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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fisiologia do coito: análise do desenho de Leonardo da Vinci

O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma. (Leonardo da Vinci).
Os desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) foram, ao longo dos séculos, imensamente admirados por artistas, médicos e historiadores. A maioria deles são datados no período entre 1487 e 1513. Somente a partir de 1503 Leonardo viveria sua fase mais ativa de pesquisa anatômica, adquirindo um conhecimento mais exato da anatômia humana através da dissecção de cadáveres. Este fato justifica as imperfeições anatômicas encontradas nos desenhos arquitetados durante a primeira metade deste período.

Referência específica é aqui feita para os desenhos que ilustram a anatomia masculina e feminina no ato do coito. Suas representações sobre o intercurso sexual são uma tentativa de esclarecer e ilustrar a fisiologia apresentada nos livros didáticos do seu tempo. De suas posses literárias mais consultadas, destacam-se os textos de Mondino di Luzzi e Avicena. Ao ler estes livros e outros, Leonardo acessou às ideias de Hipócrates, Aristóteles, Platão e Galeno.

Um breve olhar para o personagem masculino na gravura abaixo revela o incrível "encanamento" interno projetado por Leonardo para descrever a fisiologia aristotélica sobre a reprodução humana:

"O Coito" (1492)
A ilustração evidencia dois canais no pênis, um mais baixo, ligado ao trato urogenital através da uretra, e um canal superior, que passa para a medula espinhal por meio de três vasos.

Detalhe evidenciando os dois canais no pênis.
Segundo a antiga filosofia grega, a "essência" de um bebê seria fornecida por uma "semente universal" pertencente ao macho. Este ingrediente procriador derivaria de um “espírito animal” – material fisiológico fabricado a partir de sangue arterial na base do cérebro e transferido para todas os partes do corpo através dos nervos.

O sêmen desceria a partir do cérebro através de um canal que pode ser visto na coluna vertebral do homem. Isso explica a conexão desenhada por Leonardo entre a coluna e o pênis.

Aristóteles acreditava que os testículos não desempenhavam nenhum papel na procriação, e que apenas forneciam um líquido para lubrificar a vagina durante a relação sexual. Leonardo, que discordou deste conceito, desenhou um grande vaso sanguíneo transferindo a “semente” para o testículo, ilustrando assim o ponto de vista galênico de que os testículos fabricam espermatozóides a partir do sangue. 

A ausência de ovários na figura de sexo feminino é justificada pela crença aristotélica de que os ovários não possuem papel reprodutivo. A fêmea serviria apenas como o solo em que a semente masculina é plantada. Leonardo, portanto, mesclou nesta ilustração os argumentos galênicos e aristotélicos para fisiologia do coito.

Interessante observar a representação dos dois nervos supostamente encarregados de provocar a ereção e a ejaculação: um deles, produto da fantasia de Leonardo, provém diretamente do coração, – ideia não tão absurda se considerarmos o pensamento da época de que tal órgão era o responsável pelo amor. O outro nervo tem suas raízes à nível sacral, o que, evidentemente, esta mais de acordo com o conhecimento atual da fisiologia do coito.

Um curioso detalhe pictórico é a adição de um vaso sanguíneo ligando o fundo do útero à mama. De acordo com o pensamento medieval, este vaso hipotético levaria o sangue menstrual suprimido para as glândulas mamárias, causando assim o aumento das mamas e a lactogênese. Não há como negar a genial associação do pintor, que vincula ambos os órgãos por meio de uma conexão direta, séculos antes de Ferguson descrever o reflexo que leva o seu nome.

Não há dúvida de que o gênio renascentista, pai das grandiosas inovações artísticas da época, era excepcionalmente atento e criativo também nas suas engenhosas representações anatômicas.


REFERÊNCIAS:
1.Coleção Os Pensadores, Aristóteles, Abril Cultural, São Paulo, 1.ª edição, vol.II, agosto 1973.
2.MORRIS, A. G.“On the sexual intercourse drawings of Leonardo da Vinci”.SAMT DEEL69 12APRIL1986.
3..TOPOLANSKI, R. “OBRA EL ARTE Y LA MEDICINA.” CAP 7: La obstetrícia y la ginecologia.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A arte que impulsionou Jacob Henle à Medicina

Em meados do século XIX, na altura em que a microscopia anatômica desenvolvia-se rapidamente na Europa, o conceituado patologista e cientista alemão Jacob Henle (1809-1885) estava a investigar a anatomia histológica do tecido renal. A partir de 1862, ele descreveu uma série de publicações afirmando a existência de minúsculas estruturas tubulares que corriam perpendicularmente na superfície dos rins até mergulharem no interior do órgão. Estava descoberta "a alça de Henle".

Não responsável somente por essa relevante contribuição à fisiologia, Jacob Henle também revisou e reorganizou toda a histologia da época, além de descrever detalhadamente as células epiteliais.

Friedrich Gustav Jacob Henle, nascido no estado alemão da Baviera, é um dos muitos pioneiros da Medicina a experimentar a fusão da vocação artística com a atividade médica.

Henle foi um excelente músico e poeta. Tocava não apenas um instrumento musical, mas toda a família das cordas existentes na época; com destreza manuseava o violino, a viola e o violoncelo. Entre seus amigos encontrava-se o famoso compositor alemão Felix Mendelssohn (1809-1847), autor dos oratórios Paulus e Elias. Henle é tipicamente descrito como um homem espirituoso, que freqüentemente promovia recitais e concertos em sua casa.

Uma curiosa coincidência médico-artística, que marcou a trajetória profissional de Henle, é que a opção deste pela Medicina esteve intrinsecamente ligada as suas atividades musicais. Foi exatamente num sarau, provavelmente em sua própria residência, que ele conheceu Johannes Muller (1801-1858), um notável pioneiro da fisiologia e anatomia humanas, responsável pela formação de muitos médicos alemães que deram forma à Medicina na segunda metade do século XIX. Do encontro nasceria um dos maiores nomes da medicina praticada daquele século, pois Henle, movido pelo entusiasmo e carisma do grande professor, bem como pela admiração que passou a nutrir pelo mesmo, logo sentiu-se compelido a estudar Medicina. Pouco depois, em 1827, Henle ingressou na Universidade de Bonn, onde teve por mestre o próprio Johannes Muller.

Os biógrafos de Henle costumam declarar que nenhuma parte do corpo humano costumavam escapar à sua curiosidade. Vale aqui ressaltar que a reputação de Henle como cientista era simplesmente louvável. Ele acreditava que doenças infecciosas eram causadas por microorganismos vivos que se espalhavam por meio de agentes orgânicos. Essa hipótese embasou os estudos de Pasteur (1822-1895) e encontrou confirmações históricas em Robert Koch (1843-1910) (um dos seus alunos mais brilhantes).

Como a alça de Henle, outras estruturas anatômicas ainda hoje levam seu nome, são exemplos, a camada externa das células dos folículos pilosos (camada de Henle), as membranas clássicas e fenestradas de Henle (situada nas artérias), e a espinha de Henle (situada na superfície do osso temporal).

Além das citações bibliográficas sobre sua insaciável curiosidade, há também documentos registrando que Henle possuía um finíssimo intelecto e que exibia um comportamento cauteloso e crítico diante das atividades das quais se ocupava, cultivando um profundo “envolvimento emocional” para com seus interesses. A convergência de tantas qualidades ofertou ao universo médico um dos seus exímios mestres e, claro, um admirável músico.

REFERÊNCIAS:
1. MOREL, F. The loop of Henle, a turning-point in the history of kidney physiology. Nephrol. Dial. Transplant. (1999) 14 (10): 2510-2515.
2. Evamaria Kinne-Saffran, Rolf K.H. Kinne. Jacob Henle: The Kidney and Beyond. Am J Nephrol 1994;14:355-360 (DOI: 10.1159/000168747).
3. Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida, a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Agnódice: A Primeira Médica Relatada na História

Agnodice ou Agnodike (IV a. C), a mais antiga mulher a ser mencionada pelos gregos, tencionava fortemente ser médica. Natural de Atenas, aonde havia proibição legal para mulheres estudarem medicina, Agnódice viajou a Roma a fim de aprender a fazer partos e, dedicando-se principalmente ao estudo da obstetrícia e da ginecologia, obteu conhecimentos básicos sobre a saúde da mulher.

Desejando voltar a seu país e nele colocar em prática os conhecimentos adquiridos em Roma, a solução para tonar-se impune foi radical: Agnódice voltou à Grécia com os cabelos curtos e travestida de homem, sentindo-se dessa forma segura para exercer a medicina.


Arte em relevo. Agnódice: médica diante do areópago. Medalhão exposto na nova Faculdade de Medicina (Paris).

Quando começou a atuar, com muito sucesso, atraiu muitos clientes, despertando assim o ciúme de outros médicos. Raivosos com Agnódice e acreditando que fosse realmente homem, eles a acusaram falsamente de estar praticando atos libidinosos com as pacientes.

Levada ao tribunal (areópago), ela tentou se defender da falsa acusação; porém, quando percebeu que seria condenada à morte, despiu-se diante do juiz e dos jurados. Atitude extrema causou em todos grande surpresa e comoção. Além disso, várias de suas pacientes declararam em frente ao templo que se ela fosse executada, iriam morrer com ela. O juiz reconheceu a injustiça que estava sendo cometida contra Agnódice, livrou-a da acusação e promulgou uma lei determinando que, a partir daquele momento, as mulheres teriam o direito de praticar a medicina na Grécia.

Graças à ousada e corajosa atitude de Agnódice, as mulheres hoje são maioria na profissão.

REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2.Greenhill, William Alexander (1867), "Agnodice", in Smith, William, Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology, 1, Boston: Little, Brown and Company
3.
Wikipédia: Agnodice

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Primeira Anestesia com Éter

Foi no Hospital Geral de Massachusetts, em 1846, que William Thomas Green Morton (1819-1868) usou com reconhecido êxito o éter pela primeira vez. Morton iniciou sua carreira como dentista e, mais tarde, matriculou-se na Escola de Medicina de Havard, onde o químico Charles Jackson forneceu-lhe o éter, assegurando que a substância poderia aliviar a dor.

Após conduzir experiências em cães, no dia 30 de setembro de 1846, Morton anestesiou um paciente antes de extrair-lhe o dente e a novidade foi publicada no Boston Daily Journal. O diretor do Hospital Geral de Massachusetts, o cirurgião John Collins Warren, permitiu que Morton usasse éter no hospital.


Primeira anestesia com éter (1894) Robert C. Hinckley (1853 – 1940). Óleo sobre tela, 243 x 292 cm. Biblioteca Médica de Boston. (Cambridge).

A pintura acima retrata a experiência ocorrida em 16 de outubro de 1846. Morton anestesiou, perante numerosa platéia, o jovem paciente Edward Gilbert Abbott, que caiu em sono profundo, enquanto Warren extraiu-lhe um tumor da mandíbula. Abbott acordou pouco depois do corte ter sido fechado e declarou não sentir nenhuma dor. Naquele momento foi constatado que se havia descoberto e provado perante inúmeros médicos e demais presentes um meio de anestesiar um ser humano, a ponto de permitir qualquer procedimento cirúrgico, por mais doloroso que fosse. O uso do éter como anestésico foi publicado dali a um mês, começando a ser usado em Londres no mês seguinte.

Morton ganhou a fama como “eterista”, mas a luta que travou com o Congresso americano para ser recompensado financeiramente por seu feito, e a ação de indenização que lhe moveu seu ex-professor Charles Jackson – que ensinou a Morton a ação do éter como anestésico - , fizeram-no enlouquecer. Morton morreu correndo, na miséria e sem destino, nas proximidades do Central Park.

No cinema: The Great Moment (1944) é um filme biográfico da Paramount Pictures dirigido por Preston Sturges. Baseado no livro The Triumph Over Pain ( 1940 ) de René Fülöp-Miller, o longa-metragem narra a história de vida e a contribuição à anestesiologia de William T. G. Morton.

REFERÊNCIAS:
1. BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2. MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998.
3.
Wikipédia – William Thomas Green Morton

domingo, 14 de novembro de 2010

Dr. Frederick Banting: O Artista que Descobriu a Insulina.

“Quanto mais penso na cidade mais quero morar no campo, e quanto mais penso em ser pesquisador, mais quero ser um artista.” Frederick Banting.
Frederick Grant Banting, foi simplesmente a figura central na descoberta de uma das drogas mais importantes da terapêutica médica atual: a insulina. O médico é também autor de centenas de magníficas pinturas canadenses.

O Diabetes mellitus é uma doença conhecida desde os antigos egípcios. Estudos datados de cerca de 1500 a.C. descrevem um mal capaz de fazer as vítimas eliminarem a urina um tanto adocicada, característica que lideraria muito tempo depois a identificação do diabetes. Dando um salto na história da doença, encontramos autópsias realizadas a partir de 1850 mostrando que o pâncreas de pessoas mortas por diabetes não funcionavam satisfatoriamente.

A droga que revolucionou o tratamento dos diabéticos foi descoberta e estudada por quatro cientistas, sendo o principal deles Frederick Banting. A insulina é um hormônio produzido no pâncreas, isolado entre os anos de 1921 e 1922 na Universidade de Toronto.

Muitos cientistas especularam que algumas células especializadas do pâncreas, chamadas ilhotas de Langerhans, fabricavam um componente químico capaz de regular o nível de açúcar do sangue. A doença, por conseguinte, surgiria sempre que houvesse uma falha na produção desse elemento.

Frederick Banting, então cirurgião ortopédico em Ontário, Canadá, recebeu a incumbência de estudar a função das ilhotas pancreáticas. Também recebeu alguns cães para experimento. Logo descobriu que o extrato pancreático produzido nos experimentos reduzia a hiperglicemia e a glicosúria dos cães submetidos a pancreatectomia.

Após as indispensáveis fases de estudo, purificação e experimentação, no dia 11 de janeiro de 1922, a substância derivada do extrato, chamada hoje de insulina, foi testada com sucesso em Leonard Thompson, um garoto diabético de quatorze anos, internado em estado grave no Hospital Geral de Toronto. A partir dali, mesmo não representando um método curativo, a descoberta salvou e prolongou um número simplesmente incontável de vidas.

Milhões de crianças em todo o mundo vivem mais e melhor após a milagrosa experiência de Banting. O impacto positivo que a descoberta da insulina exerceu sobre a humanidade é comparado apenas aos resultados oriundos da descoberta da penicilina.

E sua arte?

Um dos sonhos de Frederick Banting era aposentar-se aos cinqüenta anos, partir para as geladas montanhas de sua terra natal e viver o resto da vida a pintar. Desde menino o médico demonstrava habilidade para o desenho. Na escola dizia sentir grande satisfação ao cursar matérias ligadas às artes. Pouco antes de se consagrar como um dos maiores benfeitores da história da humanidade, buscando aliviar a inevitável tensão gerada pela prática médica, Banting decidiu pintar.

Exceto alguns trabalhos sobre outros países europeus, a grande maioria de suas pinturas traziam o Canadá como tema. Os críticos da época elevaram-o ao status de um dos melhores pintores canadenses. Dois anos após sua morte, em fevereiro de 1943, duzentos de seus desenhos e pinturas foram expostos no Hart House Art Gallery, em Toronto.

Sir Frederick Grant Banting (1891-1941).A Aldeia no Inverno. Óleo sobre Painel 22x26.2cm. Canadá.

Frederick Grant Banting (1891-1941). Cobalt, Ontário.1932. Óleo sobre painel, 8x10cm. Canadá.

“O que levou um grande pesquisador a tornar-se um pintor?” perguntaram os editores de uma revista publicada pela Associação Canadense de Diabéticos. Eles mesmos deram a resposta: “Provavelmente porque se preocupava com o Canadá, com as pessoas, com a Terra. Ele foi acima de tudo um humanista – profundamente envolvido com a vida e suas facetas.”

REFERÊNCIAS:
1.
Sir Frederick Grant Banting. Gallery Walter Klinkhoff
2.
"Frederick Grant, Artist" Canadian Diabetes Association.
3.Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida, a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.
4. The Canadian Diabetic Association Newsletter. "Banting - The Artist." First quarter, vol 1; 1967.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Era Pré-Anestésica e a Descoberta do "Gás Hilariante"

Antigamente, por ser considerado inatingível, o controle da dor não era tão importante. O romano Celsius dizia ser a “falta de pena” a característica essencial de um bom cirurgião. Em muitas cirurgias, vários homens corpulentos eram necessários para manter os pacientes amarrados durante o procedimento. Uma gravura satírica que alude a forma que os pacientes eram operados foi feita pelo brilhante escritor e desenhista irlandês George Bernard Shaw:

George Bernard Shaw (1856-1950). Gravura satírica do séc. XIX mostrando paciente submetido à amputação do membro inferior.

Apesar do sentimento de que a dor era inevitável, alguns agentes diferentes eram usados para aliviá-la. Até o século XVII, era a partir da mandrágora que extraiam a substância mais utilizada para amenizar a dor. A planta era fervida em vinho, coada e usada no caso de pessoas que fossem ser cortadas ou cauterizadas.

Uma esponja contendo morfina e escopolamina foi o modo dominante de oferecer alívio da dor no período que compreende o século IX ao XIII. Em meados do século XVII, Marco Aurélio Severino sugeriu que colocando neve em linhas paralelas cruzando o plano incisional conseguia-se tornar o local cirúrgico insensível em poucos minutos, descreveu assim a “anestesia por refrigeração”. No século XIX, a Europa utilizava grande quantidade de álcool, à época único recurso disponível, para diminuir as dores dos pacientes. Apesar de surgirem variadas técnicas, nenhuma conseguia proporcionar um alívio satisfatório da dor, que até então, era o principal empecilho na tarefa do médico.

No ano de 1772, o químico inglês Joseph Priestley descobriu o Óxido Nitroso. 28 anos mais tarde, o Sir Humphry Davy, observando os efeitos analgésicos do gás, sugeriu que o uso da substância poderia ser vantajoso durante a cirurgia. Foi Davy quem também descreveu as propriedades estimulantes do Óxido Nitroso, apelidando-o de gás hilariante (ou gás do riso).

Prescrição para Mulheres Chatas (1830). T.Mclean. Gravura. Biblioteca Nacional de Medicina (Bethesda).

Espetáculos eram organizados nas tardes de domingo para atrair pessoas que queriam divertir-se sob os efeitos do Óxido Nitroso. Abaixo, um cartaz da época evidenciando os efeitos do gás da alegria:


Em um desses momentos descontraídos, um jovem senhor que participava do espetáculo, saltitando sob os efeitos do gás do riso, feriu sua perna ao colidir com uma cadeira. Ao recuperar-se do efeito da substância, comentou que nada havia sentido, nem a queda nem os ferimentos que não paravam de sangrar.

Um dentista de Connecticut(EUA), chamado Horace Wells, presenciava a brincadeira dominical e percebeu que o gás poderia servir para tirar a dor durante uma extração de dente. Wells pediu pra que extraíssem seu próprio dente após ser submetido aos efeitos do Óxido Nitroso. A experiência foi um sucesso, Wells não sentiu dor.

Em janeiro de 1845, passada a positiva experiência com o gás, Wells resolveu demonstrar publicamente o que seria uma extração sem dor. A demonstração ocorreu na Havard Medical School, em Boston, mas o paciente, um estudante de medicina muito obeso, não ficou completamente adormecido e urrou de dor quando seu dente foi puxado.

A tentativa foi julgada um fracasso. Muito desapontado, Wells desestabilizou-se e, em sofrimento profundo, cometeu suicídio no ano de 1848. "Não poderia ser chamado de vilão", dizia no bilhete que deixou. Doze dias depois chegou uma carta dizendo que a Sociedade Médica de Paris reconhecia-o como descobridor da anestesia .

É inegável ser Horace Wells um importante pioneiro da anestesia, pois foi o primeiro a reconhecer as propriedades do Óxido Nitroso (única droga anestésica do século XIX que ainda está em uso).


REFERÊNCIAS:
1. COLLINS, Vicent. História da Anestesiologia. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1979
2. MARGOTTA, Roberto. História ilustrada da medicina. 1º ed. São Paulo: Editora Manole.
3. MORGAN, G.MAGED,S. Anestesiologia Clínica - 3ª EDIÇÃO. Editora Revinter.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Estatueta de Imhotep

Imhotep, egípcio que viveu durante a Terceira Dinastia, é considerado o primeiro arquiteto, engenheiro e médico do início da história.

Além de famoso construtor de pirâmides, ele era, sobretudo, um excelente médico, sendo mais tarde considerado deus pelos egípcios. Os gregos o relacionaram a Asclépio (ou Esculápio, em Roma) o deus grego da medicina.

Imhotep foi um dos poucos mortais a ser esculpido como parte de uma estátua do faraó. Tempos depois, ele também foi reverenciado como um exímio poeta e filósofo.

Estatueta de Imhotep em bronze. Egito ptolemaico (332-30 a.C.). Museu do Louvre, Paris.
Imhotep é creditado como sendo o fundador da medicina e o autor de um tratado médico notável, o chamado papiro de Edwin Smith (1700 aC), contendo observações anatômicas, doenças e curas.

Sendo o médico mais importante na história egípcia, salvou a vida do infante príncipe Djoser e a de sua mãe. Anos mais tarde, ele foi recompensado por suas ações pelo Faraó Djoser que o designou como seu vizir, sacerdote, arquiteto chefe e astrólogo.

O nome Imhotep significa "Aquele que vem em contentamento". Foi por causa de seus muitos talentos que o povo naturalmente presumiu que apenas alguém que tinha estreitas ligações com os deuses podia ter tão grande conhecimento.

Assim, Imhotep foi deificado após a sua morte, um dos únicos mortais não-faraó que se tornou um deus.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Leopold Auenbrugger - Músico Criador do Revolucionário Método de Examinar os Pacientes Através da Percussão das Cavidades

“A Auenbrugger pertence esta bela descoberta”. Jean-Nicolas Corvisart (1808)

Como o austríaco Auenbrugger, memorável personagem do universo médico, mudou completamente o modo de detectar as doenças que acometem as cavidades orgânicas?

As coisas se deram mais ou menos assim: até o século dezoito os principais meios diagnósticos disponíveis consistiam em ouvir adequadamente a história do paciente, inspecioná-lo, contar a freqüência respiratória e o pulso. Aferir a temperatura ainda era algo novo e não constava no exame padrão recomendado pelos professores da época. Estetoscópio? Nem pensar, ainda não existia (seria inventado por Laennec décadas mais tarde). Se uma determinada cavidade do corpo, a chamada caixa torácica, por exemplo, fosse acometida por uma doença qualquer, se enchia de um líquido estranho e os médicos não tinham outra forma de detectar a agressão senão no exame pós-morte, a autópsia. Com o mal longe dos olhos e das mãos dos médicos os danos eram inexoráveis.

Aí aparece a inventividade do nosso personagem, o médico e flautista Joseph Leopold Auenbrugger. Filho de um estalajadeiro, o médico aprendeu com o pai a avaliar a quantidade de vinho de uma barrica pela percussão. Quando se formou em medicina, teve a idéia – diz-se ele – de adaptar tal procedimento ao exame do doente. Ele foi o criador de um novo e revolucionário modo de examinar os pacientes: a percussão das cavidades orgânicas. Músico, ele estava familiarizado com coisas como ressonância, timbre, altura do som, o que lhe ajudou muito em seus estudos sobre o novo método.

Em condições normais as vibrações produzidas pela percussão do tórax são abafadas devido a grande diferença acústica observada entre a parede torácica e o parênquima pulmonar. Se o parênquima é substituído pelo ar, como ocorre na situação conhecida como penumotórax, a diferença acústica se acentua ainda mais, e o abafamento do som se torna mais pronunciado. O resultado é um som de maior amplitude e duração, francamente musical, descrito sempre como “timpânico” (em referência ao tímpano) instrumento musical presente em qualquer orquestra sinfônica da atualidade. Se o tecido pulmonar é preenchido por líquido ou algo sólido, a dita diferença acústica é minimizada e o som produzido se torna de baixa amplitude e curta duração, descrito usualmente como “surdo”.

Na literatura: Em 1761, o famoso médico publicou seu Inventum Novum ex Percussione Thoracis Humani, obra escrita em latim, de 97 páginas, que apresentou o revolucionário meio de investigação das cavidades orgânicas. Ao apresentar sua obra à comunidade científica, Auenbrugger escreveu:

Apresento ao leitor um novo método para detecção de doenças, descoberto por mim. Consiste na percussão do tórax e na avaliação das condições internas da cavidade de acordo com a ressonância do som assim produzido. Minhas descobertas não foram antes confiadas ao papel por causa de um incontrolável impulso ou pelo desejo de teorizar. Sete anos de observação tornaram o assunto claro pra mim, o suficiente para que me sinta em condições de publicá-lo. Sei que encontrarei oposição às minhas opiniões. A inveja e a acusação, o ódio e a calúnia sempre foram o ônus daqueles que iluminaram a arte ou a ciência com suas descobertas. Leopold Auenbrugger (1761).

De fato, somente 46 anos depois, quando o clínico francês Jean Nicolas Corvisart, médico pessoal de Napoleão Bonaparte, introduziu o método percussivo na prática clínica e divulgou sua tradução em francês do trabalho de Auenbrugger é que a importância do invento foi definitivamente estabelecida.

REFERÊNCIAS:
1. Sakula, Alex. Auenbrugger: Opus and Opera. J.Roy. College Physicians,Vol 12; 1978.
2. Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Descoberta da Vacina / Pintura de Ernest Board

"Por que só pensar? Por que não experimentar?" Edward Jenner

Edward Jenner (1749 – 1823) foi uma das figuras mais admiráveis da história da medicina. Certa vez, uma jovem camponesa foi ao seu consultório e os dois começaram a discutir sobre a varíola. Ela disse “não corro o risco de contrair a varíola humana, pois já tive a varíola das vacas.” A frase impressionou Jenner, que pôde verificar sua veracidade ao observar as famílias dos fazendeiros. Em 14 de maio de 1796, Jenner, convicto que havia descoberto a vacina, extraiu o conteúdo de uma pústula da mão de Sarah Nelmes, uma jovem leiteira afetada pela varíola das vacas, e com o mesmo estilete contaminado escarificou o braço de James Phipps, um garoto de oito anos de idade.

Não houve efeitos colaterais e a experiência foi um sucesso, pois o menino não contraiu varíola. Estava descoberta a vacina.

No quadro abaixo, pintado por Ernest Board em 1915, aparece Edward Jenner vacinando James Phipps com material colhido da mão de Sarah:

Edward Jenner Vacinando James Phipps (1915); Ernest Board.

Em homenagem à “vaca”, surgiu o termo “vacina”.

LEIA MAIS:

Os Efeitos da Vacina Antivariólica / James Gillray


REFERÊNCIAS:
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Ed. Manole - São Paulo, 1998.
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002.

sábado, 21 de agosto de 2010

William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra / Robert Hannah

"Sou obrigado a concluir que o sangue percorre sem cessar um circuito circular, que é função do coração propeli-lo através da pulsação, e que é esta a única razão para que o coração pulse." William Harvey

O medico britânico William Harvey (1578 – 1657) estudou na Itália, mais precisamente na cidade de Pádua, que à época abrigava a maior escola de anatomia do mundo. Durante seus estudos no exterior, ele descobre que o sangue sai do coração e segue através de um sistema de vasos fechados até a periferia do corpo e de lá retorna ao coração. Entende o médico que o coração, órgão que, acreditava-se ser a sede do amor e do afeto, é na verdade a bomba motora do sangue. William Harvey, descobre, assim, a circulação sanguínea. Ao regressar a Londres, Harvey é recebido em palácio pelo rei Carlos I.

Robert Hannah registrou esse momento no quadro intitulado: William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra:


Na pintura, vamos o médico, com orgulho de súdito, segurando em sua mão esquerda um coração aberto e explicando ao rei como o sangue se movimenta através das quatro cavidades. Ao lado de Harvey está presente uma criança que, com ar admirado, não percebe que está presenciando uma das cenas mais marcantes da história da Medicina. O príncipe, que calado a tudo assistia, ao crescer não quis ser médico, apesar de ter sido testemunha ocular de um evento histórico. Preferiu ser advogado, tendo se destacado na história do Direito ao instituir no mundo jurídico o instrumento do habeas corpus. Após ser coroado rei, escolheu ser chamado de James II.

Na Literatura: Em 1628 William Harvey publicou sua obra clássica: Exercitatio anatômica de motu cordis et sanguinis in animalibus, livro em que explica como o sangue flui do ventrículo esquerdo do coração para a aorta, sendo, então, distribuído para todas as partes do corpo; o sangue venoso é transportado pelas veias para o ventrículo direito, e da artéria pulmonar para os pulmões, onde novamente se transforma em sangue arterial. Após passar pelas veias pulmonares, o sangue chega à aurícula esquerda e dali volta para o ventrículo esquerdo.

Outra excelente obra de Harvey foi publicada em 1651, De generatione animalium é de vital importância na história da embriologia, pois contém a teoria da “epigênese” segundo a qual o organismo não existe como uma entidade diminuta dentro do óvulo, mas se desenvolve gradualmente.

Harvey morreu em 1657, deixando para posteridade a marca de seu trabalho.

REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Revolucionária Experiência de Ambroise Paré

"Não te atrevas a me ensinar cirurgia, tu que nada mais fizeste a não ser ler livros. Cirurgia aprende-se trabalhando com as mãos e os olhos." Ambroise Paré

Ambroise Paré, que iniciou sua carreira como aprendiz de cirurgião-barbeiro na França, revolucionou a história da cirurgia através da introdução de diversas inovações na prática médica. Até então vista como uma atividade não médica, relegada à confraria dos barbeiros, a cirurgia resumia-se a atos operatórios drásticos e muitas vezes brutais, em que a preservação dos tecidos ficava em segundo plano. O texto abaixo, escrito pelo próprio Paré, descreve um momento transcedente na história da cirurgia:

“No ano de 1536, Francisco, rei da França, enviou uma grande força expedicionária ao Piemonte para conquistar Turim. Ao ataque maciço de nossas forças, os defensores das fortificações defenderam-se desesperadamente, matando e ferindo muitos soldados com vários tipos de armas, mas especialmente armas de fogo. Os cirurgiões tiveram muito trabalho. Eu, para dizer a verdade, era ainda um principiante; nunca vira tratar ferimentos produzidos por bala. Tinha lido no oitavo capítulo do primeiro livro de Giovanni da Vigo, Delle ferite in generali, que tais ferimentos eram perigosos por causa da pólvora, e que o melhor meio de tratá-los era a cauterização com óleo fervendo. Eu sabia que isso causaria uma terrível dor; só depois de me certificar que os cirurgiões usavam mesmo o óleo na mais alta temperatura possível, tive coragem de imitá-los. Faltando-me o referido óleo, fui obrigado a usar uma mistura de gema de ovo, óleo de rosas e terebentina. Naquela noite não dormi; assediava-me o pensamento de que muitos pacientes morreriam porque eu não havia cauterizado suas feridas com óleo fervente. Antes do nascer do sol levantei-me e fui olhá-los. O que vi superou as minhas mais otimistas expectativas, porque aqueles a quem eu tinha tratado com a mistura por mim elaborada quase não sentiam dor e suas feridas não estavam inflamadas. Outros, a quem eu tinha cauterizado, estavam com dores terríveis e com a parte afetada pelo ferimento inflamada. Nesse momento, decidi que não mais cauterizaria os pobres homens feridos a tiros de arcabuz.” Ambroise Paré, 1538.

Ambroise Paré (1517-1590) era de uma família de cirurgiões-barbeiros do interior da França. Trabalhou no Hôtel-Dieu, em Paris; como não sabia grego nem latim, foi recusado pela universidade. Tornou-se então cirurgião militar, ocasião em que fez a revolucionária experiência acima e que foi apenas o início de uma longa série de contribuições à cirurgia.

Não é de admirar que tenha se tornado o cirurgião de quatro reis da França, Henrique II, Carlos IX, Francisco II e Henrique III. Paré criou novos instrumentos cirúrgicos e próteses, introduziu importantes modificações na técnica operatória, por exemplo, na ligadura de vasos. Salvou a vida de números nobres, mas também salvou Coligny, líder dos huguenotes, o que quase lhe custou a vida nos massacres da noite de São Bartolomeu, em a 23 de agosto de 1572, teria sido executado pelos furiosos católicos se o rei Carlos IX não intercedesse em seu favor. Modesto, disse de um oficial a quem salvara: “Eu cuidei dele; Deus o curou”.

REFERÊNCIAS:
1.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996
2.MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

domingo, 27 de junho de 2010

Theodor Billroth - Medicina e Música

“É uma das superficialidades do nosso tempo julgar como opostas a ciência e a arte. A imaginação é mãe de ambas.” Theodor Billroth

Christian Albert Theodor Billroth, conhecido como “pai” da moderna cirurgia abdominal, também foi um talentoso pianista e violinista amador.

O MÉDICO:

Billroth trabalhou como médico de 1853-1860 na Charité , em Berlim. De 1860-1867 foi professor na Universidade de Zurique e diretor do hospital cirúrgico de Zurique. Lá, publicou seu livro clássico: Die Allgemeine chirurgische Pathologie und Therapie (1863). Cinco anos depois, Billroth tornou-se professor de cirurgia na Universidade de Viena e, posteriormente, foi nomeado chefe da Clínica Cirúrgica II no Krankenhaus Allgemeine (Hospital Geral de Viena), foi nessa instituição que ele desenvolveu plenamente seus extraordinários talentos e inovações nas técnicas cirúrgicas. O quadro abaixo, pintado por Seligman em 1890, retrata Billroth operando no Krankenhaus Allgemeine:

O cirurgião, descrito como intuitivo e inventivo, foi responsável por uma série de cirurgias, incluindo a primeira esofagectomia (1871), a primeira laringectomia (1873) e a mais famosa, a gastrectomia (1881) para câncer gástrico que recebeu seu nome (Billroth I – gastrectomia com duodenostomia e Billroth II – gastrectomia com jejunostomia). Conta-se que Billroth foi apedrejado quase até a morte nas ruas de Viena, quando o primeiro paciente submetido à gastrectomia morreu após o procedimento.

O MÚSICO:

Relatos biográficos deixam claro que o primeiro amor de Billroth foi a música. Quando jovem, não pensava em ser médico; graças ao incentivo da mãe e família, entrou na escola médica, onde foi considerado um aluno deficiente e com incapacidade de se concentrar em quaisquer coisas que não a música. Tempos depois, apaixonado pela profissão de médico, o cirurgião escreveria “Descobri que a medicina é uma arte tão encantadora quanto as outras”. Passou a valorizar seu ofício, mas mesmo depois que tornou-se famoso como cirurgião, Billroth continuou a ser apaixonado por música clássica. Seus avós, ambos profissionais cantores de ópera, ensinaram-o a tocar piano durante a infância, desde então passou a ser familiarizado com as obras de compositores clássicos. Em 1960, Billroth conheceu Johannes Brahms, época em que o compositor era ainda uma estrela em ascensão da cena musical vienense. Eles se tornaram amigos íntimos, e, influenciado por ele, o cirurgião resolveu escrever um livro chamado "Wer ist Musikalisch?" , segundo ele, tratava-se de uma “pequena obra fisiológica e psicológica sobre a música”. A obra, publicada postumamente por Hanslick, foi uma das primeiras tentativas de aplicar métodos científicos à musicalidade. Em 1887, vítima de insuficiência cardíaca, Billroth morreu em Opatija, Áustria-Hungria , antes que pudesse concluir a investigação.

O notável médico historiador Henry Sigerist descreveu Billroth como um herói carismático e um dos mais agradáveis personagens da história da cirurgia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Kazi RA, Peter RE. "Christian Albert Theodor Billroth: master of surgery"; J Postgrad Med 2004; 50:82-83.
Tan S Y, MD, JD and Davis C A; “Theodor Billroth (1829-1894): pioneer of modern surgery”; Singapore Med J 2008; 49 (1) : 4

sábado, 22 de maio de 2010

A Lição Clínica do Doutor Charcot

Uma teoria, por mais excelente que seja, não coíbe a existência. Jean M. Charcot

Jean Martin Charcot, que com justiça é considerado o pai da neurologia moderna, lecionou na Universidade de Paris de 1860 a 1893. Jovem de sensibilidade artística, teria sido pintor ou arquiteto, mas como também gostava de ler, o pai encaminhou-o à medicina. O grande clínico marcou sua carreira com uma série de brilhantes trabalhos, descreveu magistralmente a histeria, a atrofia muscular progressiva, esclerose múltipla, paralisia agitante e esclerose lateral amiotrófica (esta última, em sua homenagem, é denominada “doença de Charcot”). O vienense Pierre Charroux imortalizou uma aula sobre histeria ministrada pelo Dr. Charcot no Hospital Salpêtriére:

Une leçon clinique à la Salpêtrière, Pierre-André Brouillet Charroux,1887. Óleo sobre tela, Museu de Nice.

A paciente, em opistótono, chama-se Blanche Wittman. Provavelmente tratava-se de um caso grave, deduzimos isso ao observar a maca da paciente denunciando sua incapacidade de deambulação. Amparando com o braço esquerdo a paciente espástica, encontramos o Dr. Babinski (o do sinal de Babinski), à época seu aluno.



É oportuno destacar que quando Charcot chegou pra trabalhar em Salpêtriere, em 1862, acreditava-se que a doença histeria (do grego, hystéra = útero) era uma desordem do sistema nervoso de fundo emocional, causada por alterações nos fluidos uterinos.Esse termo vinha de longe. Designava, desde a antiguidade, uma desordem paroxística semelhante à epilepsia (a ala que Charcot chefiava era o Setor de Epilepsia Simples), originada no útero, que era considerado um ser autônomo:
“No meio da bacia, encontra-se o útero, órgão sexual que se diria dotado de vida própria. Move-se espontaneamente [...] dirigindo-se para o lado direito, para o esquerdo. Gosta dos odores agradáveis e deles se aproxima” Hipócrates
“Platão comparou o útero a um animal ávido de procriação que, frustrado em seu desejo, causa desordens em todo o corpo”. Galeno

A histeria seria o resultado do “sufocamento” do útero, manifestando-se por dificuldade de respirar, palpitações, perda de voz, ansiedade e confusão. Lembremos que na renascença esses sintomas eram interpretados como evidência de bruxaria ou possessão, e as vítimas eram submetidas à inquisição.

“São submetidas a torturas atrozes e abomináveis, até confessarem” Cornelius Agrippa

Tudo coincide num ponto: histeria é doença de mulher. De início, Charcot retorna à teoria uterina e fala de uma “hipersensibilidade ovariana” nas histéricas. Com isso, não são poucos os ovários extraídos para curar a doença. Depois, experimenta com mentais,com a hipnose. Tropeça sempre com um problema: neurologista, ele raciocina em termos de lesões do sistema nervoso – que não existem na histeria. Finalmente, chega a idéia da histeria traumática. À época, tornavam-se comuns os acidentes, sobretudo em estradas de ferro. As vítimas frequentemente ficavam com sintomas histéricos; por exemplo, paralisias, pelas quais pediam indenização. Mediante hipnose, Charcot produz sintomas semelhantes, mostrando assim que não se trata de lesão orgânica. O pai da neurologia também foi professor de seu amigo Sigmund Freud, que aprendeu com ele a hipnotizar seus pacientes.

Hospital Salpêtrière, Paris.

domingo, 16 de maio de 2010

A Idéia do Tímido Laennec: O Observador de Tórax

"Consultou-me uma jovem mulher que apresentava sintomas de doença cardíaca. A percussão e palpação seriam de pouca serventia, dada a sua obesidade. Lembrei-me então de um simples e bem conhecido fenômeno acústico: aplicando-se o ouvido a uma extremidade de uma peça de madeira ouve-se distintamente um alfinete arranhando a outra extremidade. Tive uma idéia: enrolei uma folha de papel numa espécie de cilindro, apliquei uma extremidade à região do coração e, surpreso e satisfeito, constatei que poderia assim ouvir os sons cardíacos muito melhor do que se tivesse aplicado diretamente o ouvido ao tórax.” René Théophile Hyacinthe Laennec - 1816

O instrumento descoberto por Laennec em 1816 devido à sua excessiva timidez, denominado por ele mesmo de estetoscópio (stethos, “tórax”, e skopos, “observador”) provar-se-ia revolucionário.

Robert Thom A. (1915 - 1979), pintor e historiador americano que se especializou em retratar cenas históricas.

Laennec foi o primeiro a criar um sistema diagnóstico completo para problemas do pulmão e coração. Seu livro, intitulado Traité de l’auscultation mediáte et des maladies des poumons et du coeur, é considerado o maior clássico das doenças pulmonares em toda a história da medicina.

Artigo francês publicado no ano da descoberta de Laennec "O Estetoscópio de Laennec: Uma Brincadeira de Criança" Conta-se que um dia, ao atravessar o pátio do Louvre, Laennec observou a brincadeira de dois garotos; um deles encostava o ouvido em uma das extremidades de uma viga de madeira, tentando ouvir o som produzido pelo outro garoto, que batia na extremidade oposta com um prego. Foi a partir desse incidente, lembrado por Laennec no momento em que atendia a uma jovem senhora, que surgiu a idéia de enrolar uma cartolina deixando uma extremidade mais larga que a outra; colocou então a extremidade mais estreita em seu ouvido e a mais larga, no quinto espaço intercostal esquerdo da paciente. Notou que ouviu os batimentos do coração da moça mais ampliados do que se tivesse encostado diretamente na região precordial, mais tarde, substituiu a cartolina por um cilindro de madeira. Estava descoberto o estetoscópio.


O estetoscópio original de Laennec, um tubo de madeira com 23 cm de comprimento e 4cm de diâmetro, constituído de duas partes, que se encaixavam uma na outra.

O famoso clínico francês tratou tantos pacientes tuberculosos que acabou se infectando. Exagero ou não, foi o estetoscópio que revelou aos médicos as lesões da tuberculose pulmonar que viriam a matar Laennec.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FOUCAULT, Michel. “Naissance de La Clinique”. Paris, PUF, 1948
ALTMAN, Lawrence K. Who goes first? “The story of self-experimentation in medicine”. New York, Random House, 1985
SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998