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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Demência: Autorretratos de William Utermohlen

William (Bill) Utermohlen nasceu em 1933 numa família de imigrantes alemães no sul da Filadélfia.

Integrou a Academia de Belas Artes da Pensilvânia no periodo entre 1951-1957.
Viveu a maior parte da carreira artística em Londres, onde residia com sua esposa, Patricia, uma historiadora de arte.

Conversação. 1990. Óleo sobre tela.
Ironicamente, o acervo de Bill retrata preferencialmente comunicações interpessoais – anos mais tarde prejudicada no artista devido ao declínio das habilidades comunicativas provocado pela doença de Alzheimer – , sendo poderosamente sensoriais, com cores intensas e arranjos espaciais envolventes, amplificado as interações dos membros da composição.

Ao receber o diagnostico de doença de Alzheimer, em 1995, seu estilo mudou dramaticamente. Pinceladas mais espessas refletem um sentimento urgente e expressionista.

Bill inicia uma série de trabalhos expressando não mais a conexões entre seres, mas uma variedade de estados espontâneos de espírito, incluindo tristeza, raiva e resignação.

A obra de Bill oferece uma narrativa visual única da experiência subjetiva de um paciente que sofre de demência. O artista pinta as mudanças graduais que vivencia – alterações que não consegue mais transmitir em palavras.

Se por um lado o declínio cognitivo engessa seus gestos e linguagem limitando o contato externo material, por outro, a liberdade do espírito criativo interno amplia a proximidade humana através das emoções expressas em seus autorretratos:

Blue Skies. 1995.
Em Blue Skies (1995) o artista testemunha o anúncio de sua doença e seu declínio iminente . O diagnóstico desta morte psíquica, que ocorre antes da morte real, produz um medo profundo. O tempo parou. O exterior é vazio. Um buraco oblíquo encontra-se acima pronto para sugá-lo. Para não ser devorado pela escuridão, ele paira sobre a mesa como um náufrago em sua jangada, como um pintor amarrado em sua tela.

Broken Figure. 1996. 

O diagnóstico é claro. Os médicos agora estão testando a memória de Bill. Eles perguntaram-lhe se ele ainda sabe o dia, o mês, o ano, e o lugar em que está. Questionam se ele ainda pode memorizar uma lista de palavras, completar uma subtração simples, nomear objetos comuns, ou realizar a cópia de simples formas geométricas. A humilhação de não conseguir responder a estas perguntas simples quebra sua auto-confiança. Em breve, ele sente que não será capaz de responder quaisquer perguntas. Toda a esperança de uma cura ou mesmo uma estabilização da sua condição está perdida. Confrontado por seu próprio declínio, a queda em sua auto-estima é vertiginosa. O retrato mostra um “eu” fragmentado.

Autorretrato - 1996
Este autorretrato fixa uma imagem de si mesmo. Bill compartilha a experiência de viver com a doença de Alzheimer testemunhando, através de seu trabalho, sua verdade pungente - ele espreita o exterior atrás das grades da prisão.

Duplo Autorretrato. 1996

Sabendo agora que a fonte de sua doença é sua cabeça, ele se concentra no contorno de seu crânio, delineando duas vezes na cabeça que surge à esquerda. Seu olhar transparece carga e resignação; à direita, sua expressão é brava e machucada.

Máscara. 1996.

A pintura acima reflete a transição de ser para não-ser. O autor registra o instante em qual o “eu” se afasta do si mesmo, se derrete, deixando apenas silêncio para trás.

Autorretrato. 1997


Neste auto-retrato, a serra vertical, como uma lâmina de guilhotina, simboliza a aproximação de uma morte prefigurada. A divisão entre o que ele sente, o que ele gostaria de fazer ou dizer, e o que ele é realmente capaz de fazer é maior a cada dia. É um encontro com o “eu” desconhecido. Suas possibilidades de expressão já não são suficientes para expressar a natureza extrema de sua experiência.

Autorretrato (verde). 1997 

Dois anos após o diagnóstico, os autorretratos são distintamente diferentes. As formas são turvas. Motivação, atenção, memória e reconhecimento visual estão agora desorganizados e tornam as tarefas desajeitadas. Emoções são precisamente expressas – nota-se o sentimento de tristeza, ansiedade, resignação e impotência.

Autorretrato. 1998; Autorretrato, 1955.

Sozinho no estúdio, Bill quer experimentar novamente os velhos movimentos da pintura. Desta vez, ele inspira-se num antigo autorretrato, quando ele tinha 22 anos de idade. O autorretrato de 1998 mostra a mudança na arquitetura de sua psique. Sua cabeça está totalmente enquadrada pelo retângulo de seu cavalete. As linhas vermelhas e amarelas estreitam a constrição de sua cabeça e servem para desligar este último retrato de si mesmo.

Autorretrato Apagado, 1999. Cabeça, 2000. 

Cinco anos após o dianóstico, o artista pinta os últimos autorretratos. Neles surge a tentativa de estruturação de uma cabeça desmontada. O artista tenta evocar uma imagem primordial de si mesmo, mas o que emerge é algo estranho e ameaçador.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Demência de Alzheimer em "As Viagens de Gulliver" (1726)

Em 1906, Alois Alzheimer registrou na literatura médica a doença que leva seu nome. Entretanto, séculos atrás, observações sobre a demência já haviam sido relatadas não no universo científico, mas na literatura romântica.

A descrição das mudanças comportamentais observadas no envelhecimento que estampa uma das páginas do livro favorito de Voltaire, As Viagens de Gulliver (1726) – assinado por Jonathan Swift, é bastante sugestiva de doença de Alzheimer:

Em seguida, descreveu-me os Struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva ideia da eterna duração de sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não conheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso, que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam.”
O trecho acima descreve o momento em que Gulliver encontra os luggnaggianos, entre os quais vive a raça imortal de Struldbruggs, indivíduos destinados a nunca morrer, mas que sofrem a devastação e as enfermidades conseguintes a idade avançada.

Inicialmente, Gulliver deduz que essas pessoas são singularmente sábias, dadas as suas décadas de aprendizado e cultura. O protagonista se surpreende ao perceber que, na verdade, os imortais viviam socialmente isolados e deprimidos, sem o alívio final da morte, exibindo todas as consequências negativas de senescência extrema, como a perda da função e redução da vitalidade.

Literatos sugerem que este retrato de senilidade fora elaborado por Swift a partir da observação do seu tio Godwin, que sofreu perda considerável de memória com o envelhecimento.

Neurologistas afirmam que a descrição de Swift seria uma espécie de premonição sobre seu próprio futuro estado mental. Escritos do mais famoso escritor da época refletem seu interesse pelos temas psicológicos e psiquiátricos.

Durante os últimos anos de vida, Jonathan Swift sofreu mentalmente o declínio cognitivo que descreveu, sendo por isso rotulado pelos seus contemporâneos como “o louco”. Dez anos antes de sua morte, em outubro de 1735, seus amigos observaram uma deterioração de sua memória e dificuldade de reconhecer as pessoas. O proprio autor registrou “Eu perdi completamente minha memória e quase não entendo uma palavra do que escrevo”. Em outubro de 1745, aos 78 de sua idade, faleceu o admirável escritor, legando a maior parte de sua fortuna para construir e dotar um hospital para “lunáticos, idiotas e incuráveis".

REFERÊNCIAS:
Miranda CM , Pérez JC , Slachevsky Ch A. "Contribuição científica de Jonathan Swift em suas "Viagens de Gulliver". . Rev Med Chil 2011 Mar; 139.
Lewis, JM. "Jonathan Swift and Alzheimer's disease". Lancet. 1993 Aug 21;342(8869):504.
Lorch, M. "Language and memory disorder in the case of Jonathan Swift: considerations on retrospective diagnosis." Oxford Journals Medicine Brain Volume 129, Issue 11 Pp. 3127-3137.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"O Paralítico" - Jean-Baptiste Greuze

O mais belo exemplo de medicina paliativa representada na arte pode ser apreciado em O Paralítico, do pintor francês Jean-Baptiste Greuze (1725-1805):

O Paralítico - Os frutos de uma boa educação; Greuze, Jean-Baptiste, 1763; Óleo sobre tela; The Hermitage, St. Petersburg.

A cena passa-se no quarto da casa de um idoso fragilizado. Esticado - deitado, meio sentado - um homem debilitado ("o paralítico") olha passivamente pra um prato de comida que lhe está sendo oferecido por um cavalheiro que está flexionado em sua direção. Em contraste com o pálido paralítico, que veste um casaco marrom, o jovem homem em pé está bem vestido e tem a face corada. Os braços do paralítico, ligeiramente flexionados, estendem-se sobre seu corpo, um pé repousa sobre um banquinho e suas pernas estão cuidadosamente cobertas com um cobertor.

Em torno do homem idoso há uma família numerosa que lhe dedica toda atenção. A cena conta também com a presença dos filhos e de um cão. A única figura que não está olhando para o paciente é um menino que se ajoelha ao seu lado, com um braço colocado delicadamente sobre sua perna paralítica.

Detalhe de O Paralítico - Os frutos de uma boa educação.

Greuze pintou o quadro de forma que o idoso, em sua posição esticada, ocupa um grande espaço no centro da imagem, sugerindo assim a importância do enfermo, que domina a cena. A atenção do espectador é mais atraída por esta figura central, também a iluminação - o fundo é escuro, enquanto a almofada contra a qual repousa o homem é clara e brilhante – faz com que a figura do homem apareça sob um banho de luz. Assim, o espectador participa com a família em focar a atenção sobre o paciente.

O Paralítico mostra a dedicação oferecida a um idoso apaixonado por sua família. A intenção de Greuze seria a de despertar no público a consciência de que a atenção ao enfermo é um ato de amor imprescindível para manter o conforto de quem necessita de cuidados especiais.