domingo, 12 de dezembro de 2010

"O Ingênuo" de Voltaire

Uma pequena grande obra que revela a peculiar sensibilidade crítica do filósofo francês Voltaire, é o conto O Ingênuo, onde o protagonista é um hurão honesto e sincero, espantado com as ridículas convenções sociais da França do século XVIII.

Com seu estilo literário único, Voltaire se mostra um genial pensador iluminista que nos leva a meditar sobre nossos hábitos, religiões e, não raro, profissões

Em determinado momento, Voltaire ataca os “médicos da moda”, culpando-os pela piora do estado de saúde dos pacientes vítimas de um inadequado exercício da prática médica:

Mandaram chamar um médico da vizinhança. Era um desses que visitam os doentes correndo, que confundem a doença que acabaram de ver com a que estão examinando, que exercem uma cega rotina em uma ciência à qual nem toda a maturidade de um espírito são e prudente poderá tirar seus perigos e incertezas. Agravou o mal com uma precipitação em prescrever um remédio em moda da época. Há modas até na medicina! Essa mania era bastante comum em Paris. [...] Mandaram chamar outro médico. Este, em lugar de ajudar a natureza e deixá-la agir em uma jovem criatura cujos órgãos a induziam para a vida, só se preocupou em contrariar o seu colega. Em dois dias a doença tornou-se fatal. (O Ingênuo - 1767)

O texto acima destaca a importância de valorizar a individualidade de cada paciente. Certamente, o caminho para a cura é o tratamento não somente da doença, mas do doente.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Distonia Oromandibular Idiopática / "O Bocejador" de Brueghel

A síndrome de Brueghel ou distonia oromandibular idiopática é uma condição neurológica que acomete principalmente homens na sétima década de vida. A síndrome é caracterizada por espasmos dos músculos perioculares associada com espasmos severos da metade inferior da face, mandíbula e músculos da região cervical. Vêem-se movimentos anormais da boca, língua e mandíbula. A condição pode ser agravada pelo comer ou falar.

A pintura O Bocejador de Pieter Brueghel mostra a face de um homem com a boca aberta e as pálpebras fortemente cerradas. Segundo os historiadores da arte, esta pintura retrata somente um bocejo:

O Bocejador (1564). Pieter Brueghel. Museu Real de Belas Artes (Bélgica).

A distonia do nervo motor trigêmeo produz uma boca amplamente aberta, simulando um grande bocejo. Em 1976, Madsen creditou a R.E. Kelly a observação da semelhança desta pintura com a síndrome da distonia oromandibular e blefaroespasmo e sugeriu o epônimo de síndrome de Brueghel.

REFERÊNCIAS:
1.Carvalho, RM; Gomi, C. Tratamento do blefaroespasmo e distonias faciais correlatas com toxina botulínica - estudo de 16 casos. Arq. Bras. Oftalmol. vol.66 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2003.
2.Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116
3. Sociedade Brasileira de História da Medicina - A Neurologia na Arte

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Acondroplasia na Arte / "Retrato de Sebastián de Morra" - Diego Velázquez

Durante o século XVII, os monarcas europeus mantinham anões em sua corte como fonte de diversão. Considerados “raras atrações” nos eventos da realeza, os anões eram comprados e vendidos em toda a Europa. Era costume oferecê-los como presente; em algumas ocasiões, eram eles enfeitados com diversos ornamentos, adornados com jóias e ouro e, assim, apresentavam-se em cerimônias do Estado e nas ocasiões festivas.

A simpatia de Diego Velázquez com os anões da corte é óbvia. Em 1645 ele pintou o Retrato de Sebastián de Morra, registrando na arte a figura de um anão que servia de diversão para o Príncipe Baltazar Carlos na corte espanhola de Felipe IV.


Retrato de um Anão Sentado no Chão, ou O Retrato de Sebastián de Morra (1645). Diego Velázquez (1599-1660). 106x81cm. Museu do Prado (Madrid).

Uma mutação no receptor do fator de crescimento do fibroblasto tipo 3 (FGFR3), é a responsável pela mais freqüente displasia esquelética de membros curtos, a acondroplasia, que altera o crescimento afetando a ossificação endocondral.

As características físicas de Sebastián De Morra – a baixa estatura, os membros curtos com predomínio proximal, macrocefalia, macrocrania com bossa frontal e a depressão da ponte nasal – sugerem fortemente o diagnóstico de nanismo acondroplásico.

Velázquez, que procurava transmitir em suas pinturas não apenas a imagem pictórica, mas também o retrato psicológico das pessoas, pintou De Morra com uma expressão dramática, grave e triste, contrastando com a sua profissão de palhaço. Os punhos cerrados apertados contra a cintura fazem-lhe parecer desafiador, em denúncia do tratamento de si mesmo e dos outros anões. O olhar irritado e intenso de De Morra é suficiente para convencer o telespectador de que ele detestava o seu papel, pois queria ser considerado como o ser humano que era, e não como o brinquedo, como o tribunal queria.

LEIA TAMBÉM:

Cretinismo na Pintura / "O Anão Francisco Lezcano" - Diego Velázquez

REFERÊNCIAS:
1.Adelson, Betty M. The Lives of Dwarfs: Their Journey from Public Curiosity Toward Social Liberation. New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2005. 154-161.
2. LIMA, R; SILVA, MC. “Acondroplasia: revisão sobre as características da doença.”. Arq Sanny Pesq Saúde 1(1):83-89, 2008.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

No dia 1° de dezembro é comemorado o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Essa data foi instituída como forma de despertar nas pessoas a consciência da necessidade da prevenção, aumentar a compreensão sobre a síndrome e reforçar a tolerância e a compaixão às pessoas infectadas.

A cada ano, diferentes temas são abordados, destacando importantes questões relacionadas à doença. Em 2011, a campanha dará enfoque nos jovens gays de 15 a 24 anos. A ação busca discutir as questões relacionadas à vulnerabilidade ao HIV/aids, na população prioritária, sob o ponto de vista do estigma e do preconceito. Além disso, a ideia é estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a aids afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

Viver a realidade da AIDS, despindo-a de sua carga de hipocrisia, foi a derradeira tarefa a que se dedicou o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 – 1996):

Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, dores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado HIV positivo. [...] A vida me dava pena, e eu não sabia que o corpo (“meu irmão burro”, dizia são Francisco de Assis) podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério no outro lado da rua. Mas à noite, quando os néons acendiam, de certo ângulo a Doutor Arnaldo me parecia o boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor, nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada. (Caio Fernando Abreu, 1994).

Publicado em 18 de setembro de 1994 no jornal O Estado de São Paulo, o depoimento acima é uma prova de sua coragem. Antes de falecer, Caio Fernando Abreu viveu por 2 anos dedicando-se inteiramente a tarefas como jardinagem, cuidando de roseiras. “A vida grita. E a luta continua.” Com essas palavras termina o histórico texto. E com elas, prossegue a batalha contra a AIDS.

REFERÊNCIAS:
1.
Dia Mundial de Luta Contra a Aids
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"O Nascimento da Clínica" - Michel Foucault

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) é amplamente conhecido pelas suas críticas às instituições sociais. Suas mais famosas obras enfocam especialmente à área da saúde. Filho de um médico, ele estava interessado na epistemologia da Medicina e 1963 publica, O Nascimento da Clínica - uma arqueologia do saber médico:

Trata-se, no entanto, de um destes períodos que delineiam um inapagável limiar cronológico: o momento em que o mal, o contra- natural, a morte, todo o fundo negro da doença em suma, vem à luz.[...] O que era fundamentalmente invisível subitamente se oferece ao brilho do olhar, num movimento de revelação tão simples, tão imediato que parece ser a conseqüência natural de uma experiência mais altamente desenvolvida. É como se, pela primeira vez em milhares de anos, os médicos, livres por fim de teorias e quimeras, concordassem em se aproximar do objeto de sua experiência com a pureza de um olhar sem preconceitos. (O Nascimento da Clínica - Michael Foucault)

A obra trata do domínio da medicina e do modo como se estruturou em alguns anos o conhecimento singular do indivíduo doente. Foucault escreveu “um livro sobre o espaço, sobre a linguagem, sobre a morte, sobre o ato de ver, sobre o olhar”. O Nascimento da Clínica analisa um período crucial da história da medicina: o fim do século XVIII e o início do XIX. O período histórico mencionado é caracterizado por grandes mudanças, em particular a Revolução Francesa. Ocorreu então uma reorganização da maneira de olhar o doente e, em decorrência do discurso médico: “uma nova aliança foi forjada entre palavras e coisas, permitindo ver e dizer”.

Até então, os médicos perguntavam ao doente o que estava errado com ele; agora, passam a perguntar onde dói. O diagnóstico é feito com base em um sistema classificatório de doenças; como a botânica, a medicina agora vai distribuir as entidades nosológicas em grupos. A doença tem sua sede em um órgão, em tem seu lugar em uma classe. A intervenção médica passa a ter normas. Antes, quando o doente recuperava seu vigor, sua disposição, estava curado. Agora, padrões de normalidade, numericamente expressos, definirão o objetivo do tratamento.

O hospital que, antes do século XVIII era basicamente uma instituição de caridade a cargo de religiosos, agora torna-se um instrumento de medicalização coletiva e leiga. Médicos famosos, que antes não apareciam nos hospitais, agora montam ali seus serviços. Começam a surgir os sistemas de intervenção médica, com registro de dados e sistemas estatísticos.

A medicina atua nas necessidades mais concretas do ser humano. Quando a saúde substitui a salvação da alma, conclui Foucault, o poder dos doutores cresce exponencialmente.

REFERÊNCIAS:
1.
Wikipédia - Michal Foucault 2.FOUCAULT, Michel (1963). O nascimento da clínica. 2. ed. Rio de Janeiro.
3.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

domingo, 21 de novembro de 2010

A Conversão de São Paulo do Ponto de Vista Médico

A conversão de São Paulo, descrita em três ocasiões na bíblia sagrada, ocorreu a caminho a Damasco para aprisionar cristãos. No capítulo 22 do livro de Atos, o apóstolo conta a sua experiência:

6. Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu.
7.E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
8.E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues. (
ATOS. 22. 6-8)
[...]
11.E, como eu não via, por causa do brilho daquela luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco. (
ATOS. 22: 11)

Em A Conversão de São Paulo , de Michelangelo (1475–1564), Paulo é retratado no chão, ofuscado pela visão de uma luz divina:

Michelangelo Buonarroti (1475–1564). A Conversão de São Paulo, 1542. Capela Paulina (Vaticano).

Em Atos, o apóstolo relata que uma luz brilhante o cegou e que, em seguida, caiu no chão. Sua visão foi recuperada somente após três dias. A experiência de Paulo foi atribuída a uma crise epiléptica do lobo temporal com aura emocional que talvez tenha evoluído para generalização secundária, que foi assustadora e dramática, seguida de cegueira cortical pós-ictal (Landsborough, 1987).

Em algumas de suas cartas, Paulo dizia possuir uma enfermidade que quem padecia costumava ser desprezado. Lembremos que, à época, a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; pois, lamentavelmente, o preconceito gerou um costume que perdurou durante séculos: cuspir nos epilépticos.

Nas cartas, Paulo também afirma que, por vezes, sentiu-se arrebatado para o Paraíso. Tal sensação é atribuída à aura extática, outrora descrita pelo escritor russo Fíodor Dostoiévski, epiléptico que afirmou que durante os segundos antecedentes a crise, sentia-se “no céu”:

Que importa que seja doença? Quem mal faz que seja uma intensidade anormal, se esse fragmento de segundo, recordado e analisado depois, na hora da saúde, assume o valor da síntese da harmonia e beleza, visto proporcionar uma sensação desconhecida e não advinda antes? Um estado de ápice, de reconciliação, de inteireza e de êxtase devocional, fazendo a criatura ascender à mais alta escala da vivência? ... Sim, por este momento se daria toda a vida! (O Idiota – Dostoiévski).

Curiosidade: Antigamente, na Irlanda, a epilepsia era chamada de "doença de São Paulo".

REFERÊNCIAS:
1. Landsborrough D. St. Paul and temporal lobe epilepsy. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1987.
2.DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro.
3.Bíblia Sagrada - Tradução de João Ferreira de Almeida‎.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O que "Sherlock Holmes" tem a ver com a medicina?

Sherlock Holmes é um personagem fictício que surgiu a partir das qualidades profissionais do Dr. Joseph Bell, exímio médico que serviu de inspiração para Arthur Conan Doyle criar seu detetive.

Conan Doyle conheceu o Dr. Joseph Bell em 1877, quando era estudante de medicina da Universidade de Edimburgo. Doyle tinha sido fortemente influenciado pelo médico, à época seu professor. Conta-se que Bell, ao ver um estranho, era capaz de deduzir muito de sua vida e de seus hábitos. O cirurgião era um expert no uso do raciocínio dedutivo para diagnosticar a doença. Conan Doyle ficou tão impressionado que usou esses mesmos princípios ao criar seu famoso personagem.

O médico inspirou não somente a criação da personalidade de Holmes, mas também o porte físico do detetive. Em um texto publicado no periódico The National Weekly em 1923, Doyle descreve seu admirado professor:

Era magro, vigoroso, com rosto agudo, nariz aquilino, olhos cinzentos penetrantes, ombros retos e um jeito sacudido de andar. A voz era esganiçada. Era um cirurgião muito capaz, mas seu ponto forte era a diagnose, não só de doenças, mas de ocupações e caráteres. Conan Doyle, 1923.



Gravura. Signey Paget (1860-1908). "Sherlock Holmes (à direita) e o Dr. Watson",1893. Strand Magazine.

Médico e artista, Doyle caprichou nos mínimos detalhes de sua obra. Nem mesmo o nome do personagem foi escolhido em vão. A escolha do sobrenome “Holmes” foi uma homenagem ao seu colega, o doutor Oliver Wendell Holmes, notável médico americano e um dos melhores escritores do século XIX. Holmes dizia ser o diagnóstico médico um trabalho digno de um detetive, visto depender de muitos detalhes. O primeiro nome do personagem é baseado em Alfred Sherlock, um violinista proeminente do seu tempo. Compõe-se assim Sherlock Holmes. Dentre as inúmeras qualidades do personagem, destacam-se a de detetive e violinista.

REFERÊNCIAS:
1.The Sherlock Holmes Society of London. "The wide world of Sherlock Holmes". No. 307: 25 October 2010.
2.
Sherlock Holmes and Dr. Joseph Bell