O anatomista holandês Frederik Ruysch(1638-1731), conhecido como o médico que melhor desenvolveu técnicas de preservação de órgãos e tecidos, destacou-se no mundo das artes por fazer incríveis arranjos artísticos com suas peças anatômicas.
Ruysch possuía o seu próprio museu de curiosidades sobre temas alegóricos da morte e da transitoriedade da vida e, dentre as exposições, havia uma série de dioramas montados a partir de partes corporais e estrelados por melodramáticos esqueletos fetais.
Ruysch,Frederik. Thesaurus Anatomicus. 1701
Criativo, Ruysch construiu as paisagens geológicas utilizando cálculos biliares e fez das veias e artérias "árvores"; e mais, tecidos ramificados de pulmões e vasos menores serviram para construir a grama de muitos dos seus arranjos.
Na maioria dos dioramas, observa-se crânios a lamentar a efemeridade da humanidade através do choro em elegantes "lenços" feitos de mesentério ou meninges cerebrais; acompanham também suas preparações diversas citações e exortações morais, enfatizando a brevidade da vida e da vaidade das riquezas terrenas.
Ruysch,Frederik. Thesaurus Anatomicus. 1701
Suas preparações anatômicas atraíram notáveis personalidades para o seu museu, incluindo o czar Pedro - O Grande, da Rússia, que estava tão fascinado com o trabalho artístico de Ruysch, que em 1717 comprou toda a coleção do médico. Vários dos itens ainda estão na posse do Museu da Academia de Ciências de São Petersburgo.
"Em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso ele se espelha." Trecho de soneto de Michelangelo.
A SEPARAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS (A cena representa a número I na ordenação feita pelos livros de arte. Nela, com os braços levantados, o Criador afasta as trevas à sua direita a luz à esquerda).
É inquestionável que Michelangelo Buonarroti (1475-1564), por possuir um fascínio intenso pela anatomia humana, realizou inúmeras dissecações de cadáveres.
Em um artigo publicado em 1990, Meshberger argumentou convincentemente que no afresco A Criação de Adão, localizado no teto da capela sistina, Michelangelo ilustrou um cérebro humano.
Apresentamos agora uma outra estrutura neuroanatômica oculta nos afrescos pintados por Michelangelo. Dessa vez, é em A Separação da Luz das Trevas, onde encontramos, embutida no pescoço do Criador, especificamente uma visão ventral do tronco encefálico:
Observar a perfeição com que Michelangelo ocultou as estruturas anatômicas em A Criação de Adão e A Separação da Luz e das Trevas, leva-nos a concluir que o artista possuía um profundo conhecimento da anatomia do cérebro.
REFERÊNCIAS: Suk, Ian BSc, BMC; Tamargo, Rafael J. MD, FACS. “Concealed Neuroanatomy in Michelangelo's Separation of Light From Darkness in the Sistine Chapel”. Neurosurgery: May 2010 - Volume 66 - Issue 5 - p 851–861.
LAERTES (irmão de Ofélia): E assim perdi meu nobre pai, e vejo caída na demência minha irmã, cujo valor, se é lícito falar-se do que já foi, nenhum outro acharia que pudesse igualá-lo em perfeição.(Hamlet - ATO VI CENA VI).
Em A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, a personagem Ofélia morre afogada, em um provável suicídio. A bela e honrada moça que, amando Hamlet, ve-se privada de seu amor, passa a dar mostras de sua loucura após a morte de seu pai, Polônio, que fora assassinado por Hamlet.
Enquanto Ofélia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio.
Ofélia mata-se, mas é através de seu protagonista - que de tão racional simula perfeitamente o desespero da loucura - que Shakespeare desenvolve a dialética da angústia de uma "alma suicida":
HAMLET: Se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo!(Hamlet - ATO I CENA I)
HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. (Hamlet - ATO III CENA I)
Paradoxalmente, enquanto todos vêem em Hamlet um louco, a loucura de Ofélia passa-se quase desapercebida, pois Shakespeare deixa transparecer a idéia de que uma moça honrada, mesmo enlouquecendo, o deve fazer de modo comportado. A insânia da boa moça tem coreografia mansa e cantante, seu suicídio é passivo, suave e deslizante.
Ofelia (1852). John Everett Millais. Galeria Tates. A RAINHA: Seus vestidos se abriram, sustentando-a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar consciência da desgraça, como criatura ali nascida e feita para aquele elemento. Muito tempo, porém, não demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta água e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta. LAERTES: Afogou-se, dissestes? A RAINHA: Afogou-se.(Hamlet - ATO IV CENA IV)
Em Hamlet, mais que em qualquer outra obra, Shakespeare revela seu profundo conhecimento do ser humano. A descrição da morte de Ofélia é uma das passagens mais poéticas da literatura mundial. A personagem, tão desesperada se encontra que não se dá conta da própria desgraça, de modo que canta até seu último fôlego, refletindo assim o que diz Hamlet sobre o suicídio: “Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.”
A morte cantante de Ofélia traduz o alívio de uma alma conturbada.
Ciclopia é uma rara anomalia na qual os olhos estão parcialmente ou completamente fundidos, formando um único olho mediano incluído em uma única órbita. Geralmente é associada a um apêndice em forma de probóscide superior ao olho.
Transmitida por uma herança recessiva, a malformação parece resultar de uma severa supressão de estruturas cerebrais da linha média – holoprosencefalia – que se desenvolvem a partir da parte cefálica da placa neural. Essa grave anomalia ocular está associada com outros defeitos craniocerebrais incompatíveis com a vida.
Monstro não comparável aos humanos [...]De carne humana estás, Ciclope, farto. Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.
Os ciclopes foram cantados por Homero no IX livro da famosa Odisséia. Segundo a mitologia grega, o raio que fulminou Esculápio (deus da medicina) gerou os seres com um só olho. Como mostra o trecho acima, nas palavras do autor grego tais seres monstruosos são incomparáveis aos humanos.
Escultura em mármore encontrada na caverna de Tibério. Museo Archeologico Grotta di Tiberio (Sperlonga).
A escultura acima mostra o momento em que Ulisses (Odisseu, em grego) consegue vingar-se do Ciclope pela morte de seus companheiros. Conta Homero que no regresso de Tróia ao reino de Ítaca, Ulisses chegou ao país dos gigantes ciclopes, que moravam em cavernas. Nesse local desembarcou com seus companheiros e, encontrando uma grande caverna, lá entrou. Pouco depois, chegou o dono da caverna, Polifemo (o mais famoso dos ciclopes), que voltando então o grande olho, viu os estrangeiros e perguntou-lhes, com maus modos, quem eram e de onde haviam vindo. Respondeu-lhe Ulisses com muita humildade que eram gregos e terminou implorando hospitalidade, mas Polifemo estendeu o braço, agarrou dois dos gregos, que atirou contra a parede da caverna, esmagando-lhes a cabeça, depois tratou de devorá-los. Na manhã seguinte o ciclope apanhou mais dois gregos e devorou-os da mesma maneira que a seus companheiros. Ulisses tratou então de como se vingaria da morte dos amigos e conseguiria fugir com os companheiros sobreviventes. Teve a idéia de dar vinho ao gigante, que tanto bebeu que não tardou a adormecer. Então, Ulisses com seus quatro companheiros escolhidos, colocou no fogo a extremidade do espeto que haviam feito, até que essa se transformou num carvão em brasa e, depois, colocando a haste bem exatamente sobre o único olho do gigante, enterram-na profundamente e a girara.
No olho o tição. Cálido sangue espirra; O vapor da pupila afogueada As pálpebras queimava e a sobrancelha. Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.
Os gritos dolorosos do monstro ecoaram pela caverna e, deixando Polifemo entregue à sua dor, Ulisses e seus companheiros fugiram seguindo o caminho à Ítaca.
Na Música Clássica:
Aci, Galatea e Polifemo é uma é uma dramática serenata que inclui três personagens míticas (inclusive Polifemo). A bela mini ópera foi criada pelo célebre compositor alemão George Frideric Handel em 1708. Polifemo amava Galatéia, mas esta nutria uma paixão por Ácis, sentimento que lhe era recíproco. Num dado momento, dominado pelo ciúme, o ciclope perseguiu Ácis e, arrancando um rochedo da encosta da montanha, atirou nele, que imediatamente foi esmagado e transformado no rio que conserva seu nome. O papel do ciclope Polifemo, cujas ações têm conseqüências letais para Ácis, é particularmente notável para a singular agilidade necessária à música de Handel.
REFERÊNCIAS: 1. Bulfinch, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: (a idade da fábula). Ediouro, Rio de Janeiro, 2002. 2. Moore, Keith, L. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. 3. Decano, Winton & Knapp, J. Merrill (1987), Óperas de Handel, 1704-1726, Imprensa de Clarendon. 4.HOMERO. Odisséia. Trad. Odorico Mendes
Antigamente, era costume da cultura judaica enfaixar a criança até os três meses de idade, quando então ela era levada ao templo para ser apresentada ao sacerdote. O pintor veneziano Giovanni Bellini assim representou o Menino Jesus:
Giovanni Bellini. Apresentação de Jesus no Templo (1464). Têmpera sobre madeira. 80 x 105 cm. Fondazione Querini-Stampalia, Veneza
Foi a partir de uma obra de arte que surgiu o desenho do símbolo da pediatria brasileira. A história é a seguinte: com base nesse costume de enfaixar recém-nascidos, em 1528 o escultor italiano renascentista Andrea della Robbia (1435 - 1525) esculpiu, para o pórtico do orfanato florentino Spedale degli Innocenti (Hospital dos Inocentes), várias imagens de crianças, objetivando ornamentar o pátio interno da instituição:
Crianças (1470). Andrea della Robbia. Medalhões (Tondos) em terracota esmaltada. Ospedale degli Innocenti (Florença).
A idéia é que cada criança esculpida represente o “Menino Jesus” com seu olhar suplicante pelas crianças abandonadas; além disso, a primeira criança aparece totalmente enfaixada, e a seqüência dos medalhões mostra as demais sendo progressivamente desenfaixadas até que a última aparece com as faixas afastadas do corpo, que se encontra, do tórax aos pés, completamente solto e livre.
A criança desenfaixada representa, talvez, a libertação do constrangimento dos pequenos por serem “bebês abandonados”, já que a educação e as demais condições fornecidas pelo instituto priorizavam o bem estar psíquico dos residentes, proporcionando a cada criança "orfã" a capacidade de livrar-se desse estigma (nas esculturas, a própria criança desenfaixa seu corpo) . Outro detalhe interessante é que os braços das crianças foram esculpidos livres e abertos, como se clamassem aos visitantes: “Adotem-me”.
À esquerda: Atual Logomarca da Sociedade Brasileira de Pediatria (1968). Francisco Confort. Rio de Janeiro.
Em 1936, o médico Adamastor Barbosa, que presidia a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), encomendou um símbolo para ornamentar o diploma de sócio da entidade. O autor do desenho se inspirou nos medalhões esculpidos por della Robbia presentes no orfanato. Em 1957, na gestão do Dr. Martinho da Rocha, o símbolo foi modernizado, mas manteve a figura do menino enfaixado. A mais recente modificação foi feita em 1968, quando o Dr. Telles era o presidente da SBP. Coube a Francisco Confort, designer da Casa da Moeda do Brasil, fazer a mais recente estilização.
Curiosidades:
O orfanato Spedale degli Innocenti foi construído e projetado em 1419 por Filippo Brunelleschi (artista considerado o fundador da arquitetura do renascimento italiano), sendo o primeiro lugar a ser dedicado exclusivamente ao cuidado e educação das crianças abandonadas. Hoje, o clássico prédio funciona como museu de arte, mas o instituto nunca interrompeu suas atividades em favor das crianças e adolescentes.
Um símbolo também baseado nas crianças de della Robia foi adotado pela American Academy of Pediatrics em 1930.
O ato de enfaixar o abdome das crianças até que caia o umbigo talvez tenha surgido a partir da herança cultural judaica. Até hoje, o costume perdura em algumas cidades do interior do Brasil.
REFERÊNCIAS:
1.KAHN,Lawrence. The "Ospedale degli Innocenti" and the "Bambino" of the American Academy of Pediatrics. PEDIATRICS Vol. 110 No. 1 July 2002, pp. 175-180.
2.Gavitt, P. Criança e Caridade na Florença renascentista: O Ospedale degli Innocenti, 1410-1536 (Ann Arbor, MI: Universidade de Michigan Press, 1990)
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003
4.História da Sociedade Brasileira de Pediatria 5.Wikipédia - Andrea della Robbia
Imhotep, egípcio que viveu durante a Terceira Dinastia, é considerado o primeiro arquiteto, engenheiro e médico do início da história.
Além de famoso construtor de pirâmides, ele era, sobretudo, um excelente médico, sendo mais tarde considerado deus pelos egípcios. Os gregos o relacionaram a Asclépio (ou Esculápio, em Roma) o deus grego da medicina.
Imhotep foi um dos poucos mortais a ser esculpido como parte de uma estátua do faraó. Tempos depois, ele também foi reverenciado como um exímio poeta e filósofo.
Estatueta de Imhotep em bronze. Egito ptolemaico (332-30 a.C.). Museu do Louvre, Paris.
Imhotep é creditado como sendo o fundador da medicina e o autor de um tratado médico notável, o chamado papiro de Edwin Smith (1700 aC), contendo observações anatômicas, doenças e curas.
Sendo o médico mais importante na história egípcia, salvou a vida do infante príncipe Djoser e a de sua mãe. Anos mais tarde, ele foi recompensado por suas ações pelo Faraó Djoser que o designou como seu vizir, sacerdote, arquiteto chefe e astrólogo.
O nome Imhotep significa "Aquele que vem em contentamento". Foi por causa de seus muitos talentos que o povo naturalmente presumiu que apenas alguém que tinha estreitas ligações com os deuses podia ter tão grande conhecimento.
Assim, Imhotep foi deificado após a sua morte, um dos únicos mortais não-faraó que se tornou um deus.
Frederik Ruysch (1638-1731) foi um botânico holandês, anatomista e um dos pioneiros em técnicas de preservação de órgãos e tecidos. Ele estudou medicina na Universidade de Leiden, onde obteve seu diploma em 28 de julho de 1664. O principal interesse de Ruysch era anatomia, para a qual nutria uma paixão desde a sua juventude (conta-se que ele pagava coveiros para abrir as covas para que ele pudesse fazer investigações anatômicas nos cadáveres!).
Ruysch foi o primeiro a demonstrar a existência de vasos sanguíneos em quase todos os tecidos do corpo humano, destruindo assim a crença galênica de que determinadas áreas do corpo não tinham suprimento vascular. Também investigou detalhadamente as válvulas do sistema linfático, as artérias brônquicas e os plexos vasculares do coração, e foi o primeiro a apontar a nutrição do feto através do cordão umbilical. Graças às originais técnicas de preservação de tecidos, Ruysch é considerado o médico que melhor fazia preparações anatômicas.
Pintado por Jan van Neck em 1683, A Lição de Anatomia do Dr. Ruysch é o único quadro que retrata numa lição anatômica não o cadáver de um adulto, mas de um natimorto:
A Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch (1683). Jan van Neck. Óleo sobre tela, 142 x 203 cm. Museu histórico de Amsterdã.
É interessante observar que uma criança está presente à aula de anatomia. Trata-se do filho do Dr. Ruysch, o pequeno Hendrick, que na ocasião tinha apenas 9 anos de idade. Hendrick auxiliava o pai nas preparações anatômicas e, impulsionado por esta prática, apaixonou-se também pela anatomia. O jovem Ruysch, que ao crescer tornou-se médico, tem em suas mãos o esqueleto de um recém nascido.
O quadro é tipicamente holandês, nele van Neck utilizou propositalmente a coloração escura para que o feto se destaque.
REFERÊNCIAS: 1.N. T. Hazen:Johnson’s Life of Frederic Ruysch. Bulletin of the History of Medicine, Baltimore, 1939; 7: 324. 2.P. Scheltema:Het leven van Frederik Ruysch. M.D. dissertation, 1886.