez — com a ajuda da memória — no fundo de sua alma.

Diante das belas paisagens venezianas, em 1908,Monet começou a notar que já não enxergava perfeitamente. Em 1912, aos 72 anos, ele procurou especialistas relatando uma enorme quantidade de problemas com sua visão. Queixava-se predominantemente de turvação visual e dificuldade na percepção de cores. Constatada uma acuidade visual de 20/200 no melhor olho, deram-lhe o diagnóstico de catarata nuclear bilateral.

A catarata adquirida é considerada a causa mais comum de cegueira (perda visual completa) no Mundo. O tipo “nuclear” é o mais associado à perda da diferenciação de cores nas fases iniciais. À medida que o cristalino vai se opacificando, a visão vai ficando lenta e progressivamente borrada, surge também uma perda da definição das letras e objetos. Com o tempo, o aumento da opalescência do cristalino vai agravando o borramento visual e então o paciente passa a ter dificuldade na visão para perto e longe. Além da alteração da visão de cores, as imagens costumam ficar “nubladas e enevoadas”.

A doença pode ter acometido Monet por conta das muitas horas em que ficou com seus olhos expostos ao sol. Sabe-se que a radiação ultravioleta é um clássico fator de risco para catarata, perdendo em importância apenas para a idade avançada. Monet pintava ao ar livre, preferencialmente ao meio dia, visto ser a representação do efeito que a luz solar produz sobre a natureza uma importante característica do impressionismo.

Como tratamento, foi-lhe recomendado cirurgia para o pior olho, mas, embora a operação fosse relativamente segura nesta época, Monet resistiu por medo de perder totalmente o pouco que lhe restava da visão (fato que ocorreu com um amigo que fora submetido a mesma cirurgia).

Durante o período em que sofreu com a doença, ele produziu alguns de seus trabalhos mais marcantes e característicos. Sua visão tornou-se progressivamente mais acastanhada em sua essência; o artista enxergava através de uma opacidade densa amarelo-marrom.

Não percebo mais as cores com a mesma intensidade nem pinto a luz com a mesma precisão. O vermelho aparece lamacento para mim; já o rosa, insípido; e os tons intermediários ou menores me escapam por completo. O que eu pinto está cada vez mais escuro, mais e mais como uma fotografia antiga.

A catarata limitava severamente sua discriminação de cores e, como forma de “sobrecompensação”, Monet passou a pintar com tonalidades mais intensas.

Water Lilies (1916). Claude Monet.
Pinturas de nenúfares e salgueiros, ao longo do período 1916-1922, exemplificam a mudança. Os tons se tornaram mais enlameados e escuros, as formas surgem bem menos distintas, sua sensibilidade de contraste está diminuída, as pinceladas são mais fortes e as cores mais intensas.

À esquerda: pintura de Monet da ponte japonesa em seu jardim em Giverny (1899); A mesma cena (meio) que ele tentou capturar novamente entre 1918-1922 mostra que as cataratas turvaram sua visão e que o amarelamento das lentes de seus olhos prejudicaram sua visão do azul e do verde, deixando-o num mundo mais "vermelho e marron". À direita: Imagem computadorizada criada por especialistas mostrando como Monet enxergaria em 1924.

Em 1920 a visão de Monet se deteriorou gravemente, ele já não era capaz de distinguir os tons e, com o intuito de continuar as produções isento de cometer erros, providenciou uma paleta em que mantinha uma ordem regular de cores. Mais adiante, o artista tornou-se capaz de enxergar apenas vultos, a partir de então, passou a pintar imagens que guardava na memória.

Frustrado com a perda da visão, em 1922 ele escreveu a Marc Elder: Para criar uma aura impressionista, confio apenas nos rótulos dos tubos de tinta e na força do hábito dos meus 50 anos de trabalho.

Mais tarde, em uma entrevista, ele disse: No fim, terei que admitir que estou arruinando minha arte, parece que já não sou capaz de produzir algo belo. Já destruí várias das minhas telas. Hoje estou praticamente cego e deveria renunciar a pintura completamente.

Em janeiro de 1923, o Dr. George Clemenceau convenceu Monet a se submeter à cirurgia. A operação foi realizada em dois estágios: uma iridectomia preliminar seguida por uma extração extracapsular da catarata.

Pós-recuperação, Monet tinha grande dificuldade para se adaptar. Ele não conseguia enxergar com ambos os olhos ao mesmo tempo e se queixou de que os objetos adquiriram uma curvatura anormal.

Sinto que se eu der um passo, vou cair no chão. Perto ou longe, tudo é deformado e dúbio. Enxergar dessa maneira é intolerável. Persistir parece perigoso para mim. Se eu estava condenado a ver a natureza como a vejo agora, preferiria continuar cego e manter as memórias das belezas que sempre enxerguei.

Monet também se queixava da marcante diferença entre a percepção de cores entre os olhos, dizendo que tudo que via com seu olho afácico adquirira uma tonalidade azul. Mais tarde, óculos com uma tonalidade verde-amarelo lhe foram prescritos, o que o levou para fora de seu desespero. Monet pintou até a sua morte, em dezembro de 1926, por doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão.

A concepção global de que pintores produzem suas obras traduzindo “aquilo o que enxergam” suscitou a compreensão geral de que os olhos de Monet eram não somente a janela de sua alma, mas também a porta para seu universo artístico. Presume-se que qualquer mudança significativa na visão do pintor afetaria sua interpretação e tradução artesanal do mundo. A catarata seria prejudicial aos detalhes fundamentais de seu estilo, tais como a sensibilidade requintada à luz, às cores e aos detalhes morfológicos. Podemos nos perguntar então a que se atribui a grandeza de Monet?

A excelência artística de Monet tem raiz por detrás do cristalino, na organização espetacular da sua "lente cerebral". Enquanto enfrentava um grave declínio da função ocular, o gênio escalou alturas da visão artística. A quase total cegueira de Monet, aliada aos seus esforços incansáveis para vencer a deficiência, provocou ao fim um efeito positivo sobre o seu trabalho.

A luta apaixonada de Monet por sua arte faz-me lembrar as encantadoras palavras de Victor Hugo em sua magnânima obra Os Trabalhadores do Mar:
...O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força imensa.[...] Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: - Perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo. [...] Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. [...] A perda das forças não esgota a vontade, crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz.(Victor Hugo, 1866).

REFERÊNCIAS:
1.MARMOR, MF. “Ophthalmology and Art: Simulation of Monet’sCataracts and Degas’ Retinal Disease.” ARCH OPHTHALMOL/VOL 124, DEC 2006.
2.Lanthony P. Cataract and the painting of Claude Monet. Points de Vue. 1993;29:12-25.
3.Ravin JG. Monet’s cataracts. JAMA. 1985;254:394.399.
4.Projeto Diretrizes “Catarata: Diagnóstico e Tratamento”. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Oftalmopatia de Graves em "O Juízo Final" de Michelangelo Buonarroti

O Juízo Final é um afresco pintado na parede do altar da Capela Sistina, onde Michelangelo Buonarroti (1537-1541) representa o julgamento final sob inspiração da narrativa bíblica.

Juízo Final. Michelangelo Buonarroti(1537-1541). 1370 cm × 1200 cm. Capela Sistina, Vaticano.
O afresco retrata as almas dos mortos subindo para enfrentar a ira de Deus. Cristo, parte central da obra, encontra-se ao lado de Maria sobre uma nuvem e age como Juiz dos eleitos que sobem ao céu à sua direita, enquanto os condenados, sob sua esquerda, aguardam Caronte e Minos.

Uma figura feminina, localizada à direita de Cristo, com um turbante na cabeça, tem uma aparência que sugere a presença de exoftalmia:


A maioria das características clássicas da oftalmopatia associada à tireoide podem ser nela reconhecidas: hiperemia conjuntival e palpebral, quemose, edema periorbital e marcante proptose. Após a última restauração do Juízo Final na década de noventa, tornou-se visível também a presença de uma pequena hemorragia no canto inferior do olho direito.

Close de uma mulher (possivelmente Santa Monica) com sinais de oftalmopatia associada à hipertireoidismo.
A oftalmopatia associada à tireoide (OAT) é uma doença auto-imune, mais freqüente no sexo feminino, que afeta os músculos extra-oculares e o tecido conjuntivo orbital, caracterizando-se por um infiltrado inflamatório difuso da órbita, bilateral e assimétrico, condicionando exoftalmia, hiperemia e edema palpebral. Surge associada em 90 % dos casos a Doença de Graves com hipertiroidismo.

É possível que a abençoada mulher com proptose ocular seja Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho, que por muitas vezes fora retratada nas artes com um turbante na cabeça e com as características faciais e o tom de pele sugerindo origem norte-africana.

Sabe-se que a exoftalmia é uma condição conhecida desde os antigos gregos. Aristóteles e Xenofonte a descreveu ainda no século V a.C. Há relatos de que no século X escritores bizantinos já estavam cientes de uma combinação de bócio e exoftalmia. A partir da análise desta obra é provável supor que também Michelangelo estava retratando uma mulher com exoftalmia 300 anos antes da primeira descrição da  tireoide associada à oftalmopatia em 1835 por Robert Graves.

REFERÊNCIAS:
1.BUENO, MA. "Oftalmopatia na doença de Graves: revisão da literaturae correção de deformidade iatrogênica". Rev. Bras. Cir. Plást. 2008; 23(3): 220-5.
2.METELLO, J; GONZALEZ,M."OFTALMOPATIA ASSOCIADA À TIROIDE".Acta Méd Port 2004; 17: 329-334.
3.Pozzilli P (2003) Blessed with exophthalmos in Michelangelo’s Last judgement. Q J Med 96(9): 688–90.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

A cura da catarata representada em obra de Rembrandt / "Tobias devolve a visão a seu pai" (1636)

Pintada em 1636, a famosa gravura exposta abaixo é obra do prodigioso neerlandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669):

Tobias Devolve a Visão a seu Pai (1636).Rembrandt van Rijn (1606-1669).Óleo sobre tela, 47 x 38,7 cm Staatsgalerie (Stuttgart).

Este “Rembrandt genuíno” representa o Tobias em idade avançada, sentado à esquerda, perto da janela; sua esposa segura suas mãos sobre os joelhos, enquanto seu filho, trajado num turbante verde, trata-o com um remédio que trouxe de sua viagem. Seu companheiro, o anjo Rafael, vestido de branco e com asas estendidas, observa atentamente a cena.

Conta a bíblia que Tobias, da tribo e da cidade de Neftali – situada na Galiléia superior –, desposou uma mulher de sua tribo, chamada Ana, da qual teve um filho, a quem denominou também Tobias. Certo dia, enquanto dormia, caiu-lhe esterco de pardal nos olhos:

Não tinha notado, porém, que havia uns pardais no muro, mesmo por cima de mim. Caiu excremento quente nos meus olhos, produzindo neles manchas brancas [...]Fiquei cego durante quatro anos. (Tobias 2:10)

O incidente que supostamente o cegou foi conseqüência de um castigo por haver ele sepultado os corpos de alguns judeus, prática ilegal na época. Tobias suportou a essa punição divina guardando os mandamentos do Senhor e não lamentando pela cegueira.

Tempos depois, o jovem Tobias recebeu a seguinte mensagem do anjo Rafael:

Esfrega o fel do peixe nos seus olhos. O remédio vai fazer com que as manchas brancas diminuam e desapareçam. Então teu pai vai recuperar a vista e poderá ver. (Tobias 2:18)

O filho aplicou o remédio nos olhos do pai, aguardou um certo momento e viu então desprender-se dos olhos de Tobias uma catarata semelhante a uma clara de ovo. O jovem Tobias limpou-lhe os olhos e prontamente seu pai retomou a visão.

É relatado no livro sagrado que a leucocoria – a mais clássica manifestação da opacificação do cristalino – fazia-se presente nos olhos de Tobias. Tal dado leva-nos a crer que a história bíblica figura um claro exemplo de catarata.

Curiosamente, nos tempos antigos era considerado o fel de vários peixes um remédio eficaz contra a cegueira, prova disso é que o naturalista romano Plínio o refere em sua "História Natural”. Oftalmologistas sugerem que a esfregação vigorosa dos olhos determinaria o deslocamento da lente de catarata. Neste caso, especialmente se Tobias foi míope, a visão teria sido restaurada súbita e perfeitamente.

Acima da obra de Rembrandt, há uma inscrição dizendo: “Nenhum esforço é desperdiçado”, ressaltando, junto à imagem, o sucesso da cura de Tobias utilizando a fé em associação ao fel de peixe.


REFERÊNCIAS:
1.Pierre Amalric: L'opération de la cataracte à travers l'oeuvre de Rembrandt.

domingo, 17 de abril de 2011

Arterite Temporal e Polimialgia Reumática numa Pintura de 1436

Dentre as obras de arte mais discutidas entre os doutores que visitam o museu municipal de Bruges, na Bélgica, destaca-se um trabalho concluído por Jan van Eyck há mais de 500 anos, representando a Virgem com o Canon Van der Paele. O canon é particularmente o foco do interesse médico.

A Virgem com o Canon (1436). Jan van Eyck. Museu municipal de Bruges (Bélgica).

Oftalmologistas diagnosticaram ligeiro estrabismo divergente e lagoftalmo. Além disso, a distorção produzida pelas lentes que aparecem sobre o manuscrito em suas mãos sugere que esse canon era míope e não presbiope, como se poderia esperar em sua idade.

Também dermatologistas têm comentado anormalidades em sua pele. Eles observaram alguns nevos celulares na face, um cisto sebáceo na orelha esquerda e um epitelioma labial que fora obliterado pela restauração da  pintura em 1934.


Pormenor de  A Virgem com o Canon evidenciando o espessamento das artérias temporais.

Reumatologistas ficaram impressionados com a aparência que van Eyck registrou da região temporal de Van der Paele. São nítidamente visíveis as artérias proeminentes, bem com a formação de cicatrizes e perda de cabelo na frente da orelha esquerda e entre as sobrancelhas. Mesmo sem uma biópsia, muitos clínicos consideraram esse aspecto característico de arterite temporal.

Estudos históricos posteriores evidenciaram que ele tinha dor e rigidez no braço esquerdo. O edema difuso em sua mão esquerda indica uma esclerose crônica observada em pacientes com ombralgia de longa duração ou a síndrome de ombro-mão, uma das características de polimialgia reumática.

Segundo a acta da catedral, após onze anos de serviço regular, der Paele passou a apresentar suas primeiras dificuldades durante um culto que acontecia numa manhã de novembro, no ano de 1431. Em setembro 1434 o canon, "em vista de sua debilitação geral", obteve permissão para manter seus rendimentos, apesar de não freqüentar o serviço.

Nessa época, julgando próximo o seu fim, resolveu convidar Jan van Eyck para fazer um retrato especial, em que aparecia ao lado da Virgem, para decorar a Igreja em sua memória. A pintura foi concluída em 1436.

Ele morreu em 25 de agosto de 1443. Os dados históricos que contém registros sobre sua saúde apoiam o diagnóstico clínico de arterite temporal associado a polimialgia reumática, visto que esta última condição ocorre em 40% dos casos de arterite de células gigantes. A dor reumática com rigidez matinal, associada a fraqueza geral, forçou o van Paele a abandonar suas atividades matinais. Esta debilitação, não fatal, permitiu que ele sobrevivesse ainda por doze anos, uma história compatível com o curso natural da polimialgia reumática.

REFERÊNCIAS:
1.Antônio Carlos Lopes, tratado de Clínica Médica, 2 edição, Roca, 2009.
2.DEQUEKER, JV. “Polymyalgia rheumatic with temporal arteritis, as painted by Jan Van Eyck in 1436”.CMA JOURNAL/JUNE 15. 1981/VOL. 124.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Estrabismo Divergente na Obra de Rafael Sanzio

O Retrato de Tommaso Inghirami é uma pintura a óleo do famoso artista italiano Rafael Sanzio.

Concluída em 1516, a obra ficou conhecida por seu extremo realismo, trazendo como tema o retrato do conde Thommaso Inghirami, um humanista altamente respeitado que serviu como bibliotecário do Vaticano durante o reinado do Papa Júlio II.

Dotado de um espírito nobre e intelectual, o conde era um dos mais estimados amigos de Rafael.

Retrato de Tommaso Inghirami (1516). Rafael Sanzio (1483-1520). Óleo sobre painel, 91 x 61cm. Palazzo Pitti (Florença).

Tommaso era obeso e tinha desvio do eixo ocular. Seu estrabismo era do tipo divergente vertical superior. Segundo consta, o conde mostrava-se muito complexado com o transtorno oftalmológico e com o excesso de peso.

Rafael teve como maior desafio misturar o idealismo e realismo, a fim de prestar um equilíbrio exato do corpo e da mente do amigo. O artista conseguiu minimizar as imperfeições físicas de Inghirami estrategicamente pelo posicionamento dele num cenário de composição que direciona a atenção do espectador para determinados pormenores descritivos da sua personalidade. Com uma caneta na mão, Inghirami está sentado atrás de sua mesa, cercado pelos artigos que enfatizam seus dois maiores bens: sua mente iluminada e seu talento literário (note que ele aparece como que buscando inspiração para escrever). Um livro apoiado aberto à sua esquerda denota a intelectualidade do bibliotecário.

Com a habilidade inerente aos grandes artistas, Rafael dissipou o estigma do “olho vagueando” de Inghirami registrando-o como a olhar pra cima por ser apanhado num momento de contemplação espiritual.

REFERÊNCIAS:
BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
STRINATI, Claudio M. 1998. Raphael. Giunti Editore Firenze Italy. ISBN 9788809762510. June, 2010.
Lindsey de Mont. Raphael and the Renaissance Portrait. Jan 26, 2011.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ciclopia: Monstruosidade Representada na Literatura Mitológica, Escultura e Música Clássica

Ciclopia é uma rara anomalia na qual os olhos estão parcialmente ou completamente fundidos, formando um único olho mediano incluído em uma única órbita. Geralmente é associada a um apêndice em forma de probóscide superior ao olho.

Transmitida por uma herança recessiva, a malformação parece resultar de uma severa supressão de estruturas cerebrais da linha média – holoprosencefalia – que se desenvolvem a partir da parte cefálica da placa neural. Essa grave anomalia ocular está associada com outros defeitos craniocerebrais incompatíveis com a vida.

Monstro não comparável aos humanos
[...]De carne humana estás, Ciclope, farto.

Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.

Os ciclopes foram cantados por Homero no IX livro da famosa Odisséia. Segundo a mitologia grega, o raio que fulminou Esculápio (deus da medicina) gerou os seres com um só olho. Como mostra o trecho acima, nas palavras do autor grego tais seres monstruosos são incomparáveis aos humanos.



Escultura em mármore encontrada na caverna de Tibério. Museo Archeologico Grotta di Tiberio (Sperlonga).

A escultura acima mostra o momento em que Ulisses (Odisseu, em grego) consegue vingar-se do Ciclope pela morte de seus companheiros. Conta Homero que no regresso de Tróia ao reino de Ítaca, Ulisses chegou ao país dos gigantes ciclopes, que moravam em cavernas. Nesse local desembarcou com seus companheiros e, encontrando uma grande caverna, lá entrou. Pouco depois, chegou o dono da caverna, Polifemo (o mais famoso dos ciclopes), que voltando então o grande olho, viu os estrangeiros e perguntou-lhes, com maus modos, quem eram e de onde haviam vindo. Respondeu-lhe Ulisses com muita humildade que eram gregos e terminou implorando hospitalidade, mas Polifemo estendeu o braço, agarrou dois dos gregos, que atirou contra a parede da caverna, esmagando-lhes a cabeça, depois tratou de devorá-los. Na manhã seguinte o ciclope apanhou mais dois gregos e devorou-os da mesma maneira que a seus companheiros. Ulisses tratou então de como se vingaria da morte dos amigos e conseguiria fugir com os companheiros sobreviventes. Teve a idéia de dar vinho ao gigante, que tanto bebeu que não tardou a adormecer. Então, Ulisses com seus quatro companheiros escolhidos, colocou no fogo a extremidade do espeto que haviam feito, até que essa se transformou num carvão em brasa e, depois, colocando a haste bem exatamente sobre o único olho do gigante, enterram-na profundamente e a girara.

No olho o tição. Cálido sangue espirra;
O vapor da pupila afogueada
As pálpebras queimava e a sobrancelha.

Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.

Os gritos dolorosos do monstro ecoaram pela caverna e, deixando Polifemo entregue à sua dor, Ulisses e seus companheiros fugiram seguindo o caminho à Ítaca.

Na Música Clássica:

Aci, Galatea e Polifemo é uma é uma dramática serenata que inclui três personagens míticas (inclusive Polifemo). A bela mini ópera foi criada pelo célebre compositor alemão George Frideric Handel em 1708. Polifemo amava Galatéia, mas esta nutria uma paixão por Ácis, sentimento que lhe era recíproco. Num dado momento, dominado pelo ciúme, o ciclope perseguiu Ácis e, arrancando um rochedo da encosta da montanha, atirou nele, que imediatamente foi esmagado e transformado no rio que conserva seu nome. O papel do ciclope Polifemo, cujas ações têm conseqüências letais para Ácis, é particularmente notável para a singular agilidade necessária à música de Handel.



REFERÊNCIAS:
1. Bulfinch, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: (a idade da fábula). Ediouro, Rio de Janeiro, 2002.
2. Moore, Keith, L. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
3. Decano, Winton & Knapp, J. Merrill (1987), Óperas de Handel, 1704-1726, Imprensa de Clarendon.
4.HOMERO. Odisséia. Trad. Odorico Mendes

domingo, 15 de agosto de 2010

"A Parábola dos Cegos" de Pieter Bruegel

"Diz-se a um cego, estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ali ficou parado no meio de rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar." José Saramago.

A doença ocular tem merecido lugar de destaque nas artes. Na pintura, há registros de casos de estrabismo, catarata e cegueira, dentre outros interessantes temas. Pieter Bruegel “O Velho” é o responsável pela notável A Parábola dos Cegos, na qual vê-se cegos de mãos dadas, numa fila, tateando com bengalas o caminho a percorrer. O quadro faz alusão ao Evangelho de Mateus, 15:14, que diz: “Não se preocupem com eles, são guias cegos. E quando um cego guia o outro, os dois acabam caindo no buraco”.

A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel; Óleo sobre tela, 154 x 86 cm; Galeria Nacional, Nápoles

Uma inspeção mais próxima dos seus rostos fornece evidências físicas que nos fazem supor as condições que determinaram a cegueira de cada um.

O rosto do primeiro homem não é visto. O segundo homem aparece sem pálpebras e globos de ambos os lados, o que sugere a possibilidade de enucleação bilateral.


Leucoma corneano é o diagnóstico proposto para explicar a cegueira da terceira figura retratada na pintura com evidente opacificação da córnea.



O quarto homem parece demonstrar sinais consistentes com uma resposta inflamatória ocular grave. A lesão facial do lado direito de sua face parece sugerir que fora vítima de um insulto externo, tal como queimadura.



Os olhos do quinto homem não são vistos sob a viseira. É considerada a possibilidade de fotofobia ou cegueira severa resultando na completa perda da percepção luminosa. Quanto ao sexto homem, argumenta-se que suas características faciais indicam o diagnóstico de cegueira conseguinte à pênfigo bolhoso.


REFERÊNCIAS:
1.SALER, V. "Medical conditions in works of art"British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2
2.SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das. Letras, 1995.
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.