sábado, 1 de outubro de 2011

A romântica tuberculose de Fantine / "Os Miseráveis", de Victor Hugo

Em meados do século XVIII, um em cada quatro indivíduos era diagnosticado com tuberculose. A epidemia atingiu seu apogeu no século XIX, época em que subsistia a visão de que a tuberculose era a doença romântica do século. A moléstia, desconhecida e sem tratamento, “consumia pelo peito”, tirando a vida de homens que estavam no auge da entusiástica juventude.

Por acometer famosos músicos e poetas, acreditava-se que a doença atingia somente seres sensíveis, frágeis e “movidos pela paixão”.

Para os românticos, a tuberculose trazia certa dose de beleza e charme: a vítima tornava-se pálida, mais magra, os olhos encovados e brilhantes exalavam paixão, e os gestos graciosos e frágeis refletiam a fraqueza e sensibilidade do ser humano.

Neste cenário inspirativo, nasceram inúmeras personagens literárias portadoras da doença; uma delas, Fantine, faz parte de uma importante obra francesa da época. Os Miseráveis é um romance social publicado em 1862, de autoria do escritor francês Victor Hugo, que narra o destino lastimável de cinco principais personagens: Jean Valjean, Fantine, Cosette, Marius e Javert. A história se passa na França do século dezenove, no período delimitado pela Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1962.

A trágica saga de Fantine compõe o primeiro livro do romance. Nascida em Montreuil-sur-Mer, a bela jovem apaixona-se por Félix Tholomyes, estudante parisiense que a abandona após engravidá-la. Fantine fica desamparada, com sua filha Cosette, em Paris. Sem dinheiro, vê-se obrigada a deixar a criança sob os cuidados dos Thenardiers, donos de uma estalagem em Montfermeil, e volta pra sua cidade natal a fim de conseguir trabalho. Fantine é empregada numa fábrica e envia mensalmente seu salário para as despesas da menina. Os Thernardiers passam a enviar com freqüência cartas fraudulentas objetivando extorquir mais dinheiro de Fantine.

Descoberta mãe solteira por uma funcionária da fábrica, Fantine é demitida. Para conseguir manter as exigências financeiras da família que cuida da filha, vende seus cabelos a um cabeleireiro e os dentes a um dentista. Mais tarde, torna-se prostituta para pagar um tratamento medicamentoso para Cosette, supostamente doente. A menina, bastante saudável na realidade, é explorada como escrava na pousada em que vive.

Os sintomas da tuberculose surgem logo após a demissão de Fantine.
Saía-lhe a respiração do peito com esse sussurrar trágico privativo das moléstias daquela espécie, que parte o coração à pobre mãe que tem um filho condenado àquele gênero de morte, quando de noite o vela à cabeceira do leito. Todavia, aquela respiração penosa mal perturbava a expressão de serenidade inefável que se divisava em seu rosto, transfigurando-a no seu dormir. Fantine tinha as faces vermelhas, e o que era palidez convertera-se em brancura. As loiras e compridas pestanas, única beleza que lhe ficara da sua virgindade e juventude, palpitavam-lhe, ainda que fechadas e abaixadas, e o corpo tremia-lhe, agitado por não sei que sacudir de asas prestes a entreabrirem-se e a arrebatá-la, cujos estremecimentos se sentiam, mas não se viam. Ao vê-la daquele modo, ninguém suporia que estava ali uma doente sem esperança de salvação. Mais parecia uma pessoa que está para voar do que pra morrer.
No ínicio, a doença lhe provoca apenas uma tosse seca, mas mais tarde progride, manifestando-se com febre, sudorese, hemoptise e cianose, culminando na morte da personagem.

Cabe aqui comentar que a descrição detalhada para diagnóstico clínico da tuberculose foi feita pela primeira vez apenas em 1819, pelo grande clínico francês René Laennec (inventor do estetoscópio), que mais tarde morreria pela própria doença. Por suas contribuições pneumológicas, Laennec, – um dos nomes mais importantes da história da medicina – , atraiu a admiração de Victor Hugo, que estampou seu nome de forma elogiosa nas páginas de Os Miseráveis:
Acabamos de dizer que Fantine não se restabelecia, ao contrário, parecia agravar-se o seu estado de semana a semana. [...] Começavam então a seguir as belíssimas indicações de Laennec no estudo e tratamento das doenças do peito.
Em 1882 o cientista alemão Robert Koch isolou o bacilo que causa a doença, o Mycobacterium tuberculosis, mas somente em 1943 Selman A. Waksman descobriria a estreptomicina, o primeiro antibiótico usado contra a tuberculose.

A luta de Fantine para cuidar da filha é diretamente proporcional à gravidade de sua doença. Victor Hugo associa simbolicamente a tuberculose à maternidade.
O excesso do trabalho veio a fatigar Fantine, de modo que a tossezinha seca que tinha aumentou.
O esforço físico necessário para manter Cosette é paralelo a fraqueza decorrente da doença, de modo que por ambos Fantine “perde o fôlego”, caindo em completa desgraça.
Quanto mais fundo ela descia, quanto mais sombrio se tornava tudo em roda dela, mais aquele doce anjinho lhe irradiava de luz o fundo da alma. A tosse, porém, não a largava, e as costas às vezes ficavam banhadas em suor.
Hugo enfatiza sutilmente o valor da maternidade, embutindo a idéia de que Fantine abre mão de sua própria vida para salvar a da filha.





REFERÊNCIAS:
HUGO, Victor, Os miseráveis (Volume I: Fantine).Lisboa: Editorial Minerva, 1962.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Enfermaria nº 6", de Anton Tchekhov

“O repouso e a satisfação não estão fora do homem, mas dentro de si próprio.” Anton Tchekhov

Confeccionada em 1892 pelo célebre escritor e médico Anton Tchekhov, Enfermaria nº 6 é um conto que discorre de maneira sublime sobre a concepção filosófica da saúde mental, através de um passeio literário por um hospital psiquiátrico provincial.

Graças ao gigantismo do autor, a obra ficou consagrada como uma das mais impactantes histórias difundidas entre o público médico.

A trama principal transita em torno de quatro personagens portadores de transtornos mentais. O autor busca extrair, do cerne da loucura, a riqueza emocional de cada ser humano, infundindo delicadamente a idéia de que a enfermidade psíquica provém de um estado de hipersensibilidade aos
infortúnios a que estamos suscetíveis.

Ivan Dmitrich Gromov, de origem nobre, trinta e três anos, antigo oficial de diligências do julgado e secretário provincial, sofre de mania da perseguição [...] mostra-se sempre excitado, inquieto, num estado de grande tensão, como se esperasse algum acontecimento confuso e indefinido [...] tem uns tiques estranhos e doentios, mas os finos sulcos, que um profundo e sincero sofrimento deixou no seu semblante, denotam inteligência,e os seus olhos deixam transparecer um brilho carinhoso e sadio [...] Seu discurso é desordenado, febril, como em delírio; nem sempre se compreende o que diz; mas mesmo assim deixa perceber, pelas palavras e pela voz, qualquer coisa que denota extrema bondade. Quando fala, distinguem-se nele o louco e o homem. É difícil traduzir para o papel os seus desvarios. Fala da maldade humana, da violência que espezinha a justiça, da bela vida que com o andar dos tempos reinará na terra, das grades e das janelas, que a cada instante lhe recordam a obstinação e a crueldade dos opressores.”

Andrei Efimich, médico chefe do hospital, classificado inicialmente pela sociedade como um individuo sadio, estabelece uma relação de íntima amizade com um dos pacientes. Este último, a despeito de seu problema mental, exprime ser portador de peculiar inteligência quando aceita entabular diariamente conversas de conteúdo filosófico com o médico.

Com sua maneira singular de compreender a vida, o paciente influencia Andrei Efimich a ponto de modificar seu modo de ver e entender os pacientes ao mostrar-lhe o quão difícil é estar submetido à internação psiquiátrica. O médico, sensibilizado, passa a lidar com os enfermos de forma nunca feita antes, e esse estilo inteiramente novo de agir faz com que ele seja declarado insano e internado junto aos outros na enfermaria número 6.

Além de objetivar extinguir o preconceito contra os portadores de distúrbios mentais, a obra russa também enfatiza, dentre outros assuntos relevantes, as evoluções medicinais do período, a necessidade de uma boa relação médico-paciente e a importância do intelectualismo nas relações sociais.


REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, A. A ENFERMARIA Nº 6 e outros contos. Trad: Maria Luísa Anahory. Editora Verbo. Lisboa, 1972.

sábado, 10 de setembro de 2011

"O Homem Elefante": Filme conta a emocionante história de Joseph Merrick

Baseado numa história verídica, o filme norte-americano The Elephant Man (1980), conta a notável saga de Joseph Carey Merrick (1862-1890), constituindo um dos retratos humanos mais comoventes dentre as produções cinematográficas do século XX.


O diretor do filme, David Lynch, baseou-se em duas fontes para a composição do enredo: no livro, The Elephant Man (1980), de Frederick Treves, e em um livro de Ashley Montagu, chamado: The Elephant Man: A Study In Human Dignity, publicado em 1971.

Joseph Merrick (1862-1890), interpretado por John Hurt, portava uma doença que deformou de maneira irreversível 90% do seu corpo. Sua aparência chamou a atenção do famoso cirurgião Frederick Treves (Anthony Hopkins), que o encontrou num circo, no final de 1884, sendo apresentado como uma das aberrações do espetáculo. Em dezembro de 1884, Frederick Treves examinou Merrick e o apresentou como um caso em uma reunião da Sociedade Patológica de Londres:

“Ele é inglês. Tem 21 anos de idade e chama-se John Merrick. Na minha prática profissional, já vi deformidades do rosto decorrentes de ferimentos ou doenças, bem como mutilações e deformidades do corpo, devido a causas semelhantes. Mas em momento algum presenciei tão degradante versão de um ser humano como agora. Quero chamar a atenção dos senhores para esta insidiosa condição. Podem ver daí? Há um exagerado crescimento do crânio e do braço direito, totalmente inutilizado; uma alarmante curvatura da coluna. Notem a frouxidão da pele e os tumores fibrosos, que cobrem 90% do seu corpo. Tudo indica que essas deformações já existiam e progrediram rapidamente desde o nascimento. O paciente também sofre de bronquite crônica. Um aparte interessante é que, apesar das anomalias, os genitais do paciente não foram afetados e permanecem intactos. O braço esquerdo é normal, como podem ver. Então, senhores, devido a estas condições, aos tumores ósseos no crânio, à grande quantidade de massas pendentes na pele, ao crescimento exagerado do braço direito, envolvendo todos os ossos, às extensas distorções da cabeça, e à grande área coberta por papilomas, o paciente é conhecido como O Homem Elefante. Obrigado.” Frederick Treves (1884)

Fotografia de 1889.
Em 24 de junho 1886, Joseph foi admitido como residente no Royal London Hospital. Lá recebeu inúmeras visitas, a primeira sobre a qual sabemos é interpretada por Anne Bancroft, ela representa Madge Kendal, uma atriz que fazia sucesso nos palcos de Londres durante a segunda metade do século XIX. Como uma figura materna para Joseph, ela o ajuda a aceitar sua enfermidade e a encontrar alguma alegria.

Entre as personalidades que o visitava, destaca-se também a rainha Vitória e a princesa Alexandra, esta última, que o presenteava com freqüência, comentou no próprio diário o quão eram comoventes seus encontros com Merrick.

Joseph fora um jovem de sensibilidade artística; e assim como vários indivíduos portadores de alguma condição excêntrica fizeram da arte seu maior refúgio, também Joseph encontrou algum conforto na concretização de suas idéias criativas. Ele gostava de presentear a quem estimava com suas delicadas criações. Uma delas existe até hoje. É a maquete de uma igreja, de fabricação alemã, que ele fez para a atriz Madge Kendal, talvez em 1886:

Maquete de Igreja (1886). Joseph Merrick. Museu do Royal London Hospital.
Ao longo dos anos, debateu-se sobre qual seria a doença de Joseph. O próprio Merrick atribuía a misteriosa doença a um susto que sua mãe teria tido ao ver um elefante quando ainda grávida dele em 1862. No registro do paciente, feito em 1886 para os pacientes do London Hospital, consta que Joseph sofria de elefantíase, uma doença inflamatória adquirida encontrada em países tropicais. Certamente Joseph não sofria disso. A suspeita era a de que ele sofria de neurofibromatose tipo 1, complicada por outra doença, a fibrodisplasia. A análise das radiografias e fotos de Joseph Merrick mostram indícios de várias afecções. Ao exame de diferentes partes do seu corpo, como o fêmur, postulou-se que ele podia ter doença de Paget. Nos anos 80, dois médicos dos EUA propuseram outro diagnóstico, Tibbles e Cohen sugeriram que Joseph sofria da Síndrome de Proteus – assim denominada em alusão a Proteu, deus entalhador das formas –, uma rara doença genética, com poucos casos descritos na literatura médica. O diagnóstico encontrou adeptos e houve muitas tentativas de extrair o DNA dos restos mortais de Joseph para comprovar a hipótese. A condição física do jovem britânico foi fonte de diversos estudos médicos, entretanto, até o momento, não há prova científica sobre qual afecção o acometeu.
De facto, a minha aparência é algo medonha, mas censurar-me é censurar a Deus. Pudesse eu recriar-me novamente, não te decepcionaria. Pudesse eu abarcar o mundo de pólo a pólo ou abraçar o oceano num amplexo, seria medido pela minha alma, a base da mente do homem. (Trecho de poema de Isaac Watts com que Joseph finalizava suas cartas).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"O Médico", por Rubem Alves

O curta-metragem abaixo traz a adaptação de uma crônica extraída do livro O Médico, de autoria de Rubem Alves, onde o escritor interpreta poeticamente a pintura O Doutor, de Samuel Luke Fildes, valorizando a influência que possuem os profissionais da Medicina sobre a vida das pessoas:


O Médico é um vídeo produzido em parceira entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRMPR).

Veja também: "O Doutor" - Samuel Luke Filds

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Ciência e Caridade", de Pablo Picasso

Indubitavelmente, Ciência e Caridade é a principal obra de Pablo Picasso na fase inicial de sua formação. Com apenas dezesseis anos, o pintor assumiu maturamente a ambiciosa composição clássica, honrando com ela o resultado de seus estudos acadêmicos liderados por seu pai, José Ruiz Blasco, professor de pintura e desenho em Málaga.

Ciência e Caridade (1897). Pablo Picasso (1881-1973). Óleo sobre tela, 197 x 249 cm. Museu Picasso (Barcelona).

Quatros figuras estampam a imagem: no foco principal, ocupando o leito, vê-se uma pálida criatura do sexo feminino, gravemente enferma; à sua cabeceira encontra-se o doutor, sentado, tomando-lhe o pulso enquanto olha seu relógio de bolso; à esquerda da doente, uma freira oferece-lhe cuidados enquanto ampara nos braços uma criança; infere-se do retrato que tal pequena pessoa ocupa o cenário como filha da doente, a cabeça desproporcionalmente grande valoriza sua presença entre os adultos. A mãe, com o olhar fixado à criança, transmite contundentemente a angústia de saber que a deixará órfã.

A encantadora cena embute a “ciência” incorporada na figura do clínico geral bem como a freira, – cuja presença nos hospitais costumava à época ser comum –, representa a “caridade”, esta última com o poder de humanizar os cuidados práticos empregados pelo médico.

O próprio pai de Picasso serviu como modelo para o médico. Quem posa como a figura que aparece quase sem vida é sua irmã, Lola. A criança foi locada de uma mendiga em troca de algum dinheiro. E para a freira, Picasso utilizou um adolescente vestido com um hábito emprestado por um convento.

O sentimento filantrópico e o interesse no progresso científico insere a obra no âmbito de realismo social tão freqüentemente encontrado entre os círculos mais conservadores da segunda metade do século dezenove. A importância da caridade é representada pela serventia religiosa à doente. O avanço científico é evidenciado pela maneira profissional, responsável, ética e, especialmente, carregada de afeto com que o doutor oferece seus serviços.

A origem da união simbólica que dá título à tela é cativante, e estimula a reflexão sobre a necessidade de oferecer ao doente tanto o apoio científico quanto o espiritual e emocional.

Ciência e Caridade recebeu medalha de ouro na Exposição Provincial de Belas Artes de Málaga e ganhou menção honrosa na Exposição Nacional de Arte de Madrid. Atualmente, a obra é a peça mais importante do acervo do Museu Picasso, em Barcelona.


REFERÊNCIAS:
1.Museu Picasso de Barcelona
2.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
3.Moral, A. “Ciência e Caridade (Picasso)”. Ciência da Esquina. N º 19, Dezembro de 2002.

domingo, 31 de julho de 2011

Anton Tchekhov: Trajetória Dedicada à Medicina e à Literatura

Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos.
O célebre trecho acima é do famoso escritor Anton Tchekhov, que exerceu com primor a medicina e a literatura, consagrando-se como um dos grandes nomes que conciliou as duas culturas: a cultura humanística e a cultura científica.

Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu em Taganrog em 17 de janeiro de 1860. Foi o terceiro dos seis filhos do merceeiro Pável Tchekhov.

As origens da família são humildes, fato que contribuiu um tanto para sua infância difícil. O pai, autoritário mas bem intencionado, obrigava-o a trabalhar com ele na venda, e quando, falido, teve de mudar-se pra Moscou com a família, deixou o jovem Tchekhov sozinho em Tangarog para terminar o ensino médio. Sem renda, Anton logo tratou de dar aulas particulares para suster a si mesmo, mantendo-se assim por cerca de dois anos. chamavam-o ironicamente de "Cech" (cujo significado é servo). Em 1979, terminado o ginásio, Tchekhov seguiu pra Moscou, onde encontrou a família na maior pobreza, tendo chegado em certa época a dormir no chão.

Alexander Mirgorodskiy. Estátua de Tchekhov (1960). Localizada em Taganrog (Rússia).

Tchekhov matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou. Graças ao seu talento literário, durante essa fase sustentou a si e a família trabalhando como colaborador em publicações periódicas em vários jornais e revistas das metrópoles russas. Formou-se em 1884 e exerceu medicina como médico responsável de uma clínica rural, da província. Foi ali que o autor conheceu as mais curiosas personalidades e a exuberante natureza pátria que ele descreveria com pinceladas magistrais em muitas de suas obras.

Não menos brilhante que sua atividade literária fora sua carreira médica. Mikhail Tchekhov, um membro da família em Melikhovo (pequena cidade onde Anton exerceu por anos a profissão), descreveu o alcance que assumiu os compromissos hipocráticos de seu irmão:
Os doentes que moravam ao redor começaram a afluir a Tchekhov. Eles viam de longe, a pé ou trazidos em carretas, outras vezes ele ia ao encontro de pacientes à distância. Desde o início do dia as mulheres camponesas e as crianças estavam em pé diante de sua porta, à sua espera, muitas vezes somente para oferecer-lhe algum agrado como prova de gratidão.
Também Tchekhov sofria com uma doença, talvez por isso não economizou em carinho e generosidade com seus pacientes. Em dezembro de 1884 teve ele um quadro de hemoptise. O diagnóstico? Tuberculose, que se agravou a partir de 1889. Em junho desse mesmo ano morreu o seu irmão Nikolaj, também vítima da doença, possivelmente infectado pelo irmão. A morte do caçula influenciou Uma História Desagradável, conto que discorre sobre um homem que enfrenta o fim de uma vida percebendo que sua existência foi sem propósito. Há relatos de que Anton sentiu indescritíveis remorsos, principalmente por não ter estado presente nos últimos dias de vida do irmão. Nikolaj também fora um exímio artista, gostava de pintar, e estampou num quadro a face adoecida do irmão:

Retrato de Anton Tchekhov por seu irmão Nikolaj Tchekhov.

Assim como ocorreu a muitos escritores, a tuberculose exerceu forte influência na atividade literária de Tchekhov, em muitos de seus textos há personagens vítimas da doença. Doutores também não faltam em suas obras, a exemplo, em Um Relato do Jardineiro-Chefe, o autor descreve num personagem médico algumas das qualidades essencialmente humanas que empregavam a si:
Ele mesmo tísico, tossia, mas quando o chamavam pra ver um doente, ele esquecia o próprio mal e, arquejando, subia montanhas, por mais altas que fossem. Ele não ligava pra o frio ou calor, desprezava fome e sede. Não aceitava dinheiro e, coisa estranha, quando perdia um paciente para a morte, ele seguia o caixão junto com os parentes e chorava. E logo ele se tornou tão indispensável para a cidade, que os moradores espantavam-se ao pensar como é eu antes conseguiam passar sem esse homem. Sua gratidão não conhecia limites. Adultos e crianças, bons e maus, honestos e malandros, em suma, todos o respeitavam e reconheciam seu valor.
Bem visto e bem quisto em toda a cidadezinha em que exerceu a profissão, conta-se que Tchekhov não aceitava pagamento pelas consultas, sua renda provinha de suas publicações literárias; dizia ele que a profissão médica já possuía por si só um inestimável valor, pois a convivência direta com o sofrimento dos doentes fornecia o substrato para seus textos, e por isso, apesar de não cobrar aos pacientes, era a medicina indiretamente responsável por seu sustento.

Observador arguto da vida e de tudo que é humano, Tchekhov foi um homem de muitas vivências. Tanto a infância difícil e a adolescência penosa, como a tuberculose e as impressões adquiridas no tempo em que observou a vida dos condenados ao trabalho forçado na ilha Sakhalina, causou profunda impressão em sua consciência e imprimiu a marca da verdade nos textos mais importantes do escritor, tornando-o insuperável. Seus curtos contos, expostos com uma economia de palavras diretamente proporcional à riqueza e profundidade do seu conteúdo humano (emocional, psicológico e social), respiram realidade, seus intensos personagens revelam-se ao leitor sem um só efeito supérfluo.

Em julho de 1904 a tuberculose recrudesceu implacavelmente, levando do mundo o genial russo, aos 44 anos de idade, em plena floração da criatividade e do talento. O artista foi sepultado no Cemitério Novodevichy, ao lado do túmulo do pai.

A grandeza de Tchekhov revela-se no conteúdo de sua vasta obra, que exala a empatia que ele possuía com tudo o que é humano. Sua compaixão e compreensão – pelos injustiçados e desvalidos, os humilhados e ofendidos, as crianças, os condenados, os animais, os doentes e os infelizes de quaisquer classes sociais –, impregnam as linhas que enriquecem a literatura mundial. A julgar pelas palavras deliciosamente belas e desprovidas de pieguice, ouso dizer que poucos homens são capazes de atingir tamanha maturidade angelical.


REFERÊNCIAS:
Tchekhov, Anton. "Um homem extraordinário e outras histórias". Porto Alegre; L&PM, 2007.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley

Completada há quase um século pelo escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963), Admirável Mundo Novo é uma impressionante obra ficcional que questiona o direcionamento que a civilização moderna está dando a si mesma, caminhando em direção à total desvalorização dos aspectos humanos. Visto como profético, o livro escrito antes da estrutura do DNA ser descrita, discute, dentre diversos assuntos relevantes, se o cientificamente possível é eticamente viável.


Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. (Huxley, 1932).
As pessoas, controladas desde o nascimento por um sistema que alia controle genético a condicionamento mental, são completamente destituídas de valores humanos, não sendo mais que meros produtos de uma linha genética de montagem em que são clonadas e tratadas como peças de reposição para a manutenção de um sistema global asséptico e totalmente artificializado.

A sociedade que emerge das páginas do romance de Huxley valoriza o negligencialismo dos sentimentos, a mediocridade, o artificialismo e a banalização dos relacionamentos. Tal condição social inumana é alcançada em função de pseudos avanços e conquistas científicas. Huxley aborda assim, uma questão que sempre esteve atrelada aos avanços da ciência: o medo de sua utilização desvirtuada.

Em busca de uma aparente harmonia social, na sociedade criada por Huxley, não há espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois até a tristeza e a ansiedade são controladas quimicamente pelo “soma”, – uma droga capaz de estabilizar os exasperados sentimentos humanos. Considerando que décadas depois surgiram os antidepressivos e ansiolíticos, também neste tópico reconhece-se a obra como profética.

Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade? (Huxley, 1932).
Dentre uma população ridicularizada, dominada por falsos valores, Huxley inclui John, conhecido como O Selvagem, um personagem que representa o resgate dos valores humanos que se perderam. Esse personagem tem como modelo do humano, nada menos do que os sentimentos descritos nas obras de William Shakespeare – admirável escolha de Huxley, aliás, visto que o dramaturgo inglês foi o primeiro a oferecer um espelho no qual a humanidade pudesse se reconhecer. Assim, anos antes de Shakespeare ser referido como o “inventor do humano”, Huxley já o elegia como redentor dos valores humanitários da civilização.

Genialmente, também o título da obra fora extraído das palavras de Shakespeare:

Oh! maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana
Ó ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
que possui gente assim! (A Tempestade - Ato V).
Também enfatizando a busca pelos reais valores, a peça, - provavelmente a última escrita por Shakespeare, - tem como protagonista Próspero, um personagem exilado da sociedade, dotado de poderes exotéricos e caracterizado por seu amplo conhecimento acerca das coisas do mundo. Nas últimas páginas da obra, em sua viagem de volta ao lar, Próspero decide retornar a sua condição original, e lança ao mar um livro contendo toda sua magia e conhecimento. Assim, ele retorna ao seio da civilização da qual fora exilado, como ser humano puro, sem os poderes sobre-humanos que a ciência e a magia lhe conferiam, contribuindo assim para a restauração da ordem social vigente. Ambas as obras tem um ponto em comum: o resgate da natureza humana, outrora perdida pela busca científica indiscriminada.

Atualmente, a engenharia genética se destaca globalmente. Com o poder de suscitar diversas questões éticas, a leitura de Admirável Mundo Novo é quase que obrigatória e altamente recomendada numa época em que a barreira entre a moralidade e a busca pela verdade científica faz-se quase invisível.