terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Ciência e Caridade", de Pablo Picasso

Indubitavelmente, Ciência e Caridade é a principal obra de Pablo Picasso na fase inicial de sua formação. Com apenas dezesseis anos, o pintor assumiu maturamente a ambiciosa composição clássica, honrando com ela o resultado de seus estudos acadêmicos liderados por seu pai, José Ruiz Blasco, professor de pintura e desenho em Málaga.

Ciência e Caridade (1897). Pablo Picasso (1881-1973). Óleo sobre tela, 197 x 249 cm. Museu Picasso (Barcelona).

Quatros figuras estampam a imagem: no foco principal, ocupando o leito, vê-se uma pálida criatura do sexo feminino, gravemente enferma; à sua cabeceira encontra-se o doutor, sentado, tomando-lhe o pulso enquanto olha seu relógio de bolso; à esquerda da doente, uma freira oferece-lhe cuidados enquanto ampara nos braços uma criança; infere-se do retrato que tal pequena pessoa ocupa o cenário como filha da doente, a cabeça desproporcionalmente grande valoriza sua presença entre os adultos. A mãe, com o olhar fixado à criança, transmite contundentemente a angústia de saber que a deixará órfã.

A encantadora cena embute a “ciência” incorporada na figura do clínico geral bem como a freira, – cuja presença nos hospitais costumava à época ser comum –, representa a “caridade”, esta última com o poder de humanizar os cuidados práticos empregados pelo médico.

O próprio pai de Picasso serviu como modelo para o médico. Quem posa como a figura que aparece quase sem vida é sua irmã, Lola. A criança foi locada de uma mendiga em troca de algum dinheiro. E para a freira, Picasso utilizou um adolescente vestido com um hábito emprestado por um convento.

O sentimento filantrópico e o interesse no progresso científico insere a obra no âmbito de realismo social tão freqüentemente encontrado entre os círculos mais conservadores da segunda metade do século dezenove. A importância da caridade é representada pela serventia religiosa à doente. O avanço científico é evidenciado pela maneira profissional, responsável, ética e, especialmente, carregada de afeto com que o doutor oferece seus serviços.

A origem da união simbólica que dá título à tela é cativante, e estimula a reflexão sobre a necessidade de oferecer ao doente tanto o apoio científico quanto o espiritual e emocional.

Ciência e Caridade recebeu medalha de ouro na Exposição Provincial de Belas Artes de Málaga e ganhou menção honrosa na Exposição Nacional de Arte de Madrid. Atualmente, a obra é a peça mais importante do acervo do Museu Picasso, em Barcelona.


REFERÊNCIAS:
1.Museu Picasso de Barcelona
2.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
3.Moral, A. “Ciência e Caridade (Picasso)”. Ciência da Esquina. N º 19, Dezembro de 2002.

domingo, 31 de julho de 2011

Anton Tchekhov: Trajetória Dedicada à Medicina e à Literatura

Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos.
O célebre trecho acima é do famoso escritor Anton Tchekhov, que exerceu com primor a medicina e a literatura, consagrando-se como um dos grandes nomes que conciliou as duas culturas: a cultura humanística e a cultura científica.

Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu em Taganrog em 17 de janeiro de 1860. Foi o terceiro dos seis filhos do merceeiro Pável Tchekhov.

As origens da família são humildes, fato que contribuiu um tanto para sua infância difícil. O pai, autoritário mas bem intencionado, obrigava-o a trabalhar com ele na venda, e quando, falido, teve de mudar-se pra Moscou com a família, deixou o jovem Tchekhov sozinho em Tangarog para terminar o ensino médio. Sem renda, Anton logo tratou de dar aulas particulares para suster a si mesmo, mantendo-se assim por cerca de dois anos. chamavam-o ironicamente de "Cech" (cujo significado é servo). Em 1979, terminado o ginásio, Tchekhov seguiu pra Moscou, onde encontrou a família na maior pobreza, tendo chegado em certa época a dormir no chão.

Alexander Mirgorodskiy. Estátua de Tchekhov (1960). Localizada em Taganrog (Rússia).

Tchekhov matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou. Graças ao seu talento literário, durante essa fase sustentou a si e a família trabalhando como colaborador em publicações periódicas em vários jornais e revistas das metrópoles russas. Formou-se em 1884 e exerceu medicina como médico responsável de uma clínica rural, da província. Foi ali que o autor conheceu as mais curiosas personalidades e a exuberante natureza pátria que ele descreveria com pinceladas magistrais em muitas de suas obras.

Não menos brilhante que sua atividade literária fora sua carreira médica. Mikhail Tchekhov, um membro da família em Melikhovo (pequena cidade onde Anton exerceu por anos a profissão), descreveu o alcance que assumiu os compromissos hipocráticos de seu irmão:
Os doentes que moravam ao redor começaram a afluir a Tchekhov. Eles viam de longe, a pé ou trazidos em carretas, outras vezes ele ia ao encontro de pacientes à distância. Desde o início do dia as mulheres camponesas e as crianças estavam em pé diante de sua porta, à sua espera, muitas vezes somente para oferecer-lhe algum agrado como prova de gratidão.
Também Tchekhov sofria com uma doença, talvez por isso não economizou em carinho e generosidade com seus pacientes. Em dezembro de 1884 teve ele um quadro de hemoptise. O diagnóstico? Tuberculose, que se agravou a partir de 1889. Em junho desse mesmo ano morreu o seu irmão Nikolaj, também vítima da doença, possivelmente infectado pelo irmão. A morte do caçula influenciou Uma História Desagradável, conto que discorre sobre um homem que enfrenta o fim de uma vida percebendo que sua existência foi sem propósito. Há relatos de que Anton sentiu indescritíveis remorsos, principalmente por não ter estado presente nos últimos dias de vida do irmão. Nikolaj também fora um exímio artista, gostava de pintar, e estampou num quadro a face adoecida do irmão:

Retrato de Anton Tchekhov por seu irmão Nikolaj Tchekhov.

Assim como ocorreu a muitos escritores, a tuberculose exerceu forte influência na atividade literária de Tchekhov, em muitos de seus textos há personagens vítimas da doença. Doutores também não faltam em suas obras, a exemplo, em Um Relato do Jardineiro-Chefe, o autor descreve num personagem médico algumas das qualidades essencialmente humanas que empregavam a si:
Ele mesmo tísico, tossia, mas quando o chamavam pra ver um doente, ele esquecia o próprio mal e, arquejando, subia montanhas, por mais altas que fossem. Ele não ligava pra o frio ou calor, desprezava fome e sede. Não aceitava dinheiro e, coisa estranha, quando perdia um paciente para a morte, ele seguia o caixão junto com os parentes e chorava. E logo ele se tornou tão indispensável para a cidade, que os moradores espantavam-se ao pensar como é eu antes conseguiam passar sem esse homem. Sua gratidão não conhecia limites. Adultos e crianças, bons e maus, honestos e malandros, em suma, todos o respeitavam e reconheciam seu valor.
Bem visto e bem quisto em toda a cidadezinha em que exerceu a profissão, conta-se que Tchekhov não aceitava pagamento pelas consultas, sua renda provinha de suas publicações literárias; dizia ele que a profissão médica já possuía por si só um inestimável valor, pois a convivência direta com o sofrimento dos doentes fornecia o substrato para seus textos, e por isso, apesar de não cobrar aos pacientes, era a medicina indiretamente responsável por seu sustento.

Observador arguto da vida e de tudo que é humano, Tchekhov foi um homem de muitas vivências. Tanto a infância difícil e a adolescência penosa, como a tuberculose e as impressões adquiridas no tempo em que observou a vida dos condenados ao trabalho forçado na ilha Sakhalina, causou profunda impressão em sua consciência e imprimiu a marca da verdade nos textos mais importantes do escritor, tornando-o insuperável. Seus curtos contos, expostos com uma economia de palavras diretamente proporcional à riqueza e profundidade do seu conteúdo humano (emocional, psicológico e social), respiram realidade, seus intensos personagens revelam-se ao leitor sem um só efeito supérfluo.

Em julho de 1904 a tuberculose recrudesceu implacavelmente, levando do mundo o genial russo, aos 44 anos de idade, em plena floração da criatividade e do talento. O artista foi sepultado no Cemitério Novodevichy, ao lado do túmulo do pai.

A grandeza de Tchekhov revela-se no conteúdo de sua vasta obra, que exala a empatia que ele possuía com tudo o que é humano. Sua compaixão e compreensão – pelos injustiçados e desvalidos, os humilhados e ofendidos, as crianças, os condenados, os animais, os doentes e os infelizes de quaisquer classes sociais –, impregnam as linhas que enriquecem a literatura mundial. A julgar pelas palavras deliciosamente belas e desprovidas de pieguice, ouso dizer que poucos homens são capazes de atingir tamanha maturidade angelical.


REFERÊNCIAS:
Tchekhov, Anton. "Um homem extraordinário e outras histórias". Porto Alegre; L&PM, 2007.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley

Completada há quase um século pelo escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963), Admirável Mundo Novo é uma impressionante obra ficcional que questiona o direcionamento que a civilização moderna está dando a si mesma, caminhando em direção à total desvalorização dos aspectos humanos. Visto como profético, o livro escrito antes da estrutura do DNA ser descrita, discute, dentre diversos assuntos relevantes, se o cientificamente possível é eticamente viável.


Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. (Huxley, 1932).
As pessoas, controladas desde o nascimento por um sistema que alia controle genético a condicionamento mental, são completamente destituídas de valores humanos, não sendo mais que meros produtos de uma linha genética de montagem em que são clonadas e tratadas como peças de reposição para a manutenção de um sistema global asséptico e totalmente artificializado.

A sociedade que emerge das páginas do romance de Huxley valoriza o negligencialismo dos sentimentos, a mediocridade, o artificialismo e a banalização dos relacionamentos. Tal condição social inumana é alcançada em função de pseudos avanços e conquistas científicas. Huxley aborda assim, uma questão que sempre esteve atrelada aos avanços da ciência: o medo de sua utilização desvirtuada.

Em busca de uma aparente harmonia social, na sociedade criada por Huxley, não há espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois até a tristeza e a ansiedade são controladas quimicamente pelo “soma”, – uma droga capaz de estabilizar os exasperados sentimentos humanos. Considerando que décadas depois surgiram os antidepressivos e ansiolíticos, também neste tópico reconhece-se a obra como profética.

Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade? (Huxley, 1932).
Dentre uma população ridicularizada, dominada por falsos valores, Huxley inclui John, conhecido como O Selvagem, um personagem que representa o resgate dos valores humanos que se perderam. Esse personagem tem como modelo do humano, nada menos do que os sentimentos descritos nas obras de William Shakespeare – admirável escolha de Huxley, aliás, visto que o dramaturgo inglês foi o primeiro a oferecer um espelho no qual a humanidade pudesse se reconhecer. Assim, anos antes de Shakespeare ser referido como o “inventor do humano”, Huxley já o elegia como redentor dos valores humanitários da civilização.

Genialmente, também o título da obra fora extraído das palavras de Shakespeare:

Oh! maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana
Ó ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
que possui gente assim! (A Tempestade - Ato V).
Também enfatizando a busca pelos reais valores, a peça, - provavelmente a última escrita por Shakespeare, - tem como protagonista Próspero, um personagem exilado da sociedade, dotado de poderes exotéricos e caracterizado por seu amplo conhecimento acerca das coisas do mundo. Nas últimas páginas da obra, em sua viagem de volta ao lar, Próspero decide retornar a sua condição original, e lança ao mar um livro contendo toda sua magia e conhecimento. Assim, ele retorna ao seio da civilização da qual fora exilado, como ser humano puro, sem os poderes sobre-humanos que a ciência e a magia lhe conferiam, contribuindo assim para a restauração da ordem social vigente. Ambas as obras tem um ponto em comum: o resgate da natureza humana, outrora perdida pela busca científica indiscriminada.

Atualmente, a engenharia genética se destaca globalmente. Com o poder de suscitar diversas questões éticas, a leitura de Admirável Mundo Novo é quase que obrigatória e altamente recomendada numa época em que a barreira entre a moralidade e a busca pela verdade científica faz-se quase invisível.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A cura da catarata representada em obra de Rembrandt / "Tobias devolve a visão a seu pai" (1636)

Pintada em 1636, a famosa gravura exposta abaixo é obra do prodigioso neerlandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669):

Tobias Devolve a Visão a seu Pai (1636).Rembrandt van Rijn (1606-1669).Óleo sobre tela, 47 x 38,7 cm Staatsgalerie (Stuttgart).

Este “Rembrandt genuíno” representa o Tobias em idade avançada, sentado à esquerda, perto da janela; sua esposa segura suas mãos sobre os joelhos, enquanto seu filho, trajado num turbante verde, trata-o com um remédio que trouxe de sua viagem. Seu companheiro, o anjo Rafael, vestido de branco e com asas estendidas, observa atentamente a cena.

Conta a bíblia que Tobias, da tribo e da cidade de Neftali – situada na Galiléia superior –, desposou uma mulher de sua tribo, chamada Ana, da qual teve um filho, a quem denominou também Tobias. Certo dia, enquanto dormia, caiu-lhe esterco de pardal nos olhos:

Não tinha notado, porém, que havia uns pardais no muro, mesmo por cima de mim. Caiu excremento quente nos meus olhos, produzindo neles manchas brancas [...]Fiquei cego durante quatro anos. (Tobias 2:10)

O incidente que supostamente o cegou foi conseqüência de um castigo por haver ele sepultado os corpos de alguns judeus, prática ilegal na época. Tobias suportou a essa punição divina guardando os mandamentos do Senhor e não lamentando pela cegueira.

Tempos depois, o jovem Tobias recebeu a seguinte mensagem do anjo Rafael:

Esfrega o fel do peixe nos seus olhos. O remédio vai fazer com que as manchas brancas diminuam e desapareçam. Então teu pai vai recuperar a vista e poderá ver. (Tobias 2:18)

O filho aplicou o remédio nos olhos do pai, aguardou um certo momento e viu então desprender-se dos olhos de Tobias uma catarata semelhante a uma clara de ovo. O jovem Tobias limpou-lhe os olhos e prontamente seu pai retomou a visão.

É relatado no livro sagrado que a leucocoria – a mais clássica manifestação da opacificação do cristalino – fazia-se presente nos olhos de Tobias. Tal dado leva-nos a crer que a história bíblica figura um claro exemplo de catarata.

Curiosamente, nos tempos antigos era considerado o fel de vários peixes um remédio eficaz contra a cegueira, prova disso é que o naturalista romano Plínio o refere em sua "História Natural”. Oftalmologistas sugerem que a esfregação vigorosa dos olhos determinaria o deslocamento da lente de catarata. Neste caso, especialmente se Tobias foi míope, a visão teria sido restaurada súbita e perfeitamente.

Acima da obra de Rembrandt, há uma inscrição dizendo: “Nenhum esforço é desperdiçado”, ressaltando, junto à imagem, o sucesso da cura de Tobias utilizando a fé em associação ao fel de peixe.


REFERÊNCIAS:
1.Pierre Amalric: L'opération de la cataracte à travers l'oeuvre de Rembrandt.

sábado, 25 de junho de 2011

"Triste Herança", de Joaquín Sorolla

Com Triste Herança, óleo sobre tela completado em 1899, o pintor espanhol Joaquín Sorolla encerra sua contribuição artística ao “realismo social” iniciado poucos anos antes.

Triste herança (1899). Joaquín Sorolla. Colección privada Bancaja (Espanha).

Antigamente, o termo “triste herança” era usado para referir-se aos males padecidos pelos filhos como conseqüência das enfermidades dos seus progenitores. Tais moléstias eram consideradas vergonhosas por afetar somente descendentes de indivíduos cuja vida era tachada de “pecaminosa” ou fora de sintonia com os comportamentos considerados decentes pela sociedade da época.

Sifílis, tuberculose e alcoolismo são exemplos de doenças que pertenciam ao catálogo de males que se manifestariam na procriação, resultando em seres aleijados e enfraquecidos, condenados, em sua maioria, a viver da caridade exercida por instituições públicas, sobretudo pela igreja.

Inicialmente, Sorolla intitulou a obra de Os Filhos do Prazer, mas mais tarde, por influência de seu amigo, o nobre escritor Blasco Ibánez, deu-lhe a denominação conhecida nos tempos atuais.

Analisando a pintura de um ponto de vista médico, podemos insinuar que as afecções que apresentam os protagonistas da composição são do tipo neurológicas, como a paralisia cerebral infantil, a enfermidade de Duchenne ou a poliomielite.


REFERÊNCIAS:
Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"O Cisne Negro", de Thomas Mann: Clássico da literatura alemã cuja protagonista tem câncer de ovário

A cidade de Dusseldorf, às margens do Rio Reno, serviu como cenário para que o romancista alemão Thomas Mann desenhasse a dramática história de uma viúva na pós-menopausa acometida por um tumor metastático ovariano.



Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é marcado como o último grande trabalho concluído por Thomas Mann.

Em determinado momento do romance, a protagonista, Rosália von Tummler, percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:

Voltei a ser mulher, um ser completo, uma mulher que reencontrou as suas aptidões. É-me permitido, portanto, sentir-me digna da juventude viril que me enfeitiçou e perante ela já não tenho que baixar os olhos com um sentimento de impotência!
Tragicamente, a realidade é que as mudanças que a principio a encantam, são decorrentes dos efeitos hormonais do tumor ovariano das células granulosas produtoras de estrogênio:
O toque bimanual revelou ao Dr. Mutthesius um útero demasiado volumoso em relação à idade da doente e, seguindo a trompa, um tecido irregularmente espessado. Em vez dum ovário, já muito pequeno, um tumor informe. A Biópsia acusou células neoplásicas que, seguindo a sua natureza, provinham do ovário, mas outras células permitiram estabelecer que no próprio útero, células mães cancerosas estavam em pleno desenvolvimento. Tudo isso denotada a progressão rapidíssima do mal funesto.
O tumor das células granulosas representa cerca de 1 a 3% de todas as neoplasias ovarianas. Quando acomete mulheres na faixa etária da menopausa, manifesta-se comumente com sangramento genital pós-menopausa e hiperplasia endometrial. Em Rosália, a descoberta do tumor faz-se em um estágio demasiado avançado, quando já estabelecido o processo de metastatização, ao que ela rapidamente sucumbe:
O momento propício para fazer a operação tinha manifestamente passado havia muito tempo. Não só todos os órgãos da bacia estavam em plena degenerescência, mas também o peritônio apresentava, mesmo a olho nu, a mortífera aglomeração de células. Todos os gânglios do sistema linfático estavam espessados pelo carcinoma. Com toda a evidência, o fígado devia ter igualmente núcleos de células cancerosas.
Nesse trabalho, Mann, como um clássico novelista, oferece uma estimulante e agradável experiência de leitura, onde há um grande potencial para aprofundamento da compreensão da condição humana. O retrato psicológico do ser humano e a complexidade de cada personagem desafiam o entendimento do leitor. Por tratar repetidamente da morte e da doença, o autor chama a atenção para as questões existenciais da vida. Suas histórias são indubitavelmente uma atraente opção para o profissional médico.



REFERÊNCIAS:
1.MANN, Thomas. "O Cisne Negro". Trad: Domingos Monteiro.
2.Thomas Mann’s last novella “The Black Swan”: the tragic story of a post-menopausal woman. PMID: 15063972. PubMed.

domingo, 5 de junho de 2011

Antigas Esculturas Representam Paralisia Facial Periférica

"A expressão facial dos seres humanos me fascina, pois ela delata tanto o mais baixo e animalesco dos sentimentos quanto a mais forte e suave emoção do espírito”(1821). Com esta frase, Charles Bell (1774- 1842) definiu a importância filosófica da paralisia facial periférica (PFP), condição que elimina a simetria facial, um dos atributos de beleza, criando assim um efeito antiestético que minimiza o prazer do homem ou aumenta seu sofrimento.

A Paralisia Facial Periférica, também chamada Paralisia de Bell, caracteriza-se pelo acometimento dos músculos da hemiface, nos andares superior, médio e inferior. Caso a parte superior da face não seja acometida, a paralisia é dita central. Suas causas são decorrentes de transtornos no VII par de nervos cranianos ou nervo facial, composto pelo nervo facial propriamente dito (motor) e pelo nervo intermediário de Wrisberg (aferências sensitivas parassimpáticas).

As eferências motoras são responsáveis pelos movimentos da face, enquanto as aferências sensitivas pela sensação gustativa dos 2/3 anteriores da língua. A sua porção parassimpática é responsável pela inervação das glândulas lacrimais, submandibulares, sublingual e da cavidade nasal (BENTO e BARBOSA, 1994). A apresentação mais comum da PFP é a idiopática, que ocorre em cerca de 70% dos casos e é diagnosticada após a exclusão de todas as etiologias possíveis.

A história da paralisia facial periférica acompanha a história da própria espécie humana. A PFP tem sido representada nas artes desde o antigo Egito. A condição neurológica era amplamente conhecida também entre os gregos, romanos, incas e outras culturas indígenas da América pré-colombiana. A imagem egípcia apresentada abaixo é provavelmente um dos primeiros documentos representativos da PFP na história da neurologia:


A) Cabeça de barro, Alto Egito. Modelado aproximadamente 4.000 anos atrás, mostrando paralisia facial direita. É um dos mais antigos documentos da história da neurologia.
B) Crisaor, filho de Gorgo, com paralisia facial direita; do Templo de Ártemis, na ilha de Corfu, de VI a V a.C (fotografado pelo médico do rei Guilherme II, quando viajaram para Corfu para visitar o Templo de Ártemis).

As figuras B e C mostram que a afecção do nervo facial foi bem documentada no período helenístico. O enciclopedista romano Aurélio Cornélio Celso (25 a.C. — 50 d.C), registrou uma descrição resumida da paralisia facial periférica. Incas na América pré-colombiana nos forneceu várias representações artísticas da PFP.


C) Escultura em mármore encontrada em uma tumba da Grécia Antiga. Paralisia facial esquerda é bem representada.
D) Vaso romano encontrado em uma tumba da Grécia Antiga.

Representações da condição nas artes plásticas tornou-se mais extensa desde o Renascimento.Pintores holandeses retrataram indivíduos com paralisia facial periférica, durante e após este período. Muitas destes retratos tinham como objetivo a "educação moral", para ensinar aos jovens a não rir da deformidade humana.

O primeiro estudo médico da doença é atribuído a Avicena (Abu Ali al-Husayn ibn Abdalla Ibn Sina, 979-1037 dC). Ele foi o primeiro a registrar as diferenças entre os tipos centrais e periféricos da PFP:

"Se a doença que produz a paralisia vem do cérebro, metade do corpo fica paralisado. Se a doença não está no cérebro, mas no nervo, só o que depende desse nervo é paralisado".


A) Frontispício da edição romana de 1593 do Canon de Avicena. Avicena estudou a etiologia, tratamento e prognóstico da paralisia facial periférica, que distinguiu da paralisia facial central.
B) Escrito em árabe, o diagnóstico diferencial entre a paralisia facial central e periférica.
C) Caretas da antiga Suíça representando a paralisia facial.

Avicena incluía entre as causas de PFP a compressão por tumor ou a secção do nervo. Para o tratamento, ele receitou plantas medicinais para aplicação tópica, todas elas com efeito vasodilatador.. Ele enfatizou que "se a secção do nervo ocorreu, a única alternativa é fazer a sutura do coto". Em relação ao prognóstico, ele afirmou que "não se deve esperar a recuperação de qualquer paralisia facial que dure mais de seis meses". Podemos considerar que Avicena tinha um avançado conhecimento da paralisia facial periférica para o seu tempo.

Em 1798, Nicolaus Friedreich A. de Würzburg, avô de Nicolaus Friedreich de Heildelberg - que descreveu a ataxia que leva seu nome -, publicou um estudo detalhado sobre o início, o quadro clínico, a evolução e o tratamento da paralisia facial periférica em três pacientes. A exposição a correntes de ar frio havia ocorrido nos três casos, antes do início da paralisia. Assim, Friedreich postulou que a PFP pode ocorrer quando as causas locais atuam sobre o nervo facial.

Dentre os pioneiros a descrever a PFP, destaca-se também Charles Bell. Seu primeiro caso de paralisia facial periférica foi anunciado em 1821, e em 1828 fora publicado seu trabalho mais importante. Entretanto, Charles Bell fez outras contribuições à história da neurologia e da anatomia: ele reconheceu as diferenças entre a divisão anterior e posterior dos nervos espinhais, identificou o nervo torácico longo, destacou o nervo craniano VII, descreveu o sinal de Bell e foi o primeiro a descrever a hiperacusia e disgeusia como sintomas de PFP.


D) Escultura de Lucas van Leyden mostrando parotidite provável e paralisia facial periférica direita.

Outras representações:


A) Máscara de dança esquimó do Alaska
B) Napoleão esculpido em rolha de garrafa do Sul da França.
C) Máscara de madeira de Liberia.
D) Máscara de Ceilão, que representa o "Deus da Surdez", com uma cobra saindo do nariz.


A) Deus da doença "Naha-Kola-Sanaya", do Ceilão. O "Deus da doença" é acompanhado por 18 demônios, dois deles com paralisia facial (setas)
B) Máscara de Java, mostrando paralisia facial esquerda.
C) Máscara de marfim japonesa do século V d. C.
D) máscara japonesa esculpida em madeira (Século V d.C)


A) Século 17: "Jarro de homem barbado", apresentado na exposição de arte barroca em Augsburg.
B) Século 18: "Facial Gnome"do "anão de jardim" do Palácio de Mirabell, Salzburgo (Áustria). Escultor: Bernard Mandl.
C) Século 19 fotografias tiradas de Duchenne. O paciente é calvo e aparece em sofrimento apreensivo.
D) Charles Bell, primeiro professor de Anatomia e Cirurgia no Colégio Real de Cirurgiões, em Londres. Ele próprio tinha paralisia facial periférica.


REFERÊNCIAS:
1.BARBOSA, V. C. Paralisia Facial Periférica. In: LOPES FILHO, O.; CAMPOS, C. A. H. Tratado de Otorrinolaringologia, 4ª Ed. São Paulo: Roca, 1994.
2.Resende,LA. Weber,S.“Peripheral facial palsy in the past. Contributions from Avicenna, Nicolaus Friedreich and Charles Bell”. Arq Neuropsiquiatr 2008;66(3-B):765-769.