William Little (1810-1894), sofrendo das sequelas de uma poliomielite que lhe paralisara a perna esquerda, estudou Medicina acreditando que assim poderia tratar-se e curar-se. Anos depois, ao tornar-se especialista em cirurgia ortopédica, sustentava a possibilidade de descrever a etiologia dos transtornos motores cerebrais em crianças.
Não encontrando trabalhos científicos anteriores em que basear-se, recorreu a William Shakespeare (1564-1616).
Veio-lhe então à memória um fragmento de A Tragédia de Ricardo III (1593), onde o personagem Ricardo profere sua deficiência física e dificuldade de marcha, em associação com antecedentes de asfixia perinatal e prematuridade:
Eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto deles. (Ato I, cena: I)
Também na obra, Lady Anne, viúva do príncipe de Gales, assim amaldiçoou Ricardo:
Se alguma vez tiver um filho, que nasça malformado, estranho, fora do tempo, que o seu aspecto feio e monstruoso assuste a esperançosa mãe, quando o vir; e que lhe herde a desventura. (Ato I, cena: II).
Segundo o poeta, o nascimento “fora do tempo” ocasionaria uma condição defeituosa também no filho do prematuro Ricardo.
Valorizando a descrição de Shakespeare, Little relacionou as complicações obstétricas – principalmente relacionadas à prematuridade – ao déficit de desenvolvimento motor em crianças. O cirurgião passou a observar a frequência dos problemas perinatais, postulando que os defeitos motores dependiam de maneira direta de dificuldades no momento do parto.
Em 1843, o cirurgião sugeriu à comunidade científica que havia uma associação entre a paralisia cerebral e a anoxia neonatal. Seus primeiros artigos aceitos pela Lancet, em 1844 e 1861, descreviam suas observações sobre um grupo de crianças com anormalidades do tônus muscular e desenvolvimento, além de versar sobre a rigidez espástica das extremidades nos neonatos. Muitas destas crianças, de fato, tinham antecedentes de complicações no parto.
O ponto alto foi o artigo publicado em 1862 “Da influência do parto normal, dificuldades do parto, parto prematuro e asfixias do neonato e sobre o estado mental e físico da criança, principalmente no concernente a deformidades”.
Little ocupou-se intensamente com o estudo da espasticidade, descrevendo pela primeira vez o que hoje chamamos de paralisia cerebral, na forma de diplegia espastica, que passou a chamar-se doença de Little.
A partir daí, o transtorno motor por lesão cerebral foi doença com que se ocuparam neurologistas e ortopedistas, a fim de melhorar as possibilidades cirúrgicas indicadas por Little.
Freud, após conhecer o trabalho de Little, descreveu em várias monografias a diplegia espástica, entretanto, especulou que as dificuldades perinatais eram resultados de anormalidades preexistentes no feto. O pai da psicanálise foi quem sugeriu, em 1897, a expressão "paralisia cerebral".
Define-se como Paralisia Cerebral (PC) um déficit motor central não progressivo que se origina em eventos nos períodos pré-natal ou perinatal. O mais comum evento etiológico é a anoxia cerebral; Outra causa comum seria o trauma mecânico cerebral ao nascimento.
A forma espástica (cuja lesão é localizada no trato piramidal), é encontrada em 88% dos casos.
A PC classifica-se, pela topografia da lesão, como tetraplegia, monoplegia, diplegia e hemiplegia.
Flexão e rotação interna dos quadris, flexão dos joelhos e equinismo são as deformidades mais freqüentes nas crianças que adquirem marcha. Quando a adução dos quadris é acentuada, conduz ao cruzamento das pernas (pernas em tesoura). Os reflexos tendinosos são ativos, às vezes com um prolongado clonus do pé. São comuns a contratura dos tendões dos calcanhares, limitações dos quadris em abdução e rotação externa, e limitação dos antebraços em extensão e supinação.
Atualmente, sabe-se que quando a lesão causadora da PC atinge a porção do trato piramidal responsável pelos movimentos das pernas, localizada em uma área mais próxima dos ventrículos, a forma clínica é a diplegia espástica (doença de Little), na qual o envolvimento dos membros inferiores é maior do que dos membros superiores. A região periventricular é muito vascularizada e os prematuros, por causa da imaturidade cerebral, com muita frequência apresentam hemorragia nesta área.
Desprovido de embasamento científico, mas empregando seu transcendente poder observacional, Shakespeare foi quem primeiramente associou o déficit motor às condições de nascimento.
REFERÊNCIAS:
1.LEITE, J. PRADO, G. “Paralisia cerebral Aspectos Fisioterapêuticos e Clínicos”. Revista neurociências. Volume 12 - n°1 – 2004.
2.Muzaber, F.L. Schapira, I. “PARÁLISIS CEREBRAL Y EL CONCEPTO BOBATH DE NEURODESARROLLO”. Rev. Hosp. Mat. Inf. Ramón Sardá 1998, vol. 17, Nº 2.
3.Flehmig, Inge. “Texto e atlas do desenvolvimento normal e seus desvios no lactente: diagnóstico e tratamento precoce do nascimento até o 18 mês”. São Paulo: editora Atheneu,2000.
4. Paralisia Cerebral: Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação.: http://www.sarah.br/paginas/doencas/po/p_01_paralisia_cerebral.htm
Mostrando postagens com marcador Ginecologia e Obstetrícia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ginecologia e Obstetrícia. Mostrar todas as postagens
sábado, 4 de agosto de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
Câncer de mama em obra de Rembrandt
Exposta no Louvre, O Banho de Betsabé é uma famosa obra do pintor barroco Rembrandt van Rijn (1606-1669):
A pintura retrata a cena bíblica em que o Rei Davi observa Betsabé nua, e a envia uma carta exigindo sua presença no palácio. A figura feminina expressa tristeza e resignação ao invés de prazer.
De acordo com um cirurgião italiano, Rembrandt registrou na mama esquerda de sua esposa e modelo Hendrickje Stoffels, sinais de câncer de mama, como retração na pele, assimetria mamária, alteração da cor e linfadenomegalia axilar.
Devido as alterações sugestivas de neoplasia tanto na mama quanto na axila da modelo representada por Rembrandt, o quadro ilustra a capa do livro Women, Cancer and History, de autoria de James S Olson.
Outros possíveis diagnósticos sugeridos são tuberculose da glândula mamária e mastite puerperal ou da lactação.
Após a conclusão de O Banho de Betsabé Hendrickje viveu durante nove anos, envidencia-se em outras pinturas uma deterioração física de sua saúde ao longo deste período. A esposa de Rembrandt faleceu em 1663. Alguns registros históricos afirmam que ela morreu vítima de tuberculose, outros creem ser mais plausível considerar como causa mortis a disseminação de uma neoplasia mamária.
REFERÊNCIAS:
1.Bourne RG. Did Rembrandt’s Bathsheba really have breast cancer?. Aust N Z J Surg. 2000;70:231–23.
2.Masuda, H. Nemoto, N. “Rembrandt’s Bathsheba, possible lactation mastitis following unsuccessful pregnancy.”Medical Hypotheses. Volume 66, Issue 6 , Pages 1240-1242 , 2006.
![]() |
| O Banho de Betsabé (1654). Rembrandt van Rijn. Óleo sobre tela, 142cm x 142cm. Museu do Louvre (Paris). |
De acordo com um cirurgião italiano, Rembrandt registrou na mama esquerda de sua esposa e modelo Hendrickje Stoffels, sinais de câncer de mama, como retração na pele, assimetria mamária, alteração da cor e linfadenomegalia axilar.
![]() |
| Detalhe evidenciando deformidades na mama esquerda. |
Outros possíveis diagnósticos sugeridos são tuberculose da glândula mamária e mastite puerperal ou da lactação.
Após a conclusão de O Banho de Betsabé Hendrickje viveu durante nove anos, envidencia-se em outras pinturas uma deterioração física de sua saúde ao longo deste período. A esposa de Rembrandt faleceu em 1663. Alguns registros históricos afirmam que ela morreu vítima de tuberculose, outros creem ser mais plausível considerar como causa mortis a disseminação de uma neoplasia mamária.
REFERÊNCIAS:
1.Bourne RG. Did Rembrandt’s Bathsheba really have breast cancer?. Aust N Z J Surg. 2000;70:231–23.
2.Masuda, H. Nemoto, N. “Rembrandt’s Bathsheba, possible lactation mastitis following unsuccessful pregnancy.”Medical Hypotheses. Volume 66, Issue 6 , Pages 1240-1242 , 2006.
Marcadores:
#PINTURA,
Ginecologia e Obstetrícia,
Oncologia
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O parto cesariana na mitologia
A primeira cesariana relatada na história tem como protagonista a ninfa Coronis. Deste parto nasceu o deus da Medicina, Asclépio (para os gregos) ou Esculápio (para os romanos), filho de Apolo.
Coronis estava prometida ao seu primo Ísquis, mas, por conta de uma desmedida paixão, engravidou de Apolo.Um corvo conta a Ísquis sobre a traição de Coronis . Solidária com o sofrimento de seu irmão Ísquis, a deusa Artemis condena Coronis à morte pelo fogo. Apolo, vendo Coronis na pira fatal, retira o filho do ventre materno.
Assim, o deus da Medicina seria o fruto da primeira cesariana realizada no mundo. Ele foi criado pelo centauro Quiron (metade cavalo, metade homem) que lhe ensinou a arte de curar. Temendo que Esculápio, por sua inteligência e habilidade médica, tornasse todos os homens imortais, Zeus (Júpiter) fulminou-o com um raio.
O imperador Júlio César promulgou uma lei determinando que, diante da possibilidade do óbito da mãe e do concepto durante o trabalho de parto, o médico ficasse de sobreaviso e, assim que ocorresse a morte materna, estaria autorizado a abrir o ventre e salvar a criança. Por causa dessa determinação do imperador, espalhou-se erroneamente pelo mundo a idéia de que a operação cesariana tenha recebido este nome porque o imperador nascera deste tipo de parto.
REFERÊNCIAS:
1.O Livro de Ouro da Mitologia – Thomas Bulfinch
2. BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
![]() |
| Gravura medieval: O nascimento de Esculápio. |
Assim, o deus da Medicina seria o fruto da primeira cesariana realizada no mundo. Ele foi criado pelo centauro Quiron (metade cavalo, metade homem) que lhe ensinou a arte de curar. Temendo que Esculápio, por sua inteligência e habilidade médica, tornasse todos os homens imortais, Zeus (Júpiter) fulminou-o com um raio.
O imperador Júlio César promulgou uma lei determinando que, diante da possibilidade do óbito da mãe e do concepto durante o trabalho de parto, o médico ficasse de sobreaviso e, assim que ocorresse a morte materna, estaria autorizado a abrir o ventre e salvar a criança. Por causa dessa determinação do imperador, espalhou-se erroneamente pelo mundo a idéia de que a operação cesariana tenha recebido este nome porque o imperador nascera deste tipo de parto.
REFERÊNCIAS:
1.O Livro de Ouro da Mitologia – Thomas Bulfinch
2. BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
Marcadores:
#OUTROS,
Ginecologia e Obstetrícia,
Mitologia
quarta-feira, 8 de junho de 2011
"O Cisne Negro", de Thomas Mann: Clássico da literatura alemã cuja protagonista tem câncer de ovário
A cidade de Dusseldorf, às margens do Rio Reno, serviu como cenário para que o romancista alemão Thomas Mann desenhasse a dramática história de uma viúva na pós-menopausa acometida por um tumor metastático ovariano.
Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é marcado como o último grande trabalho concluído por Thomas Mann.
Em determinado momento do romance, a protagonista, Rosália von Tummler, percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:
REFERÊNCIAS:
1.MANN, Thomas. "O Cisne Negro". Trad: Domingos Monteiro.
2.Thomas Mann’s last novella “The Black Swan”: the tragic story of a post-menopausal woman. PMID: 15063972. PubMed.
Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é marcado como o último grande trabalho concluído por Thomas Mann.
Em determinado momento do romance, a protagonista, Rosália von Tummler, percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:
Voltei a ser mulher, um ser completo, uma mulher que reencontrou as suas aptidões. É-me permitido, portanto, sentir-me digna da juventude viril que me enfeitiçou e perante ela já não tenho que baixar os olhos com um sentimento de impotência!Tragicamente, a realidade é que as mudanças que a principio a encantam, são decorrentes dos efeitos hormonais do tumor ovariano das células granulosas produtoras de estrogênio:
O toque bimanual revelou ao Dr. Mutthesius um útero demasiado volumoso em relação à idade da doente e, seguindo a trompa, um tecido irregularmente espessado. Em vez dum ovário, já muito pequeno, um tumor informe. A Biópsia acusou células neoplásicas que, seguindo a sua natureza, provinham do ovário, mas outras células permitiram estabelecer que no próprio útero, células mães cancerosas estavam em pleno desenvolvimento. Tudo isso denotada a progressão rapidíssima do mal funesto.O tumor das células granulosas representa cerca de 1 a 3% de todas as neoplasias ovarianas. Quando acomete mulheres na faixa etária da menopausa, manifesta-se comumente com sangramento genital pós-menopausa e hiperplasia endometrial. Em Rosália, a descoberta do tumor faz-se em um estágio demasiado avançado, quando já estabelecido o processo de metastatização, ao que ela rapidamente sucumbe:
O momento propício para fazer a operação tinha manifestamente passado havia muito tempo. Não só todos os órgãos da bacia estavam em plena degenerescência, mas também o peritônio apresentava, mesmo a olho nu, a mortífera aglomeração de células. Todos os gânglios do sistema linfático estavam espessados pelo carcinoma. Com toda a evidência, o fígado devia ter igualmente núcleos de células cancerosas.Nesse trabalho, Mann, como um clássico novelista, oferece uma estimulante e agradável experiência de leitura, onde há um grande potencial para aprofundamento da compreensão da condição humana. O retrato psicológico do ser humano e a complexidade de cada personagem desafiam o entendimento do leitor. Por tratar repetidamente da morte e da doença, o autor chama a atenção para as questões existenciais da vida. Suas histórias são indubitavelmente uma atraente opção para o profissional médico.
REFERÊNCIAS:
1.MANN, Thomas. "O Cisne Negro". Trad: Domingos Monteiro.
2.Thomas Mann’s last novella “The Black Swan”: the tragic story of a post-menopausal woman. PMID: 15063972. PubMed.
Marcadores:
#LITERATURA,
Ginecologia e Obstetrícia,
Oncologia
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O parto de Maria segundo Saramago
O texto abaixo é de autoria do Dr. Geraldo Roger Normando Jr. que, leitor deste blog, teve a consideração de avisar-me que havia um trecho em O evangelho segundo Jesus Cristo, onde o genial escritor português José Saramago descreve o nascimento de Cristo. Propus para o Dr. Roger Normando que sua análise literária fizesse parte do “A Arte da Medicina”. Ele generosamente aceitou publicá-lo aqui. Dotado de uma qualidade admirável, considero uma honra apresentar-lhes tão surpreendente e enriquecedor texto.
Geraldo Roger Normando Jr., Professor do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Pará
O escritor José Saramago nasceu numa aldeiazinha portuguesa (Azinhaga, Golegã, 1922). Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa, em razão da sua densa produção. Foi exaustivamente perseguido pela igreja católica até se mudar de Lisboa. Motivo: O evangelho segundo Jesus Cristo.
Sobre o conteúdo do romance e relacinando-o ao título do texto, o autor relata o final do período gestacional de Maria com muita resignação, percebida pelas andanças na moleira de um burro, no sentido Nazaré-Jerusalém-Belém, na companhia do carpinteiro José. O trabalho de parto se inicia em Jerusalém, pelos sinais de contração uterina contido silenciosamente no trejeito de Maria lidar com aos espasmos uterinos:
E dá-se, então o nascimento de Jesus Cristo:
Nota-se a simplicidade franciscana que cobre todo ambiente. No celeiro feito de madeira, um burro e um boi (delineado atrás do burro) compõem a imagem do fundo. Há resíduos de palha pelo chão, enquanto em uma cesta da Santa Família se vê um pedaço de pão, as ferramentas de José e algumas peças de roupa.
José (vestindo vermelho, como Maria) introduz os pastores (à direita). Maria mantêm o menino em seu aconchego e, afora as duas auréolas, apenas o jovem semi desnudo, ajoelhado e com as mãos cruzadas, dão ao momento um significado especial, no meio da pobreza (Fonte:Web Gallery of art).
Referências:
1.Lopes, JM. Saramago - Biografia. Leya. 2010.
2.Saramago J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. Companhia das letras, 1991
Geraldo Roger Normando Jr., Professor do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Pará
O escritor José Saramago nasceu numa aldeiazinha portuguesa (Azinhaga, Golegã, 1922). Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa, em razão da sua densa produção. Foi exaustivamente perseguido pela igreja católica até se mudar de Lisboa. Motivo: O evangelho segundo Jesus Cristo.
Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres.O grifo acima é apenas uma biopsia da obra - não a mais famosa, decerto a mais farpante. Saramago descreve todos os passos de Jesus calcado num aspecto humanístico contundente, contornado por uma narrativa visceral, como se percebe, bastante distante dos evangelhos. Alguns críticos outorgam como irônico. No bojo, é um diálogo distante dos clichês clericais, pois escancara a fragilidade e vulnerabilidade de Jesus, a começar pelo nascimento, quando, sequer, cita a data natalina. Certamente a chave para harmonizar este romance com o mundo cristão fizeram Igreja, católicos e Governantes de seu País protestarem de forma voraz. Saramago se viu obrigado a partir do continente e passou a residir nas Ilhas Canárias, onde permaneceu até a sua morte (Lanzarote, 18 de Junho de 2010).
Sobre o conteúdo do romance e relacinando-o ao título do texto, o autor relata o final do período gestacional de Maria com muita resignação, percebida pelas andanças na moleira de um burro, no sentido Nazaré-Jerusalém-Belém, na companhia do carpinteiro José. O trabalho de parto se inicia em Jerusalém, pelos sinais de contração uterina contido silenciosamente no trejeito de Maria lidar com aos espasmos uterinos:
Quando já estavam a porta da cidade, Maria não pode reter um grito de dor, mas este lancinante, como se uma lança tivesse traspassado(...). E amanhã irei a Belém (diz José), ao recenseamento, e direi que estás de parto, vais lá depois se preciso, que não sei como são as leis dos romanos, e Maria respondeu, Já não sinto dores, e assim era, aquela lançada que a fizera gritar tornara-se um picar de espinho.Com as dores de Maria abrandadas, José, agora aliviado, consegue chegar a Belém e começa a procurar um aconchego onde Maria pudesse dar a luz:
Apoquentava a perspectiva de ter de procurar um lugar no labirinto das ruas de Jerusalém em circunstancia de tanta aflição a mulher em doloroso trabalho de parto, e ele, como qualquer outro homem, apavorado a responsabilidade, mas sem o querer confessar. Chegando a Belém, pensava, que em tamanho e importância não diferirá muito de Nazaré, as coisas serão certamente mais fáceis, sabido como e que nas povoações pequenas, onde todos se conhecem, a solidariedade costuma a ser uma palavra menos vã. Se Maria já não se queixa, ou é que lhe passaram as dores, ou é que consegue aguentá-las, num caso como no outro, tanto faz, ala para Belém.No rumo de Belém, eles vão acompanhados de uma parteira (escrava), que muito se preocupa com riscos de contaminação puerperal, num tempo ulterior aos miasmas de Semelweiss (1846) e às descobertas de Lister (1860) - em plena contra-mão da evolução histórica da infectologia. No final do parágrafo, Saramago deixa escorrer, aos mais afeitos a sua biografia, a própria origem campestre, e engendra no pensamento de quem o lê, a sensação de que o mesmo acontecera naquela aldeiazinha de Portugal.
A escrava Zelomi, que esse é o seu nome, vai à frente guiando os passos, e leva um pote com brasas para o lume, uma caiçola de barro para aquecer a água, sal para esfregar o recém-nascido, não vá apanhar alguma infecção. E como de panos vem Maria servida e a faca com que se há-de cortar o cordão umbilical trá-la José no seu alforge, se Zelomi não preferir cortá-lo com os dentes, já a criança pode nascer, afinal um estábulo serve tão bem como uma casa, e só quem nunca teve a felicidade de dormir numa manjedoura ignora que nada há no mundo que se pareça mais que um berço.Chama-se atenção que a posição e as dores do parto de Maria eram iguais às de todas as outras mulheres:
Entrou a escrava, disse uma palavra animadora, Coragem, depois pôs-se de joelhos entre as pernas abertas de Maria, que assim têm de estar abertas as pernas das mulheres para o que entra e para o que sai, Zelomi [a escrava] já perdera o conto às crianças que vira nascer, e o padecimento desta pobre mulher é igual ao de todas as outras mulheres, Como foi determinado pelo senhor Deus quando Eva errou por desobidiência, Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e a agonia.Já na cidade de Belém, eis o trabalho de parto, enfim, se concretizando:
Viemos de Nazaré de Galileia ao recenseamento, na hora que chegamos cresceram-lhe as dores, e agora está nascendo.
E dá-se, então o nascimento de Jesus Cristo:
O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto. Zelomi saiu fora a enterrar as secundinas, ao tempo que José se vem aproximando. Ela espera que ele entre e deixa-se ficar, respirando a brisa fresca do anoitecer.Posteriormente três pastores chegam ao estábulo. Maria, encostada e ainda adormecida, desperta e ouve cada um deles, ao lado da manjedoura, onde descansa o rebento (Caravaggio, 1609):
O primeiro pastor avançou e disse, Com estas minhas mãos mungi as minhas ovelhas e recolhi o leite delas. Maria, abrindo os olhos, sorriu. Adiantou-se o segundo pastor e disse, por sua vez, Com estas minhas mãos trabalhei o leite e fabriquei o queijo. Maria acenou com a cabeça e voltou a sorrir. Então, o terceiro pastor chegou-se para diante, num momento pareceu que enchia a cova com a sua grande estatura, e disse, mas não olhava nem o pai nem a mãe da criança nascida, Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi. E Maria soube quem ele era.
Nota-se a simplicidade franciscana que cobre todo ambiente. No celeiro feito de madeira, um burro e um boi (delineado atrás do burro) compõem a imagem do fundo. Há resíduos de palha pelo chão, enquanto em uma cesta da Santa Família se vê um pedaço de pão, as ferramentas de José e algumas peças de roupa.José (vestindo vermelho, como Maria) introduz os pastores (à direita). Maria mantêm o menino em seu aconchego e, afora as duas auréolas, apenas o jovem semi desnudo, ajoelhado e com as mãos cruzadas, dão ao momento um significado especial, no meio da pobreza (Fonte:Web Gallery of art).
Imagem: A adoração dos pastores - Caravaggio - 1609
Referências:
1.Lopes, JM. Saramago - Biografia. Leya. 2010.
2.Saramago J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. Companhia das letras, 1991
Marcadores:
#LITERATURA,
Ginecologia e Obstetrícia
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Agnódice: A Primeira Médica Relatada na História
Agnodice ou Agnodike (IV a. C), a mais antiga mulher a ser mencionada pelos gregos, tencionava fortemente ser médica. Natural de Atenas, aonde havia proibição legal para mulheres estudarem medicina, Agnódice viajou a Roma a fim de aprender a fazer partos e, dedicando-se principalmente ao estudo da obstetrícia e da ginecologia, obteu conhecimentos básicos sobre a saúde da mulher.
Desejando voltar a seu país e nele colocar em prática os conhecimentos adquiridos em Roma, a solução para tonar-se impune foi radical: Agnódice voltou à Grécia com os cabelos curtos e travestida de homem, sentindo-se dessa forma segura para exercer a medicina.
Arte em relevo. Agnódice: médica diante do areópago. Medalhão exposto na nova Faculdade de Medicina (Paris).
Quando começou a atuar, com muito sucesso, atraiu muitos clientes, despertando assim o ciúme de outros médicos. Raivosos com Agnódice e acreditando que fosse realmente homem, eles a acusaram falsamente de estar praticando atos libidinosos com as pacientes.
Levada ao tribunal (areópago), ela tentou se defender da falsa acusação; porém, quando percebeu que seria condenada à morte, despiu-se diante do juiz e dos jurados. Atitude extrema causou em todos grande surpresa e comoção. Além disso, várias de suas pacientes declararam em frente ao templo que se ela fosse executada, iriam morrer com ela. O juiz reconheceu a injustiça que estava sendo cometida contra Agnódice, livrou-a da acusação e promulgou uma lei determinando que, a partir daquele momento, as mulheres teriam o direito de praticar a medicina na Grécia.
Graças à ousada e corajosa atitude de Agnódice, as mulheres hoje são maioria na profissão.
REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2.Greenhill, William Alexander (1867), "Agnodice", in Smith, William, Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology, 1, Boston: Little, Brown and Company
3. Wikipédia: Agnodice
Desejando voltar a seu país e nele colocar em prática os conhecimentos adquiridos em Roma, a solução para tonar-se impune foi radical: Agnódice voltou à Grécia com os cabelos curtos e travestida de homem, sentindo-se dessa forma segura para exercer a medicina.
Arte em relevo. Agnódice: médica diante do areópago. Medalhão exposto na nova Faculdade de Medicina (Paris).Quando começou a atuar, com muito sucesso, atraiu muitos clientes, despertando assim o ciúme de outros médicos. Raivosos com Agnódice e acreditando que fosse realmente homem, eles a acusaram falsamente de estar praticando atos libidinosos com as pacientes.
Levada ao tribunal (areópago), ela tentou se defender da falsa acusação; porém, quando percebeu que seria condenada à morte, despiu-se diante do juiz e dos jurados. Atitude extrema causou em todos grande surpresa e comoção. Além disso, várias de suas pacientes declararam em frente ao templo que se ela fosse executada, iriam morrer com ela. O juiz reconheceu a injustiça que estava sendo cometida contra Agnódice, livrou-a da acusação e promulgou uma lei determinando que, a partir daquele momento, as mulheres teriam o direito de praticar a medicina na Grécia.
Graças à ousada e corajosa atitude de Agnódice, as mulheres hoje são maioria na profissão.
REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2.Greenhill, William Alexander (1867), "Agnodice", in Smith, William, Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology, 1, Boston: Little, Brown and Company
3. Wikipédia: Agnodice
Marcadores:
#OUTROS,
Ginecologia e Obstetrícia,
História da Medicina
Assinar:
Postagens (Atom)





