quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Síndrome de Hipermobilidade em "As Três Graças", de Rubens.

A síndrome de hipermobilidade, definida como o aumento anormal da mobilidade das articulações, foi descrita em 1967 por Kirk, Ansell e Bywaters como um distúrbio hereditário de tecido conjuntivo, associado com queixas musculoesqueléticas. A entidade é comum em mulheres jovens, com uma prevalência estimada de 5% na população adulta saudável.

É possível que características clínicas da síndrome de hipermobilidade familiar benigna e sinal de trendelenburg positivo estejam presentes em uma pintura de 1638, intitulada As Três Graças, de Peter Paul Rubens:


As Três Graças (1638). Peter Paul Rubens (1577–1640).Óleo sobre madeira, 181 x 221 cm. Museu do Prado, Madrid (Espanha).

Os achados mais evidentes são: escoliose, lordose, sinal de trendelenburg positivo, hiperextensão das juntas do metacarpo e pés planos.

Na pintura, a "graça" do meio mostra claramente a escoliose manifesta na forma de S na coluna e, curiosamente, ela está em pé sobre a perna esquerda e a nádega direita é descendente, em vez de para cima, como seria em uma pessoa normal, caracterizando o sinal de Trendelenburg positivo. O sinal, descrito por um cirurgião alemão chamado Friedrich Trendelenburg (1843-1924), é encontrado em pessoas com fraqueza da musculatura abdutora do quadril. O sinal de Trendelenburg é dito positivo se, quando o quadril de um paciente que está de pé sustentado por somente uma perna, cai para o lado da perna levantada. A fraqueza é presente no lado da perna em contato com o chão.

Devido à debilidade da articulação, o quadril pode ser instável na síndrome de hipermobilidade, o que explica o sinal de Trendelenburg positivo. Também a escoliose é observada numa grande parte dos portadores da síndrome devido a frouxidão articular em nível da coluna vertebral.

A inspeção minuciosa do quadro mostra que a "graça" à esquerda tem os dedos em hiperextensão tanto nas interfalangeanas distais quanto nas articulações metacarpofalangeanas do quarto e quinto dedos e pés chatos. Observa-se também que todas as três "graças" têm hiperlordose da coluna lombar.


Uma expressão de hipermobilidade das articulações dos dedos, que pode estar presente especialmente na síndrome de hipermobilidade familiar benigna, justificaria a presença da deformidade em pescoço de cisne na "graça" à esquerda.


Presumivelmente uma das mulheres retratadas na pintura é Hélène Fourment, segunda esposa de Rubens, e as outras são suas irmãs, sugerindo fortemente o diagnóstico de hipermobilidade familiar benigna.

Descobrir sinais de doenças em pinturas antigas confirma que os artistas – exímios observadores da natureza – descreveram, ou pelo menos registraram muitas condições patológicas antes que os médicos fizessem. A arte do passado é sem dúvida uma ferramenta útil no campo da paleopatologia.

REFERÊNCIAS:
1.DEQUEKER, J."Benign familial hypermobility syndrome and Trendelenburg sign in a painting ''The Three Graces'' by Peter Paul Rubens (1577-1640)". Ann Rheum Dis 2001 60: 894-89.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Primeira Anestesia com Éter

Foi no Hospital Geral de Massachusetts, em 1846, que William Thomas Green Morton (1819-1868) usou com reconhecido êxito o éter pela primeira vez. Morton iniciou sua carreira como dentista e, mais tarde, matriculou-se na Escola de Medicina de Havard, onde o químico Charles Jackson forneceu-lhe o éter, assegurando que a substância poderia aliviar a dor.

Após conduzir experiências em cães, no dia 30 de setembro de 1846, Morton anestesiou um paciente antes de extrair-lhe o dente e a novidade foi publicada no Boston Daily Journal. O diretor do Hospital Geral de Massachusetts, o cirurgião John Collins Warren, permitiu que Morton usasse éter no hospital.


Primeira anestesia com éter (1894) Robert C. Hinckley (1853 – 1940). Óleo sobre tela, 243 x 292 cm. Biblioteca Médica de Boston. (Cambridge).

A pintura acima retrata a experiência ocorrida em 16 de outubro de 1846. Morton anestesiou, perante numerosa platéia, o jovem paciente Edward Gilbert Abbott, que caiu em sono profundo, enquanto Warren extraiu-lhe um tumor da mandíbula. Abbott acordou pouco depois do corte ter sido fechado e declarou não sentir nenhuma dor. Naquele momento foi constatado que se havia descoberto e provado perante inúmeros médicos e demais presentes um meio de anestesiar um ser humano, a ponto de permitir qualquer procedimento cirúrgico, por mais doloroso que fosse. O uso do éter como anestésico foi publicado dali a um mês, começando a ser usado em Londres no mês seguinte.

Morton ganhou a fama como “eterista”, mas a luta que travou com o Congresso americano para ser recompensado financeiramente por seu feito, e a ação de indenização que lhe moveu seu ex-professor Charles Jackson – que ensinou a Morton a ação do éter como anestésico - , fizeram-no enlouquecer. Morton morreu correndo, na miséria e sem destino, nas proximidades do Central Park.

No cinema: The Great Moment (1944) é um filme biográfico da Paramount Pictures dirigido por Preston Sturges. Baseado no livro The Triumph Over Pain ( 1940 ) de René Fülöp-Miller, o longa-metragem narra a história de vida e a contribuição à anestesiologia de William T. G. Morton.

REFERÊNCIAS:
1. BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2. MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998.
3.
Wikipédia – William Thomas Green Morton

domingo, 12 de dezembro de 2010

"O Ingênuo" de Voltaire

Uma pequena grande obra que revela a peculiar sensibilidade crítica do filósofo francês Voltaire, é o conto O Ingênuo, onde o protagonista é um hurão honesto e sincero, espantado com as ridículas convenções sociais da França do século XVIII.

Com seu estilo literário único, Voltaire se mostra um genial pensador iluminista que nos leva a meditar sobre nossos hábitos, religiões e, não raro, profissões

Em determinado momento, Voltaire ataca os “médicos da moda”, culpando-os pela piora do estado de saúde dos pacientes vítimas de um inadequado exercício da prática médica:

Mandaram chamar um médico da vizinhança. Era um desses que visitam os doentes correndo, que confundem a doença que acabaram de ver com a que estão examinando, que exercem uma cega rotina em uma ciência à qual nem toda a maturidade de um espírito são e prudente poderá tirar seus perigos e incertezas. Agravou o mal com uma precipitação em prescrever um remédio em moda da época. Há modas até na medicina! Essa mania era bastante comum em Paris. [...] Mandaram chamar outro médico. Este, em lugar de ajudar a natureza e deixá-la agir em uma jovem criatura cujos órgãos a induziam para a vida, só se preocupou em contrariar o seu colega. Em dois dias a doença tornou-se fatal. (O Ingênuo - 1767)

O texto acima destaca a importância de valorizar a individualidade de cada paciente. Certamente, o caminho para a cura é o tratamento não somente da doença, mas do doente.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Distonia Oromandibular Idiopática / "O Bocejador" de Brueghel

A síndrome de Brueghel ou distonia oromandibular idiopática é uma condição neurológica que acomete principalmente homens na sétima década de vida. A síndrome é caracterizada por espasmos dos músculos perioculares associada com espasmos severos da metade inferior da face, mandíbula e músculos da região cervical. Vêem-se movimentos anormais da boca, língua e mandíbula. A condição pode ser agravada pelo comer ou falar.

A pintura O Bocejador de Pieter Brueghel mostra a face de um homem com a boca aberta e as pálpebras fortemente cerradas. Segundo os historiadores da arte, esta pintura retrata somente um bocejo:

O Bocejador (1564). Pieter Brueghel. Museu Real de Belas Artes (Bélgica).

A distonia do nervo motor trigêmeo produz uma boca amplamente aberta, simulando um grande bocejo. Em 1976, Madsen creditou a R.E. Kelly a observação da semelhança desta pintura com a síndrome da distonia oromandibular e blefaroespasmo e sugeriu o epônimo de síndrome de Brueghel.

REFERÊNCIAS:
1.Carvalho, RM; Gomi, C. Tratamento do blefaroespasmo e distonias faciais correlatas com toxina botulínica - estudo de 16 casos. Arq. Bras. Oftalmol. vol.66 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2003.
2.Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116
3. Sociedade Brasileira de História da Medicina - A Neurologia na Arte

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Acondroplasia na Arte / "Retrato de Sebastián de Morra" - Diego Velázquez

Durante o século XVII, os monarcas europeus mantinham anões em sua corte como fonte de diversão. Considerados “raras atrações” nos eventos da realeza, os anões eram comprados e vendidos em toda a Europa. Era costume oferecê-los como presente; em algumas ocasiões, eram eles enfeitados com diversos ornamentos, adornados com jóias e ouro e, assim, apresentavam-se em cerimônias do Estado e nas ocasiões festivas.

A simpatia de Diego Velázquez com os anões da corte é óbvia. Em 1645 ele pintou o Retrato de Sebastián de Morra, registrando na arte a figura de um anão que servia de diversão para o Príncipe Baltazar Carlos na corte espanhola de Felipe IV.


Retrato de um Anão Sentado no Chão, ou O Retrato de Sebastián de Morra (1645). Diego Velázquez (1599-1660). 106x81cm. Museu do Prado (Madrid).

Uma mutação no receptor do fator de crescimento do fibroblasto tipo 3 (FGFR3), é a responsável pela mais freqüente displasia esquelética de membros curtos, a acondroplasia, que altera o crescimento afetando a ossificação endocondral.

As características físicas de Sebastián De Morra – a baixa estatura, os membros curtos com predomínio proximal, macrocefalia, macrocrania com bossa frontal e a depressão da ponte nasal – sugerem fortemente o diagnóstico de nanismo acondroplásico.

Velázquez, que procurava transmitir em suas pinturas não apenas a imagem pictórica, mas também o retrato psicológico das pessoas, pintou De Morra com uma expressão dramática, grave e triste, contrastando com a sua profissão de palhaço. Os punhos cerrados apertados contra a cintura fazem-lhe parecer desafiador, em denúncia do tratamento de si mesmo e dos outros anões. O olhar irritado e intenso de De Morra é suficiente para convencer o telespectador de que ele detestava o seu papel, pois queria ser considerado como o ser humano que era, e não como o brinquedo, como o tribunal queria.

LEIA TAMBÉM:

Cretinismo na Pintura / "O Anão Francisco Lezcano" - Diego Velázquez

REFERÊNCIAS:
1.Adelson, Betty M. The Lives of Dwarfs: Their Journey from Public Curiosity Toward Social Liberation. New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2005. 154-161.
2. LIMA, R; SILVA, MC. “Acondroplasia: revisão sobre as características da doença.”. Arq Sanny Pesq Saúde 1(1):83-89, 2008.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

No dia 1° de dezembro é comemorado o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Essa data foi instituída como forma de despertar nas pessoas a consciência da necessidade da prevenção, aumentar a compreensão sobre a síndrome e reforçar a tolerância e a compaixão às pessoas infectadas.

A cada ano, diferentes temas são abordados, destacando importantes questões relacionadas à doença. Em 2011, a campanha dará enfoque nos jovens gays de 15 a 24 anos. A ação busca discutir as questões relacionadas à vulnerabilidade ao HIV/aids, na população prioritária, sob o ponto de vista do estigma e do preconceito. Além disso, a ideia é estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a aids afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

Viver a realidade da AIDS, despindo-a de sua carga de hipocrisia, foi a derradeira tarefa a que se dedicou o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 – 1996):

Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, dores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado HIV positivo. [...] A vida me dava pena, e eu não sabia que o corpo (“meu irmão burro”, dizia são Francisco de Assis) podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério no outro lado da rua. Mas à noite, quando os néons acendiam, de certo ângulo a Doutor Arnaldo me parecia o boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor, nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada. (Caio Fernando Abreu, 1994).

Publicado em 18 de setembro de 1994 no jornal O Estado de São Paulo, o depoimento acima é uma prova de sua coragem. Antes de falecer, Caio Fernando Abreu viveu por 2 anos dedicando-se inteiramente a tarefas como jardinagem, cuidando de roseiras. “A vida grita. E a luta continua.” Com essas palavras termina o histórico texto. E com elas, prossegue a batalha contra a AIDS.

REFERÊNCIAS:
1.
Dia Mundial de Luta Contra a Aids
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"O Nascimento da Clínica" - Michel Foucault

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) é amplamente conhecido pelas suas críticas às instituições sociais. Suas mais famosas obras enfocam especialmente à área da saúde. Filho de um médico, ele estava interessado na epistemologia da Medicina e 1963 publica, O Nascimento da Clínica - uma arqueologia do saber médico:

Trata-se, no entanto, de um destes períodos que delineiam um inapagável limiar cronológico: o momento em que o mal, o contra- natural, a morte, todo o fundo negro da doença em suma, vem à luz.[...] O que era fundamentalmente invisível subitamente se oferece ao brilho do olhar, num movimento de revelação tão simples, tão imediato que parece ser a conseqüência natural de uma experiência mais altamente desenvolvida. É como se, pela primeira vez em milhares de anos, os médicos, livres por fim de teorias e quimeras, concordassem em se aproximar do objeto de sua experiência com a pureza de um olhar sem preconceitos. (O Nascimento da Clínica - Michael Foucault)

A obra trata do domínio da medicina e do modo como se estruturou em alguns anos o conhecimento singular do indivíduo doente. Foucault escreveu “um livro sobre o espaço, sobre a linguagem, sobre a morte, sobre o ato de ver, sobre o olhar”. O Nascimento da Clínica analisa um período crucial da história da medicina: o fim do século XVIII e o início do XIX. O período histórico mencionado é caracterizado por grandes mudanças, em particular a Revolução Francesa. Ocorreu então uma reorganização da maneira de olhar o doente e, em decorrência do discurso médico: “uma nova aliança foi forjada entre palavras e coisas, permitindo ver e dizer”.

Até então, os médicos perguntavam ao doente o que estava errado com ele; agora, passam a perguntar onde dói. O diagnóstico é feito com base em um sistema classificatório de doenças; como a botânica, a medicina agora vai distribuir as entidades nosológicas em grupos. A doença tem sua sede em um órgão, em tem seu lugar em uma classe. A intervenção médica passa a ter normas. Antes, quando o doente recuperava seu vigor, sua disposição, estava curado. Agora, padrões de normalidade, numericamente expressos, definirão o objetivo do tratamento.

O hospital que, antes do século XVIII era basicamente uma instituição de caridade a cargo de religiosos, agora torna-se um instrumento de medicalização coletiva e leiga. Médicos famosos, que antes não apareciam nos hospitais, agora montam ali seus serviços. Começam a surgir os sistemas de intervenção médica, com registro de dados e sistemas estatísticos.

A medicina atua nas necessidades mais concretas do ser humano. Quando a saúde substitui a salvação da alma, conclui Foucault, o poder dos doutores cresce exponencialmente.

REFERÊNCIAS:
1.
Wikipédia - Michal Foucault 2.FOUCAULT, Michel (1963). O nascimento da clínica. 2. ed. Rio de Janeiro.
3.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996