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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"Delirium" na Obra de Machado de Assis

Narrado em primeira pessoa, a obra machadeana que introduziu o realismo na literatura brasileira conta a biografia do defunto-autor Brás Cubas que, após a sua morte, decide narrar suas memórias a fim de se distrair na eternidade.

Ainda nos primeiros capítulos, surgem explicações sobre o óbito do autor, detalhando o funeral e também sua causa mortis: uma pneumonia contraída enquanto criava o emplastro Brás Cubas – medicamento contra a melancolia e a falta de propósito, capaz de solucionar todos os “males do espírito”.
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Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. 

Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes.

Percorrendo o que antecedeu ao óbito, o capítulo VII, intitulado O Delírio, descreve contundentemente um episódio de delirium ou estado confusional agudo conseguinte a grave infecção do protagonista:

[...]Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. 

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim. Logo depois, senti-me transformado na Suma Teologica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzandoas eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. — Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos. [...] 

Doravante, segue-se a narrativa atravessando os séculos, cruzando o presente e atingindo o futuro. Ao fim do capítulo, conclui o defunto:

Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...
REFERÊNCIAS: 
1.ASSIS, Machado. "Memórias Póstumas de Bras Cubas", 1880.
2.http://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3rias_P%C3%B3stumas_de_Br%C3%A1s_Cubas

domingo, 24 de março de 2013

Noel Rosa e a Tuberculose Inspiradora

Há um tempo, famosos e enfermos privilegiados viviam em sanatórios nos Alpes suíços, acreditando ser o clima das montanhas favorável para a cura da tuberculose. No Brasil, Belo Horizonte, à época de sua fundação, em 1897, com seu clima ameno e situada a mais de oitocentos metros de altitude, tinha fama de ser um local propício para a sobrevida dos tuberculosos.

O notável sambista carioca Noel Rosa morou na jovem cidade, entre os anos de 1934 e 1935, obedecendo a recomendação do seu amigo e médico Edgar Mello, numa frustrada tentativa de curar sua tuberculose. Notas médicas afirmam que neste período a “doença romântica” já havia tomado um pulmão e indiciava avançar sobre o outro. Noel pesava 45 quilos.

Garçom servindo Noel Rosa; estátua localizada na entrada da Vila Isabel, Rio de Janeiro.

Ao final do primeiro mês na capital mineira, escreveu poeticamente para seu médico, Dr. Edgar, que residia no Rio de Janeiro:
 
"Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar, um abraço. Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu precioso tempo é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que mereço. Assim sendo, vou passar a resumir as noticias que se referem à marcha do meu tratamento. E para amenizar as agruras que tal leitura oferece resolvi fazer uso das quadras que se seguem: 

 

Já apresento melhoras pois levanto muito cedo

E deitar as nove horas pra mim já é um brinquedo

A injeção me tortura e muito medo me mete

Mas minha temperatura não passa de 37 

 

Nessas balanças mineiras de variados estilos

Trepei de varias maneiras e pesei 50 quilos 

Deu resultado comum o meu exame de urina

Meu sangue noventa e um por cento de hemoglobina 

 

Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro

Pois não há material pro meu exame de escarro

Ate' agora só isto para o bem dos meus pulmões

E nem brincando desisto de seguir as instruções

Que o meu amigo Edgard arranque desse papel

O abraço que vai mandar o seu amigo Noel"
 
 
A carta é uma extensão da obra do compositor, contendo os mesmos procedimentos identificáveis em suas canções, tais como: rimas improváveis, versas de duplo sentido, a sutil ironia peculiar a Noel Rosa e a distinta habilidade com a língua portuguesa. 

Apesar da busca pelo clima rarefeito a fim de minimizar as consequências da tuberculose, a vida boêmia nunca deixou de ser um atrativo irresistível para o artista, que optou não abrir mão do samba, das noites regadas à bebida e do tabagismo. De volta ao Rio em 1937, jurou estar curado, mas faleceu em sua casa no bairro de Vila Isabel no mesmo ano, aos 26 anos de idade.

Quarenta anos após a morte de Noel, o sambista João Nogueira musicou a “carta à Edgar”, incluindo-a em seu LP "Vida boêmia" (EMI-Odeon, 1978). Confira:


 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Síndrome de Down no Romance "O Guardião de Memórias"

O Guardião de Memórias (The Memory Keeper's Daughter), publicado em 2005, é um romance americano assinado por Kim Edwards.

Devido a uma inesperada tempestade nevesca, o Dr. David Henry (um ortopedista recém casado com Norah) é obrigado a fazer o parto de seus filhos gêmeos em seu consultório. O primeiro a nascer, um menino, é um bebê comum; a segunda criança, Phoebe, é portadora de síndrome de Down:


O âmnio branco e cremoso envolvia sua pele delicada e ela estava escorregadia, por causa do líquido amniótico e dos vestígios de sangue. Os olhos azuis eram nublados e o cabelo negro feito piche, porém ele mal notou esses detalhes. O que viu foram os traços inconfundíveis, os olhos repuxados como que numa risada, a prega epicântica entre as pálpebras, o nariz achatado. Um “caso clássico”, lembrou-se de um professor dizendo, anos antes, ao examinarem uma criança similar. “Mongolóide. Sabe o que significa isso? E ele, compenetrado, recitara os sintomas que havia decorado de um livro: tônus muscular flácido, retardo no crescimento e no desenvolvimento mental, possíveis complicações cardíacas, morte prematura. O professor assentira com a cabeça, pondo o estetoscópio no peito liso e nu do bebê. “Pobre criança. Não há nada que eles possam fazer, exceto procurar mantê-la limpa. Deviam poupar-se e mandá-la para uma instituição."
 
 
O drama, ambientado entre 1964 e 1989, envolve o preconceito acerca das crianças portadoras de síndrome de Down. O trech acima exposto evidencia um fato histórico: durante décadas, os pais de crianças com Síndrome de Down recebiam a recomendação de entregar as crianças a instituições, que passariam a cuidar delas por toda a vida. A aparência distinta das crianças com trissomia do 21 tornava-as particularmente vulneráveis a estereótipos.
 
Henry, surpreso e guiado por dolorosos estigmas, faz uma escolha instantânea que o alfinetará durante toda a vida: entrega o bebê para que sua enfermeira Caroline o leve pra uma casa de adoção e conta para a esposa que a criança nasceu morta. Em vez disso, tocada pela beleza e fragilidade da criança, Caroline decide criá-la como sua própria filha.
 
Vencendo paradigmas da época, Phoebe provou ser demasiadamente valiosa e inteligente. Motivo de orgulho e felicidade para todos que a cercam, ela cresce feliz e cercada de cuidados por sua mãe adotiva, que luta para dar-lhe uma vida digna e livre de discriminação.

Curiosidade: Até 1961, a trissomia do 21 era denominada “mongolismo” pela semelhança observada por Down na expressão facial de alguns pacientes seus e os indivíduos oriundos da Mongólia. Porém, a designação mongol ou mongolóide dada aos portadores da síndrome ganhou um sentido pejorativo e até ofensivo, pelo que se tornou banida no meio científico.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Demência de Alzheimer em "As Viagens de Gulliver" (1726)

Em 1906, Alois Alzheimer registrou na literatura médica a doença que leva seu nome. Entretanto, séculos atrás, observações sobre a demência já haviam sido relatadas não no universo científico, mas na literatura romântica.

A descrição das mudanças comportamentais observadas no envelhecimento que estampa uma das páginas do livro favorito de Voltaire, As Viagens de Gulliver (1726) – assinado por Jonathan Swift, é bastante sugestiva de doença de Alzheimer:

Em seguida, descreveu-me os Struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva ideia da eterna duração de sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não conheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso, que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam.”
O trecho acima descreve o momento em que Gulliver encontra os luggnaggianos, entre os quais vive a raça imortal de Struldbruggs, indivíduos destinados a nunca morrer, mas que sofrem a devastação e as enfermidades conseguintes a idade avançada.

Inicialmente, Gulliver deduz que essas pessoas são singularmente sábias, dadas as suas décadas de aprendizado e cultura. O protagonista se surpreende ao perceber que, na verdade, os imortais viviam socialmente isolados e deprimidos, sem o alívio final da morte, exibindo todas as consequências negativas de senescência extrema, como a perda da função e redução da vitalidade.

Literatos sugerem que este retrato de senilidade fora elaborado por Swift a partir da observação do seu tio Godwin, que sofreu perda considerável de memória com o envelhecimento.

Neurologistas afirmam que a descrição de Swift seria uma espécie de premonição sobre seu próprio futuro estado mental. Escritos do mais famoso escritor da época refletem seu interesse pelos temas psicológicos e psiquiátricos.

Durante os últimos anos de vida, Jonathan Swift sofreu mentalmente o declínio cognitivo que descreveu, sendo por isso rotulado pelos seus contemporâneos como “o louco”. Dez anos antes de sua morte, em outubro de 1735, seus amigos observaram uma deterioração de sua memória e dificuldade de reconhecer as pessoas. O proprio autor registrou “Eu perdi completamente minha memória e quase não entendo uma palavra do que escrevo”. Em outubro de 1745, aos 78 de sua idade, faleceu o admirável escritor, legando a maior parte de sua fortuna para construir e dotar um hospital para “lunáticos, idiotas e incuráveis".

REFERÊNCIAS:
Miranda CM , Pérez JC , Slachevsky Ch A. "Contribuição científica de Jonathan Swift em suas "Viagens de Gulliver". . Rev Med Chil 2011 Mar; 139.
Lewis, JM. "Jonathan Swift and Alzheimer's disease". Lancet. 1993 Aug 21;342(8869):504.
Lorch, M. "Language and memory disorder in the case of Jonathan Swift: considerations on retrospective diagnosis." Oxford Journals Medicine Brain Volume 129, Issue 11 Pp. 3127-3137.

domingo, 9 de setembro de 2012

"O Doente Imaginário", de Molière

A peça O Doente Imaginário, de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673), foi destinada inicialmente à diversão do rei. Famosa sátira da medicina, nela o autor nos apresenta uma medicina livresca, incapaz de progredir.


Protagonizando, o hipocondríaco Argan, entupido de remédios e clisteres prescritos por médicos interessados apenas no retorno financeiro que tinham com o emprego de seus serviços; estes doutores possuem nomes sugestivos, Sr. Purgon (purgante) e Sr. Diafoirus (diaforéticos).
BÉRALDE: [...] Não vejo pessoa que esteja menos doente do que vós, e que eu não pediria melhor constituição do que a vossa. Uma grande prova de que andais bem, e que tendes um corpo perfeitamente bem regulado, é que com todos os remédios que já tomastes, ainda não conseguistes estragar a vossa saúde. Vê que não estais morto co todos os medicamentos que lhe fizeram tomar. (ATO III, CENA III).
Molière impinge na obra a ideia de que a paixão por médicos e medicamentos é apenas uma forma desesperada de terror da morte. Que o autor fosse o “original” do Doente é amplamente especulado. A obra é alimentada por sua própria experiência como paciente. Molière tinha uma visão arguta e havia adquirido uma certa cultura médica, pois um doente inteligente e provido de espírito crítico, desiludido com os insucessos dos tratamentos, se tornaria necessariamente um autodidata em medicina.

Comédia singularmente amarga, apesar dos risos que traz em vários momentos, a peça fotografa uma fase penosa da vida do irônico autor, que escolheu traduzir de forma engraçada o que sentiu quando, atrozmente doente (vítima de tuberculose pulmonar), viu-se abandonado pelos médicos que o assistiram; assim, O Doente Imaginário é um protesto da inteligência e do corpo contra a implacável destruição imposta pela doença, contra a impotência humana, contra a exploração de alguns da miserável condição humana.
ARGAN – Mas afinal, meu irmão, há pessoas tão sábias e tão inteligentes quanto vós e vemos que no mal estar todos apelam para os médicos.
BERALDE – É um traço da fraqueza humana e não da verdade de sua arte. 
ARGAN – Mas é preciso que os médicos achem o seu ofício verdadeiro, já que o utilizam para si mesmos.
BERALDE – É que há alguns entre eles que também estão na crença popular, da qual aproveitam , e outros que dela aproveitam sem acreditar. O vosso senhor Purgon, por exemplo, não vê fineza; é um homem de todo médico, da cabeça aos pés; um homem que acredita em suas regras mais do que todas as demonstrações da matemática, e que acharia um crime querer verificá-las; que não vê nada de oculto na medicina, nada de duvidoso, nada de difícil, e que, com uma impetuosidade de prevenção, uma rigidez de confiança, uma brutalidade e senso comum, fornece a torto e a direito purgantes e sangrias e não imagina nada além. [...] É a nossa inquietude, a nossa impaciência, que tudo estraga, e quase todos os homens morrem de seus remédios, e não de sua doença. (ATO III, CENA III)
Publicando a obra, Molière emite um grupo de alarme: a medicina está se enterrando no palavratório. E o autor vai mais longe, chega mesmo à negação da própria medicina. E esta negação se origina da sua experiência com médicos antiéticos que lhe extorquiam dinheiro prometendo saúde numa época em que o diagnóstico de tuberculose equivalia a uma sentença de morte.

Nos últimos dias de vida, vendo que a tuberculose apenas progredia e tirava-lhe o fôlego, Molière concluiu que não se curam os doentes do corpo, mas tão só os maníacos; suporta-se; conforma-se; ou melhor, ri-se deles.

O último ato da vida do autor foi numa noite de inverno. Menosprezando os conselhos dos médicos que lhe diziam para ficar em repouso e não ir ao teatro, Molière foi representar o obidiente hipocondríaco Argan em sua sua famosa peça "O Doente Imaginário" em 17 de fevereiro de 1673. Recitando os versos, ele apresentou hemoptise no palco. Em seguida, enquanto a plateia delirava em aplausos, foi tomado por uma convulsão e levado pra casa, onde morreu às 22h da mesma noite.

O grande escritor e artista cômico que sonhou ser um ator de tragédias, representou alegria para os outros e fez de sua própria vida a tragédia que tanto queria representar. Não é surpreendente que o mestre da dissimulação e duplo sentido tenha encerrado a trajetória num momento em que encenava um falso doente.

REFERÊNCIAS:
MOLIÈRE. "O Doente Imaginário". Ed. Martin Claret, 2a edição. 2009.

sábado, 4 de agosto de 2012

Paralisia Cerebral por Sofrimento Fetal na obra de Shakespeare

William Little (1810-1894), sofrendo das sequelas de uma poliomielite que lhe paralisara a perna esquerda, estudou Medicina acreditando que assim poderia tratar-se e curar-se. Anos depois, ao tornar-se especialista em cirurgia ortopédica, sustentava a possibilidade de descrever a etiologia dos transtornos motores cerebrais em crianças.

Não encontrando trabalhos científicos anteriores em que basear-se, recorreu a William Shakespeare (1564-1616).


Veio-lhe então à memória um fragmento de A Tragédia de Ricardo III (1593), onde o personagem Ricardo profere sua deficiência física e dificuldade de marcha, em associação com antecedentes de asfixia perinatal e prematuridade:

Eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto deles. (Ato I, cena: I)

Também na obra, Lady Anne, viúva do príncipe de Gales, assim amaldiçoou Ricardo:

Se alguma vez tiver um filho, que nasça malformado, estranho, fora do tempo, que o seu aspecto feio e monstruoso assuste a esperançosa mãe, quando o vir; e que lhe herde a desventura. (Ato I, cena: II).

Segundo o poeta, o nascimento “fora do tempo” ocasionaria uma condição defeituosa também no filho do prematuro Ricardo.

Valorizando a descrição de Shakespeare, Little relacionou as complicações obstétricas – principalmente relacionadas à prematuridade – ao déficit de desenvolvimento motor em crianças. O cirurgião passou a observar a frequência dos problemas perinatais, postulando que os defeitos motores dependiam de maneira direta de dificuldades no momento do parto.

Em 1843, o cirurgião sugeriu à comunidade científica que havia uma associação entre a paralisia cerebral e a anoxia neonatal. Seus primeiros artigos aceitos pela Lancet, em 1844 e 1861, descreviam suas observações sobre um grupo de crianças com anormalidades do tônus muscular e desenvolvimento, além de versar sobre a rigidez espástica das extremidades nos neonatos. Muitas destas crianças, de fato, tinham antecedentes de complicações no parto.

O ponto alto foi o artigo publicado em 1862 “Da influência do parto normal, dificuldades do parto, parto prematuro e asfixias do neonato e sobre o estado mental e físico da criança, principalmente no concernente a deformidades”.


Little ocupou-se intensamente com o estudo da espasticidade, descrevendo pela primeira vez o que hoje chamamos de paralisia cerebral, na forma de diplegia espastica, que passou a chamar-se doença de Little.

A partir daí, o transtorno motor por lesão cerebral foi doença com que se ocuparam neurologistas e ortopedistas, a fim de melhorar as possibilidades cirúrgicas indicadas por Little.

Freud, após conhecer o trabalho de Little, descreveu em várias monografias a diplegia espástica, entretanto, especulou que as dificuldades perinatais eram resultados de anormalidades preexistentes no feto. O pai da psicanálise foi quem sugeriu, em 1897, a expressão "paralisia cerebral".

Define-se como Paralisia Cerebral (PC) um déficit motor central não progressivo que se origina em eventos nos períodos pré-natal ou perinatal. O mais comum evento etiológico é a anoxia cerebral; Outra causa comum seria o trauma mecânico cerebral ao nascimento. A forma espástica (cuja lesão é localizada no trato piramidal), é encontrada em 88% dos casos.

A PC classifica-se, pela topografia da lesão, como tetraplegia, monoplegia, diplegia e hemiplegia. Flexão e rotação interna dos quadris, flexão dos joelhos e equinismo são as deformidades mais freqüentes nas crianças que adquirem marcha. Quando a adução dos quadris é acentuada, conduz ao cruzamento das pernas (pernas em tesoura). Os reflexos tendinosos são ativos, às vezes com um prolongado clonus do pé. São comuns a contratura dos tendões dos calcanhares, limitações dos quadris em abdução e rotação externa, e limitação dos antebraços em extensão e supinação.

Atualmente, sabe-se que quando a lesão causadora da PC atinge a porção do trato piramidal responsável pelos movimentos das pernas, localizada em uma área mais próxima dos ventrículos, a forma clínica é a diplegia espástica (doença de Little), na qual o envolvimento dos membros inferiores é maior do que dos membros superiores. A região periventricular é muito vascularizada e os prematuros, por causa da imaturidade cerebral, com muita frequência apresentam hemorragia nesta área.

Desprovido de embasamento científico, mas empregando seu transcendente poder observacional, Shakespeare foi quem primeiramente associou o déficit motor às condições de nascimento.

REFERÊNCIAS:
1.LEITE, J. PRADO, G. “Paralisia cerebral Aspectos Fisioterapêuticos e Clínicos”. Revista neurociências. Volume 12 - n°1 – 2004.
2.Muzaber, F.L. Schapira, I. “PARÁLISIS CEREBRAL Y EL CONCEPTO BOBATH DE NEURODESARROLLO”. Rev. Hosp. Mat. Inf. Ramón Sardá 1998, vol. 17, Nº 2.
3.Flehmig, Inge. “Texto e atlas do desenvolvimento normal e seus desvios no lactente: diagnóstico e tratamento precoce do nascimento até o 18 mês”. São Paulo: editora Atheneu,2000.
4. Paralisia Cerebral: Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação.: http://www.sarah.br/paginas/doencas/po/p_01_paralisia_cerebral.htm

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"O Médico Doente", de Drauzio Varella

Drauzio Varella, formado em Medicina pela USP, é um médico brasileiro que estreitou a ligação da ciência à arte. Notável escritor, publicou Estação Carandiru, obra que ganhou os prêmios Jabuti e Livro do Ano. Dentre outros livros, é autor também de Por um Fio e Borboletas da Alma.

Cancerologista há mais de quarenta anos, Drauzio convive com pacientes terminais diariamente. A estreita ligação com o tema, entretanto, não o preparou para viver a situação inversa.

Mal fechei os olhos, o quarto foi invadido por um batalhão de enfermeiras e auxiliares perguntando-me se apresentava alguma alergia, queixa cardíaca, pulmonar, urinária ou digestiva. Enquanto respondia a uma delas, outra instalava o aparelho de pressão em meu braço, e uma terceira colocava o termômetro e enlaçava a pulseira de identidade. Um técnico de laboratório passou um garrote para colher sangue e ligar o frasco de soro: ‘Vou dar uma picadinha’. Foi o primeiro de uma série de diminutivos que viriam a ser pronunciados. [...] O emprego do diminutivo infantiliza o cidadão. Deitado de camisola e pulseirinha, sem forças para agir por conta própria, cercado de gente que diz ‘Vamos tomar um remedinho’; ‘Abre a boquinha’; ‘Levanta a perninha’... há maturidade que resista?

Ao retornar de uma viagem à Floresta Amazônica em 2004, Varella sentiu um mal estar associado à febre e, após um período de relutância obstinada, interrompeu o atendimento em seu consultório e aceitou repousar. Dias depois, foi internado. As incertezas quanto ao diagnóstico cresciam conforme aumentava a febre.

Acompanhando de perto a aflição dos colegas, o paciente viu-se na angustiante posição de compreender melhor do que o doente comum a gravidade de seu caso. Astênico, com a mente embaraçada pela doença e pela morfina, ciente da gravidade de sua situação, o médico passou a considerar a possibilidade de que seus dias estavam contados.

Em “O Médico Doente”, o autor narra sua experiência sob a ótica clínica e cirúrgica. Do leito hospitalar ele retorna aos caminhos que o levaram à profissão e revela os sentimentos de um médico impotente, à beira da morte.

REFERÊNCIA:
1.Varella, Drauzio. “O Médico Doente”. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Relato de um jogador patológico, por Dostoiévski

Jogo patológico é um transtorno psiquiátrico inserido nos manuais diagnósticos há cerca de 20 anos. Pode ser considerado um transtorno do espectro impulsivo-compulsivo,apresentando características compartilhadas com os transtornos por uso de substâncias psicoativas.

O portador do transtorno apresenta preocupação com o jogo e com a obtenção de dinheiro para jogar, incapacidade de controlar o comportamento do jogo, mesmo frente a nítidas conseqüências adversas sócio-ocupacionais e/ou legais.

Um caso de jogo patológico bastante representativo é narrado no livro O jogador, de Fiódor Dostoiévski.

Através do protagonista, Aleksei Ivanovitch, o autor evidencia a lancinante evolução do transtorno, evidenciando três fases bem definidas no comportamento de jogar: vitória (na qual o jogador consegue controlar o impulso para jogar, permitindo algum ganho com o jogo); perdas (onde o impulso para jogar se torna mandatório, interferindo na capacidade de avaliação e repercutindo em prejuízos finaneiros); e desespero (na qual o jogador apresenta prejuízos significativos em várias dimensões de sua vida pessoa).

Não só desviou os olhos da vida, dos seus próprios interesses, dos da sociedade, dos seus deveres de homem e cidadão, dos seus amigos (porque fez amigos), não só deixou de ter qualquer objetivo a não ser o do ganho, mas desligou-se mesmo de suas recordações... Lembro-me de si numa época apaixonada e intensa da vida, mas estou certo de que esqueceu as melhores impressões desse período; os seus sonhos, os seus desejos quotidianos não tem agora maior alcance senão o de “pair” e “impair”, “rouge”, “noir”, os doze números do centro, etc., etc., estou certo disso. (Dostoiévski em "O jogador").

Aleksei demonstra preocupação e atividade pessoal dirigidas exclusivamente ao jogo, mesmo com as inúmeras perdas financeiras e sociais, além dos problemas legais, exibindo todas as características clínicas que permitem considerá-lo um jogador patológico.

O autor, que relata com precisão o sofrimento psicológico associado ao jogo patológico era, provavelmente, um jogador compulsivo e, para quitar as dívidas decorrentes do transtorno, cumpriu um contrato com seu editor escrevendo este relato autobiográfico em apenas vinte e seis dias.

Sigmund Freud, em Dostoiévski e o parricídio, sugere que Dostoiévski, assim como os demais jogadores impulsivos, teriam um desejo inconsciente de perder, jogando para aliviar o sentimento de culpa. Nas palavras do pai da psicanálise:
Todos os pormenores de sua conduta impulsivamente irracional demonstram isso. Ele nunca descansava antes de ter perdido tudo. Para ele, o jogo era também um método de autopunição. (Freud em "Dostoiévski e o Parricídio").

REFERÊNCIAS:
1.Dias, FM. “Um jogador patológico por Dostoiévski” Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.30 no.3 Porto Alegre Sept./Dec. 2008
2.Dostoiévski F. O jogador. Brasil: Editora 34; 2004
3.FREUD, S. "Dostoiévski e o parricídio". In: O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. pp.67-148.
4.OLIVEIRA, M; SAAD, AC. “Jogo patológico: uma abordagem terapêutica combinada”.J Bras Psiquiatr, 55(2): 162-165, 2006.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Freud explica a epilepsia

A literatura, mais especificamente a intensa vida emocional transparecida na obra do escritor Fiódor Dostoiévski, inspirou Sigmund Freud a escrever Dostoiévski e o Parricídio (1928), ensaio onde o psicanalista destrincha a distinta e complexa personalidade do escritor. Quatro aspectos humanitários relevantes são analisados na obra: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador.

Freud analisa também a epilepsia de Dostoiévski, concluindo que as crises são conseguintes à extraordinária atividade emocional do escritor, e que essas crises também podem ocorrer em outras pessoas que apresentam uma vida emocional excessiva, via de regra insuficientemente controlada.

É, portanto, inteiramente correto distinguir entre epilepsia orgânica e epilepsia ‘afetiva’. A significação prática disso é a de que uma pessoa que sofre do primeiro tipo tem uma moléstia do cérebro, ao passo que a que padece do segundo é neurótica. No primeiro caso, sua vida mental está sujeita a uma perturbação estranha, oriunda de fora; no segundo, o distúrbio é expressão de sua própria vida mental.(Freud em Dostoiévski e o Parricídio.)

O trecho acima mostra que Freud distingue claramente o que atualmente é classificada como epilepsia secundária da epilepsia idiopática. No primeiro caso, a causa é definida pela exacerbação paroxística de determinada função cortical devido a tumores cerebrais, AVC isquêmico, vasculites ou outra causa orgânica; no segundo, mesmo com todos os sofisticados exames de neuroimagem, não se descobre nenhum substrato orgânico.

Sabe-se que a excitação emocional está direta e indiretamente ligada a ocorrência de crises epilépticas. A tensão causada por tarefas cognitivas estressantes reduz o limiar epiléptico, podendo gerar diretamente anormalidades no eletroencefalograma (EEG) e, indiretamente, fatores emocionais como a ansiedade ou excessiva manifestação de alegria geram hiperventilação (um dos principais fatores desencadeantes das crises epilépticas), também a privação de sono decorrente do estresse pode levar a uma atividade elétrica anormal, deixando o indivíduo mais propenso às epilepsias.

É a epilepsia idiopática (ou primária) denominada anteriormente por Freud de “epilepsia afetiva”. Assim, Freud foi o primeiro a observar que a “tensão emocional” é um importante fator desencadeador das crises epilépticas.

REFERÊNCIAS:
FREUD, S. "Dostoiévski e o parricídio". In: O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. pp.67-148.

sábado, 1 de outubro de 2011

A romântica tuberculose de Fantine / "Os Miseráveis", de Victor Hugo

Em meados do século XVIII, um em cada quatro indivíduos era diagnosticado com tuberculose. A epidemia atingiu seu apogeu no século XIX, época em que subsistia a visão de que a tuberculose era a doença romântica do século. A moléstia, desconhecida e sem tratamento, “consumia pelo peito”, tirando a vida de homens que estavam no auge da entusiástica juventude.

Por acometer famosos músicos e poetas, acreditava-se que a doença atingia somente seres sensíveis, frágeis e “movidos pela paixão”.

Para os românticos, a tuberculose trazia certa dose de beleza e charme: a vítima tornava-se pálida, mais magra, os olhos encovados e brilhantes exalavam paixão, e os gestos graciosos e frágeis refletiam a fraqueza e sensibilidade do ser humano.

Neste cenário inspirativo, nasceram inúmeras personagens literárias portadoras da doença; uma delas, Fantine, faz parte de uma importante obra francesa da época. Os Miseráveis é um romance social publicado em 1862, de autoria do escritor francês Victor Hugo, que narra o destino lastimável de cinco principais personagens: Jean Valjean, Fantine, Cosette, Marius e Javert. A história se passa na França do século dezenove, no período delimitado pela Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1962.

A trágica saga de Fantine compõe o primeiro livro do romance. Nascida em Montreuil-sur-Mer, a bela jovem apaixona-se por Félix Tholomyes, estudante parisiense que a abandona após engravidá-la. Fantine fica desamparada, com sua filha Cosette, em Paris. Sem dinheiro, vê-se obrigada a deixar a criança sob os cuidados dos Thenardiers, donos de uma estalagem em Montfermeil, e volta pra sua cidade natal a fim de conseguir trabalho. Fantine é empregada numa fábrica e envia mensalmente seu salário para as despesas da menina. Os Thernardiers passam a enviar com freqüência cartas fraudulentas objetivando extorquir mais dinheiro de Fantine.

Descoberta mãe solteira por uma funcionária da fábrica, Fantine é demitida. Para conseguir manter as exigências financeiras da família que cuida da filha, vende seus cabelos a um cabeleireiro e os dentes a um dentista. Mais tarde, torna-se prostituta para pagar um tratamento medicamentoso para Cosette, supostamente doente. A menina, bastante saudável na realidade, é explorada como escrava na pousada em que vive.

Os sintomas da tuberculose surgem logo após a demissão de Fantine.
Saía-lhe a respiração do peito com esse sussurrar trágico privativo das moléstias daquela espécie, que parte o coração à pobre mãe que tem um filho condenado àquele gênero de morte, quando de noite o vela à cabeceira do leito. Todavia, aquela respiração penosa mal perturbava a expressão de serenidade inefável que se divisava em seu rosto, transfigurando-a no seu dormir. Fantine tinha as faces vermelhas, e o que era palidez convertera-se em brancura. As loiras e compridas pestanas, única beleza que lhe ficara da sua virgindade e juventude, palpitavam-lhe, ainda que fechadas e abaixadas, e o corpo tremia-lhe, agitado por não sei que sacudir de asas prestes a entreabrirem-se e a arrebatá-la, cujos estremecimentos se sentiam, mas não se viam. Ao vê-la daquele modo, ninguém suporia que estava ali uma doente sem esperança de salvação. Mais parecia uma pessoa que está para voar do que pra morrer.
No ínicio, a doença lhe provoca apenas uma tosse seca, mas mais tarde progride, manifestando-se com febre, sudorese, hemoptise e cianose, culminando na morte da personagem.

Cabe aqui comentar que a descrição detalhada para diagnóstico clínico da tuberculose foi feita pela primeira vez apenas em 1819, pelo grande clínico francês René Laennec (inventor do estetoscópio), que mais tarde morreria pela própria doença. Por suas contribuições pneumológicas, Laennec, – um dos nomes mais importantes da história da medicina – , atraiu a admiração de Victor Hugo, que estampou seu nome de forma elogiosa nas páginas de Os Miseráveis:
Acabamos de dizer que Fantine não se restabelecia, ao contrário, parecia agravar-se o seu estado de semana a semana. [...] Começavam então a seguir as belíssimas indicações de Laennec no estudo e tratamento das doenças do peito.
Em 1882 o cientista alemão Robert Koch isolou o bacilo que causa a doença, o Mycobacterium tuberculosis, mas somente em 1943 Selman A. Waksman descobriria a estreptomicina, o primeiro antibiótico usado contra a tuberculose.

A luta de Fantine para cuidar da filha é diretamente proporcional à gravidade de sua doença. Victor Hugo associa simbolicamente a tuberculose à maternidade.
O excesso do trabalho veio a fatigar Fantine, de modo que a tossezinha seca que tinha aumentou.
O esforço físico necessário para manter Cosette é paralelo a fraqueza decorrente da doença, de modo que por ambos Fantine “perde o fôlego”, caindo em completa desgraça.
Quanto mais fundo ela descia, quanto mais sombrio se tornava tudo em roda dela, mais aquele doce anjinho lhe irradiava de luz o fundo da alma. A tosse, porém, não a largava, e as costas às vezes ficavam banhadas em suor.
Hugo enfatiza sutilmente o valor da maternidade, embutindo a idéia de que Fantine abre mão de sua própria vida para salvar a da filha.





REFERÊNCIAS:
HUGO, Victor, Os miseráveis (Volume I: Fantine).Lisboa: Editorial Minerva, 1962.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Enfermaria nº 6", de Anton Tchekhov

“O repouso e a satisfação não estão fora do homem, mas dentro de si próprio.” Anton Tchekhov

Confeccionada em 1892 pelo célebre escritor e médico Anton Tchekhov, Enfermaria nº 6 é um conto que discorre de maneira sublime sobre a concepção filosófica da saúde mental, através de um passeio literário por um hospital psiquiátrico provincial.

Graças ao gigantismo do autor, a obra ficou consagrada como uma das mais impactantes histórias difundidas entre o público médico.

A trama principal transita em torno de quatro personagens portadores de transtornos mentais. O autor busca extrair, do cerne da loucura, a riqueza emocional de cada ser humano, infundindo delicadamente a idéia de que a enfermidade psíquica provém de um estado de hipersensibilidade aos
infortúnios a que estamos suscetíveis.

Ivan Dmitrich Gromov, de origem nobre, trinta e três anos, antigo oficial de diligências do julgado e secretário provincial, sofre de mania da perseguição [...] mostra-se sempre excitado, inquieto, num estado de grande tensão, como se esperasse algum acontecimento confuso e indefinido [...] tem uns tiques estranhos e doentios, mas os finos sulcos, que um profundo e sincero sofrimento deixou no seu semblante, denotam inteligência,e os seus olhos deixam transparecer um brilho carinhoso e sadio [...] Seu discurso é desordenado, febril, como em delírio; nem sempre se compreende o que diz; mas mesmo assim deixa perceber, pelas palavras e pela voz, qualquer coisa que denota extrema bondade. Quando fala, distinguem-se nele o louco e o homem. É difícil traduzir para o papel os seus desvarios. Fala da maldade humana, da violência que espezinha a justiça, da bela vida que com o andar dos tempos reinará na terra, das grades e das janelas, que a cada instante lhe recordam a obstinação e a crueldade dos opressores.”

Andrei Efimich, médico chefe do hospital, classificado inicialmente pela sociedade como um individuo sadio, estabelece uma relação de íntima amizade com um dos pacientes. Este último, a despeito de seu problema mental, exprime ser portador de peculiar inteligência quando aceita entabular diariamente conversas de conteúdo filosófico com o médico.

Com sua maneira singular de compreender a vida, o paciente influencia Andrei Efimich a ponto de modificar seu modo de ver e entender os pacientes ao mostrar-lhe o quão difícil é estar submetido à internação psiquiátrica. O médico, sensibilizado, passa a lidar com os enfermos de forma nunca feita antes, e esse estilo inteiramente novo de agir faz com que ele seja declarado insano e internado junto aos outros na enfermaria número 6.

Além de objetivar extinguir o preconceito contra os portadores de distúrbios mentais, a obra russa também enfatiza, dentre outros assuntos relevantes, as evoluções medicinais do período, a necessidade de uma boa relação médico-paciente e a importância do intelectualismo nas relações sociais.


REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, A. A ENFERMARIA Nº 6 e outros contos. Trad: Maria Luísa Anahory. Editora Verbo. Lisboa, 1972.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"O Médico", por Rubem Alves

O curta-metragem abaixo traz a adaptação de uma crônica extraída do livro O Médico, de autoria de Rubem Alves, onde o escritor interpreta poeticamente a pintura O Doutor, de Samuel Luke Fildes, valorizando a influência que possuem os profissionais da Medicina sobre a vida das pessoas:


O Médico é um vídeo produzido em parceira entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRMPR).

Veja também: "O Doutor" - Samuel Luke Filds

domingo, 31 de julho de 2011

Anton Tchekhov: Trajetória Dedicada à Medicina e à Literatura

Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos.
O célebre trecho acima é do famoso escritor Anton Tchekhov, que exerceu com primor a medicina e a literatura, consagrando-se como um dos grandes nomes que conciliou as duas culturas: a cultura humanística e a cultura científica.

Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu em Taganrog em 17 de janeiro de 1860. Foi o terceiro dos seis filhos do merceeiro Pável Tchekhov.

As origens da família são humildes, fato que contribuiu um tanto para sua infância difícil. O pai, autoritário mas bem intencionado, obrigava-o a trabalhar com ele na venda, e quando, falido, teve de mudar-se pra Moscou com a família, deixou o jovem Tchekhov sozinho em Tangarog para terminar o ensino médio. Sem renda, Anton logo tratou de dar aulas particulares para suster a si mesmo, mantendo-se assim por cerca de dois anos. chamavam-o ironicamente de "Cech" (cujo significado é servo). Em 1979, terminado o ginásio, Tchekhov seguiu pra Moscou, onde encontrou a família na maior pobreza, tendo chegado em certa época a dormir no chão.

Alexander Mirgorodskiy. Estátua de Tchekhov (1960). Localizada em Taganrog (Rússia).

Tchekhov matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou. Graças ao seu talento literário, durante essa fase sustentou a si e a família trabalhando como colaborador em publicações periódicas em vários jornais e revistas das metrópoles russas. Formou-se em 1884 e exerceu medicina como médico responsável de uma clínica rural, da província. Foi ali que o autor conheceu as mais curiosas personalidades e a exuberante natureza pátria que ele descreveria com pinceladas magistrais em muitas de suas obras.

Não menos brilhante que sua atividade literária fora sua carreira médica. Mikhail Tchekhov, um membro da família em Melikhovo (pequena cidade onde Anton exerceu por anos a profissão), descreveu o alcance que assumiu os compromissos hipocráticos de seu irmão:
Os doentes que moravam ao redor começaram a afluir a Tchekhov. Eles viam de longe, a pé ou trazidos em carretas, outras vezes ele ia ao encontro de pacientes à distância. Desde o início do dia as mulheres camponesas e as crianças estavam em pé diante de sua porta, à sua espera, muitas vezes somente para oferecer-lhe algum agrado como prova de gratidão.
Também Tchekhov sofria com uma doença, talvez por isso não economizou em carinho e generosidade com seus pacientes. Em dezembro de 1884 teve ele um quadro de hemoptise. O diagnóstico? Tuberculose, que se agravou a partir de 1889. Em junho desse mesmo ano morreu o seu irmão Nikolaj, também vítima da doença, possivelmente infectado pelo irmão. A morte do caçula influenciou Uma História Desagradável, conto que discorre sobre um homem que enfrenta o fim de uma vida percebendo que sua existência foi sem propósito. Há relatos de que Anton sentiu indescritíveis remorsos, principalmente por não ter estado presente nos últimos dias de vida do irmão. Nikolaj também fora um exímio artista, gostava de pintar, e estampou num quadro a face adoecida do irmão:

Retrato de Anton Tchekhov por seu irmão Nikolaj Tchekhov.

Assim como ocorreu a muitos escritores, a tuberculose exerceu forte influência na atividade literária de Tchekhov, em muitos de seus textos há personagens vítimas da doença. Doutores também não faltam em suas obras, a exemplo, em Um Relato do Jardineiro-Chefe, o autor descreve num personagem médico algumas das qualidades essencialmente humanas que empregavam a si:
Ele mesmo tísico, tossia, mas quando o chamavam pra ver um doente, ele esquecia o próprio mal e, arquejando, subia montanhas, por mais altas que fossem. Ele não ligava pra o frio ou calor, desprezava fome e sede. Não aceitava dinheiro e, coisa estranha, quando perdia um paciente para a morte, ele seguia o caixão junto com os parentes e chorava. E logo ele se tornou tão indispensável para a cidade, que os moradores espantavam-se ao pensar como é eu antes conseguiam passar sem esse homem. Sua gratidão não conhecia limites. Adultos e crianças, bons e maus, honestos e malandros, em suma, todos o respeitavam e reconheciam seu valor.
Bem visto e bem quisto em toda a cidadezinha em que exerceu a profissão, conta-se que Tchekhov não aceitava pagamento pelas consultas, sua renda provinha de suas publicações literárias; dizia ele que a profissão médica já possuía por si só um inestimável valor, pois a convivência direta com o sofrimento dos doentes fornecia o substrato para seus textos, e por isso, apesar de não cobrar aos pacientes, era a medicina indiretamente responsável por seu sustento.

Observador arguto da vida e de tudo que é humano, Tchekhov foi um homem de muitas vivências. Tanto a infância difícil e a adolescência penosa, como a tuberculose e as impressões adquiridas no tempo em que observou a vida dos condenados ao trabalho forçado na ilha Sakhalina, causou profunda impressão em sua consciência e imprimiu a marca da verdade nos textos mais importantes do escritor, tornando-o insuperável. Seus curtos contos, expostos com uma economia de palavras diretamente proporcional à riqueza e profundidade do seu conteúdo humano (emocional, psicológico e social), respiram realidade, seus intensos personagens revelam-se ao leitor sem um só efeito supérfluo.

Em julho de 1904 a tuberculose recrudesceu implacavelmente, levando do mundo o genial russo, aos 44 anos de idade, em plena floração da criatividade e do talento. O artista foi sepultado no Cemitério Novodevichy, ao lado do túmulo do pai.

A grandeza de Tchekhov revela-se no conteúdo de sua vasta obra, que exala a empatia que ele possuía com tudo o que é humano. Sua compaixão e compreensão – pelos injustiçados e desvalidos, os humilhados e ofendidos, as crianças, os condenados, os animais, os doentes e os infelizes de quaisquer classes sociais –, impregnam as linhas que enriquecem a literatura mundial. A julgar pelas palavras deliciosamente belas e desprovidas de pieguice, ouso dizer que poucos homens são capazes de atingir tamanha maturidade angelical.


REFERÊNCIAS:
Tchekhov, Anton. "Um homem extraordinário e outras histórias". Porto Alegre; L&PM, 2007.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley

Completada há quase um século pelo escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963), Admirável Mundo Novo é uma impressionante obra ficcional que questiona o direcionamento que a civilização moderna está dando a si mesma, caminhando em direção à total desvalorização dos aspectos humanos. Visto como profético, o livro escrito antes da estrutura do DNA ser descrita, discute, dentre diversos assuntos relevantes, se o cientificamente possível é eticamente viável.


Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. (Huxley, 1932).
As pessoas, controladas desde o nascimento por um sistema que alia controle genético a condicionamento mental, são completamente destituídas de valores humanos, não sendo mais que meros produtos de uma linha genética de montagem em que são clonadas e tratadas como peças de reposição para a manutenção de um sistema global asséptico e totalmente artificializado.

A sociedade que emerge das páginas do romance de Huxley valoriza o negligencialismo dos sentimentos, a mediocridade, o artificialismo e a banalização dos relacionamentos. Tal condição social inumana é alcançada em função de pseudos avanços e conquistas científicas. Huxley aborda assim, uma questão que sempre esteve atrelada aos avanços da ciência: o medo de sua utilização desvirtuada.

Em busca de uma aparente harmonia social, na sociedade criada por Huxley, não há espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois até a tristeza e a ansiedade são controladas quimicamente pelo “soma”, – uma droga capaz de estabilizar os exasperados sentimentos humanos. Considerando que décadas depois surgiram os antidepressivos e ansiolíticos, também neste tópico reconhece-se a obra como profética.

Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade? (Huxley, 1932).
Dentre uma população ridicularizada, dominada por falsos valores, Huxley inclui John, conhecido como O Selvagem, um personagem que representa o resgate dos valores humanos que se perderam. Esse personagem tem como modelo do humano, nada menos do que os sentimentos descritos nas obras de William Shakespeare – admirável escolha de Huxley, aliás, visto que o dramaturgo inglês foi o primeiro a oferecer um espelho no qual a humanidade pudesse se reconhecer. Assim, anos antes de Shakespeare ser referido como o “inventor do humano”, Huxley já o elegia como redentor dos valores humanitários da civilização.

Genialmente, também o título da obra fora extraído das palavras de Shakespeare:

Oh! maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana
Ó ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
que possui gente assim! (A Tempestade - Ato V).
Também enfatizando a busca pelos reais valores, a peça, - provavelmente a última escrita por Shakespeare, - tem como protagonista Próspero, um personagem exilado da sociedade, dotado de poderes exotéricos e caracterizado por seu amplo conhecimento acerca das coisas do mundo. Nas últimas páginas da obra, em sua viagem de volta ao lar, Próspero decide retornar a sua condição original, e lança ao mar um livro contendo toda sua magia e conhecimento. Assim, ele retorna ao seio da civilização da qual fora exilado, como ser humano puro, sem os poderes sobre-humanos que a ciência e a magia lhe conferiam, contribuindo assim para a restauração da ordem social vigente. Ambas as obras tem um ponto em comum: o resgate da natureza humana, outrora perdida pela busca científica indiscriminada.

Atualmente, a engenharia genética se destaca globalmente. Com o poder de suscitar diversas questões éticas, a leitura de Admirável Mundo Novo é quase que obrigatória e altamente recomendada numa época em que a barreira entre a moralidade e a busca pela verdade científica faz-se quase invisível.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"O Cisne Negro", de Thomas Mann: Clássico da literatura alemã cuja protagonista tem câncer de ovário

A cidade de Dusseldorf, às margens do Rio Reno, serviu como cenário para que o romancista alemão Thomas Mann desenhasse a dramática história de uma viúva na pós-menopausa acometida por um tumor metastático ovariano.



Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é marcado como o último grande trabalho concluído por Thomas Mann.

Em determinado momento do romance, a protagonista, Rosália von Tummler, percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:

Voltei a ser mulher, um ser completo, uma mulher que reencontrou as suas aptidões. É-me permitido, portanto, sentir-me digna da juventude viril que me enfeitiçou e perante ela já não tenho que baixar os olhos com um sentimento de impotência!
Tragicamente, a realidade é que as mudanças que a principio a encantam, são decorrentes dos efeitos hormonais do tumor ovariano das células granulosas produtoras de estrogênio:
O toque bimanual revelou ao Dr. Mutthesius um útero demasiado volumoso em relação à idade da doente e, seguindo a trompa, um tecido irregularmente espessado. Em vez dum ovário, já muito pequeno, um tumor informe. A Biópsia acusou células neoplásicas que, seguindo a sua natureza, provinham do ovário, mas outras células permitiram estabelecer que no próprio útero, células mães cancerosas estavam em pleno desenvolvimento. Tudo isso denotada a progressão rapidíssima do mal funesto.
O tumor das células granulosas representa cerca de 1 a 3% de todas as neoplasias ovarianas. Quando acomete mulheres na faixa etária da menopausa, manifesta-se comumente com sangramento genital pós-menopausa e hiperplasia endometrial. Em Rosália, a descoberta do tumor faz-se em um estágio demasiado avançado, quando já estabelecido o processo de metastatização, ao que ela rapidamente sucumbe:
O momento propício para fazer a operação tinha manifestamente passado havia muito tempo. Não só todos os órgãos da bacia estavam em plena degenerescência, mas também o peritônio apresentava, mesmo a olho nu, a mortífera aglomeração de células. Todos os gânglios do sistema linfático estavam espessados pelo carcinoma. Com toda a evidência, o fígado devia ter igualmente núcleos de células cancerosas.
Nesse trabalho, Mann, como um clássico novelista, oferece uma estimulante e agradável experiência de leitura, onde há um grande potencial para aprofundamento da compreensão da condição humana. O retrato psicológico do ser humano e a complexidade de cada personagem desafiam o entendimento do leitor. Por tratar repetidamente da morte e da doença, o autor chama a atenção para as questões existenciais da vida. Suas histórias são indubitavelmente uma atraente opção para o profissional médico.



REFERÊNCIAS:
1.MANN, Thomas. "O Cisne Negro". Trad: Domingos Monteiro.
2.Thomas Mann’s last novella “The Black Swan”: the tragic story of a post-menopausal woman. PMID: 15063972. PubMed.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Síndrome de Pickwick: os distúrbios respiratórios do sono e sua relação com a literatura clássica inglesa

É bem conhecido que o estudo de diferentes obras de arte revelam características de diversas afecções antes mesmo delas serem descritas. Não raramente, também a literatura ficcional antecede a ciência. O fabuloso romancista inglês Charles Dickens (1812-1870), amplamente conhecido por marcar a era vitoriana com seu profundo senso de observação humana e de crítica social, povoou sua obra com memoráveis protagonistas.

Um dos seus secundários personagens ganhou um posto nos anais da medicina. Trata-se do “gorducho Joe”, descrito no capítulo LIV do primeiro sucesso de Dickens As Aventuras do Sr. Pickwick (1836).

Através dessa divertida história, Dickens narra de forma mágica as aventuras de quatro membros de um clube especial que tem como líder o Sr. Samuel Pickwick, uma espécie de filósofo que, junto com seus três seguidores, iniciam uma turnê pela Inglaterra com o intuito de observar descobertas científicas e analisar as diversas variedades do comportamento.

Joe é marcado por seu voraz apetite associado a muitos ataques de sono durante o dia:

... e no caixote sentou-se um garoto gordo e de rosto vermelho em estado de sonolência. [...] Joe - que droga aquele garoto, foi dormir novamente. [...] Em resposta aos tiros de enormes armas em um exército militar, todas as pessoas estavam excitadas exceto o garoto gordo, e ele dormia profundamente como se o barulho do canhão fosse a sua canção de ninar... senhor, será que é possível beliscá-lo na sua perna, nada mais o acorda. [...] Joe ronca enquanto espera a mesa... o ronco do garoto penetrou como um baixo e monótono som vindo distante da cozinha.

Gravura ilustrando Joe – The Fat Boy, contida na primeira versão do livro The posthumous papers of the Pickwick Club.

Fã de Dickens, o pai da medicina moderna Sir William Osler, em sua obra The principles and practice of medicine (1905), registrou o seguinte comentário: Tenho observado um fenômeno extraordinário que associa a excessiva obesidade de pessoas jovens a uma incontrolável tendência a dormir –como o obeso de Pickwick.

Levando em consideração a observação de Osler, no ano de 1956 Burwell notou a lúcida descrição dos sinais que acometem o jovem Joe, atribuindo o rubor facial do personagem a uma policitemia decorrente de uma diminuição da oferta de oxigênio, e consagrou o termo “pickwickiano” para descrever pacientes obesos e sonolentos, portadores de hipoventilação, policitemia e cor pulmonale. O termo Síndrome de Pickwick fora então empregado para designar a condição que reunia tal conjunto de sinais e sintomas.

A curiosidade imposta pela síndrome despertou o interesse sobre o estudo dos distúrbios do sono na classe médica. Pouco depois, médicos franceses observaram que doentes tidos como “pickwickianos” apresentavam repetidos episódios de apnéia durante o sono, justificando ser a redução dos níveis de oxigênio responsável por uma má qualidade de descanso noturno, o que explica a presença de sonolência diurna nesses pacientes. Gastaut descreveu então a apnéia obstrutiva do sono, destacando a existência de pausas repetidas na respiração, bem como a importância do ronco faringeano na síndrome.

Há somente poucas décadas que as desordens respiratórias relacionadas ao sono e à obesidade começaram a tomar um importante lugar nas publicações médicas. Certamente, a excelente caracterização de um sujeito obeso e com distúrbios respiratórios feita há 150 anos por Charles Dickens antecipou a ciência nesta sua obra, onde nos apresentou um esboço do que seria tempos depois descrito como o fenótipo clássico de um portador do distúrbio do sono.

A síndrome de Pickwick é hoje preferencialmente chamada de síndrome obesidade-hipoventilação alveolar e classificada como um subtipo da síndrome da apnéia obstrutiva do sono.

REFERÊNCIAS:
1. DICKENS, C. As Aventuras do Sr. Pickwick. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
2. SILVA, G.A; síndrome obesidade-hipoventilação alveolar. Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: DISTÚRBIOS RESPIRATÓRIOS DO SONO. 39 (2): 195-204, abr./jun. 2006
3. OSLER, W. The principles and practice of medicine. 6ª edición. Nueva York: Appleton; 1905:431.
4. MENDOZA, R.M. La neurología en un personaje de Dickens.Síndrome Pickwickiano, apneas hipopneas del sueño ehipertensión intracraneal. Gac Méd Caracas 2009;117(2):154-162
5. Rabec, C. LEPTIN, OBESITY AND CONTROL OF BREATHING : THE NEW AVENTURES OF MR PICKWICK. Rev Electron Biomed / Electron J Biomed 2006;1:3.

sábado, 26 de março de 2011

Friedrich Nietzsche - a medicina como uma profissão humana, demasiada humana

O principio fundamental da medicina humanística é a cura abrangente, tratando não só do corpo, mas também da alma do doente, através de uma conexão médico-paciente em que faz-se necessário a empatia, a paciência e a compaixão.

Em 1878, o pensador alemão Friedrich Nietzsche publicou Humano, Demasiado Humano, visando instituir a idéia de que o homem precisa ser um “espírito livre” a fim de descobrir e aplicar seus valores.


O capítulo cinco da obra, que aborda os “sinais de cultura superior e inferior”, traz uma máxima em que o filósofo expõe sua opinião sobre as características essenciais de um médico verdadeiramente humano:
...ele deve, além disso, ter uma eloquência que se adapte a cada indivíduo e que lhe atinja o coração; uma virilidade cuja simples visão afugente a pusilanimidade (a carcoma de todos os doentes); uma flexibilidade diplomática ao medicar entre os que necessitam de alegria para a cura e os que, por razões de saúde, devem (e podem) dar alegria; a sutileza de um agente policial ou advogado, que entende os segredos de uma alma sem delatá-los - em suma, um bom médico requer atualmente os artifícios e privilégios de todas as outras classes profissionais: assim aparelhado, estará em condição de tornar-se um benfeitor de toda a sociedade, fomentando as boas obras, a alegria e fecundidade do espírito, desestimulando maus pensamentos, más intenções e velhacarias (cuja fonte asquerosa é com frequência o baixo-ventre), instaurando uma aristocracia de corpo e de espírito (ao promover ou impedir matrimônios), eliminando com benevolência todos os tormentos espirituais e remorsos de consciência: apenas assim o "curandeiro" se transforma em salvador, sem precisar fazer milagres nem se deixar crucificar (Humano, demasiado humano, 1878; Nietzsche).
O aforismo de Nietzsche idealiza um médico não apenas empático, reflexivo, profissional e confiável, mas também um “instituidor de bem estar”; no entanto, a tendência atual da prática médica segue, lamentavelmente, em direção oposta: à medida que progridem os meios tecnológicos para diagnóstico, o exercício focado no âmago do próximo regride. Cada vez mais o jovem médico é exposto à alta tecnologia e menos ao lado humanístico e filosófico da medicina. Não esqueçamos que, utilizar meios técnicos ajuda a descobrir e a curar certas enfermidades, mas é através do tratamento baseado na radiografia psíquica e social do homem acometido pelo sofrimento, que reside a capacidade de salvá-lo.
Tranqüilizar a imaginação do doente para que não tenha mais que sofrer com idéias que tem de sua doença, mais que com a própria doença – acho que já é alguma coisa!E não é mesmo pouco! Compreendem agora nossa tarefa?(Aurora, 1881; Nietzsche)
Sejamos, pois, como sugere Nietzsche, médicos humanos, médicos de alma, simplesmente médicos.

REFERÊNCIAS:
1.NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
2.NIETZSCHE, F. Aurora. Tradução de Antonio Carlos Braga. São Paulo: Editora Escala, 2007.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Transtorno de Personalidade Múltipla em "O Médico e o Monstro"


O escritor escocês Robert L. B. Stevenson compôs uma fascinante obra de perene valor literário: The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), publicada no Brasil sob o título O Médico e o Monstro é uma história que discorre sobre o conceito do bem e do mal existente na espécie humana.

O livro pode ser visto como uma notável fonte de estudo para psicologia humana, envolvendo a compreensão das teorias estruturais da personalidade, conforme detalhado por Freud, além de simbolizar perfeitamente o indivíduo acometido pelo transtorno dissociativo de identidade, processo mental caracterizado pela desintegração do ego, popularmente conhecido como dupla personalidade.

O Médico e o Monstro tem como protagonista o Dr. Henry Jekyll, um generoso médico bem sucedido e amplamente respeitado por possuir possui um brilhante intelecto, mas que, em determinado momento, se conscientiza da duplicidade de vida que leva ao perceber a parcela de maldade que reside dentro dele.
Era profunda a duplicidade do meu caráter. Muitos homens teriam confessado com orgulho certos erros. Eu, todavia, tendo em vista os altos propósitos que visava, só podia envergonhar-me dessas irregularidades: ocultava-as, com mórbida sensação de culpa e vergonha. Assim exigia a natureza das minhas aspirações, mais do que a própria degradação dos pecados; ia-se cravando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o bem do mal e divide e compõe a dualidade de nossa alma. [...] Em cada dia, as duas partes da minha inteligência, a moral e a intelectual, atraíam-me mais e mais para essa verdade, cuja descoberta parcial foram mim condenada a tão pavoroso naufrágio: que o homem não é realmente uno, mas duplo. (Stevenson: O Médico e o Monstro, 1886).
Na novela, Dr. Jekyll consegue, por meio de seus experimentos científicos, criar uma fórmula (comparada com o álcool no decorrer do romance) que intervém no seu "normal" e desencadeia processos mentais e físicos dando origem a um ser misantropo de aparência grotesca e deformada. Através desta outra face de sua personalidade, ele pratica o mal sob o nome de Edward Hyde, livrando a figura do médico das críticas sociais.

Jekyll torna-se completamente dependente da mistura que utiliza para trocar de personalidade. Edward Hyde gradualmente se torna cada vez mais poderoso do que sua contraparte "boa", sendo descrito como lado mais agradável dos dois. Em última análise, é a personalidade dominada pela maldade que leva à queda do Dr. Jekyll e sua morte. Isto porque o médico, nas últimas fases de sua lucidez, reconhece o perigo que o Sr. Hyde representa para a sociedade e altruisticamente decide acabar com ele.

A obra de Stevenson tem caráter profético. Poucos anos depois, os estudos de Sigmund Freud evidenciaram a face oculta da mente, o Sr. Hyde (o sobrenome é óbvio: hide significar “ocultar”) que se esconde atrás de cada dr. Jekyll. Os personagens do romance possuem manifestações características da teoria estrutural da mente proposta por Freud. Hyde é facilmente reconhecível como o id, que busca a gratificação imediata, com um instinto agressivo, e destituído dos costumes morais e sociais que precisam ser seguidos. Seu prazer provém da violência e o instinto de morte acaba por conduzi-lo a sua própria destruição. Dr. Jekyll representa, então, o ego, sendo consciente, racional e dominado por princípios sociais. Além disso, ao rotular Mr. Hyde como um "troglodita", Stevenson estabelece uma relação com as teorias da evolução. Ele considerava Hyde selvagem, incivilizado e dado a paixão: em suma, um indivíduo pouco evoluído. Edward Hyde representa uma regressão a uma fase anterior, ao período mais violento do desenvolvimento humano.

A escolha de um médico como o personagem que se transformará num monstro assassino estabelece um paradoxo entre o crime que destrói uma vida e uma profissão que teoricamente se caracteriza pela luta contra a morte e a compaixão pelo ser humano, realçando o conceito de dualidade humana.

Curiosidades: A obra obteve tão grande sucesso que até os dias atuais o termo "Jekyll e Hyde" é utilizado pela socidade científica como sinônimo de desordem de personalidade múltipla.

Stevenson escreveu a história - supostamente com o auxílio da cocaína - em um curto período de tempo (3 a 5 dias), baseada em um sonho que teve.

O livro também é utilizado como demonstração de dependência química, já que mostra a excessiva necessidade que Dr.Jekyll tem da droga que sintetizou.

REFERÊNCIAS:
1.Shubh M. Singh; Subho Chakrabarti. “A study in dualism: The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”. Indian J Psychiatry. 2008 Jul–Sep; 50(3): 221–223.
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996
3.Stevenson, R. L. "O médico e o monstro". Coleção L&PM Pocket, 2002.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Namoros com a Medicina" de Mário de Andrade

Namoros com a medicina revela a afinidade de Mário de Andrade (1893- 1945) com a profissão médica. O livro reúne dois ensaios, o primeiro, Terapêutica musical, tem a ver com musicologia; o outro, A medicina dos excretos, relaciona-se com o folclore. Ambos surpreendem pela originalidade e pela erudição combinadas com o incomparável estilo de Mário.
Resta explicar, rapazes, porque ligo tanto à medicina. Ninguém, ignora que uma das ... pegas infantis mais vulgarizadas no Brasil, e talvez, no mundo, é perguntarem ao rapazinho o que ele vai ser na vida. Foi o que fizeram também comigo uma vez, eu não teria 10 anos. Fiquei atrapalhado, com muita vergonha de mim, e de repente, escapei: - Vou ser médico. Positivamente eu não tinha a menor disposição pra ser médico, nem coisíssima nenhuma. Era menino, e apenas nos poucos momentos em que largava a meninice achava bonito, desejava, confesso, ser homem grande, tomar bonde, fumar, andar com dinheiro no bolso. Vou ser médico... Para que falei tamanha bobagem! Todos acharam a resposta muito certa e nunca mais se discutiu dos meus futuros. Nem eu discuti. Fiquei certo como os outros que ia ser médico no mundo, mas jamais fiz o menor esforço para dirigir. Nem os outros, seja dito em honra dos meus bons pais. E fiquei... o diabo é que nunca pude esclarecer direito o que fiquei; e sinto sempre uma hesitação danada quando, nos hotéis, enchendo a ficha de hospedagem, tropeço no “Profissão”. Pianista? Professor? Jornalista? Crítico de arte? Folclorista? Ou mais recentemente: Funcionário público? Só me arrependo de não ter ficado médico por causa dos fichários dos hotéis. No resto, não me arrependo, porque não tenho mesmo a menor vocação.
Mas aquela resposta de menino me valia a vida inteira. Me tornei médico às avessas, isto é, doente. Mais ou menos imaginário. Sou duma perfeição prelecional no descrever os sintomas das doenças. Das minhas doenças. E finalmente a medicina entorpeceu minhas leituras. Li bastante sobre os bastidores dela, e principalmente a sua história. E quando encontro, em outras leituras, qualquer referência sobre medicina, ficho. Fichava, aliás. Por que ficava? Fichava sem saber por que fichava. Fichava por causa daquela resposta de menino e porque os instintos viciados, ignorantes das proporções e dos anos, continuam imaginando que ainda serei médico um dia.
No prefácio acima, vê-se claramente que o autor atribui, inicialmente, esse “namoro” ao prestígio da medicina, que era particularmente valorizada em 1939, época em que a profissão tinha a sua melhor imagem na história do Brasil. Certamente era preferível, num hotel, assinar “Dr. Mário” que simplesmente “Mário”.

Também as suas próprias doenças, bem como a curiosidade intelectual, o impelem ao ofício de curar. Fica evidente, na última frase, que “os instintos” continuaram guardando uma paixão platônica pela medicina.

Em Terapia musical, ele mostra a potencialidade da meloterapia na correspondência entre ritmos musicais e ritmos orgânicos; cita Celso e Herófilo, Platão, Pinel e Charcot. Conta que em meados do século XVIII o dr. Gordon y Arosta organizou uma farmacopéia de instrumentos, recomendando o violino para a melancolia e hipocondria, a flauta para tuberculose, a harpa para histeria, o trombone contra a surdez e o oboé como tônico geral. O autor doutrina: uma organização social que empregasse a terapêutica musical à coletividade não é uma utopia, porque isso já existe, só faltando sistematização.

Mais interessante, embora com menos prescrições, é A medicina dos excretos. Aqui, Bach dá lugar às fezes e à urina, utilizados com fins terapêuticos. Mário mostra a simbologia que existe por trás de tais procedimentos e crenças, por exemplo, assim como o esterco fertiliza a terra, ele melhora o organismo. Os excretos mantém pois uma noção de princípio da vida, de vitalização, de saúde. Daí seu uso como medicamento. Asma, diz, em Pernambuco, se cura com uma colher de bosta de vaca.

O segundo ensaio, que muitos consideram não tão agradável quanto o primeiro, é riquíssimo do ponto de vista antropológico.

REFERÊNCIAS:
1.Andrade, M. Namoros com a medicina – I. Terapêutica musical – II. A medicina dos Excretos. Porto Alegre: Livraria do Globo; 1939.
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996