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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Efeito Mozart: Movimentos de um Gênio

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), nasceu em 27 de janeiro de 1756 em Salzburgo, na Áustria, e cresceu numa família influente e intelectual.

"Mozart tocando em Verona", 1770, por Saverio dalla Rosa
Reconhecida como uma criança prodígio com um ouvido musical infalível, Mozart possuía memória musical impecável e habilidade para leitura desde os três anos de idade. Aos quatro anos, poderia dizer se um instrumento estava fora de sintonia. Tornou-se um excelente compositor aos cinco anos, concluindo sua primeira sinfonia ao completar oito anos. Deixo-nos um legado de mais de 600 peças musicais.

Casa onde Mozart nasceu. Salzburgo, Áustria.
Conversar sobre um dos maiores gênios musicais de todos os tempos oferece-nos uma oportunidade não só para refletir se algum distúrbio neuropsiquiátrico seria subjacente ao seu comportamento excêntrico, mas também para examiná-lo como um homem de poder criativo excepcional, responsável por contribuições imensuráveis para o universo cultural e para a musicoterapia.

Através de relatos extraídos das correspondências do próprio artista, bem como depoimento de amigos e familiares, pesquisadores e biográficos de Mozart registraram seu comportamento peculiar, apontando-o como portador de Síndrome de Tourette (ST) e comorbidades psiquiátricas.

Outrora considerada uma curiosidade rara psiquiátrica, ST – caracterizada pela presença de tiques múltiplos, motores ou vocais, – é agora reconhecida como um distúrbio neuropsiquiátrico relativamente complexo, que afeta cerca de 2% da população geral. Os tiques ocorrem em ondas, com frequência e intensidade variáveis, pioram com o estresse, são independentes dos problemas emocionais e frequentemente associados a sintomas obsessivo-compulsivos e distúrbio de atenção e hiperatividade.

Linguagem de Mozart

Regeur e, mais tarde, Davies e Keynes, estavam entre os primeiros pesquisadores que falaram sobre a presença de ST e Transtorno ciclotímico em Mozart.

Simkin, um endocrinologista, pianista, musicólogo e historiador, investigou a vida e arte de Mozart a partir de um ponto de vista médico e discutiu extensivamente a presença de ST em Mozart. Com base na investigação meticulosa de Simkin, evidência de escatografia existe em 39 de 371 cartas (10,5 %) escritas por Mozart. Nove destas cartas foram escritas a sua irmã, Marianne. Em suas cartas, Mozart fez uso excessivo de palavras obscenas, centradas principalmente na defecação e vulgaridades anais, sugerindo a presença de coprofilia.

Também em sua obra, coprografia é encontrada na letra de sete de suas composições. Exemplo de propensão para a linguagem chula é a composição de Mozart intitulada Leck mir den Arsch fein rein ("Lamba-me o traseiro bonito e limpo"), composta quando ele tinha 26 anos de idade.

No início do século XX, o escritor austríaco Stefan Zweig, colecionador de manuscritos musicais, propôs que os materiais escatográficos de Mozart fossem interpretados sob a ótica psiquiátrica. Zweig enviou cópias das cartas a Sigmund Freud com a seguinte sugestão:

Essas nove cartas lançam uma luz psicologicamente surpreendente em sua natureza erótica, que, ainda mais [em Mozart], que em outros homens importantes, tem elementos de infantilidade e coprofilia. Este poderia ser um estudo muito interessante para um de seus alunos. 

Freud aparentemente recusou a proposta de Zweig.

Como Schroeder observa, psicobiógrafos posteriores tomaram as cartas como provas das tendências psicopatológicas de Mozart:

Nunca foi Mozart menos reconhecidamente um grande homem em sua conversa e ações, do que quando ele estava ocupado com um trabalho importante. Nesse momento, ele não só apresentava discurso estranho, mas ocasionalmente fazia brincadeiras de uma natureza que não correspondia a alguém como ele;[ .... ] Ou ele intencionalmente escondia sua tensão interna atrás de uma frivolidade superficial, por razões que não poderiam ser sondadas , ou tinha prazer em colocar em nítido contraste as ideias divinas de sua música com as explosões repentinas de chavões vulgares.
Comportamento motor

Onze de vinte e cinco pessoas que conviveram com Mozart e contribuíram para suas memórias mencionaram presença de movimentos perpétuos e maneirismos. O músico exibia caretas faciais, movimentos involuntários repetitivos das mãos e dos pés e saltos. Tais características têm sido consideradas como tiques motores e usadas para apoiar o diagnóstico de ST.

Karoline Pichler (1769-1843), membro da intelligentsia em Viena, que tinha filiação musical com Mozart e Haydn, descreveu um comportamento “inadequado” de Mozart durante uma improvisação de As Bodas de Fígaro:
"... de repente, pareceu cansado de tudo isso, levantou-se subitamente, e, no clima louco que tantas vezes se aproximou dele, começou a pular sobre mesas e cadeiras, miar feito um gato, e dar cambalhotas como um menino rebelde"
Comorbidades

Sabe-se que um dos distúrbios comportamentais que mais comumente coexistem com a ST é o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), presente em até 50% dos portadores.

Mozart expôs características que sugerem fortemente que ele nutria pensamentos obsessivos e rituais compulsivos. Por exemplo, foi obsessivamente meticuloso sobre o modo de higiene de sua esposa:
Rogo-vos a tomar o banho apenas a cada dois dias, e só por uma hora.
Além disso, costumava praticar brincadeiras inadequadas e trocadilhos, entregando-se a um comportamento infantil, sem apreciação das consequências. Isto poderia ser interpretado como análogo ao déficit de controle de impulso ou transtorno de conduta, também comumente encontrados em portadores de ST.

Nannerl, irmã de Mozart, escreveu o seguinte sobre o seu irmão:
Apresentava mudanças de humor repentinas da tristeza para a euforia; se num instante era dominado por uma ideia sublime, no outro entregava-se a gracejos e ao ridículo.  
Este mesmo ser que, como um artista, alcançou o mais alto estágio de desenvolvimento até mesmo em seus primeiros anos, permaneceu até o fim de sua vida completamente infantil em todos os outros aspectos da existência. Nunca aprendeu a exercer as formas mais elementares de autocontrole.  
Wolfgang Hildesheimer, um historiador do século XX, comentou que Mozart:
Foi tão estranho para o mundo da razão como para a esfera das relações humanas. Ele foi guiado unicamente pelo objetivo do momento. 
Tais relatos sinalizam a presença de labilidade emocional e impulsividade.

Para investigadores, alguns elementos de comportamento de Mozart podem indicar a presença de déficit de atenção e hiperatividade. Por exemplo, enquanto compunha, simultaneamente envolvia-se em outras atividades, como caminhar, pular ou jogar billiard.

 “Fora da música, ele foi uma nulidade.” (Pichler) 

 Há como cindir o gênio do frívolo?

Contrastando com essas afirmações, permaneceu inabalada a confiança de Mozart em suas próprias capacidades musicais, exultando com elas, e não há traço em parte alguma de sua correspondência, nem nas memórias de seus contemporâneos, que acusem qualquer dúvida ou insegurança de sua parte neste aspecto.

Paradoxalmente aos relatos sobre o estado de saúde mental de Mozart, sua música, como a Sonata para dois pianos, em Ré Maior, K.448, é descrita como tendo um "Efeito Mozart", que inclui melhoria no QI e desempenho espacial-temporal e em partes do cerebelo dentro de alguns minutos nos ouvintes.



Pesquisas sugerem que a música de Mozart tem um efeito terapêutico em pacientes epilépticos, possivelmente por aumentar o fluxo de sangue para as áreas temporais, giro pré-frontal dorsolateral, occipital e cerebelo.

Há grande destaque, também, para as propriedades medicativas das composições: Concertos para violino nºs 3, em Sol Maior K.216 e nº 4, em Ré Maior K.218.

Embora haja inúmeros artigos atribuindo a personalidade e comportamento peculiar de Mozart como parte de um espectro de transtornos neuropsiquiátricos, a evidência para qualquer um desses distúrbios é inexistente.

A existência singular de Mozart mostra que sua extraordinária criatividade foi beneficamente carregada por sua distintiva cognição e função neurológica.

Sua música parece ter absorvido a totalidade magnânima que Mozart carregara em si, eternizando a grandiosidade de um gênio.

Consistentemente, o que sabemos é que, a despeito de seu criticado comportamento, seu trabalho criativo alcançou, tal como aspirou, um efeito divino: sua música é capaz de ir aos recônditos do ser, aplaca dores, humaniza, promove a cura, acalenta, harmoniza e potencializa as funções intelectuais dos ouvintes.

REFERÊNCIAS: 

1. Ashoori, A. Jankovic, J. ” Mozart's movements and behaviour: a case of Tourette's syndrome?” J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2007. 
2. Bodner M, Muftuler L T, Nalcioglu O. et al FMRI study relevant to the Mozart effect: brain areas involved in spatial–temporal reasoning. Neurology 2001 
3. Hounie, A. Petribú, K. “Síndrome de Tourette - revisão bibliográfica e relato de casos”. Rev Bras Psiquiatr, 1999. 
4. Simkin B. Mozart's scatological disorder. BMJ 1992. 5. Wolfgang Amadeus Mozart. Wikipédia

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Demência: Autorretratos de William Utermohlen

William (Bill) Utermohlen nasceu em 1933 numa família de imigrantes alemães no sul da Filadélfia.

Integrou a Academia de Belas Artes da Pensilvânia no periodo entre 1951-1957.
Viveu a maior parte da carreira artística em Londres, onde residia com sua esposa, Patricia, uma historiadora de arte.

Conversação. 1990. Óleo sobre tela.
Ironicamente, o acervo de Bill retrata preferencialmente comunicações interpessoais – anos mais tarde prejudicada no artista devido ao declínio das habilidades comunicativas provocado pela doença de Alzheimer – , sendo poderosamente sensoriais, com cores intensas e arranjos espaciais envolventes, amplificado as interações dos membros da composição.

Ao receber o diagnostico de doença de Alzheimer, em 1995, seu estilo mudou dramaticamente. Pinceladas mais espessas refletem um sentimento urgente e expressionista.

Bill inicia uma série de trabalhos expressando não mais a conexões entre seres, mas uma variedade de estados espontâneos de espírito, incluindo tristeza, raiva e resignação.

A obra de Bill oferece uma narrativa visual única da experiência subjetiva de um paciente que sofre de demência. O artista pinta as mudanças graduais que vivencia – alterações que não consegue mais transmitir em palavras.

Se por um lado o declínio cognitivo engessa seus gestos e linguagem limitando o contato externo material, por outro, a liberdade do espírito criativo interno amplia a proximidade humana através das emoções expressas em seus autorretratos:

Blue Skies. 1995.
Em Blue Skies (1995) o artista testemunha o anúncio de sua doença e seu declínio iminente . O diagnóstico desta morte psíquica, que ocorre antes da morte real, produz um medo profundo. O tempo parou. O exterior é vazio. Um buraco oblíquo encontra-se acima pronto para sugá-lo. Para não ser devorado pela escuridão, ele paira sobre a mesa como um náufrago em sua jangada, como um pintor amarrado em sua tela.

Broken Figure. 1996. 

O diagnóstico é claro. Os médicos agora estão testando a memória de Bill. Eles perguntaram-lhe se ele ainda sabe o dia, o mês, o ano, e o lugar em que está. Questionam se ele ainda pode memorizar uma lista de palavras, completar uma subtração simples, nomear objetos comuns, ou realizar a cópia de simples formas geométricas. A humilhação de não conseguir responder a estas perguntas simples quebra sua auto-confiança. Em breve, ele sente que não será capaz de responder quaisquer perguntas. Toda a esperança de uma cura ou mesmo uma estabilização da sua condição está perdida. Confrontado por seu próprio declínio, a queda em sua auto-estima é vertiginosa. O retrato mostra um “eu” fragmentado.

Autorretrato - 1996
Este autorretrato fixa uma imagem de si mesmo. Bill compartilha a experiência de viver com a doença de Alzheimer testemunhando, através de seu trabalho, sua verdade pungente - ele espreita o exterior atrás das grades da prisão.

Duplo Autorretrato. 1996

Sabendo agora que a fonte de sua doença é sua cabeça, ele se concentra no contorno de seu crânio, delineando duas vezes na cabeça que surge à esquerda. Seu olhar transparece carga e resignação; à direita, sua expressão é brava e machucada.

Máscara. 1996.

A pintura acima reflete a transição de ser para não-ser. O autor registra o instante em qual o “eu” se afasta do si mesmo, se derrete, deixando apenas silêncio para trás.

Autorretrato. 1997


Neste auto-retrato, a serra vertical, como uma lâmina de guilhotina, simboliza a aproximação de uma morte prefigurada. A divisão entre o que ele sente, o que ele gostaria de fazer ou dizer, e o que ele é realmente capaz de fazer é maior a cada dia. É um encontro com o “eu” desconhecido. Suas possibilidades de expressão já não são suficientes para expressar a natureza extrema de sua experiência.

Autorretrato (verde). 1997 

Dois anos após o diagnóstico, os autorretratos são distintamente diferentes. As formas são turvas. Motivação, atenção, memória e reconhecimento visual estão agora desorganizados e tornam as tarefas desajeitadas. Emoções são precisamente expressas – nota-se o sentimento de tristeza, ansiedade, resignação e impotência.

Autorretrato. 1998; Autorretrato, 1955.

Sozinho no estúdio, Bill quer experimentar novamente os velhos movimentos da pintura. Desta vez, ele inspira-se num antigo autorretrato, quando ele tinha 22 anos de idade. O autorretrato de 1998 mostra a mudança na arquitetura de sua psique. Sua cabeça está totalmente enquadrada pelo retângulo de seu cavalete. As linhas vermelhas e amarelas estreitam a constrição de sua cabeça e servem para desligar este último retrato de si mesmo.

Autorretrato Apagado, 1999. Cabeça, 2000. 

Cinco anos após o dianóstico, o artista pinta os últimos autorretratos. Neles surge a tentativa de estruturação de uma cabeça desmontada. O artista tenta evocar uma imagem primordial de si mesmo, mas o que emerge é algo estranho e ameaçador.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em "Os Simpsons"

O segundo episódio da décima primeira temporada do seriado “Os Simpsons”, exibido em 2011, mostra o personagem Bart como portador do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O transtorno se caracteriza por frequente comportamento de desatenção, inquietude e impulsividade, em pelo menos três contextos diferentes.

Confira:



O grande número de indivíduos submetidos a farmacoterapia devido ao eventual diagnóstico de TDAH para justificar o mau desempenho escolar geram controvérsias desde a década de 1970.

O episódio, enfocando nos efeitos colaterais de uma medicação que controlaria o comportamento (“Fucosyn” - provavelmente um derivado anfetamínico), faz uma crítica à banalização da medicalização. O personagem desenvolve uma psicose anfetamínica, efeito adverso não raro de uso de drogas como a dextroanfetamina – medicamento que reduziria sintomas do TDAH, manifestada prioritariamente por delírios persecutórios.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"Delirium" na Obra de Machado de Assis

Narrado em primeira pessoa, a obra machadeana que introduziu o realismo na literatura brasileira conta a biografia do defunto-autor Brás Cubas que, após a sua morte, decide narrar suas memórias a fim de se distrair na eternidade.

Ainda nos primeiros capítulos, surgem explicações sobre o óbito do autor, detalhando o funeral e também sua causa mortis: uma pneumonia contraída enquanto criava o emplastro Brás Cubas – medicamento contra a melancolia e a falta de propósito, capaz de solucionar todos os “males do espírito”.
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Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. 

Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes.

Percorrendo o que antecedeu ao óbito, o capítulo VII, intitulado O Delírio, descreve contundentemente um episódio de delirium ou estado confusional agudo conseguinte a grave infecção do protagonista:

[...]Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. 

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim. Logo depois, senti-me transformado na Suma Teologica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzandoas eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. — Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos. [...] 

Doravante, segue-se a narrativa atravessando os séculos, cruzando o presente e atingindo o futuro. Ao fim do capítulo, conclui o defunto:

Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...
REFERÊNCIAS: 
1.ASSIS, Machado. "Memórias Póstumas de Bras Cubas", 1880.
2.http://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3rias_P%C3%B3stumas_de_Br%C3%A1s_Cubas

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Demência de Alzheimer em "As Viagens de Gulliver" (1726)

Em 1906, Alois Alzheimer registrou na literatura médica a doença que leva seu nome. Entretanto, séculos atrás, observações sobre a demência já haviam sido relatadas não no universo científico, mas na literatura romântica.

A descrição das mudanças comportamentais observadas no envelhecimento que estampa uma das páginas do livro favorito de Voltaire, As Viagens de Gulliver (1726) – assinado por Jonathan Swift, é bastante sugestiva de doença de Alzheimer:

Em seguida, descreveu-me os Struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva ideia da eterna duração de sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não conheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso, que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam.”
O trecho acima descreve o momento em que Gulliver encontra os luggnaggianos, entre os quais vive a raça imortal de Struldbruggs, indivíduos destinados a nunca morrer, mas que sofrem a devastação e as enfermidades conseguintes a idade avançada.

Inicialmente, Gulliver deduz que essas pessoas são singularmente sábias, dadas as suas décadas de aprendizado e cultura. O protagonista se surpreende ao perceber que, na verdade, os imortais viviam socialmente isolados e deprimidos, sem o alívio final da morte, exibindo todas as consequências negativas de senescência extrema, como a perda da função e redução da vitalidade.

Literatos sugerem que este retrato de senilidade fora elaborado por Swift a partir da observação do seu tio Godwin, que sofreu perda considerável de memória com o envelhecimento.

Neurologistas afirmam que a descrição de Swift seria uma espécie de premonição sobre seu próprio futuro estado mental. Escritos do mais famoso escritor da época refletem seu interesse pelos temas psicológicos e psiquiátricos.

Durante os últimos anos de vida, Jonathan Swift sofreu mentalmente o declínio cognitivo que descreveu, sendo por isso rotulado pelos seus contemporâneos como “o louco”. Dez anos antes de sua morte, em outubro de 1735, seus amigos observaram uma deterioração de sua memória e dificuldade de reconhecer as pessoas. O proprio autor registrou “Eu perdi completamente minha memória e quase não entendo uma palavra do que escrevo”. Em outubro de 1745, aos 78 de sua idade, faleceu o admirável escritor, legando a maior parte de sua fortuna para construir e dotar um hospital para “lunáticos, idiotas e incuráveis".

REFERÊNCIAS:
Miranda CM , Pérez JC , Slachevsky Ch A. "Contribuição científica de Jonathan Swift em suas "Viagens de Gulliver". . Rev Med Chil 2011 Mar; 139.
Lewis, JM. "Jonathan Swift and Alzheimer's disease". Lancet. 1993 Aug 21;342(8869):504.
Lorch, M. "Language and memory disorder in the case of Jonathan Swift: considerations on retrospective diagnosis." Oxford Journals Medicine Brain Volume 129, Issue 11 Pp. 3127-3137.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Bob Esponja e a Síndrome de Williams

A Síndrome de Williams-Beuren, descrita pela primeira vez em 1961 pelo cardiologista neozelandês John Williams, é uma desordem genética rara caracterizada por uma facilidade de relacionamento interpessoal acima da média.

Os indivíduos portadores da síndrome são excepcionalmente simpáticos, apresentam gosto exacerbado por música e, ao comunicar-se, exageram nas expressões faciais e gestos, tendendo a utilizar uma linguagem rica, com termos incomuns, ritmo exagerado e intensidade emocional.

Fenotipicamente, apresentam aparência distinta, com face “élfica”: nariz pequeno e empinado, íris azul, lábios proeminentes, boca entreaberta, dentição pouco desenvolvida e sorriso freqüente.

SpongeBob SquarePants (no Brasil, Bob Esponja Calça Quadrada) é uma série de televisão americana de desenho animado criada pelo biólogo marinho e animador Stephen Hillenburg.

Bob Esponja

Não somente a personalidade, mas também a face do personagem Bob Esponja é parecida com a dos portadores da Síndrome de Williams, com grandes íris azuis, um nariz curto, grosso e arrebitado, uma grande boca contendo poucos e proeminentes dentes.

As semelhanças não param por aí! Bob Esponja é considerado um cantor fantástico, utilizando muitas vezes seu nariz como uma flauta, no que é muito bom.


Analogamente, as crianças com síndrome de Williams possuem habilidades musicais, com facilidade para aprender rimas e canções, demonstrando muita sensibilidade sonora e concomitantemente boa memória auditiva.

Apresentando incoodenação motora, Bob tem sérios problemas com direção, continuando por isso a frequentar as aulas de direção da Senhorita Puff (instrutora da auto escola que Bob estuda).


Também as vítimas da síndrome, por consequência de atraso psicomotor, frequentemente tem problemas de coordenação e equilíbrio.

Embora normalmente visto (principalmente por Lula Molusco) como infantil e estúpido, Bob Esponja é um personagem enérgico, otimista, autoconfiante, determinado, dramático, bondoso e inocente.

REFERÊNCIAS:
Personagens de desenho com transtornos psiquiátricos.
Wikipedia: Bob Esponja
Wikipedia: Síndrome de Williams

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Porfiria no filme "As Loucuras do Rei George"


A porfiria é uma doença hereditária ou adquirida, causada pelo acúmulo de porfirinas ou seus precursores em diversos compartimentos, quando faltam algumas enzimas necessárias a síntese do heme.

O termo deriva da palavra grega porphura, que significa pigmento roxo. Em algumas formas de porfiria, o acúmulo de precursores do heme excretados pela urina podem mudar sua cor, após exposição ao sol, para um vermelho ou marrom escuros ou para um tom purpúrico, sendo o termo que designa a doença uma referência à coloração arroxeada dos fluidos corporais que alguns pacientes apresentam durante um ataque.

Existem diferentes tipos de porfirias, sendo classificadas de acordo com suas deficiências enzimáticas específicas no processo de síntese do heme, sendo a Porfiria Intermitente Aguda (PIA) o tipo mais comum de porfiria aguda.

A manifestação mais comum da PIA é dor abdominal contínua ou em cólica, em ataques recorrentes ou de forma insidiosa. Ocasionalmente, adicionam-se ao quadro vômitos, neuropatia aguda e convulsões. Durante as crises, sintomas psiquiátricos podem ocorrer, incluindo ansiedade, insônia, depressão, desorientação, alucinações e paranoia.

Sugere-se que a insanidade demonstrada pelo Jorge III foi resultado de uma crise de porfiria intermitente aguda.

Jorge III. Allan Ramsay. 1762.
As “loucuras reais” demonstradas no filme As loucuras do Rei George (1994), são atualmente atribuídas aos sintomas psiquiátricos da porfiria intermitente aguda, apenas descoberta no século XX.

À medida que o rei vai dando mostras de que está louco e incapaz de exercer o poder, começam as estratégias para a sucessão no poder da corte. 



Jorge III, rei que subiu ao trono da Grã-Bretanha em 1970, ficou conhecido por seu comportamento totalmente excêntrico, suas dores abdominais, e por apresentar urina colorida.

Devido a endogamia, tanto a porfiria quanto a hemofilia são doenças hereditárias que afligem a família real inglesa.

Curiosidade: O bioquímico David Dolphin propôs em 1985 uma ligação entre a porfiria e o folclore vampírico. Reparando que essa condição é tratada com a administração de heme intravenoso, Dolphin sugeriu que o consumo de grandes quantidades de sangue poderia resultar de alguma maneira no transporte do hemo através da parede do estômago e para a corrente sanguínea. Os vampiros seriam meras vírimas de porfiria que procuravam substituir o heme e aliviar seus sintomas. À época, fora estabelecido também um paralelo com a fotossensibilidade por parte dos afetados por porfiria, condição também associada aos vampiros fictícios.

Referências:
Wikipedia: Porfiria

domingo, 9 de setembro de 2012

"O Doente Imaginário", de Molière

A peça O Doente Imaginário, de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673), foi destinada inicialmente à diversão do rei. Famosa sátira da medicina, nela o autor nos apresenta uma medicina livresca, incapaz de progredir.


Protagonizando, o hipocondríaco Argan, entupido de remédios e clisteres prescritos por médicos interessados apenas no retorno financeiro que tinham com o emprego de seus serviços; estes doutores possuem nomes sugestivos, Sr. Purgon (purgante) e Sr. Diafoirus (diaforéticos).
BÉRALDE: [...] Não vejo pessoa que esteja menos doente do que vós, e que eu não pediria melhor constituição do que a vossa. Uma grande prova de que andais bem, e que tendes um corpo perfeitamente bem regulado, é que com todos os remédios que já tomastes, ainda não conseguistes estragar a vossa saúde. Vê que não estais morto co todos os medicamentos que lhe fizeram tomar. (ATO III, CENA III).
Molière impinge na obra a ideia de que a paixão por médicos e medicamentos é apenas uma forma desesperada de terror da morte. Que o autor fosse o “original” do Doente é amplamente especulado. A obra é alimentada por sua própria experiência como paciente. Molière tinha uma visão arguta e havia adquirido uma certa cultura médica, pois um doente inteligente e provido de espírito crítico, desiludido com os insucessos dos tratamentos, se tornaria necessariamente um autodidata em medicina.

Comédia singularmente amarga, apesar dos risos que traz em vários momentos, a peça fotografa uma fase penosa da vida do irônico autor, que escolheu traduzir de forma engraçada o que sentiu quando, atrozmente doente (vítima de tuberculose pulmonar), viu-se abandonado pelos médicos que o assistiram; assim, O Doente Imaginário é um protesto da inteligência e do corpo contra a implacável destruição imposta pela doença, contra a impotência humana, contra a exploração de alguns da miserável condição humana.
ARGAN – Mas afinal, meu irmão, há pessoas tão sábias e tão inteligentes quanto vós e vemos que no mal estar todos apelam para os médicos.
BERALDE – É um traço da fraqueza humana e não da verdade de sua arte. 
ARGAN – Mas é preciso que os médicos achem o seu ofício verdadeiro, já que o utilizam para si mesmos.
BERALDE – É que há alguns entre eles que também estão na crença popular, da qual aproveitam , e outros que dela aproveitam sem acreditar. O vosso senhor Purgon, por exemplo, não vê fineza; é um homem de todo médico, da cabeça aos pés; um homem que acredita em suas regras mais do que todas as demonstrações da matemática, e que acharia um crime querer verificá-las; que não vê nada de oculto na medicina, nada de duvidoso, nada de difícil, e que, com uma impetuosidade de prevenção, uma rigidez de confiança, uma brutalidade e senso comum, fornece a torto e a direito purgantes e sangrias e não imagina nada além. [...] É a nossa inquietude, a nossa impaciência, que tudo estraga, e quase todos os homens morrem de seus remédios, e não de sua doença. (ATO III, CENA III)
Publicando a obra, Molière emite um grupo de alarme: a medicina está se enterrando no palavratório. E o autor vai mais longe, chega mesmo à negação da própria medicina. E esta negação se origina da sua experiência com médicos antiéticos que lhe extorquiam dinheiro prometendo saúde numa época em que o diagnóstico de tuberculose equivalia a uma sentença de morte.

Nos últimos dias de vida, vendo que a tuberculose apenas progredia e tirava-lhe o fôlego, Molière concluiu que não se curam os doentes do corpo, mas tão só os maníacos; suporta-se; conforma-se; ou melhor, ri-se deles.

O último ato da vida do autor foi numa noite de inverno. Menosprezando os conselhos dos médicos que lhe diziam para ficar em repouso e não ir ao teatro, Molière foi representar o obidiente hipocondríaco Argan em sua sua famosa peça "O Doente Imaginário" em 17 de fevereiro de 1673. Recitando os versos, ele apresentou hemoptise no palco. Em seguida, enquanto a plateia delirava em aplausos, foi tomado por uma convulsão e levado pra casa, onde morreu às 22h da mesma noite.

O grande escritor e artista cômico que sonhou ser um ator de tragédias, representou alegria para os outros e fez de sua própria vida a tragédia que tanto queria representar. Não é surpreendente que o mestre da dissimulação e duplo sentido tenha encerrado a trajetória num momento em que encenava um falso doente.

REFERÊNCIAS:
MOLIÈRE. "O Doente Imaginário". Ed. Martin Claret, 2a edição. 2009.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Relato de um jogador patológico, por Dostoiévski

Jogo patológico é um transtorno psiquiátrico inserido nos manuais diagnósticos há cerca de 20 anos. Pode ser considerado um transtorno do espectro impulsivo-compulsivo,apresentando características compartilhadas com os transtornos por uso de substâncias psicoativas.

O portador do transtorno apresenta preocupação com o jogo e com a obtenção de dinheiro para jogar, incapacidade de controlar o comportamento do jogo, mesmo frente a nítidas conseqüências adversas sócio-ocupacionais e/ou legais.

Um caso de jogo patológico bastante representativo é narrado no livro O jogador, de Fiódor Dostoiévski.

Através do protagonista, Aleksei Ivanovitch, o autor evidencia a lancinante evolução do transtorno, evidenciando três fases bem definidas no comportamento de jogar: vitória (na qual o jogador consegue controlar o impulso para jogar, permitindo algum ganho com o jogo); perdas (onde o impulso para jogar se torna mandatório, interferindo na capacidade de avaliação e repercutindo em prejuízos finaneiros); e desespero (na qual o jogador apresenta prejuízos significativos em várias dimensões de sua vida pessoa).

Não só desviou os olhos da vida, dos seus próprios interesses, dos da sociedade, dos seus deveres de homem e cidadão, dos seus amigos (porque fez amigos), não só deixou de ter qualquer objetivo a não ser o do ganho, mas desligou-se mesmo de suas recordações... Lembro-me de si numa época apaixonada e intensa da vida, mas estou certo de que esqueceu as melhores impressões desse período; os seus sonhos, os seus desejos quotidianos não tem agora maior alcance senão o de “pair” e “impair”, “rouge”, “noir”, os doze números do centro, etc., etc., estou certo disso. (Dostoiévski em "O jogador").

Aleksei demonstra preocupação e atividade pessoal dirigidas exclusivamente ao jogo, mesmo com as inúmeras perdas financeiras e sociais, além dos problemas legais, exibindo todas as características clínicas que permitem considerá-lo um jogador patológico.

O autor, que relata com precisão o sofrimento psicológico associado ao jogo patológico era, provavelmente, um jogador compulsivo e, para quitar as dívidas decorrentes do transtorno, cumpriu um contrato com seu editor escrevendo este relato autobiográfico em apenas vinte e seis dias.

Sigmund Freud, em Dostoiévski e o parricídio, sugere que Dostoiévski, assim como os demais jogadores impulsivos, teriam um desejo inconsciente de perder, jogando para aliviar o sentimento de culpa. Nas palavras do pai da psicanálise:
Todos os pormenores de sua conduta impulsivamente irracional demonstram isso. Ele nunca descansava antes de ter perdido tudo. Para ele, o jogo era também um método de autopunição. (Freud em "Dostoiévski e o Parricídio").

REFERÊNCIAS:
1.Dias, FM. “Um jogador patológico por Dostoiévski” Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.30 no.3 Porto Alegre Sept./Dec. 2008
2.Dostoiévski F. O jogador. Brasil: Editora 34; 2004
3.FREUD, S. "Dostoiévski e o parricídio". In: O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. pp.67-148.
4.OLIVEIRA, M; SAAD, AC. “Jogo patológico: uma abordagem terapêutica combinada”.J Bras Psiquiatr, 55(2): 162-165, 2006.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Enfermaria nº 6", de Anton Tchekhov

“O repouso e a satisfação não estão fora do homem, mas dentro de si próprio.” Anton Tchekhov

Confeccionada em 1892 pelo célebre escritor e médico Anton Tchekhov, Enfermaria nº 6 é um conto que discorre de maneira sublime sobre a concepção filosófica da saúde mental, através de um passeio literário por um hospital psiquiátrico provincial.

Graças ao gigantismo do autor, a obra ficou consagrada como uma das mais impactantes histórias difundidas entre o público médico.

A trama principal transita em torno de quatro personagens portadores de transtornos mentais. O autor busca extrair, do cerne da loucura, a riqueza emocional de cada ser humano, infundindo delicadamente a idéia de que a enfermidade psíquica provém de um estado de hipersensibilidade aos
infortúnios a que estamos suscetíveis.

Ivan Dmitrich Gromov, de origem nobre, trinta e três anos, antigo oficial de diligências do julgado e secretário provincial, sofre de mania da perseguição [...] mostra-se sempre excitado, inquieto, num estado de grande tensão, como se esperasse algum acontecimento confuso e indefinido [...] tem uns tiques estranhos e doentios, mas os finos sulcos, que um profundo e sincero sofrimento deixou no seu semblante, denotam inteligência,e os seus olhos deixam transparecer um brilho carinhoso e sadio [...] Seu discurso é desordenado, febril, como em delírio; nem sempre se compreende o que diz; mas mesmo assim deixa perceber, pelas palavras e pela voz, qualquer coisa que denota extrema bondade. Quando fala, distinguem-se nele o louco e o homem. É difícil traduzir para o papel os seus desvarios. Fala da maldade humana, da violência que espezinha a justiça, da bela vida que com o andar dos tempos reinará na terra, das grades e das janelas, que a cada instante lhe recordam a obstinação e a crueldade dos opressores.”

Andrei Efimich, médico chefe do hospital, classificado inicialmente pela sociedade como um individuo sadio, estabelece uma relação de íntima amizade com um dos pacientes. Este último, a despeito de seu problema mental, exprime ser portador de peculiar inteligência quando aceita entabular diariamente conversas de conteúdo filosófico com o médico.

Com sua maneira singular de compreender a vida, o paciente influencia Andrei Efimich a ponto de modificar seu modo de ver e entender os pacientes ao mostrar-lhe o quão difícil é estar submetido à internação psiquiátrica. O médico, sensibilizado, passa a lidar com os enfermos de forma nunca feita antes, e esse estilo inteiramente novo de agir faz com que ele seja declarado insano e internado junto aos outros na enfermaria número 6.

Além de objetivar extinguir o preconceito contra os portadores de distúrbios mentais, a obra russa também enfatiza, dentre outros assuntos relevantes, as evoluções medicinais do período, a necessidade de uma boa relação médico-paciente e a importância do intelectualismo nas relações sociais.


REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, A. A ENFERMARIA Nº 6 e outros contos. Trad: Maria Luísa Anahory. Editora Verbo. Lisboa, 1972.

sábado, 16 de abril de 2011

"Freud, além da alma" / Clássico das artes cinematográficas conta a história do pai da psicanálise

Freud (1962) ou Freud, além da alma, é uma biografia cinematográfica americana baseada na história do neurologista austríaco Sigmund Freud.



Dirigido por John Huston, o filme retrata a trajetória do fundador da psicanálise no período entre 1885 e 1890. A história comprime os anos que levou Freud para desenvolver a sua teoria psicanalítica, momento em que a maioria de seus colegas recusavam-se a tratar a histeria acreditando que os sintomas eram meros estratagemas para atrair a atenção. O neurologista, entretanto, aprende a usar a hipnose para descobrir os motivos das neuroses de seus pacientes, especialmente através do tratamento de Cecily, uma jovem paciente histérica. O enredo enfoca os aspectos fundamentais da elaboração da teoria psicanalítica e exploração do inconsciente.

Elenco:

Montgomery Clift: Sigmund Freud
Susannah York: Cecily Koertner
Larry Parks: Dr. Josef Breuer
Fernand Ledoux: Dr. Charcot
Alexander Mango: Dr. Babinsky
Eric Portman: Dr. Theodore Meynert

Curiosidade:

O roteiro original do filme foi escrito pelo admirável filósofo francês Jean-Paul Sartre.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Transtorno de Personalidade Múltipla em "O Médico e o Monstro"


O escritor escocês Robert L. B. Stevenson compôs uma fascinante obra de perene valor literário: The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), publicada no Brasil sob o título O Médico e o Monstro é uma história que discorre sobre o conceito do bem e do mal existente na espécie humana.

O livro pode ser visto como uma notável fonte de estudo para psicologia humana, envolvendo a compreensão das teorias estruturais da personalidade, conforme detalhado por Freud, além de simbolizar perfeitamente o indivíduo acometido pelo transtorno dissociativo de identidade, processo mental caracterizado pela desintegração do ego, popularmente conhecido como dupla personalidade.

O Médico e o Monstro tem como protagonista o Dr. Henry Jekyll, um generoso médico bem sucedido e amplamente respeitado por possuir possui um brilhante intelecto, mas que, em determinado momento, se conscientiza da duplicidade de vida que leva ao perceber a parcela de maldade que reside dentro dele.
Era profunda a duplicidade do meu caráter. Muitos homens teriam confessado com orgulho certos erros. Eu, todavia, tendo em vista os altos propósitos que visava, só podia envergonhar-me dessas irregularidades: ocultava-as, com mórbida sensação de culpa e vergonha. Assim exigia a natureza das minhas aspirações, mais do que a própria degradação dos pecados; ia-se cravando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o bem do mal e divide e compõe a dualidade de nossa alma. [...] Em cada dia, as duas partes da minha inteligência, a moral e a intelectual, atraíam-me mais e mais para essa verdade, cuja descoberta parcial foram mim condenada a tão pavoroso naufrágio: que o homem não é realmente uno, mas duplo. (Stevenson: O Médico e o Monstro, 1886).
Na novela, Dr. Jekyll consegue, por meio de seus experimentos científicos, criar uma fórmula (comparada com o álcool no decorrer do romance) que intervém no seu "normal" e desencadeia processos mentais e físicos dando origem a um ser misantropo de aparência grotesca e deformada. Através desta outra face de sua personalidade, ele pratica o mal sob o nome de Edward Hyde, livrando a figura do médico das críticas sociais.

Jekyll torna-se completamente dependente da mistura que utiliza para trocar de personalidade. Edward Hyde gradualmente se torna cada vez mais poderoso do que sua contraparte "boa", sendo descrito como lado mais agradável dos dois. Em última análise, é a personalidade dominada pela maldade que leva à queda do Dr. Jekyll e sua morte. Isto porque o médico, nas últimas fases de sua lucidez, reconhece o perigo que o Sr. Hyde representa para a sociedade e altruisticamente decide acabar com ele.

A obra de Stevenson tem caráter profético. Poucos anos depois, os estudos de Sigmund Freud evidenciaram a face oculta da mente, o Sr. Hyde (o sobrenome é óbvio: hide significar “ocultar”) que se esconde atrás de cada dr. Jekyll. Os personagens do romance possuem manifestações características da teoria estrutural da mente proposta por Freud. Hyde é facilmente reconhecível como o id, que busca a gratificação imediata, com um instinto agressivo, e destituído dos costumes morais e sociais que precisam ser seguidos. Seu prazer provém da violência e o instinto de morte acaba por conduzi-lo a sua própria destruição. Dr. Jekyll representa, então, o ego, sendo consciente, racional e dominado por princípios sociais. Além disso, ao rotular Mr. Hyde como um "troglodita", Stevenson estabelece uma relação com as teorias da evolução. Ele considerava Hyde selvagem, incivilizado e dado a paixão: em suma, um indivíduo pouco evoluído. Edward Hyde representa uma regressão a uma fase anterior, ao período mais violento do desenvolvimento humano.

A escolha de um médico como o personagem que se transformará num monstro assassino estabelece um paradoxo entre o crime que destrói uma vida e uma profissão que teoricamente se caracteriza pela luta contra a morte e a compaixão pelo ser humano, realçando o conceito de dualidade humana.

Curiosidades: A obra obteve tão grande sucesso que até os dias atuais o termo "Jekyll e Hyde" é utilizado pela socidade científica como sinônimo de desordem de personalidade múltipla.

Stevenson escreveu a história - supostamente com o auxílio da cocaína - em um curto período de tempo (3 a 5 dias), baseada em um sonho que teve.

O livro também é utilizado como demonstração de dependência química, já que mostra a excessiva necessidade que Dr.Jekyll tem da droga que sintetizou.

REFERÊNCIAS:
1.Shubh M. Singh; Subho Chakrabarti. “A study in dualism: The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”. Indian J Psychiatry. 2008 Jul–Sep; 50(3): 221–223.
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996
3.Stevenson, R. L. "O médico e o monstro". Coleção L&PM Pocket, 2002.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A Melancolia em "Hamlet" / William Shakespeare

Entender o ser humano em suas fraquezas, suas forças, suas felicidades, seus gozos e angústias, e desta percepção dar luz a uma das mais belas literaturas de todos os tempos, foi tarefa magistral do dramaturgo William Shakespeare.

No segundo ato da peça A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca escrita em 1600, encontramos sintomas característicos do que chamamos atualmente de transtorno depressivo:

HAMLET: De tempos a esta parte – por motivos que me escapam - perdi toda a alegria e descuidei-me dos meus exercícios habituais.Tão grave é o meu estado, que esta magnífica estrutura, a terra, se me afigura um promontório estéril. (ATO II CENA II)

POLÔNIO: [...] e ele - para ser breve - repelido, cai em melancolia a que se segue jejum, falta de sono, abatimento e distração. E assim, piorando sempre, cai na loucura em que ora se debate e nos punge. (ATO II CENA II)

Segundo a DSM IV, a depressão é caracterizada pela presença há pelo menos duas semanas de um dos sintomas obrigatórios: estado deprimido ou falta de motivação para as tarefas diárias, além de outros sintomas menores.

Humor deprimido: "De tempos a esta parte – por motivos que me escapam - perdi toda a alegria..."

Anedonia: “...descuidei-me dos meus exercícios habituais”

Através do personagem Polônio, o autor mostra que os outros sintomas presentes no episódio depressivo de Hamlet são: perda de apetite, insônia, fadiga e distração.

Durante a tragédia, Shakespeare marca o caráter do protagonista com uma notável manifestação de tristeza. A peça, que traça um mapa do curso de vida na loucura real e na loucura fingida, mostra que o dramaturgo, sem pesquisas e fundamentos científicos, mas com intuição e sensibilidade, percebeu exatamente como se comporta um homem acometido pela depressão.

William Shakespeare é um dos grandes artistas que marcou sua trajetória pela capacidade de perceber o comportamento humano sem utilizar metodologias científicas. A citação acima prova que às vezes as respostas não se encontram em cientistas, pesquisadores e doutores, mas com literatos, pintores, músicos, poetas, dramaturgos; aqueles que observam, sentem e criam.

LEIA TAMBÉM:

A loucura em "Hamlet" - Ofélia, a personagem suicida de William Shakespeare

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Loucura em "Hamlet" - Ofélia, Personagem Suicida de William Shakespeare

LAERTES (irmão de Ofélia): E assim perdi meu nobre pai, e vejo caída na demência minha irmã, cujo valor, se é lícito falar-se do que já foi, nenhum outro acharia que pudesse igualá-lo em perfeição. (Hamlet - ATO VI CENA VI).

Em A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, a personagem Ofélia morre afogada, em um provável suicídio. A bela e honrada moça que, amando Hamlet, ve-se privada de seu amor, passa a dar mostras de sua loucura após a morte de seu pai, Polônio, que fora assassinado por Hamlet.

Enquanto Ofélia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio.

Ofélia mata-se, mas é através de seu protagonista - que de tão racional simula perfeitamente o desespero da loucura - que Shakespeare desenvolve a dialética da angústia de uma "alma suicida":

HAMLET: Se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! (Hamlet - ATO I CENA I)

HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. (Hamlet - ATO III CENA I)
Paradoxalmente, enquanto todos vêem em Hamlet um louco, a loucura de Ofélia passa-se quase desapercebida, pois Shakespeare deixa transparecer a idéia de que uma moça honrada, mesmo enlouquecendo, o deve fazer de modo comportado. A insânia da boa moça tem coreografia mansa e cantante, seu suicídio é passivo, suave e deslizante.

Ofelia (1852). John Everett Millais. Galeria Tates.
A
 RAINHA: Seus vestidos se abriram, sustentando-a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar consciência da desgraça, como criatura ali nascida e feita para aquele elemento. Muito tempo, porém, não demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta água e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta.
LAERTES: Afogou-se, dissestes?
A RAINHA: Afogou-se.
(Hamlet - ATO IV CENA IV)

Em Hamlet, mais que em qualquer outra obra, Shakespeare revela seu profundo conhecimento do ser humano. A descrição da morte de Ofélia é uma das passagens mais poéticas da literatura mundial. A personagem, tão desesperada se encontra que não se dá conta da própria desgraça, de modo que canta até seu último fôlego, refletindo assim o que diz Hamlet sobre o suicídio: “Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.”

A morte cantante de Ofélia traduz o alívio de uma alma conturbada.

LEIA MAIS:Suicídio na Literatura

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Luto e Melancolia" - Sigmund Freud

É da teoria da bílis negra que se cunha o termo melancolia. Este é derivado do grego melas (negro) e kholé (bile) que corresponde à transliteração latina melaina-kole.

Antigamente, predominava a teoria hipocrática que dividia a humanidade em quatro humores (líquidos corporais): o melancólico (bílis negra), o colérico (bílis amarela), o sanguíneo (sangue) e o fleumático (água). A melancolia decorreria de um excesso da bílis negra circulando pelo corpo e causando sentimentos negativos (apatia, tristeza, autopunição).

A melancolia é atualmente definida como um estado psíquico de depressão sem causa específica, caracterizada pela falta de prazer nas atividades diárias e desânimo como reação a um estimulo agradável que em geral causaria prazer.

Sigmund Freud, em seus estudos sobre o superego, se deparou com essa forma de depressão conhecida por melancolia que, segundo ele, diferia do luto em apenas um ponto: não havia necessariamente uma perda para tais indivíduos manifestarem tristeza, senão uma perda narcisista.

Em seu famoso texto sobre a depressão, intitulado Luto e Melancolia, Freud investiga a melancolia, um estado patológico, a partir do paradigma do luto, um estado normal:
O luto afasta a pessoa de suas atitudes normais para com a vida, mas sabemos que este afastamento não é patológico, normalmente é superado após certo tempo e é inútil e prejudicial qualquer interferência em relação a ele. Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. A perturbação da auto-estima normalmente esta ausente no luto, fora isto as características são as mesmas.[...]Isso sugeriria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda. [...] O melancólico exibe ainda outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. [...] Quando, o melancólico em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie. Luto e Melancolia - Sigmund Freud (1915).
Curiosidade: Fora atribuído a Aristóteles (384-322 a.C.), o primeiro tratado sobre a melancolia, o qual prevaleceu por toda a antiguidade. No tratado, Aristóteles fala-nos da relação entre a genialidade e a loucura, em que a melancolia passa a ser vista como uma condição de genialidade, concepção que muitos defendem até os dias atuais. Aqui, a melancolia não é vista como doença, mas como natureza dos filósofos e poetas, sendo que muitos homens ilustres – como Sócrates e Platão, possuíam uma visão romântica da melancolia, atrelada à idéia de que “o homem triste é também o homem profundo”. Por conta da repercussão que a obra de Aristóteles teve, tanto em sua época quanto posteriormente, a melancolia durante muito tempo foi considerada como uma condição bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma.

REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. “Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente”. v.II. Rio de Janeiro: Imago.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Depressão na Obra de Pablo Picasso

“... toda mulher tem dois braços, dois olhos, dois seios, que são sempre assimétricos. O pintor pode e deve ressaltar as diferenças e não as semelhanças”. Pablo Picasso

A obra de Picasso foi profundamente influenciada por seus diversos relacionamentos amorosos. Em janeiro de 1936, o poeta Paul Eluard apresentou-lhe a fotógrafa e artista Dora Maar. Picasso retratou-a como mulher sofisticada, intelectual e dominadora (Retrato de Dora Maar,1937):


Retrato de Dora Maar (1937), Óleo sobre tela, 61 x 81 cm, Museu Picasso (Paris)

Com o passar do tempo, Dora revelou-se temperamental e depressiva, tornando-se a musa da aflição e do sofrimento de Picasso, sendo retratada com grandes distorções (Mulher Chorando,1937):


Mulher Chorando (1937); Óleo sobre tela, 60 x 40 cm; Tate Gallery (Londres)

Em 1944, a frágil Dora Maar sofreu depressão psicótica após separar-se de Picasso. A crise determinou o seu internamento num hospital psiquiátrico, embarcando posteriormente numa análise prolongada nas mãos de um jovem e, na altura, promissor psicanalista, chamado Jacques Lacan.

Dora viveu durante décadas acompanhada apenas por recordações do inesquecível amante. Conta-se que ela foi a única mulher que esteve intelectualmente à altura de Picasso.

REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, A. J. C. ; ARAÚJO, Jordano Pereira . Anatomia na obra de Pablo Picasso. Ética Revista, Brasília, v. 3, n. 2, p. 16-18, 2005.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Suicídio na Literatura

O suicídio é um fenômeno complexo que tem atraído a atenção de escritores, teólogos, médicos, sociólogos e artistas através dos séculos; Não apenas um problema filosófico, o tema ocupa hoje um importante lugar nas questões de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), quase 1 milhão de pessoas morrem por suicídio por ano, a freqüência ocupa a terceira posição entre as causas mais comuns de falecimento da população da faixa etária de 15 a 35 anos, sendo uma das 10 maiores causas de morte em todos os países.

10 de Setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, uma iniciativa da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio juntamente com a OMS. O dia foi criado com o objetivo de promover o compromisso mundial com medidas para prevenir a principal causa evitável de mortes prematuras.

O escritor alemão Hermann Hesse, descreveu sua visão do “homem suicida” na obra clássica O Lobo da Estepe (1927). O livro conta a história de vida do complexo Harry Haller, personagem que padece de esquizofrenia. À época em que o livro foi escrito, a preocupação com a prevenção do suicídio era escassa na sociedade, em parte porque a compreensão da saúde mental estava apenas começando a engatinhar. Ao fim do texto, Hesse deixa claro o quão necessário é alertar a todos sobre a importância de estudar o homem, não apenas “o mecanismo dos fenômenos vitais”, mas, principalmente, seu estado mental:

É próprio do suicida sentir seu eu, certo ou errado, como um germe da Natureza, particularmente perigoso, problemático e daninho, que se encontrava sempre extraordinariamente exposto ao perigo, como se estivesse sobre o pico agudíssimo de um penedo onde um pequeno toque exterior ou a mais leve vacilação interna seriam suficientes para arrojá-lo no abismo. Esta classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino porque para eles o suicídio é a forma de morte mais verossímil, pelo menos segundo sua própria opinião. A existência dessa opinião, que quase sempre é perceptível já na primeira mocidade e acompanha esses homens durante toda sua vida, não representa, talvez, uma particular e débil força vital, mas, ao contrário, encontram-se entre os suicidas naturezas extraordinariamente tenazes, ambiciosas e até ousadas. Mas assim como há naturezas que caem em febre diante da mais ligeira indisposição, assim propendem essas naturezas a que chamamos "suicidas" e que sempre são muito delicadas e sensíveis à menor comoção, a entregar-se intensamente à idéia do suicídio.

Se tivéssemos uma ciência que possuísse coragem e autoridade suficientes para ocupar-se do homem em vez de fazê-lo simplesmente no mecanismo dos fenômenos vitais, se tivéssemos uma verdadeira Antropologia, uma verdadeira Psicologia, tais fatos seriam conhecidos de todos.

O filósofo francês Albert Camus, em seu célebre ensaio O Mito de Sísifo (1942) aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. Preocupado com o tema, Camus escreveu:

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia.


A criação do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio representa um enorme avanço na área de saúde mental.


REFERÊNCIAS:
1.Gunnel D, Frankel S. Prevention of suicide: aspirations and evidences. British
Medical Journal, 1999, 308: 1227-1233.
2.Prevenção do suicídio: um manual para médicos clínicos gerais,OMS; Genebra, 2000.
3.HESSE, Hermann. “O Lobo da Estepe”, Rio de Janeiro: Record, 1998.
4.CAMUS, Albert. O mito de sísifo: ensaio sobre o absurdo. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989

terça-feira, 27 de julho de 2010

"O Louco" de Pablo Picasso

Pablo Picasso foi um dos muitos artistas que retratou um alienado em sua obra. Seu período azul - fase artística que durou de 1901-1904, caracterizada por temas melancólicos e cores sombrias – tem como belo exemplo uma aquarela sobre cartolina intitulada O Louco:

O Louco (1904).Pablo Picasso (1881-1973).Aquarela sore cartolina, 85 x 35 cm .Museu Picasso (Barcelona)

Concluída em 1904, Picasso representou na aquarela um doente mental que perambulava pelas ruas de Barcelona.

O Louco encontra-se no acervo do Museu Picasso, em Barcelona.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vicent van Gogh - Os Dois Pólos do Artista

Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo. As pessoas da região que são doentes como eu, falam a verdade: podemos viver muito ou pouco, mas sempre haverá momentos em que perderemos a cabeça. Peço-lhe portanto que não diga que eu não tenho nada. Se aprecias meu trabalho, tudo bem, mas continuo sempre louco. Vicent van Gogh a Theo, Arles (1888)
 Vicent van Gogh nasceu em 30 de março de 1853, em Zundert, na aldeia holandesa de Brabant, sendo o mais velho entre os cinco filhos de um pastor protestante.

Vicent foi um menino sonhador, tímido, sensível e ligado a família. O laço afetivo que o unia ao irmão mais jovem, Theodore, a quem chamava carinhosamente de Theo, duraria enquanto vivesse. Entretanto, a bela história de amor entre dois irmãos não teve um final feliz. Em 27 de julho de 1890, Vincent caminhou até o campo de trigo onde costumava pintar, no entanto, dessa vez, não levou pincéis nem tintas, mas uma pistola. Num momento de desespero, atirou contra o próprio peito. Ferido, conseguiu arrastar-se até o café Ravoux, onde vivia, em Auvers (lugarejo próximo a Paris). Alguém trouxe o seu médico que, após examiná-lo, concluiu que a bala não podia ser extraída. Na manhã seguinte, quando Theo foi informado do que aconteceu, correu pra junto do irmão, e encontrou-o cachimbando placidamente na cama. Os dois passaram o dia juntos, falando holandês e reencontrando a harmonia dos velhos tempos. Ao fim do dia, Theo recusou-se a partir e passou a noite ao lado do irmão, na mesma cama, ouvindo-o murmurar “A tristeza não tem fim”. Vicent morreu por volta de 1h30 da madrugada do dia 29 julho de 1890, aos 37 anos de idade.

Que motivo o faria tirar a própria vida? Que doença atormentava um dos mais conhecidos pintores pós-impressionistas?

A DOENÇA DE VAN GOGH
Quanto a mim, estou me sentindo melhor. Minha digestão melhorou tremendamente desde o mês passado. Alguns dias ainda sofro involuntários ataques de excitação nervosa ou de tristeza total, mas isso vai passar, e quando passar, fico mais tranquilo. Vou esperar meus nervos ficarem estáveis... Vicent a Theo (1888)
Dono de uma personalidade difícil e temperamental, ao longo de sua vida, Van Gogh deu provas de instabilidade mental. Em 1888, deixando o irmão em Paris, fixou-se em Arles, onde produziu cerca de duzentos quadros e cem desenhos. No período em que iniciou sua série de Girassóis, o pintor Gauguin veio juntar-se a ele. Por ironia, foi a chegada de seu amigo mais caro, e a quem considerava um mestre, que provocou sua primeira crise nervosa.

Os dois artistas viviam juntos. No intenso contato cotidiano, Van Gogh começou a perceber como eram diferentes os princípios e modos de cada um deles ver a pintura. Quando Gauguin pintou um retrato dele, Van Gogh recusou-se a aceitá-lo. Não queria reconhecer-se num quadro em que Gauguin o representava como um homem pintando girassóis com certo ar de loucura. Numa violenta discussão, desestabilizado, Van Gogh se deixa atormentar por crises de humor, e, no auge do desespero, tenta ferir Gauguin com uma navalha. À noite, arrependido, com a mesma navalha Van Gogh decepou a própria orelha.

Ele documentou o evento em seu célebre Auto-Retrato com Orelha Enfaixada:


Orelha Enfaixada e Cachimbo (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela, 51 x 54 cm.Coleção Niarchos (Chicago)

No hospital Saint-Paul, aonde foi levado nesse episódio, ele foi atendido pelo Dr. Rey, que lhe suturou a orelha. Depois da convalescença, Vicent pintou um retrato do médico:

Retrato do Dr. Félix Rey (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela, 64 x 53 cm. Museu Pushkin (Moscou)

Van Gogh registrou sua passagem pelo hospital pintando também o pátio interno e a enfermaria, onde os pacientes aparecem desesperançosos e cansados do fardo que a doença os proporciona:

Enfemaria do Hospital de Arles (1889).Vincent van Goght (1853-1890).Óleo sobre tela, 74 x 92 cm.Coleção Oska Renhart (Winterthur)

O Dr. Félix Rey diagnosticou epilepsia psico-motora agravada pelo uso de absinto, e após prescrever brometo de potássio e suspensão de alcool, aconselhou Van Gogh a internar-se no hospital Saint Remy de Provence. Inicialmente o pintor não aceitou a idéia com prazer, porém, dias depois, percebendo que os moradores de Arles estavam amedrontados com seu jeito introspectivo e com suas fases de “excitação nervosa” e “tristeza total”, ele pediu a Theo que o levasse até Saint-Remy, asilo mental onde permaneceu por pouco mais de um ano. No seu registro de admissão, o Dr. Peyron escreveu:
Como diretor do asilo de Saint-Rémy, certifico e assino que van Gogh (Vincent), 36 anos de idade, nascido na Holanda e domiciliado atualmente em Arles, tendo sido tratado no hospital daquela cidade, apresenta mania aguda e alucinações visuais e auditivas que o levaram à automutilação, cortando a orelha. Atualmente parece recuperado, mas ele refere não apresentar coragem e força para a vida independente e, voluntariamente, solicita a admissão nesta instituição. Como resultado da exposição acima, acredito que o Sr. van Gogh apresenta crises epilépticas infreqüentes sendo aconselhável que permaneça em observação prolongada neste estabelecimento (Dr. Peyron, 9 de maio de 1889)
Ainda no hospício, van Gogh fica sabendo que em Auvers-sur-Oise reside um conceituado médico chamado Paul-Ferdinand Gachet, e solicita alta da clínica de Saint-Rémy. Com o consentimento de Theo, segue para Auvers-sur-Oise com o objetivo de se tratar com o Dr. Gachet, cujo diagnóstico proposto foi de intoxicação por terebintina. Gachet prescreve trabalho para Vicent, o médico via na pintura a melhor terapia para ele. Segundo críticos, seus melhores trabalhos são produzidos nessa época. A amizade com o doutor Gachet anima Vincent, que escreve a Theo afirmando que agora está feliz. Mas, pouco tempo depois entra em crise e acusa o médico de tentar matá-lo.

Centenas de médicos e psiquiatras tentaram definir as condições médicas e emocionais de Van Gogh ao longo dos anos, porém, especialistas estão longe de chegar a um acordo. Inúmeros transtornos foram diagnosticados postumamente nesta artista – epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, doença de Ménière - nenhum desses isentos de contradições. Entretanto, a maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele "a tristeza não tem fim" carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

A FAMÍLIA DE VAN GOGH
Havia uma frase em sua carta que me surpreendeu: 'Por vezes desejo estar longe de tudo e de todos, pois sou a causa dos males da minha família. Em mim só há miséria e sirvo apenas para levar tristeza para toda a gente.' Estas palavras me surpreenderam porque esse mesmo sentimento, da mesma forma, nem mais nem menos, também existe na minha consciência. (Vicent a Theo; Amsterdam, 30 May 1877)
Além de Van Gogh, três de seus irmãos apresentaram doença mental. O texto acima é um testemunho do que os historiadores afirmam: Théo sofreu depressão e ansiedade, anos após o forte abalo que a morte de Van Gogh provocou sobre ele, levou-o a falecer por "demência paralítica”. Sua irmã Wilhelmina, por ser esquizofrênica, passou a maior parte de sua vida internada num hospício - onde morreu. De forma trágica, seu outro irmão, Cornelius, cometeu suicídio aos 33 anos de idade.

Essas considerações reforçam a idéia de que havia um componente familiar genético na provável doença de van Gogh – o transtorno afetivo bipolar.

O MUNDO EM AMARELO
A cor expressa algo em si simplesmente porque existe, e deve-se aproveitar isso, pois o que é belo é também verdadeiro. Van Gogh
O uso do amarelo caracteriza muitas pinturas do holandês pós-impressionista e traduz o fascínio de Van Gogh por este pigmento vibrante. Ele simplesmente gosta da cor, ou sua preferência foi influenciada por alguma condição médica? Várias teorias surgiram para explicar como a qualidade de vida de Van Gogh pôde influenciar seu trabalho. A primeira delas, relativa à ingestão de absinto pelo artista, dizia que o consumo excessivo deste licor por van Gogh o induziu a ver todos os objetos com uma tonalidade amarela. No entanto, investigações conduzidas em 1991, mostraram que uma pessoa deve beber 182 litros de absinto para produzir este efeito visual, por isso podemos desconsiderar essa teoria. Uma segunda e mais provável explicação envolve o uso de digitálicos (droga derivada da Digitalis purpúrea). Seu médico, Dr. Gachet, utilizava o medicamento para tratar a possível epilepsia do artista (prática comum naquela época). O uso excessivo desta droga pode causar xantopsia em pacientes submetidos a tratamento com altas e repetidas doses, estes se queixam de ver “manchas amarelas em tudo o que olham”. Se observarmos os quadros da série "Os Girassóis", veremos que a quantidade de girassóis vai aumentando e que o fundo fica mais amarelo à medida que o tempo passa, o que faz com que os estudiosos acreditem que o aumento do consumo de absinto e/ou o nível da intoxicação por digitálicos, foram os responsáveis pelo excesso do uso da cor no final da famosa série.

A TRISTEZA REPRESENTADA NA ARTE
Não preciso sair da rotina para exprimir tristeza e o extremo da solidão. Vicent a Theo (Arles, 1890)
Em janeiro de 1882, Vicent conheceu Christine Sien, prostituta que tinha um bebê e estava grávida de outro. A vida desta mulher pareceu penosa a Van Gogh, que acolheu-a como companheira e modelo. Devido a convivência diária, Van Gogh apaixonou-se por ela, mas apesar dos esforços para manter um relacionamento, a ligação não durou. Depois do parto, Sien voltou a beber excessivamente e ele não teve mais como ajudá-la. Quando Vicent decidiu mudar-se para o campo, Christine não o acompanhou. No mais famoso retrato que pintou dela, Tristeza, o rosto não aparece, mas o corpo nu, revela o drama de uma vida:

Tristeza, 11 de novembro de 1882.

Internado no hospital de Saint-Remy, Vicent pintou “Velho Homem em Tristeza” onde representou um dos seus infelizes companheiros:

Óleo – Velho homem em tristeza (no limiar da eternidade); Saint-Rémy; abril, 1890)
 
O RECONHECIMENTO

Enquanto vivo, Van Gogh vendeu apenas uma única tela “ A Vinha Encarnada” por cerca de 400 francos. Apesar da tristeza que sentia por causa do fracasso profissional, ele nunca abandonou a crença de que sua arte - onde depositou seus profundos sentimentos - chegaria às gerações futuras. Em carta escrita ao irmão, pouco antes de morrer, Van Gogh escrevera:
Diga-me, o que posso fazer se meus quadros não se vendem? [...] mas sabe no que muitas vezes penso? No que já lhe disse há algum tempo atrás... que mesmo que eu não tenha sucesso, ainda acredito que Deus fará com que aquilo no que tenho trabalhado seja levado adiante. Futuramente, talvez, o que fiz valerá mais do que o que pagamos pelas tintas que uso. Van Gogh a Theo, Arles (1890)
No texto acima, vê-se claramente os sentimentos que dominavam Van Gogh: desespero e esperança, a despeito do diagnóstico de sua doença, eram esses os dois pólos do artista. Quanto a sua vasta obra, Vicent não profetizou em vão: Exatamente cem anos após sua morte, o seu “Retrato do Dr. Gachet” foi leiloado por US$ 82,5 milhões, um recorde até então. Hoje, as telas do artista se enquadram entre as mais caras do mundo.

REFERÊNCIAS:
1.BLUMER, D; Van Gogh: geniality and disease J Bras Patol Med Lab • Volume 46 • Número 1 • fevereiro 2010 ISSN 1676-2444
2.WOLF, p; Creativity and chronic disease Vincent van Gogh; West J Med. 2001 November; 175(5): 348.
3.VAN GOGH, V. "Cartas a Theo" Paidós Estética. Barcelona.
4.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
5.BLUMER, D (2002): The Illness of Van Gogh. Am. J. Psychiatry; 159: 519-526.
6.JAMISOM, KR (1993): Touched with fire. Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament. New York.
7.JASPERS, K (2001): Genio artístico y locura. Strindberg y Van Gogh. El Acantilado. Barcelona.