domingo, 1 de setembro de 2013

Experiência de Quase Morte na Arte

Representações literárias e pictóricas de Experiências de Quase Morte (EQM) recorrem desde a antiguidade. O tema cativa o público devido a seu caráter misterioso e fascinante.

O termo EQM refere-se a um conjunto de alterações sensoriais e perceptivas vivenciadas durante a morte clínica, sendo esta caracterizada pela parada da respiração, da atividade cardíaca e do funcionamento cerebral, mas não pela impossibilidade de reanimação.

Platão, no Livro X de A República, relata o seguinte fato:


"A República". Platão.  Livro X (Pág. 81-83)
 O trecho acima conta a vivencia de um soldado chamado Er que, após uma grande batalha, já morto e em estado de putrefação, foi agrupado para ser incinerado conforme o costume, mas levantou-se do fogo funerário e contou o que aconteceu durante o período de sua morte clínica.

O Primeiro estudo descritivo destas experiências foi feito pelo geólogo Albert Heim em 1892, cujo interesse surgiu após experiência mística quando vítima de uma queda que teve nos Alpes. Durante décadas, o pesquisador colheu relato de alpinistas que sobreviveram a quedas aparentemente mortais, concluindo que as experiências vivenciadas próximas a morte assemelhavam-se entre si 95% dos casos.

O moderno interesse ocidental pelas experiências de quase morte aumentou após a publicação do livro Vida Após a Vida (1975) do escritor, médico e psicólogo Raymond A. Moody, que analisou 150 casos de experiências próximas da morte.

Pesquisadores descrevem traços comuns a estas experiências, tais como:
1) Projeção do corpo: sensação de deixar o corpo e pairar sobre ele, após acordado, comumente descrevem os fatos que ocorreram ao seu redor no momento da morte clínica.
2) Movimentos em um túnel: Sensação de locomoção num túnel escuro.
3) Visão de luz: Dirige-se a uma luz intensa, apaziguadora e bastante atrativa.
4) Encontro com pessoas já mortas: conhecidas ou não, seres sagrados, entidades não identificadas ou “seres de luz”.
5) Panorama da própria vida: O indivíduo experimenta um revisão da própria vida.
6) Fronteira: Descrevem a visão de um limite entre a vida terrena e uma outra vida.
7) Retorno à vida: Decisão voluntaria de voltar à vida se perceber que ainda há coisas a terminar.

O pintor holandês Hieronymous Bosch pintou este tema em sua obra Ascensão dos Abençoados:

Ascensão dos Abençoados. 1504. H. Bosch.
Em primeiro plano, embaixo, vemos pessoas morrendo que, enquanto morrem, estão rodeadas por seres espirituais que tentam direcionar sua atenção para cima. Sobre elas há um túnel que se perde na distância. No final do túnel há uma luz muito brilhante. Enquanto passam pelo túnel, as pessoas ajoelham-se em reverência a luz.

Diversos estudos sugerem que a experiência independe da formação educacional, orientação religiosa ou de qualquer outro fator demográfico; Outro dado interessante é que as pessoas com conhecimento anterior sobre EQM experimentaram este fenômeno com menor frequência que os indivíduos que ignoravam a existência de tais experiências, demonstrando assim que a EQM não é um produto de expectativas anteriores do indivíduo, invalidando portanto a coerente suposição da sugestionabilidade.
  
Melvin Morse, professor de pediatria da Universidade de Washington, publicou em 1998 o livro Transformados pela Luz, no qual descreve as mudanças ocorridas nos indivíduos que vivenciaram EQMs, dentre as alterações, destacam-se: o aumento de espiritualidade e da preocupação com os outros; a valorização da vida e menos medo da morte; fortalecimento da crença na vida após a morte; maior confiança e flexibilidade em lidar com as dificuldades e uma menor preocupação com status e posses materiais; maior amor ao próximo.

Mas qual seria a real origem de tais experiências? São várias as posições dos especialistas na tentativa de explicar o fenômeno de forma racional. Susan Blackmore, psicóloga inglesa, famosa pesquisadora sobre a etiologia da EQM, acredita que a experiência não passa de ilusões decorrentes de alterações no sistema neurotransmissor devido talvez a hipóxia, como artifício cerebral para evitar o trauma na hora da morte.

Outros defensores da teoria neurofisiológica sugerem que a interessante vivencia decorre de uma excitação no lobo temporal causada pelo estresse da proximidade com a morte, já que investigadores constataram que, estimulando eletricamente este lóbulo, podem imitar alguns aspectos da EQM, tais como a sensação de prazer e os sentidos das memórias da vida.

Explicações psicológicas defendem a despersonalização, na qual pessoas diante de uma realidade desagradável como a iminência da morte substituem essa realidade não aceita por fantasias plausíveis com o intuito de se proteger.

Os que acreditam na teoria da vida após a morte argumentam que a ciência necessita de melhores ferramentas para explicar porque indivíduos que passaram pela EQM descrevem detalhadamente o que ocorreu a seu redor enquanto socorridos e inconscientes. Os pesquisadores Ring e Cooper (1997, 1999) encontraram 31 casos em suas pesquisas de pessoas cegas (algumas de nascimento) que tiveram percepção visual e descreveram objetos e acontecimentos ao experienciarem uma EQM. Inúmeros registros comprovam que tais pacientes, quando reanimados, são capazes de narrar detalhadamente os procedimentos médicos sofridos durante a ressuscitação.

REFERÊNCIAS:
1. Souza, J.Z. "PODEMOS VOLTAR DA MORTE? Algumas reflexões sobre EQM." Psicol. Argum., Curitiba, v. 27, n. 56, p. 55-64, jan./mar. 2009. 
2. Morse, M., & Perry, P. (1997). Transformados pela luz. Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 
3. PLATÃO. "A República". 380 a.C. 
4. Whinnery, J. E. (1997). Psychophysiologic correlates of unconsciousness and near-death experiences. Journal of Near-Death Studies, 15, 231-258.

sábado, 10 de agosto de 2013

Segredo Médico em "Caravaggio"

É inato e instintivo que o médico adepto ao diagnóstico por meio de inspeção geral intua ante uma obra de arte que destaca características físicas sugestivas de um quadro patológico específico.

A tela “Cupido Dormindo”, do mestre italiano Caravaggio, retrata uma criança de aparentemente dois anos de idade, dormindo em pose descontraída, num decúbito dorsal onde faz-se vistosa a pele amarelada da barriga, o tronco ligeiramente inclinado para a esquerda e a perna direita parcialmente apoiada na esquerda.

A corda rota e o arco e flecha postos de lado parece significar o abandono dos prazeres mundanos.

O pequeno cupido detém um segredo médico. Mais que dormindo, está falecido: seus lábios estão cianóticos.

"Cupido Dormindo", 1608. Caravaggio. Palazzo Pitti (Florença).  

O cadáver da criança retratada ressalta de imediato a notória deformação torácica, mercê da combinação de um acentuado rosário costal e de uma profunda depressão na altura do rebordo costal.

O abdome afigura-se distendido, com uma cicatriz umbilical proeminente. Tanto o punho como o tornozelo esquerdo exibem proeminências, situadas na altura proximal das correspondentes articulações.

A primeira vista, em conformidade com noções clássicas, a impressão diagnóstica é de um pré-escolar que padece um raquitismo florido. Diagnóstico sustentado no típico e aparente rosário costal, classicamente interpretado como indicativo de alargamento da junção condrocostal e na profunda depressão da junção inferior do tórax, a maneira do característico sulco de Harisson (ou cinta raquítica).

A deformação articular a nível do punho e tornozelo, que dá lugar as patognomônicas deformidades respectivamente conhecidas como edemas radiais e maleolares, é a expressão tangível e visível do alargamento metafisário característico do osso raquítico. Também a hipertrofia das articulações maiores, como os joelhos, ocorrem também no raquitismo grave.

O abdome distendido indicaria hipotonia muscular, provavelmente associada a hepatoesplenomegalia, também típica do raquitismo carencial grave. Menos claro, embora sugestivo, é a braquicefalia e as gibas frontais, assim como os dedos fusiformes da mão direita.

A postura do menino parece ser antálgica, visto que ocorrem dores ósseas na doença raquítica avançada.

Em 1994, a renomada Lancet publicou um artigo defendendo que o Cupido Dormindo sofria de artrite reumatoide juvenil. Ao autor do dito artigo as articulações parecem inflamadas, visto que nelas são estampadas uma tonalidade rósea. A proeminência na extremidade ulnar esquerda é interpretada como um cisto sinovial. O abdome seria conseguinte a amiloidose secundária. Caravaggio pintou o pequeno Cupido em malta, durante o ano de 1608.

O pintor representou o deus como uma feia e deforme criança, em vez de um charmoso adolescente, como à época era usual, fazendo assim alusão a própria personalidade, que contrasta um artista sublime com um sujeito propenso a perversões e violência.

REFERÊNCIAS:
1.Espinel CH. Caravaggio's "Il Amore Dormiente": a sleeping cupid with juvenile rheumatoid arthritis. Lancet. 1994 Dec 24-31;344.
2.S, Faure-Fontenla MA. Rachitis, not arthritis, in Caravaggio´s sleeping child: Lancet 1995;345:801.
3. Silvestre Frenk. Un amorcillo raquítico. Acta Pediatr Mex 2010;31(5):259-260.