domingo, 20 de maio de 2012

Jeca Tatu na Medicina Brasileira

Observando o modo de vida dos caboclos de sua propriedade, o consagrado escritor Monteiro Lobato (1882-1948), transporta para a literatura as suas inquietações, insatisfações e dissabores com relação a preguiça e vagabundagem do homem do campo.

Assim, para representar fielmente o caboclo do Vale da Paraíba, – “homem amarelo, franzinho, inerte, que provoca a morte dos animais, queimadas, e possui baixa produção”, Monteiro semeia, na obra “Urupês”, o personagem Jeca Tatu, onde, desfazendo-se da imagem do caboclo romântico, constrói o anti-herói, o caboclo preguiçoso, piolho da terra, que vive de cócoras, sem aptidões.

Participando ativamente dos debates em torno da campanha pelo saneamento nas áreas rurais, Lobato se depara com os problemas causados pelas péssimas condições de higiene e fraqueza do homem do campo. Assim o escritor, percebendo que sua criaturinha possuía mais problemas que a preguiça, curvou-se a realidade, e para desculpar-se do erro cometido, verificou que “os caipiras eram barrigudos e preguiçosos por motivo de doenças”. O homem do campo era vítima da falta de higiene e saneamento básico, tendo as suas entranhas corroídas por um parasito adquirido.

Consciente das angústias e fatos que acometem os “Jecas da vida”, Monteiro resolve dar uma nova direção para a história, criando o Jeca Tatuzindo, que segundo ele: “padecia dos mesmos males, no entanto,após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser indolente; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos.” A nova história a ser contada faz parte de uma campanha objetivando esclarecer a população brasileira sobre a ancilostomíase.

O parasito, Ancylostoma duodenale, é agora o causador do “caboclo amarelo e franzinho”, e deve ser combatido para livrar o sertanejo do “mal” de seu corpo. Assim, Monteiro Lobato libera o personagem Jeca Tatu para a participar da campanha nacional contra o amarelão. Lobato, a fim de esclarecer sua nova posição, afirmou no jornal O Estado de São Paulo que “O Jeca não é assim, está assim., .(...) a saúde pública brasileira vai mal e a apatia do caipira é decorrente de suas enfermidades, destacando-se a anciosmose, a leishmaniose, a tuberculose e a subnutrição., em particular, o incômodo causado pelo verme Ancylostoma duodenale.”



O “amarelão” é conhecido desde tempos imemoriais, e caracteriza-se no homem por parasitismo intenso e considerável anemia; Avicena, o mais famoso médico persa, que viveu no século X da nossa Era, foi o primeiro a encontrar os vermes nos intestinos dos pacientes, e responsabilizá-los pela anemia espoliativa, de evolução lenta e progressiva, acompanhadas de perturbações gastrointestinais, depressão mental e física, por serem os mesmos hematófagos (sugadores de sangue).

Estimuladas pelo calor da pele de seus futuros hospedeiros, as larvas atravessam a superfície da mesma, por entre as fissuras ou poros, valendo-se das bordas desses poros como suporte auxiliar de seu caminho posterior, e penetram através das fissuras horizontais, folículos ou aberturas das glândulas sudoríparas, conforme a natureza da pele exposta. No caminho de sua penetração na epiderme, a cápsula, se ainda não inteiramente expulsa, é deixada; o maior número delas e encontrado nos capilares linfáticos do derma, e pequeno número penetram diretamente nos capilares sanguíneos; algumas ficam vagando, muitas vezes, nas camadas superficiais da pele, penetrando no tecido gorduroso e não raro no muscular. As lavas que caem nos linfáticos, são levadas primeiro aos gânglios linfáticos, onde muitas vezes são destruídas, atacadas pelas próprias células linfáticas de defesa, que se fixam firmemente á cutícula das lavas e as matam; Muitas delas, não sendo vítimas dessas células de defesa natural do organismo paralisado, atravessam os gânglios, e caindo no ducto torácico e na corrente circulatória, sendo conduzidas pelos vasos sanguíneos, vão ter ao coração direito, de onde são levadas pela artéria pulmonar até o próprio pulmão; neste órgão, caem nos alvéolos pulmonares, possivelmente atraídas pela presença do oxigênio. Uma vez nos alvéolos, tendo caminhado a curta distância até os brônquios, o epitélio ciliado empurra as larvas pelo caminho restante até a boca do animal hospedeiro. Esse último caminho é apenas mecânico, estimulando a secreção de muco que embebe as larvas, provocando tosse. Tal tosse, chamada tosse chistosa, característica do parasitismo por vermes que efetuam o chamado Ciclo de Looss, acabado de ser descrito, é sintoma que serve para caracterização clinica do parasitismo. A tosse que ocorre por irritação da mucosa das vias aéreas, provocada pela própria larva embebida em muco, serve como meio de ser a mesma deglutida, caindo então no estômago, e daí, para os intestinos, para completarem assim todo o caminho para se estabelecerem definitivamente neste último órgão, agora então como parasitas plenamente desenvolvidos, aptos a sugarem sangue de suas vítimas, e causando todos os malefícios decorrentes.

Yokogawa (1926), através de experiências, descobriu que a maioria das lavas se desenvolve diretamente, sem migrações através da pele,e que poucas penetram nas paredes do canal alimentar. O tratamento na época era feito pela utilização de um vermífugo por via oral. No Brasil, o parasito, Ancylostoma duodenale, recebeu vários nomes, tais quais: Opilação, Amarelão ou Anemia Tropical.

Também para alívio de sua consciência, em 1910 Monteiro Lobato deixa a imagem de seu personagem caipira assumir o papel de garoto propaganda do laboratório paulista fundado por Cândido Fontoura. Supostamente, o antianêmico (ferro para o sangue e fósforo para os nervos e músculos) veio mudar a situação do Jeca, que tornou-se robusto após combater a vermifucação.


Sem perda de tempo, o escritor idealiza e coloca em pratica o novo personagem, o Jeca Tatuzinho, que após tomar o biotônico, teve suas forças refeitas. Assim surgiu o Almanaque do Jeca Tatu, idealizado por Monteiro e editado e distribuído pelo Laboratório Fontoura.

O almanaque explicava com simples palavras ao povo brasileiro, através de Jeca, como o parasito se apropriava de seus corpos através da pele, qual era o ciclo e como os ovos eliminados pelas fezes permaneciam no solo e que para seu bem o caboclo não deveria mais utilizar as bananeiras para as suas necessidades fisiológicas. Deveriam sim andar calçado com suas botinas, na época feitas de couro cru e fabricado de forma artesanal, para evitar a contaminação. Neste período, mais de noventa por cento da população andava descalça e não tinham noções básicas de higiene pessoal, com o almanaque, a população ficou ciente de que os ovos do parasito no solo produziriam as lavas que retornaria através da sola dos pés, e para completar o ciclo as lavas cairiam na circulação; desenvolveriam-se; fixavam-se nas paredes intestinais; aptos a sugarem sangue de suas vítimas e botarem novos ovos para ser expelidos pelas fezes.  
Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provada que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz papudo, feio, molenga inerte. Tens culpa disso? Claro que não. Assim, é com piedade infinita que te encara hoje o ignorantão que outrora só via em ti manparra e ruindade. Perdoa-me, pois, pobre opilado, e crê no que te digo ao ouvido: és tu isso se tirar uma virgula, mas ainda és melhor coisa desta terra. Os outros, os que falam francês, dançam o tango, fumam havanas e, senhores de tudo, te mantêm nessa geena infernal para que possam a seu favor viver vida folgada á custa do teu trabalho ,esses, meu caro Jeca Tatu, esses têm na alma todas as verminoses que tu tens no corpo. Doente por doente, antes como tu, doente só do corpo....(Urupês, 4º edição. Monteiro Lobato)
Examinando a história do progresso rural, percebemos a incrível contribuição que representou o personagem Jeca Tatu para o desenvolvimento da medicina nacional, em tempos em que era escassa a preocupação com a saúde do povo brasileiro.

Mais que um escritor brasileiro, Lobato é o próprio guia da nacionalidade; com sua literatura, ele tencionou salvar o caboclo dos males da terra, e levando o conhecimento sobre a importância do saneamento e das condições de higiene, inegavelmente obteve resultados positivos.

REFERÊNCIAS: 
1.LOBATO, Monteiro. Urupês. In: Obras completas de Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 1957.
2.PACHECO, RE. "Jeca Tatu: A medicina de Monteiro Lobato." Disponível em: http://encipecom.metodista.br/mediawiki/index.php/Jeca_Tatu:_a_medicina_de_Monteiro_Lobato 3.REY, L. “Um século de experiência no controle da ancilostomíase”. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 34(1):61-67, jan-fev, 2001.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Polimastia na arte

A anomalia congênita conhecida como mamas supranumerárias, resultante da persistência de pequenos fragmentos da crista mamária (ou linha de leite) embrionária, ocorre mais frequentemente nos seres humanos do que supomos.

A polimastia (presença de mama ou mamas acessórias) e politelia (ocorrência de mais de dois mamilos) podem apresentar-se acima ou abaixo das mamas tópicas, mais frequentemente abaixo e unilateralmente.

Júlia, a mãe do imperador romano Alejandro Severo (202-235), foi apelidada de “Mamea” por ser portadora de polimastia. Há referências de que Ana Bolena, a infortunada esposa de Henrique VIII da Inglaterra, além de polidactilia, tinha três mamas. Lynceus diz que em seu tempo existiu uma mulher romana com quatro mamas, com contornos bem definidos, colocadas regularmente uma sobre a outra.

 
Igreja de São Francisco. Salvador (Bahia).

A Igreja de São Francisco, em Salvador, abriga, revestindo as paredes do claustro, o mais importante trabalho de azulejaria portuguesa no Brasil, finalizado em 1752. A azulejaria branca, pintada em sua maior parte a mão e na cor azul, é uma das grandes contribuições portuguesas à arte mundial. As pinturas enfocam episódios sobre a corte portuguesa, seres mitológicos, penitentes rogando perdão pelos pecados ou a obtenção de curas e, principalmente, o nascimento de São Francisco e sua vida de renúncia aos bens materiais.

Dentre as personagens magistralmente registradas pelo principal mestre de azulejaria portuguesa do século XVIII, Bartolomeu Antunes de Jesus, encontra-se uma mulher com quatro mamas bem formadas, estando as aréolas e mamilos bem definidos em todas elas. Na obra em questão, as mamas peitorais tópicas são maiores que as duas supranumerárias. Dentre as inferiores, nota-se a mama esquerda, que aproxima-se da região epigástrica, ao passo que a direita, um pouco menor, projeta-se no hipocôndrio direito.

Polimastia (1752).Bartolomeu Antunes de Jesus.Pintura sobre azulejo.Claustro do convento de São Francisco (Salvador)

REFERÊNCIAS: 1.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003. 2.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Mal de Aleijadinho: Um Artista com Forma Peculiar

Sob uma nuvem de mistério e heroísmo permanece a identidade de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Filho de um respeitado arquiteto português, Manuel Francisco Lisboa, e uma escrava africana, Isabel, o magnífico escultor, entalhador e arquiteto do Brasil colonial nasceu em Ouro Preto, provavelmente em 1738. Os dados que constroem sua trajetória são alegadamente reconstituídos através de suas obras, documentos e depoimentos de indivíduos que haviam conhecido o artista.

"Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho". Desenhado pelo brilhante médico e artista Dr. Valderílio Feijó Azevedo, professor do departamento de Clínica Médica da UFPR.
Até 1777, com 47 anos, Francisco gozara de perfeita saúde e apreciava as festas regadas a bebidas alcoólicas e danças populares; a partir daí, surgiram os sinais de uma misteriosa doença degenerativa progressiva que lhe deformou o corpo e dificultou seu trabalho, embutindo-lhe grandes sofrimentos e fazendo-lhe valer o apelido “Aleijadinho”.

Retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco em São João del-Rei.
Quanto melhor esculpia as belas formas nas pedras, tanto mais se deformava o corpo singular de Aleijadinho, causando-lhe dores ditas incapacitantes. Apesar da árdua adaptação à degradação de sua saúde, prosseguiu trabalhando incansavelmente, mantendo as habilidades manuais, mesmo perdendo os quirodáctilos, restando-lhe apenas o indicador e o polegar. Perdeu todos os pododáctilos e parte da região calcânea, caminhando de joelhos em direção ao sucesso. Trabalhou durante anos com os cinzéis amarrados nos cotos e, quando mais avançado o mal, carregavam-lhe para os sítios onde gravou magnificamente sua arte. Também a face foi-lhe atingida, emprestando-lhe um aspecto incomum, caracterizado como terrível. Dizem que roupas amplas e folgadas escondiam-lhe a vergonhosa deformidade, grandes chapéus lhe ocultava a face e, para não ser visto, passou a trabalhar dentro de um espaço fechado por toldos, preferencialmente à noite.

Cena do carregamento da cruz, na Via Sacra de Congonhas.
De acordo com relatos, Aleijadinho tinha plena consciência de sua aparência grotesca, desenvolvendo por isso um humor perenemente colérico, desconfiado e revoltado, imaginando que mesmo os elogios que recebia por suas realizações artísticas eram dissimulados escárnios. Reza a lenda que, depois de ser chamado de "homem feio" por José Romão, ajudante-de-ordens do governador Bernardo Lorena, o artista se vingou esculpindo uma estátua de São Jorge com a cara "bestificada" de seu desafeto.

Nossa Senhora das Dores. Museu de Arte Sacra de São Paulo.
Sua condição debilitou em 1812, quando passou a depender demasiadamente das pessoas que o assistiam. De acordo com o depoimento da nora do artista, nos seus últimos dois anos, quando acamado e incapacitado de trabalhar, parte de seu corpo ficou coberto de chagas, e ele implorava constantemente que Cristo pousasse Seus santos pés sobre seu miserável corpo, dando-lhe boa morte e livrando-o dessa vida sofrida. A esta altura encontrava-se praticamente cego e com redução global das capacidades motoras. Por um breve período voltou para sua antiga moradia, mas logo teve de acomodar-se na casa de sua nora, que de acordo com o historiador Rodrigo Ferreira Bretas se encarregou dos cuidados de que necessitava até que ele veio a falecer, em 18 de novembro de 1814. Foi sepultado na Matriz de Antônio Dias, em uma tumba junto ao altar de Nossa Senhora da Boa Morte.

Igreja onde Francisco Lisboa está sepultado. Nossa Senhora da Conceição, construída entre os anos de 1727 e 1746, com projeto e execução de Manuel Francisco Lisboa, o pai do Aleijadinho.
Ao longo dos séculos, diversos diagnósticos tem sido propostos por médicos e historiadores para explicar sua doença, todos conjeturais, incluindo entre outras etiologias a hanseníase (improvável, visto que o artista não foi excluído do convívio social, como ocorria com todos os leprosos),sífilis, escorbuto, traumas físicos decorrentes de uma queda, artrite reumatóide e poliomielite.

O reumatologista Dr. Archiles Cruz Filho argumentou que Aleijadinho possa, na verdade, ter sido portador de esclerodermia, visto que a maioria das manifestações da doença do escultor são compatíveis com esclerose sistêmica, principalmente as alterações de membros.

As mais recentes pesquisas, realizadas por uma equipe de cientistas liderada pelo dermatologista e hansenologista Geraldo Barroso de Carval, professor da Faculdade de Medicina de Barbacena (MG) e autor do recém-lançado Doenças e Mistérios do Mestre Aleijadinho, apontam em favor da porfiria.

Descrito pela primeira vez em 1874, pelo médico alemão J. H. Schultz, o termo “porfirias” descreve um grupo de doenças com manifestações clínicas diversas que compartilham um quadro comum: a deficiência na síntese do anel porfírico, que irá fazer parte do grupo heme, que por sua vez é parte integrante dos citocromos e da hemoglobina. Pacientes com porfiria possuem, dentre outras manifestações, alteração da função das hemácias. A Porfiria Cutânea Tardia (PCT), atribuída como provável enfermidade de Aleijadinho, é uma das mais importantes formas deste grupo de doenças. A PCT caracteriza-se por um déficit de uroporfirinogênio descarboxilase, enzima encarregada da mediação de vários passos na síntese do grupo heme.

Numa exumação feita em 1971, o médico e bioquímico Paulo da Silva Lacaz, então professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observou que os ossos do artista exibiam uma coloração castanho-avermelhada, típica dos portadores de porfiria. Lacaz morreu antes de concluir suas pesquisas. Inspirado nesse trabalho pioneiro Barroso procedeu uma nova exumação dos despojos de Aleijadinho. Amostras colhidas pela equipe foram encaminhadas, através do departamento de Bioquímica da Universidade de Juiz de Fora, à Embrapa Solos, no Rio de Janeiro, que dispunha da tecnologia necessária para a investigação. O resultado da análise química inorgânica dos ossos detectou níveis espantosos de ferro dentro da vértebra do escultor. "Os estudos ainda não terminaram, mas com base nestes resultados podemos afirmar que não há outra razão para a pigmentação avermelhada dos ossos de Aleijadinho, senão decorrência da porfiria", frisou Barroso.

Dentre as manifestações clínicas da PCT, destacam-se fragilidade cutânea, fotossensibilidade (que justificaria o fato do artista trabalhar à noite ou protegido por um toldo), bolhas hemorrágicas ou serosas nas regiões expostas da pele (compatível com as “chagas” que cobriam o corpo de Francisco segundo sua nora), hirsutismo (o historiador Bretas relatou que Aleijadinho tinha pelo facial “cerrado e basto”), ou até mesmo alterações compatíveis com Lúpus Eritematoso Sistêmico ou Esclerodermia. Em casos extremos, a porfiria pode levar à perda das falanges. Os sinais da doença são precipitados dentre outros fatores por ingestão alcoólica (sabidamente o artista possuía tal hábito), cujo metabolismo hepático, em geral deficiente, propicia o acúmulo de ferro hepático.
Em qualquer peça sua que serve de realce aos edifícios mais elegantes, admira-se a invenção, o equilíbrio natural, ou composto, a justeza das dimensões, a energia dos usos e costumes e a escolha e disposição dos acessórios com os grupos verossímeis que inspira a bela natureza. Tanta preciosidade se acha depositada em um corpo enfermo que precisa ser conduzido a qualquer parte e atarem-se-lhe os ferros para poder obrar. Joaquim José da Silva, sobre Aleijadinho. (1790)
Dos muitos artistas que marcaram a cultura brasileira, Aleijadinho é a figura de maior expoente. Certamente, maiores que as riquezas extraídas das Minas Gerais, são os tesouros talhados pela genialidade e grandiosidade deste que tornou-se eterno através de suas estéticas obras.


REFERÊNCIAS:
1. V.F. Azevedo. "La malattia dell’Aleijadinho potrebbe essere stata una sclerodermia?". Reumatismo, 2008; 60(3):230-234.
2. Fernando Jorge. "O Aleijadinho". Bertrand Brasil.1949.
3.Bretas RJF. Antônio Francisco Lisboa - O Aleijadinho. Col. Reconquista do Brasil, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, Brasil, 2002.
4.Lopes, CF. "As dores de Aleijadinho". Revista Galileu. Ed. Globo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"O Médico Doente", de Drauzio Varella

Drauzio Varella, formado em Medicina pela USP, é um médico brasileiro que estreitou a ligação da ciência à arte. Notável escritor, publicou Estação Carandiru, obra que ganhou os prêmios Jabuti e Livro do Ano. Dentre outros livros, é autor também de Por um Fio e Borboletas da Alma.

Cancerologista há mais de quarenta anos, Drauzio convive com pacientes terminais diariamente. A estreita ligação com o tema, entretanto, não o preparou para viver a situação inversa.

Mal fechei os olhos, o quarto foi invadido por um batalhão de enfermeiras e auxiliares perguntando-me se apresentava alguma alergia, queixa cardíaca, pulmonar, urinária ou digestiva. Enquanto respondia a uma delas, outra instalava o aparelho de pressão em meu braço, e uma terceira colocava o termômetro e enlaçava a pulseira de identidade. Um técnico de laboratório passou um garrote para colher sangue e ligar o frasco de soro: ‘Vou dar uma picadinha’. Foi o primeiro de uma série de diminutivos que viriam a ser pronunciados. [...] O emprego do diminutivo infantiliza o cidadão. Deitado de camisola e pulseirinha, sem forças para agir por conta própria, cercado de gente que diz ‘Vamos tomar um remedinho’; ‘Abre a boquinha’; ‘Levanta a perninha’... há maturidade que resista?

Ao retornar de uma viagem à Floresta Amazônica em 2004, Varella sentiu um mal estar associado à febre e, após um período de relutância obstinada, interrompeu o atendimento em seu consultório e aceitou repousar. Dias depois, foi internado. As incertezas quanto ao diagnóstico cresciam conforme aumentava a febre.

Acompanhando de perto a aflição dos colegas, o paciente viu-se na angustiante posição de compreender melhor do que o doente comum a gravidade de seu caso. Astênico, com a mente embaraçada pela doença e pela morfina, ciente da gravidade de sua situação, o médico passou a considerar a possibilidade de que seus dias estavam contados.

Em “O Médico Doente”, o autor narra sua experiência sob a ótica clínica e cirúrgica. Do leito hospitalar ele retorna aos caminhos que o levaram à profissão e revela os sentimentos de um médico impotente, à beira da morte.

REFERÊNCIA:
1.Varella, Drauzio. “O Médico Doente”. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Relato de um jogador patológico, por Dostoiévski

Jogo patológico é um transtorno psiquiátrico inserido nos manuais diagnósticos há cerca de 20 anos. Pode ser considerado um transtorno do espectro impulsivo-compulsivo,apresentando características compartilhadas com os transtornos por uso de substâncias psicoativas.

O portador do transtorno apresenta preocupação com o jogo e com a obtenção de dinheiro para jogar, incapacidade de controlar o comportamento do jogo, mesmo frente a nítidas conseqüências adversas sócio-ocupacionais e/ou legais.

Um caso de jogo patológico bastante representativo é narrado no livro O jogador, de Fiódor Dostoiévski.

Através do protagonista, Aleksei Ivanovitch, o autor evidencia a lancinante evolução do transtorno, evidenciando três fases bem definidas no comportamento de jogar: vitória (na qual o jogador consegue controlar o impulso para jogar, permitindo algum ganho com o jogo); perdas (onde o impulso para jogar se torna mandatório, interferindo na capacidade de avaliação e repercutindo em prejuízos finaneiros); e desespero (na qual o jogador apresenta prejuízos significativos em várias dimensões de sua vida pessoa).

Não só desviou os olhos da vida, dos seus próprios interesses, dos da sociedade, dos seus deveres de homem e cidadão, dos seus amigos (porque fez amigos), não só deixou de ter qualquer objetivo a não ser o do ganho, mas desligou-se mesmo de suas recordações... Lembro-me de si numa época apaixonada e intensa da vida, mas estou certo de que esqueceu as melhores impressões desse período; os seus sonhos, os seus desejos quotidianos não tem agora maior alcance senão o de “pair” e “impair”, “rouge”, “noir”, os doze números do centro, etc., etc., estou certo disso. (Dostoiévski em "O jogador").

Aleksei demonstra preocupação e atividade pessoal dirigidas exclusivamente ao jogo, mesmo com as inúmeras perdas financeiras e sociais, além dos problemas legais, exibindo todas as características clínicas que permitem considerá-lo um jogador patológico.

O autor, que relata com precisão o sofrimento psicológico associado ao jogo patológico era, provavelmente, um jogador compulsivo e, para quitar as dívidas decorrentes do transtorno, cumpriu um contrato com seu editor escrevendo este relato autobiográfico em apenas vinte e seis dias.

Sigmund Freud, em Dostoiévski e o parricídio, sugere que Dostoiévski, assim como os demais jogadores impulsivos, teriam um desejo inconsciente de perder, jogando para aliviar o sentimento de culpa. Nas palavras do pai da psicanálise:
Todos os pormenores de sua conduta impulsivamente irracional demonstram isso. Ele nunca descansava antes de ter perdido tudo. Para ele, o jogo era também um método de autopunição. (Freud em "Dostoiévski e o Parricídio").

REFERÊNCIAS:
1.Dias, FM. “Um jogador patológico por Dostoiévski” Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.30 no.3 Porto Alegre Sept./Dec. 2008
2.Dostoiévski F. O jogador. Brasil: Editora 34; 2004
3.FREUD, S. "Dostoiévski e o parricídio". In: O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. pp.67-148.
4.OLIVEIRA, M; SAAD, AC. “Jogo patológico: uma abordagem terapêutica combinada”.J Bras Psiquiatr, 55(2): 162-165, 2006.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Albinismo em Pintura Alemã

O distúrbio hereditário conhecido como albinismo (latim: albus = branco), – conseguinte à ausência da enzima tirosinase nos melanócitos – , resulta no bloqueio irreversível da síntese de melanina, ocasionando ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos.

O expressionista alemão Otto Dix registrou numa de suas pinturas uma jovem portadora de um sugestivo fenótipo desta condição:

“Menina nua”, 1932 (óleo sobre tela), Dix, Otto (1891-1969) / Galeria Nacional de Arte Moderna, Edinburgh, UK.

A “Menina Nua” possivelmente sofre de despigmentação oculocutânea, subtipo de albinismo também conhecido como tiroxinase-negativo, em que todo o corpo é afetado.

REFERÊNCIAS:
Emery, M. “Genetics in art”. J Med Genet 1994;31:420-422.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Paralisia de Bell em pintura de Francisco Goya

Assimetria facial é uma condição relativamente comum na população e freqüentemente aparece em obras artísticas. Imagens de antigas esculturas representando paralisia facial podem ser vistas clicando aqui.

Na pintura, o retrato Don Andres Del Peral, feito por Francisco Goya, é um exemplo claro de assimetria facial atribuível a paralisia facial unilateral:

Don Andres del Péral (1797). Francisco de Goya. Galeria Nacional , Londres, (Inglaterra).
Também conhecida por paralisia de Bell ou paralisia facial idiopática, a assimetria caracteriza-se pela afetação unilateral dos músculos da expressão facial.

Andres Del Peral, também artista, fora amigo de Goya em Madrid. O pintor retratou-o do lado direito, minimizando a desfiguração causada pela paralisia facial à esquerda.


REFERÊNCIAS:
1.SALTER, V. “Medical conditions in works of art”. British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2.
2.SMITH,M. “Neurology in the National Gallery”. J R Soc Med 1999;92:649-652.