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sábado, 1 de dezembro de 2012

A Arte de vHIVer com AIDS

O vírus da AIDS é apenas um vírus. É apenas outra criatura na criação de Deus. Frank Moore
O dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a AIDS.

Aproveito a data de hoje para reforçar a admiração que nutro pelas pessoas que sofrem da doença.

Quando o individuo se descobre portador do vírus HIV, passada a fase de aflição e atingida a aceitação, a resiliência o permite enxergar a oportunidade de uma neovida, cujo caminho crucial para sobrevivência é adquirir hábitos e cuidados regulares numa trajetória sem exposição a riscos desnecessários.

A doença o possibilita refletir sobre a necessidade de mudar algumas atitudes pra que o bem estar prevaleça. Doravante, o infectado deverá viver consigo um caso de amor e dedicação.

O vírus com o poder de enfraquecer o corpo fortalece o espírito, ensinando-o a criar munições psicológicas que funcionam como projéteis de animo para lutar pela vida a despeito da deficiência imune. A vítima, capacitada para combater – pois lutam diariamente contra o preconceito, em prol do desapego dos vícios, contra os desagradáveis efeitos adversos dos coquetéis, etc. – independentemente das armas imunológicas, torna-se um mestre na arte da resistência.

O pintor Frank Moore, artista portador de HIV que fez da Acquired immunodeficiency syndrome (AIDS) o seu foco principal de trabalho, confeccionou este criativo autorretrato colocando-se como o personagem Gulliver, gigante da obra As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.

Frank Moore.Gulliver Awake, 1994 - 1995
Ao cabo desse tempo, acordei, tentei levantar-me, mas em vão o fiz. Vi-me deitado de costas, notando também que as pernas e os braços estavam presos ao chão, assim como os cabelos. Cheguei a observar que muitos cordões delgadíssimos me rodeavam o corpo, das axilas às coxas. Só podia olhar para cima; o sol começava a aquecer e a sua forte claridade feria-me a vista. Ouvi um confuso rumor em torno de mim, mas na posição em que me encontrava só podia olhar para o sol. ("As Viagens de Gulliver", J. Swift, 1726).
Gulliver acordando (1994 - 1995) mostra um homossexual infectado pelo HIV despertando em uma terra desconhecida. Os pequenos seres ao redor (liliputianos), assustados com a ameaça que o gigante representa, tentam em vão amarrar seu corpo. A cena nos induz a entender o quanto as pessoas que temem a presença do infectado e tentam paralisá-lo com finas amarras são pequenas e insuficientes perante uma criatura disposta a levantar-se.
Qual não foi o meu espanto quando enxerguei uma figurinha humana que pouco mais teria de seis polegadas, empunhando um arco e uma flecha, e com uma aljava às costas! Quase ao mesmo tempo os meus olhos viram mais uns quarenta da mesma espécie [...] Era com razão que me supunha de uma força igual aos mais poderosos exércitos que viessem atacar-me, desde que seus componentes fossem do tamanho daqueles que vira até então. ("As Viagens de Gulliver", J. Swift, 1726).
Muitas são as interpretações inferidas na imagem. O vírus HIV, que parece poderoso e invencível, mostra que o soropositivo oferece um risco gigante a sociedade e precisa ser um gigante para encará-la.

O corpo de Gulliver é sustentado por medicamentos. Na parte superior direita da pintura aparecem halteres feitos de comprimidos, aludindo ao fato de que o que torna o gigante mais forte (os antirretrovirais), não deixa de ser também um peso pra o usuário por conta dos efeitos colaterais.

À direita de Gulliver, surge uma caixa com uma citação do poeta árabe Abu Nuwas, afirmando que o amor pode dissolver os males e, mais filosoficamente, que o desejo vence a morte.

Outro trabalho de Frank Moore relacionado à AIDS que me tocou profundamente surgiu a partir de um passeio do artista num bosque perto de sua propriedade rural em Nova Iorque. Moore notou o crescimento de folhas numa árvore podre e caída. A cena o inspirou a criar a obra Release (1999):

Release. 1999. Frank Moore.
A árvore é representada como um braço estendido coberto de feridas sangrentas e lesões, mas desta “árvore” brota vida. A imagem revela, através das plantas e das borboletas, o renascimento e a regeneração após a aparente morte.

Falta-nos a consciência do que todo ser humano é naturalmente dotado de fragilidade, tanto corporal quanto psíquica. O ideal seria que nos valorizássemos como se portássemos o vírus HIV, vigiando nossos limites e podando nossos defeitos comportamentais. Diariamente, somos expostos a sedutoras toxinas sociais altamente virulentas que podem nos tornar deficientes da integridade humana. Precisamos proteger nossa essência e dignidade para evitar que, posteriormente, num momento de debilidade, a destrutiva miserabilidade de caráter se manifeste em nós.

REFERÊNCIAS:
Jonathan Swift. As Viagens de Gulliver

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tuberculose nas Artes Visuais

A tuberculose é considerada uma das entidades médicas mais antigas da história, tida por alguns como a primeira doença que reconhecidamente afetou os seres humanos.

A enfermidade foi especialmente impactante no período final do século XVIII até o início do século XIX, quando grandes celebridades da arte se viram por ela afetadas, incluindo os músicos Purcell e Mimi; escritores como Edgar Allan Poe, Schiller e Moliere; e pintores como Watteau, Modigliani, Michelena e Cristóbal Rojas.

Muitos desses artistas iluminaram suas criações com referências a tuberculose, hora refletindo dores e desesperanças, outrora enfeitando suas pinturas com características semiológicas relativas à afecção, ou mesmo expressando o próprio padecimento. A doença romântica emprestava emoção as suas obras através da ilustração da beleza secundária ao mal, do horror e da dor.

O percurso da tuberculose pela arte inicia-se com Sandro Botticelli na época renascentista. Em várias de suas obras aparece Simonetta Vespucci, charmosa florentina acometida pelo mal que lhe cortou a vida aos 22 anos de idade. Botticelli torna a beleza de Simonetta acentuada pela enfermidade, que a faz luzir frágil, febril e pálida, como figura etérea, nos óleos como A Primavera e O Nascimento de Vênus.

O Nascimento de Venus (1484). Sandro Botticelli. Museu Galeria de los Uffizi, Florencia
Tanta beleza expressa nas pinturas é reflexo do amor profundo e secreto que o artista nutria por Simonetta, convertendo as debilidades corporais inerentes à enfermidade em virtudes dignas de louvor, colocando-a como divindade mitológica. Mais adiante, na época romântica, as mulheres imitariam esse padrão de beleza corpórea ingerindo dietas a base de água e vinagre para gerar anemias hemolíticas.

A obra Baroness Burdett dos irmãos Preston, representa um evento social organizado durante o Congresso Médico Internacional de Highgate, de 1881. A pintura evidencia a busca pela descoberta da cura da tuberculose e os vários médicos que colaboraram na identificação do bacilo de Koch.

Preston. Baroness Burdet Coutts Garden Party at Holly Lodge (1882).
Enfocando o interesse científico pelo combate a enfermidade, o trabalho revela a necessidade que tem o ser humano de apoiar-se em um universo de esperanças. Pouco depois de concluírem esta pintura,  os irmãos Preston, vencidos pela tuberculose ainda sem tratamento, faleceram.

Edvard Munch, pintor norueguês expressionista, representa em sua extensa obra paisagens de sua própria vida, transmitindo ao espectador a dor e a angústia que acompanharam sua existência. Quando ainda não havia completado cinco anos de idade, sua mãe morreu vítima de tuberculose e, nove anos depois, faleceu da mesma causa a sua irmã Sophie.

Aniquilando a tranquilidade de sua alma, a enfermidade e a degradação tornaram-se sombras que seguiram seus passos, tirando a vida dos seus entes queridos. A morte virou um tema obsessivo em sua vida, gerando em Munch uma visão desoladora e lúgubre do futuro:
Doença, loucura e morte foram os anjos negros ao lado de meu berço (Edvard Munch, 1989).
Em A Criança Doente, Munch retratou uma mulher agarrando com um vestígio de fé à mão de sua irmã Sophie, prestes a falecer:

Edvard Munch. A Criança Doente. (1885-1886). Museo National Gallery, Oslo
A Morte no Quarto da Doente reproduz o momento da morte de Sophie. Ela não aparece, pois está sentada em uma cadeira de espaldar alto, ao lado da cama, rodeada por três pessoas que a olham: o pai, a tia e o próprio Munch. Toda executada em tons verdes e ocre, o conjunto adquire uma introspecção bastante acentuada ao lado de uma angústia contida.

Edvard Munch. Morte no Quarto da Doente. (1895). Museo National Gallery, Oslo
Apesar de referir-se a uma morte ocorrida há anos, todos os presentes aparecem com a idade da época da execução das pinturas e gravuras, unidade de temporalidades heterogêneas, o que reforça a interpretação de que Munch recolocava-se a cada instante na dor que o atingiu no dia da morte de sua irmã, ocorrida em 1877.

Este tema, da dor proveniente da perda, repete-se também no óleo Mãe Morta e Criança (1898).

Munch. Mãe Morta e a Criança (1898).Museu National Gallery, Oslo
Em frente ao leito, onde jaz o corpo da mãe coberto por lençóis claros, uma criança pequena, vestida em vermelho, mãos nas orelhas, isola-se em relação às outras cinco pessoas que estão ao fundo do quarto.

Alice Neel, pintora norteamericana ícone do feminismo que se destacou por suas obras expressionistas de grande intensidade psicológica e emocional, foi tocada lateralmente pela enfermidade. Parte de sua vida transcorreu no Harlem Espanhol, um bairro em Manhattan, onde a pobreza e a enfermidade que se vislumbrava foram alicerces para sua imaginação.

Alice Neel. TB Harlem (1940). Museu Nacional da Mulher. Washington, DC
A pintura TB Harlem retrata Carlos Negrom, um jovem afetado por tuberculose que apresenta as fácies típicas de um tísico crônico: aspecto caquético, magro, cansado e deteriorado. Esta obra também mostra um dos manejos instaurados na era pré antibiótica para manejar a tuberculose: a toracostomia. A face desolada do doente é reflexo da impotência humana frente à desgraça, das esperanças quebradas de um paciente que se agarra com força a qualquer ilusão de vida.

Na pintura latina se destaca Cristóbal Rojas, famoso artista venezuelano do século XIX. Rojas peregrinou por diferentes correntes pictóricas, que vão desde o pós-romantismo até o impressionismo, ambicionando alcançar a maestria dos clássicos. O artista representa em suas obras aspectos dramáticos vinculados com a enfermidade e pobreza.

A Primeira e Última Comunhão mostra seis pessoas num recinto: o ambiente é desalentador, a desesperança reina na tela, uma das personagens é uma menina que recebe a primeira e provavelmente a última comunhão; em seu rosto se apreciam sinais de uma enfermidade de alto grau consumptivo, face caquética, devastada, a espera do fim dos seus dias. Em 1890 Rojas deixa o mundo em decorrência da tuberculose.

Cristobal Rojas. A Primeira e Última Comunhão (1888).
O talentoso pintor cubano Fidélio Ponce de León morreu aos 54 anos, vítima de tuberculose. Desde o diagnóstico até a morte, este artista se dedicou a trabalhar sua arte com temas obscuros relacionados à enfermidade, angústia, pobreza e morte.

A obra Tuberculose reflete a experiência própria do autor, que via o padecimento da enfermidade como um evento devastador, macabro, destinado a morte, sem esperança ou rotas alternativas.

Fidélio Ponce de León (1895-1949). Tuberculose.
Nota-se os pescoços alongados e edemaciados - sinal de escrófula; a palidez da pele; os olhos vazios, já apagados, sem vida e a mão de um dos dos personagens sobre um crânio, simbolizando a proximidade com a morte.

A tuberculose é vista através das artes sob variadas concepções, culturas e momentos históricos. Desde a beleza etérea e sobrenatural com que se manifesta no corpo de uma amante eterna durante a época renascentista, passando por seu apogeu estético no período romântico, em que o rosto tísico era sinônimo de formosura e criatividade, até alcançar o medo e a dor da perda de um ente amado e o desconsolo e horror que gera a iminência de morte.

Desfilando pelos distintos estilos artísticos ao longo dos tempos encontramos obras encantadoras que, apesar de refletirem manifestações da degradação orgânica, fazem florescer nossa sensibilidade adormecida. As artes carregam consigo a capacidade de despertar o lado visceral do ser humano.


REFERÊNCIAS: 
1. Cantillo, A. "Tuberculosis: expresión de belleza, horror y dolor". Colombia Medica.Vol. 40 Nº 1, 2009.
2.Chalke HD. The impact of tuberculosis on history, literature and art. Med Hist. 1962; 6: 301-18.
3. Ziskind B and Halioua B. Tuberculosis in ancient Egypt. Rev Mal Respir. 2007; 24: 1277-83.

domingo, 20 de maio de 2012

Jeca Tatu na Medicina Brasileira

Observando o modo de vida dos caboclos de sua propriedade, o consagrado escritor Monteiro Lobato (1882-1948), transporta para a literatura as suas inquietações, insatisfações e dissabores com relação a preguiça e vagabundagem do homem do campo.

Assim, para representar fielmente o caboclo do Vale da Paraíba, – “homem amarelo, franzinho, inerte, que provoca a morte dos animais, queimadas, e possui baixa produção”, Monteiro semeia, na obra “Urupês”, o personagem Jeca Tatu, onde, desfazendo-se da imagem do caboclo romântico, constrói o anti-herói, o caboclo preguiçoso, piolho da terra, que vive de cócoras, sem aptidões.

Participando ativamente dos debates em torno da campanha pelo saneamento nas áreas rurais, Lobato se depara com os problemas causados pelas péssimas condições de higiene e fraqueza do homem do campo. Assim o escritor, percebendo que sua criaturinha possuía mais problemas que a preguiça, curvou-se a realidade, e para desculpar-se do erro cometido, verificou que “os caipiras eram barrigudos e preguiçosos por motivo de doenças”. O homem do campo era vítima da falta de higiene e saneamento básico, tendo as suas entranhas corroídas por um parasito adquirido.

Consciente das angústias e fatos que acometem os “Jecas da vida”, Monteiro resolve dar uma nova direção para a história, criando o Jeca Tatuzindo, que segundo ele: “padecia dos mesmos males, no entanto,após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser indolente; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos.” A nova história a ser contada faz parte de uma campanha objetivando esclarecer a população brasileira sobre a ancilostomíase.

O parasito, Ancylostoma duodenale, é agora o causador do “caboclo amarelo e franzinho”, e deve ser combatido para livrar o sertanejo do “mal” de seu corpo. Assim, Monteiro Lobato libera o personagem Jeca Tatu para a participar da campanha nacional contra o amarelão. Lobato, a fim de esclarecer sua nova posição, afirmou no jornal O Estado de São Paulo que “O Jeca não é assim, está assim., .(...) a saúde pública brasileira vai mal e a apatia do caipira é decorrente de suas enfermidades, destacando-se a anciosmose, a leishmaniose, a tuberculose e a subnutrição., em particular, o incômodo causado pelo verme Ancylostoma duodenale.”



O “amarelão” é conhecido desde tempos imemoriais, e caracteriza-se no homem por parasitismo intenso e considerável anemia; Avicena, o mais famoso médico persa, que viveu no século X da nossa Era, foi o primeiro a encontrar os vermes nos intestinos dos pacientes, e responsabilizá-los pela anemia espoliativa, de evolução lenta e progressiva, acompanhadas de perturbações gastrointestinais, depressão mental e física, por serem os mesmos hematófagos (sugadores de sangue).

Estimuladas pelo calor da pele de seus futuros hospedeiros, as larvas atravessam a superfície da mesma, por entre as fissuras ou poros, valendo-se das bordas desses poros como suporte auxiliar de seu caminho posterior, e penetram através das fissuras horizontais, folículos ou aberturas das glândulas sudoríparas, conforme a natureza da pele exposta. No caminho de sua penetração na epiderme, a cápsula, se ainda não inteiramente expulsa, é deixada; o maior número delas e encontrado nos capilares linfáticos do derma, e pequeno número penetram diretamente nos capilares sanguíneos; algumas ficam vagando, muitas vezes, nas camadas superficiais da pele, penetrando no tecido gorduroso e não raro no muscular. As lavas que caem nos linfáticos, são levadas primeiro aos gânglios linfáticos, onde muitas vezes são destruídas, atacadas pelas próprias células linfáticas de defesa, que se fixam firmemente á cutícula das lavas e as matam; Muitas delas, não sendo vítimas dessas células de defesa natural do organismo paralisado, atravessam os gânglios, e caindo no ducto torácico e na corrente circulatória, sendo conduzidas pelos vasos sanguíneos, vão ter ao coração direito, de onde são levadas pela artéria pulmonar até o próprio pulmão; neste órgão, caem nos alvéolos pulmonares, possivelmente atraídas pela presença do oxigênio. Uma vez nos alvéolos, tendo caminhado a curta distância até os brônquios, o epitélio ciliado empurra as larvas pelo caminho restante até a boca do animal hospedeiro. Esse último caminho é apenas mecânico, estimulando a secreção de muco que embebe as larvas, provocando tosse. Tal tosse, chamada tosse chistosa, característica do parasitismo por vermes que efetuam o chamado Ciclo de Looss, acabado de ser descrito, é sintoma que serve para caracterização clinica do parasitismo. A tosse que ocorre por irritação da mucosa das vias aéreas, provocada pela própria larva embebida em muco, serve como meio de ser a mesma deglutida, caindo então no estômago, e daí, para os intestinos, para completarem assim todo o caminho para se estabelecerem definitivamente neste último órgão, agora então como parasitas plenamente desenvolvidos, aptos a sugarem sangue de suas vítimas, e causando todos os malefícios decorrentes.

Yokogawa (1926), através de experiências, descobriu que a maioria das lavas se desenvolve diretamente, sem migrações através da pele,e que poucas penetram nas paredes do canal alimentar. O tratamento na época era feito pela utilização de um vermífugo por via oral. No Brasil, o parasito, Ancylostoma duodenale, recebeu vários nomes, tais quais: Opilação, Amarelão ou Anemia Tropical.

Também para alívio de sua consciência, em 1910 Monteiro Lobato deixa a imagem de seu personagem caipira assumir o papel de garoto propaganda do laboratório paulista fundado por Cândido Fontoura. Supostamente, o antianêmico (ferro para o sangue e fósforo para os nervos e músculos) veio mudar a situação do Jeca, que tornou-se robusto após combater a vermifucação.


Sem perda de tempo, o escritor idealiza e coloca em pratica o novo personagem, o Jeca Tatuzinho, que após tomar o biotônico, teve suas forças refeitas. Assim surgiu o Almanaque do Jeca Tatu, idealizado por Monteiro e editado e distribuído pelo Laboratório Fontoura.

O almanaque explicava com simples palavras ao povo brasileiro, através de Jeca, como o parasito se apropriava de seus corpos através da pele, qual era o ciclo e como os ovos eliminados pelas fezes permaneciam no solo e que para seu bem o caboclo não deveria mais utilizar as bananeiras para as suas necessidades fisiológicas. Deveriam sim andar calçado com suas botinas, na época feitas de couro cru e fabricado de forma artesanal, para evitar a contaminação. Neste período, mais de noventa por cento da população andava descalça e não tinham noções básicas de higiene pessoal, com o almanaque, a população ficou ciente de que os ovos do parasito no solo produziriam as lavas que retornaria através da sola dos pés, e para completar o ciclo as lavas cairiam na circulação; desenvolveriam-se; fixavam-se nas paredes intestinais; aptos a sugarem sangue de suas vítimas e botarem novos ovos para ser expelidos pelas fezes.  
Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provada que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz papudo, feio, molenga inerte. Tens culpa disso? Claro que não. Assim, é com piedade infinita que te encara hoje o ignorantão que outrora só via em ti manparra e ruindade. Perdoa-me, pois, pobre opilado, e crê no que te digo ao ouvido: és tu isso se tirar uma virgula, mas ainda és melhor coisa desta terra. Os outros, os que falam francês, dançam o tango, fumam havanas e, senhores de tudo, te mantêm nessa geena infernal para que possam a seu favor viver vida folgada á custa do teu trabalho ,esses, meu caro Jeca Tatu, esses têm na alma todas as verminoses que tu tens no corpo. Doente por doente, antes como tu, doente só do corpo....(Urupês, 4º edição. Monteiro Lobato)
Examinando a história do progresso rural, percebemos a incrível contribuição que representou o personagem Jeca Tatu para o desenvolvimento da medicina nacional, em tempos em que era escassa a preocupação com a saúde do povo brasileiro.

Mais que um escritor brasileiro, Lobato é o próprio guia da nacionalidade; com sua literatura, ele tencionou salvar o caboclo dos males da terra, e levando o conhecimento sobre a importância do saneamento e das condições de higiene, inegavelmente obteve resultados positivos.

REFERÊNCIAS: 
1.LOBATO, Monteiro. Urupês. In: Obras completas de Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 1957.
2.PACHECO, RE. "Jeca Tatu: A medicina de Monteiro Lobato." Disponível em: http://encipecom.metodista.br/mediawiki/index.php/Jeca_Tatu:_a_medicina_de_Monteiro_Lobato 3.REY, L. “Um século de experiência no controle da ancilostomíase”. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 34(1):61-67, jan-fev, 2001.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"O Médico Doente", de Drauzio Varella

Drauzio Varella, formado em Medicina pela USP, é um médico brasileiro que estreitou a ligação da ciência à arte. Notável escritor, publicou Estação Carandiru, obra que ganhou os prêmios Jabuti e Livro do Ano. Dentre outros livros, é autor também de Por um Fio e Borboletas da Alma.

Cancerologista há mais de quarenta anos, Drauzio convive com pacientes terminais diariamente. A estreita ligação com o tema, entretanto, não o preparou para viver a situação inversa.

Mal fechei os olhos, o quarto foi invadido por um batalhão de enfermeiras e auxiliares perguntando-me se apresentava alguma alergia, queixa cardíaca, pulmonar, urinária ou digestiva. Enquanto respondia a uma delas, outra instalava o aparelho de pressão em meu braço, e uma terceira colocava o termômetro e enlaçava a pulseira de identidade. Um técnico de laboratório passou um garrote para colher sangue e ligar o frasco de soro: ‘Vou dar uma picadinha’. Foi o primeiro de uma série de diminutivos que viriam a ser pronunciados. [...] O emprego do diminutivo infantiliza o cidadão. Deitado de camisola e pulseirinha, sem forças para agir por conta própria, cercado de gente que diz ‘Vamos tomar um remedinho’; ‘Abre a boquinha’; ‘Levanta a perninha’... há maturidade que resista?

Ao retornar de uma viagem à Floresta Amazônica em 2004, Varella sentiu um mal estar associado à febre e, após um período de relutância obstinada, interrompeu o atendimento em seu consultório e aceitou repousar. Dias depois, foi internado. As incertezas quanto ao diagnóstico cresciam conforme aumentava a febre.

Acompanhando de perto a aflição dos colegas, o paciente viu-se na angustiante posição de compreender melhor do que o doente comum a gravidade de seu caso. Astênico, com a mente embaraçada pela doença e pela morfina, ciente da gravidade de sua situação, o médico passou a considerar a possibilidade de que seus dias estavam contados.

Em “O Médico Doente”, o autor narra sua experiência sob a ótica clínica e cirúrgica. Do leito hospitalar ele retorna aos caminhos que o levaram à profissão e revela os sentimentos de um médico impotente, à beira da morte.

REFERÊNCIA:
1.Varella, Drauzio. “O Médico Doente”. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

sábado, 1 de outubro de 2011

A romântica tuberculose de Fantine / "Os Miseráveis", de Victor Hugo

Em meados do século XVIII, um em cada quatro indivíduos era diagnosticado com tuberculose. A epidemia atingiu seu apogeu no século XIX, época em que subsistia a visão de que a tuberculose era a doença romântica do século. A moléstia, desconhecida e sem tratamento, “consumia pelo peito”, tirando a vida de homens que estavam no auge da entusiástica juventude.

Por acometer famosos músicos e poetas, acreditava-se que a doença atingia somente seres sensíveis, frágeis e “movidos pela paixão”.

Para os românticos, a tuberculose trazia certa dose de beleza e charme: a vítima tornava-se pálida, mais magra, os olhos encovados e brilhantes exalavam paixão, e os gestos graciosos e frágeis refletiam a fraqueza e sensibilidade do ser humano.

Neste cenário inspirativo, nasceram inúmeras personagens literárias portadoras da doença; uma delas, Fantine, faz parte de uma importante obra francesa da época. Os Miseráveis é um romance social publicado em 1862, de autoria do escritor francês Victor Hugo, que narra o destino lastimável de cinco principais personagens: Jean Valjean, Fantine, Cosette, Marius e Javert. A história se passa na França do século dezenove, no período delimitado pela Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1962.

A trágica saga de Fantine compõe o primeiro livro do romance. Nascida em Montreuil-sur-Mer, a bela jovem apaixona-se por Félix Tholomyes, estudante parisiense que a abandona após engravidá-la. Fantine fica desamparada, com sua filha Cosette, em Paris. Sem dinheiro, vê-se obrigada a deixar a criança sob os cuidados dos Thenardiers, donos de uma estalagem em Montfermeil, e volta pra sua cidade natal a fim de conseguir trabalho. Fantine é empregada numa fábrica e envia mensalmente seu salário para as despesas da menina. Os Thernardiers passam a enviar com freqüência cartas fraudulentas objetivando extorquir mais dinheiro de Fantine.

Descoberta mãe solteira por uma funcionária da fábrica, Fantine é demitida. Para conseguir manter as exigências financeiras da família que cuida da filha, vende seus cabelos a um cabeleireiro e os dentes a um dentista. Mais tarde, torna-se prostituta para pagar um tratamento medicamentoso para Cosette, supostamente doente. A menina, bastante saudável na realidade, é explorada como escrava na pousada em que vive.

Os sintomas da tuberculose surgem logo após a demissão de Fantine.
Saía-lhe a respiração do peito com esse sussurrar trágico privativo das moléstias daquela espécie, que parte o coração à pobre mãe que tem um filho condenado àquele gênero de morte, quando de noite o vela à cabeceira do leito. Todavia, aquela respiração penosa mal perturbava a expressão de serenidade inefável que se divisava em seu rosto, transfigurando-a no seu dormir. Fantine tinha as faces vermelhas, e o que era palidez convertera-se em brancura. As loiras e compridas pestanas, única beleza que lhe ficara da sua virgindade e juventude, palpitavam-lhe, ainda que fechadas e abaixadas, e o corpo tremia-lhe, agitado por não sei que sacudir de asas prestes a entreabrirem-se e a arrebatá-la, cujos estremecimentos se sentiam, mas não se viam. Ao vê-la daquele modo, ninguém suporia que estava ali uma doente sem esperança de salvação. Mais parecia uma pessoa que está para voar do que pra morrer.
No ínicio, a doença lhe provoca apenas uma tosse seca, mas mais tarde progride, manifestando-se com febre, sudorese, hemoptise e cianose, culminando na morte da personagem.

Cabe aqui comentar que a descrição detalhada para diagnóstico clínico da tuberculose foi feita pela primeira vez apenas em 1819, pelo grande clínico francês René Laennec (inventor do estetoscópio), que mais tarde morreria pela própria doença. Por suas contribuições pneumológicas, Laennec, – um dos nomes mais importantes da história da medicina – , atraiu a admiração de Victor Hugo, que estampou seu nome de forma elogiosa nas páginas de Os Miseráveis:
Acabamos de dizer que Fantine não se restabelecia, ao contrário, parecia agravar-se o seu estado de semana a semana. [...] Começavam então a seguir as belíssimas indicações de Laennec no estudo e tratamento das doenças do peito.
Em 1882 o cientista alemão Robert Koch isolou o bacilo que causa a doença, o Mycobacterium tuberculosis, mas somente em 1943 Selman A. Waksman descobriria a estreptomicina, o primeiro antibiótico usado contra a tuberculose.

A luta de Fantine para cuidar da filha é diretamente proporcional à gravidade de sua doença. Victor Hugo associa simbolicamente a tuberculose à maternidade.
O excesso do trabalho veio a fatigar Fantine, de modo que a tossezinha seca que tinha aumentou.
O esforço físico necessário para manter Cosette é paralelo a fraqueza decorrente da doença, de modo que por ambos Fantine “perde o fôlego”, caindo em completa desgraça.
Quanto mais fundo ela descia, quanto mais sombrio se tornava tudo em roda dela, mais aquele doce anjinho lhe irradiava de luz o fundo da alma. A tosse, porém, não a largava, e as costas às vezes ficavam banhadas em suor.
Hugo enfatiza sutilmente o valor da maternidade, embutindo a idéia de que Fantine abre mão de sua própria vida para salvar a da filha.





REFERÊNCIAS:
HUGO, Victor, Os miseráveis (Volume I: Fantine).Lisboa: Editorial Minerva, 1962.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"A Peste" de Albert Camus

Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna [...]Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vómitos tinham recomeçado. Os gânglios do pescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça o mais afastada possível do corpo. (Albert Camus, 1947).
O texto acima mostra apenas uma das muitas descrições semiológicas da peste bubônica que permeiam a obra prima do escritor e filósofo francês Albert Camus. O clássico intitulado "A Peste", publicado em 1947, conta a história de uma epidemia que assola Oran, pequena cidade argelina, cujos habitantes levam uma vida monótona até o flagelo dizimar considerável porcentagem de sua população.

A peste, uma zoonose causada pela bactéria Yersinia pestis, é transmitida ao ser humano pelas pulgas dos ratos-pretos. A bactéria entra através de invisíveis quebras na integridade da pele, espalhando-se para os gânglios linfáticos, onde se multiplica. Em poucos dias surge febre alta “a febre subira bruscamente a quarenta graus”, mal estar gastrintestinal “vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo” e os bubos, que são gânglios linfáticos hemorrágicos e edemaciados devido à infecção “os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado”. As hemorragias para a pele formam manchas escuras “duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco”. As bactérias invadem a corrente sanguínea, onde se multiplicam causando a chamada peste septicêmica, que se caracteriza pelas hemorragias em vários órgãos.

O médico, Dr. Bernard Rieux, protagonista e narrador da história, não mede esforços para ver o bem estar de seus concidadãos. Ao perceber as limitações da batalha inglória que travou contra a peste, surge no Dr. Rieux um sentimento de revolta conseguinte ao sofrimento de constatar sua impotência diante dos pacientes “Tinha de ficar na margem, com as mãos vazias e o coração oprimido, sem armas e sem recursos, uma vez mais, contra esse desastre”.

Rieux luta, até o último momento, apenas com os recursos paliativos que tem em mãos. Este belo relato não esconde os momentos de dúvidas e fraquezas do médico, que aparece como um humanista que se inquieta a cada gemido de dor de seus pacientes. “Assim é que não há uma só das angústias de seus concidadãos de que não tenha compartilhado, uma só situação que não tenha também sido a sua.

Outro ponto de interesse médico discutido na obra é a posição do homem frente à situação-limite que mais o assusta: a terminalidade da vida. O autor enfatiza a mudança do comportamento das pessoas que encaram a iminência da própria morte. Com seu caráter único, Camus leva – através de deliciosas digressões filosóficas - o leitor a refletir sobre como se deve lidar com quem vislumbra seu fim.

Curiosidade: O livro fora escrito durante a Segunda Guerra Mundial. Na história de Camus, a epidemia assola Oran, como a ocupação nazista assolara a França, submetendo os habitantes a um inevitável e generalizado horror. O autor chegou a afirmar que sua obra é, de fato, uma alegoria ao nazismo e, por extensão, a todo regime totalitário.

REFERÊNCIAS:
1.Camus, Albert; “A Peste”. tradução de Valerie Rumjanek Chaves. - 18ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
2.
Clayton Melo. “Uma leitura de A Peste, de Albert Camus”. Dez, 2006.
3.
Wikipédia: Peste negra.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Poliomielite na Arte / "O Mundo de Christina" de Andrew Wyeth

O Mundo de Christina (1948) é a mais conhecida pintura do artista americano Andrew Wyeth. O quadro mostra uma mulher deitada no chão rastejando em direção a uma casa cinzenta no horizonte:

“O Mundo de Christina”, 1948. Andrew Wyeth. Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.

A mulher que aparece na cena chama-se Christina Olson (03 de maio de 1893 - 27 jan 1968). Ela sofria de poliomielite e estava impossibilitada de andar por conta da deterioração muscular que paralisou a parte inferior do seu corpo. Wyeth era vizinho dos Olson e se inspirou para criar a pintura quando, olhando através da janela de sua casa, viu Cristina rastejando-se no campo. No quadro é representada a atrofia das extremidades que caracteriza a doença.

A obra encontra-se atualmente exposta no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, como parte de sua coleção permanente.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

No dia 1° de dezembro é comemorado o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Essa data foi instituída como forma de despertar nas pessoas a consciência da necessidade da prevenção, aumentar a compreensão sobre a síndrome e reforçar a tolerância e a compaixão às pessoas infectadas.

A cada ano, diferentes temas são abordados, destacando importantes questões relacionadas à doença. Em 2011, a campanha dará enfoque nos jovens gays de 15 a 24 anos. A ação busca discutir as questões relacionadas à vulnerabilidade ao HIV/aids, na população prioritária, sob o ponto de vista do estigma e do preconceito. Além disso, a ideia é estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a aids afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

Viver a realidade da AIDS, despindo-a de sua carga de hipocrisia, foi a derradeira tarefa a que se dedicou o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 – 1996):

Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, dores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado HIV positivo. [...] A vida me dava pena, e eu não sabia que o corpo (“meu irmão burro”, dizia são Francisco de Assis) podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério no outro lado da rua. Mas à noite, quando os néons acendiam, de certo ângulo a Doutor Arnaldo me parecia o boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor, nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada. (Caio Fernando Abreu, 1994).

Publicado em 18 de setembro de 1994 no jornal O Estado de São Paulo, o depoimento acima é uma prova de sua coragem. Antes de falecer, Caio Fernando Abreu viveu por 2 anos dedicando-se inteiramente a tarefas como jardinagem, cuidando de roseiras. “A vida grita. E a luta continua.” Com essas palavras termina o histórico texto. E com elas, prossegue a batalha contra a AIDS.

REFERÊNCIAS:
1.
Dia Mundial de Luta Contra a Aids
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lepra no Antigo Testamento

O que é, nos dias de hoje, a lepra da Bíblia? A lepra bíblica é a mesma doença que atualmente conhecemos como hanseníase? A resposta resumida é que a Bíblia não menciona de maneira explícita ou inequívoca a hanseníase (nome com o qual atualmente designamos o complexo clínico de sinais e sintomas causado pelo Mycobacterium leprae). O termo “lepra”, durante séculos, foi utilizado para designar diversas doenças dermatológicas de origem e gravidade variáveis.

1. Falou mais o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo:

2. Quando um homem tiver na pele da sua carne, inchação, ou pústula, ou mancha lustrosa, na pele de sua carne como praga da lepra, então será levado a Arão, o sacerdote, ou a um de seus filhos, os sacerdotes.

3. E o sacerdote examinará a praga na pele da carne; se o pêlo na praga se tornou branco, e a praga parecer mais profunda do que a pele da sua carne, é praga de lepra; o sacerdote o examinará, e o declarará por imundo.


Estes versículos fazem parte do capítulo 13 do Levítico, que é inteiramente dedicado ao diagnóstico da lepra. A doença parece ter sido frequente na antiguididade, mas – e talvez por causa disso – o rótulo pode ter incluído vários outros problemas de pele. Além disso, havia o estigma; o contágio com enfermidades da pele muitas vezes envolve o contato íntimo, com todas as implicações possíveis. Durante muitos anos, os sacerdotes estiveram à frente do cuidado de pessoas que sofriam de lepra. À época de Moisés não existia ainda o templo de Jerusalém; mas, na construção deste, foi previsto um lugar especial para o exame de suspeitos. A doença é a maneira pela qual Deus castiga os pecadores e os inimigos do povo eleito: “Se não guardares e não cumprires as palavras da Lei e se não tiveres temor ao nome glorioso e terrível do Senhor teu Deus, Ele te castigará, e a teus filhos, com a praga” (Deuteronômio, 28:58-59).

A lepra é conhecida como "a doença mais antiga do mundo", afetando a humanidade há pelo menos 4000 anos e sendo os primeiros registros escritos conhecidos encontrados no Egito, datando de 1350 a.C..

REFERÊNCIAS:
1. Lepra na Bíblia: estigma e realidade / Stanley George Browne . — Viçosa : Ultimato, 2003.
2. Bíblia Sagrada – Tradução de João Ferreira de Almeida.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

domingo, 12 de setembro de 2010

Os Efeitos da Vacina Antivariólica / James Gillray

O criador da primeira vacina, contra a varíola, foi Edward Jenner. Naquela época, as pessoas tinham pavor de vacina porque corria o boato de que alguns vacinados haviam se transformado por inteiro em gado leiteiro, em outros apareceram chifres e, nos casos menos dramáticos, um rabo havia crescido.

O famoso britânico James Gillray ilustrou os “efeitos adversos da vacina” numa interessante gravura satírica:


A varíola bovina, ou Os efeitos maravilhosos da nova vacina (1802) James Gillray. Gravura. Biblioteca Nacional de Medicina (Bethesda)


Pormenor evidenciando humanos transformando-se em gados.

LEIA MAIS:

A Descoberta da Vacina


REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Descoberta da Vacina / Pintura de Ernest Board

"Por que só pensar? Por que não experimentar?" Edward Jenner

Edward Jenner (1749 – 1823) foi uma das figuras mais admiráveis da história da medicina. Certa vez, uma jovem camponesa foi ao seu consultório e os dois começaram a discutir sobre a varíola. Ela disse “não corro o risco de contrair a varíola humana, pois já tive a varíola das vacas.” A frase impressionou Jenner, que pôde verificar sua veracidade ao observar as famílias dos fazendeiros. Em 14 de maio de 1796, Jenner, convicto que havia descoberto a vacina, extraiu o conteúdo de uma pústula da mão de Sarah Nelmes, uma jovem leiteira afetada pela varíola das vacas, e com o mesmo estilete contaminado escarificou o braço de James Phipps, um garoto de oito anos de idade.

Não houve efeitos colaterais e a experiência foi um sucesso, pois o menino não contraiu varíola. Estava descoberta a vacina.

No quadro abaixo, pintado por Ernest Board em 1915, aparece Edward Jenner vacinando James Phipps com material colhido da mão de Sarah:

Edward Jenner Vacinando James Phipps (1915); Ernest Board.

Em homenagem à “vaca”, surgiu o termo “vacina”.

LEIA MAIS:

Os Efeitos da Vacina Antivariólica / James Gillray


REFERÊNCIAS:
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Ed. Manole - São Paulo, 1998.
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002.

domingo, 25 de julho de 2010

Opistótono na Pintura do Dr. Charles Bell

O termo “Opistótono” designa a posição do corpo em que a coluna vertebral, o pescoço e a cabeça formam um arco côncavo para trás. O doente apóia-se na cabeça e nos calcanhares. A posição é resultante da contração sustentada dos músculos posteriores do pescoço e do tronco, e pode ocorrer, dentre outras causas, em pacientes com meningite, tétano, tumor cerebral e em intoxicados por estricnina; algumas lesões neurológicas também podem ocasionar tal postura anormal.

O médico escocês Charles Bell (o mesmo da paralisia de Bell) - famoso anatomista, fisiologista e cirurgião – com sua notável habilidade para o desenho, registrou magnificamente um caso de opistótono na arte:

Óleo sobre tela, Opistótono, 1809; Charles Bell; Colégio de Cirugiões de Edimburgo (Escócia).

Na pintura, vê-se um soldado que desenvolveu tétano após ser lesionado em uma batalha, a posição é uma das manifestações da doença, resultante da ação da Tetanoespamina (neurotoxina produzida pelo Clostridium tetani). A potente toxina é responsável pela presença de espasmos musculares intermitentes e rigidez generalizada.

A obra “Opistótono” foi concluída no ano de 1809 e está exposta no Colégio de Cirurgiões de Edimburgo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

História da Sífilis Contada por Voltaire

"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença." Voltaire

Voltaire é o pseudônimo adotado por François-Maric Arouet (1694-1778).

O homem dos quarenta escudos é uma obra que discute diversos assuntos polêmicos do século XVI, constituindo uma crítica sistêmica irônica e incisiva, não poupando médicos, autoridades e nem religiosos.  

Confira abaixo o capítulo denominado “Sífilis”, tema palpitante na época.

CAPÍTULO XI: SÍFILIS

O homem dos quarenta escudos morava num pequeno cantão, onde fazia uns cento e cinqüenta anos que não acampavam soldados. Os costumes, naquele desconhecido rincão, eram mais puros do que o ar que o banha. Não se sabia que alhures pudesse o amor ser infeccionado de um veneno destrutivo, que as gerações fossem atacadas no seu germe, e que a natureza, contradizendo-se a si mesma, pudesse tornar a carícia horrível e o prazer medonho; entregavam-se ao amor com a segurança da inocência. Chegaram tropas, e tudo mudou.
Dois tenentes, o esmoler do regimento, um cabo e um recruta proveniente do seminário bastaram para envenenar doze aldeias em menos de três meses. Duas primas do homem dos quarenta escudos viram-se cobertas de pústulas; caíram-lhes os lindos cabelos; a sua voz tornou-se rouca; as pálpebras de seus olhos fixos e apagados tomaram uma cor lívida, e não mais se fecharam para permitir repouso aos membros deslocados, que uma cárie secreta começava a roer como aos do árabe Job, embora Job jamais tivesse tido semelhante doença.
O cirurgião-mor do regimento, homem de grande experiência, foi obrigado a pedir auxilio à Corte, para curar todas as raparigas da região. O ministro da guerra, sempre inclinado a aliviar o belo sexo, enviou uma leva de recrutas, que estragaram com uma das mãos o que endireitaram com a outra.
O homem dos quarenta escudos lia então a história filosófica de Cândido, traduzida do alemão e de autoria do doutor Ralph, que prova evidentemente que tudo está bem, e que era absolutamente impossível, no melhor dos mundos possíveis que a sífilis, a peste, os cálculos, as areias, as escrófulas, a câmara de Valência e a Inquisição não entrassem na composição do universo, desse universo unicamente feito para o homem, rei dos animais, e imagem de Deus, ao qual bem se vê que se assemelha como duas gotas d'água.
Lia, na história verdadeira de Cândido, que o famoso doutor Pangloss perdera no tratamento um olho e uma orelha.
— Ai! e as minhas primas, as minhas pobres primas, ficarão também tortas e desorelhadas?
— Não – disse-lhe o major, confortadoramente. – Os alemães têm mão pesada; mas, quanto a nós, curamos as raparigas prontamente, seguramente e agradavelmente.
E, com efeito, as duas lindas primas livraram-se do mal ficando com .a cabeça inchada como um balão durante seis semanas, perdendo metade dos dentes, botando uma língua de meio palmo, e morrendo do peito ao cabo de seis meses.
Durante a operação, o primo e o cirurgião-mor assim discorreram:

O Homem dos Quarenta Escudos: – Será possível, senhor, que a natureza tenha unido tão espantosos tormentos a um prazer tão necessário, tanta vergonha a tanta glória, e que haja mais riscos em fazer um filho do que em matar um homem? Será ao menos verdade, para consolação nossa, que esse mal vai diminuindo um pouco pelo mundo e cada dia se torna menos perigoso?
O Cirurgião-mor: – Pelo contrário, alastra-se cada vez mais por toda a Europa cristã; está disseminado até a Sibéria; vi morrer disso quinhentas pessoas, inclusive um grande general e um excelente ministro. São poucos os fracos do peito que resistem à doença e ao remédio. As duas irmãs, la petite et la grosse, coligaram-se ainda mais que os monges para destruir o gênero humano.
O Homem dos Quarenta Escudos: – Mais uma razão para abolir os monges, a fim de que, recolocados entre os homens, eles reparem um pouco o mal que fazem as duas irmãs. E diga-me uma coisa: os animais. também têm vérole?
O Cirurgião: – Ni la petite, ni la grosse, nem os monges são conhecidos entre eles.
O Homem dos Quarenta Escudos: – Convenhamos então que são mais felizes e mais prudentes do que nós no melhor dos mundos.
O Cirurgião: – Disso eu nunca duvidei; tem menos doenças do que nós; seu instinto é muito mais seguro do que a nossa razão: jamais se atormentam com o passado nem com o futuro.
O Homem dos Quarenta Escudos: – O senhor que já foi cirurgião do embaixador francês na Turquia: há muita sífilis em Constantinopla?
O Cirurgião: – Os franceses trouxeram-no para o bairro de Pera, onde residem. Conheci ali um capuchinho que estava devorado por ela como Pangloss; mas o flagelo não alcançou a cidade propriamente dita, onde os franceses quase nunca dormem. Não há quase mulheres públicas naquela enorme cidade. Cada homem rico tem mulheres, escravas circassianas, sempre guardadas, sempre vigiadas, e cuja beleza não pode ser perigosa. Os turcos chamam à sífilis o mal cristão, o que redobra o profundo desprezo que dedicam à nossa teologia. Mas, em compensação. têm a peste, doença do Egito, de que fazem pouco caso e que nunca se dão ao trabalho de prevenir.
O Homem dos Quarenta Escudos: – Em que tempo julga ter começado esse flagelo na Europa?
O Cirurgião: – Pelo ano de 1494, quando Cristóvão Colombo regressou da sua primeira viagem às nações inocentes que não conheciam nem a avareza nem a guerra. Aquelas nações simples e justas estavam contaminadas desse mal desde tempos imemoriais, como a lepra reinava entre os árabes e os judeus, e a peste entre os egípcios. O primeiro fruto que colheram os espanhóis, dessa conquista do novo mundo, foi a sífilis; expandiu-se mais rapidamente que a prata do México, que só circulou na Europa muito tempo depois. A razão era que, em todas as cidades, havia então belas casas públicas, chamadas bordéis, cujo estabelecimento era autorizado pelos soberanos para preservar a honra das damas. Os espanhóis trouxeram o veneno para essas casas privilegiadas de onde os príncipes e bispos requisitavam as raparigas que lhes eram necessárias. Havia em Constança setecentas e dezoito dessas mulheres, para o serviço do Concílio que tão devotadamente mandou queimar João Huss e Jerônimo de Praga.
Só por isso se pode julgar com que rapidez o mal percorreu todos os países. O primeiro senhor que veio a morrer desse mal foi o ilustríssimo e reverendíssimo bispo e vice-rei da Hungria, em 1499, e que Bartolomeu Montanagua, grande médico de Praga, não pode salvar. Assegura Gualtieri que o arcebispo de Mogúncia, Bertold de Henneberg, attaqué de la grosse vérole, rendit son âme à Dieu en 1504. Sabe-se que disso morreu o nosso rei Francisco I, Henrique III o adquiriu em Veneza, mas o jacobino Jacques Clément preveniu os efeitos do mal.
O parlamento de Paris, sempre zeloso do bem público, foi o primeiro que baixou um édito contra a sífilis, isso em 1497. Proibiu a todos os contaminados que permanecessem em Paris, sous peine de la hart. Mas, como não. era fácil convencer juridicamente os burgueses e burguesas de que estavam em delito, não teve esse édito maior efeito do que aqueles que foram depois baixados contra a emética; e, apesar do parlamento, continuava aumentando o número de culpados. É verdade que, se os tivessem exorcismado em vez de enforcá-los, não mais os haveria hoje sobre a face da terra; mas infelizmente nunca se pensou em tal coisa
.
O Homem dos Quarenta Escudos: – É então verdade o que li no Cândido, que, entre nós, quando entram em campo dois exércitos de trinta mil homens cada um, pode-se apostar que há vinte mil contaminados de cada banda?
O Cirurgião: – Nada mais verdadeiro. O mesmo acontece com o pessoal da Sorbona. Que quer que façam jovens bacharéis a quem a natureza fala mais alto e mais firme do que a teologia? Posso-lhe jurar que, guardadas as proporções, meus confrades e eu temos tratado mais jovens sacerdotes do que jovens oficiais.
O Homem dos Quarenta Escudos: – Não haveria algum meio de extirpar esse mal que assola a Europa? Já se tratou de enfraquecer o veneno de uma vêrole; nada se poderá tentar contra a outra?
O Cirurgião: – Só haverá um meio: é que todos os príncipes da Europa se coligassem como nos tempos de Godofredo de Bulhão. Certamente uma cruzada contra a sífilis seria muito mais razoável do que aquelas que outrora tão infelizmente se fizeram contra Saladino, Melecsala e os albigenses. Melhor seria nos combinarmos para expulsar o inimigo comum do gênero humano do que andarmos continuamente a espiar o momento azado para devastar a terra e cobrir os campos de cadáveres, com o fim de arrebatar ao vizinho duas ou três cidades e algumas aldeias. Falo contra os meus próprios interesses, pois a guerra e a sífilis me fazem viver; mas cumpre ser homem antes de ser cirurgião-mor.

Era assim que o homem dos quarenta escudos ia formando, como se diz, o espírito e o coração. Não só herdou das duas primas, que morreram em seis meses, mas ainda lhe coube a sucessão de um parente afastado, que fora sub-arrendatário dos hospitais do exército, e que engordara bastante pondo em dieta os soldados feridos. Esse homem jamais quisera casar-se; possuía um belo serralho. Não reconheceu nenhum de seus parentes, viveu na crapulagem, e morreu de indigestão em Paris. Era, como se vê, um homem muito útil ao Estado.
O nosso novo filósofo viu-se obrigado a ir a Paris receber a herança do parente. Primeiro os rendeiros do domínio lha disputaram. Teve a felicidade de ganhar o processo e a generosidade de dar aos pobres do cantão, que não haviam conseguido o seu quinhão de quarenta escudos de renda, uma parte dos despojos do ricaço. Depois do que, pôs-se a satisfazer a sua grande ambição de formar uma biblioteca.
Lia todas as manhãs, fazia excertos, e à noite consultava os sábios para saber: em que língua falara a serpente à nossa boa mãe; se a alma está localizada no corpo caloso ou na glândula pineal; se S. Pedro permanecera vinte e cinco anos em Roma; que diferença específica existe entre um trono e uma dominação; e por que motivo os negros têm nariz chato. Propôs-me, aliás, jamais governar o Estado e nunca escrever brochuras contra as peças novas. Chamavam-no o senhor André, que era o seu nome de batismo. Aqueles que o conheceram fazem justiça à sua modéstia e às suas qualidades, tanto adquiridas como naturais. Construiu uma casa confortável no seu antigo domínio de quatro jeiras. Seu filho alcançará em breve a idade escolar, mas ele quer mandá-lo para o colégio de Harcourt e não para o de Mazarino, devido ao professor Coger, que faz libelos, e porque um professor de colégio não os deve fazer.
Madame André deu-lhe uma filha bastante bonita, que ele pretende casar com um conselheiro, desde que esse magistrado não tenha a doença que o cirurgião-mor tenciona extirpar da Europa cristã.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Voltaire - O Homem dos Quarenta Escudos

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Corcunda Quasímodo em “Notre Dame de Paris”

Em O Corcunda de Notre Dame, como é popularmente conhecido o livro Notre Dame de Paris (1831), de autoria do romancista francês Victor Hugo, encontramos no capítulo V do livro primeiro o seguinte trecho:

Não tentaremos dar ao leitor uma idéia desse nariz tetraédrico, dessa boca recurva como uma ferradura; desse pequenino olho esquerdo obstruído por uma sobrancelha ruiva e áspera como tojo, enquanto o olho direito desaparecia completamente sob a enorme verruga, dessa dentadura desordenada, aqui e além brechada, como as ameias de um forte; desse lábio caloso, por sobre o qual avança um desses dentes como uma presa de elefante; desse queixo fendido; e principalmente da fisionomia diluída sobre tudo isto; desse misto de malícia, de estranheza ou de mágoa [...] Uma cabeça gigantesca, erriçada de uma cabeleira ruiva; entre os dois ombros uma bossa enorme que, com o movimento, fazia vulto por diante; um sistema de coxas e pernas tão singularmente descambadas que apenas se podiam aproximar pelos joelhos e que, vistas de frente, pareciam duas lâminas recurvas de foice, unidas pelo cabo; pés largos, mãos monstruosas [...] Dir-se-ia um gigante despedaçado e inabilmente recomposto.[...] Quasímodo não respondeu; Era, com efeito, surdo. (Victor Hugo, 1831).

Observando a descrição detalhada que o autor faz a respeito de Quasímodo, é evidente supor que a grave deformidade física do personagem central deve-se as manifestações da sífilis congênita tardia:

Nariz Sifilítico ou em Sela“Nariz tetraédrico”
Microftalmia - “ pequenino olho esquerdo”
Ptose palpebral - “o olho direito desaparecia completamente sob a enorme verruga”
Fronte olímpica“Uma cabeça gigantesca”
Dentes de Hutchinson“dentadura desordenada, aqui e além brechada”
Cifose “entre os dois ombros uma bossa enorme que, com o movimento, fazia vulto por diante”
Genu Valgum“Um sistema de coxas e pernas tão singularmente descambadas que apenas se podiam aproximar pelos joelhos e que, vistas de frente, pareciam duas lâminas recurvas de foice, unidas pelo cabo.”
Acromegalia “Pés largos, mãos monstruosas”
Surdez neurológica - “Era, com efeito, surdo.”

REFERÊNCIAS:
1.HUGO, Victor "Nossa Senhora de Paris", EDIGRAF, São Paulo, 1958.
2,SARACENI, Valéria "A sífilis, a gravidez e a sífilis congênita",2005
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