quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Loucura em "Hamlet" - Ofélia, Personagem Suicida de William Shakespeare

LAERTES (irmão de Ofélia): E assim perdi meu nobre pai, e vejo caída na demência minha irmã, cujo valor, se é lícito falar-se do que já foi, nenhum outro acharia que pudesse igualá-lo em perfeição. (Hamlet - ATO VI CENA VI).

Em A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, a personagem Ofélia morre afogada, em um provável suicídio. A bela e honrada moça que, amando Hamlet, ve-se privada de seu amor, passa a dar mostras de sua loucura após a morte de seu pai, Polônio, que fora assassinado por Hamlet.

Enquanto Ofélia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio.

Ofélia mata-se, mas é através de seu protagonista - que de tão racional simula perfeitamente o desespero da loucura - que Shakespeare desenvolve a dialética da angústia de uma "alma suicida":

HAMLET: Se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! (Hamlet - ATO I CENA I)

HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. (Hamlet - ATO III CENA I)
Paradoxalmente, enquanto todos vêem em Hamlet um louco, a loucura de Ofélia passa-se quase desapercebida, pois Shakespeare deixa transparecer a idéia de que uma moça honrada, mesmo enlouquecendo, o deve fazer de modo comportado. A insânia da boa moça tem coreografia mansa e cantante, seu suicídio é passivo, suave e deslizante.

Ofelia (1852). John Everett Millais. Galeria Tates.
A
 RAINHA: Seus vestidos se abriram, sustentando-a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar consciência da desgraça, como criatura ali nascida e feita para aquele elemento. Muito tempo, porém, não demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta água e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta.
LAERTES: Afogou-se, dissestes?
A RAINHA: Afogou-se.
(Hamlet - ATO IV CENA IV)

Em Hamlet, mais que em qualquer outra obra, Shakespeare revela seu profundo conhecimento do ser humano. A descrição da morte de Ofélia é uma das passagens mais poéticas da literatura mundial. A personagem, tão desesperada se encontra que não se dá conta da própria desgraça, de modo que canta até seu último fôlego, refletindo assim o que diz Hamlet sobre o suicídio: “Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.”

A morte cantante de Ofélia traduz o alívio de uma alma conturbada.

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3 comentários:

  1. Muito interessante o post Renata! Nunca havia parado para pensar no contraste entre Hamlet e Ofélia.

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  2. Só posso agradecer por texto tão instigante! Renata, gostaria de lhe sugerir duas outras traduções de HAMLET: a primeira de BÁRBARA HELIODORA (editora abril - três tragédias reunidas num livro, "HAMLET-REILEAR-MACBETH") e outra tradução primorosa de ANNA AMÉLIA CARNEIRO DE MENDONÇA (aliás, mãe de Bárbara, citada anteriormente), cujo texto encontra-se num livro de HAROLD BLOOM (como apêndice), "HAMLET - POEMA ILIMITADO" - vale a pena conferir. Forte Abraço.

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