quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley

Completada há quase um século pelo escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963), Admirável Mundo Novo é uma impressionante obra ficcional que questiona o direcionamento que a civilização moderna está dando a si mesma, caminhando em direção à total desvalorização dos aspectos humanos. Visto como profético, o livro escrito antes da estrutura do DNA ser descrita, discute, dentre diversos assuntos relevantes, se o cientificamente possível é eticamente viável.


Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. (Huxley, 1932).
As pessoas, controladas desde o nascimento por um sistema que alia controle genético a condicionamento mental, são completamente destituídas de valores humanos, não sendo mais que meros produtos de uma linha genética de montagem em que são clonadas e tratadas como peças de reposição para a manutenção de um sistema global asséptico e totalmente artificializado.

A sociedade que emerge das páginas do romance de Huxley valoriza o negligencialismo dos sentimentos, a mediocridade, o artificialismo e a banalização dos relacionamentos. Tal condição social inumana é alcançada em função de pseudos avanços e conquistas científicas. Huxley aborda assim, uma questão que sempre esteve atrelada aos avanços da ciência: o medo de sua utilização desvirtuada.

Em busca de uma aparente harmonia social, na sociedade criada por Huxley, não há espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois até a tristeza e a ansiedade são controladas quimicamente pelo “soma”, – uma droga capaz de estabilizar os exasperados sentimentos humanos. Considerando que décadas depois surgiram os antidepressivos e ansiolíticos, também neste tópico reconhece-se a obra como profética.

Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade? (Huxley, 1932).
Dentre uma população ridicularizada, dominada por falsos valores, Huxley inclui John, conhecido como O Selvagem, um personagem que representa o resgate dos valores humanos que se perderam. Esse personagem tem como modelo do humano, nada menos do que os sentimentos descritos nas obras de William Shakespeare – admirável escolha de Huxley, aliás, visto que o dramaturgo inglês foi o primeiro a oferecer um espelho no qual a humanidade pudesse se reconhecer. Assim, anos antes de Shakespeare ser referido como o “inventor do humano”, Huxley já o elegia como redentor dos valores humanitários da civilização.

Genialmente, também o título da obra fora extraído das palavras de Shakespeare:

Oh! maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana
Ó ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
que possui gente assim! (A Tempestade - Ato V).
Também enfatizando a busca pelos reais valores, a peça, - provavelmente a última escrita por Shakespeare, - tem como protagonista Próspero, um personagem exilado da sociedade, dotado de poderes exotéricos e caracterizado por seu amplo conhecimento acerca das coisas do mundo. Nas últimas páginas da obra, em sua viagem de volta ao lar, Próspero decide retornar a sua condição original, e lança ao mar um livro contendo toda sua magia e conhecimento. Assim, ele retorna ao seio da civilização da qual fora exilado, como ser humano puro, sem os poderes sobre-humanos que a ciência e a magia lhe conferiam, contribuindo assim para a restauração da ordem social vigente. Ambas as obras tem um ponto em comum: o resgate da natureza humana, outrora perdida pela busca científica indiscriminada.

Atualmente, a engenharia genética se destaca globalmente. Com o poder de suscitar diversas questões éticas, a leitura de Admirável Mundo Novo é quase que obrigatória e altamente recomendada numa época em que a barreira entre a moralidade e a busca pela verdade científica faz-se quase invisível.

5 comentários:

  1. Taí um texto que gostaria que fosse meu...

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  2. Simplesmente impecável seu texto. Fiquei fascinado pelo tema tratado no livro e certamente estará nas próximas obras que lerei.

    Grato por compartilhar conosco.

    Até breve.

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  3. Olá equipe da Arte da Medicina,

    A Hepatite B é uma doença silenciosa que, em sua forma crônica, atinge mais de dois milhões de brasileiros. Apesar de ser uma doença comum, nem todos conhecem as formas de transmissão ou prevenção, como a vacina, que está disponível nos postos de saúde. Para diminuir os riscos e consequências da Hepatite B, precisamos reforçar a divulgação das informações básicas. Por isso, contamos com sua ajuda. Entre em contato para receber todo o material da campanha!

    Muito obrigada,
    Ministério da Saúde
    comunicacao@saude.gov.br

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  4. Roger, obrigada pela visita! Bom saber que o texto lhe agradou. Grande abraço.

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  5. "reflexoespessoais", agradeço pelo elogio. "Admirável Mundo Novo" é uma obra incrível, certamente você irá se encantar. Abraços.

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