quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O Símbolo da Sociedade Brasileira de Pediatria

Antigamente, era costume da cultura judaica enfaixar a criança até os três meses de idade, quando então ela era levada ao templo para ser apresentada ao sacerdote. O pintor veneziano Giovanni Bellini assim representou o Menino Jesus:


Giovanni Bellini. Apresentação de Jesus no Templo (1464). Têmpera sobre madeira. 80 x 105 cm. Fondazione Querini-Stampalia, Veneza

Foi a partir de uma obra de arte que surgiu o desenho do símbolo da pediatria brasileira. A história é a seguinte: com base nesse costume de enfaixar recém-nascidos, em 1528 o escultor italiano renascentista Andrea della Robbia (1435 - 1525) esculpiu, para o pórtico do orfanato florentino Spedale degli Innocenti (Hospital dos Inocentes), várias imagens de crianças, objetivando ornamentar o pátio interno da instituição:

Crianças (1470). Andrea della Robbia. Medalhões (Tondos) em terracota esmaltada. Ospedale degli Innocenti (Florença).

A idéia é que cada criança esculpida represente o “Menino Jesus” com seu olhar suplicante pelas crianças abandonadas; além disso, a primeira criança aparece totalmente enfaixada, e a seqüência dos medalhões mostra as demais sendo progressivamente desenfaixadas até que a última aparece com as faixas afastadas do corpo, que se encontra, do tórax aos pés, completamente solto e livre.

A criança desenfaixada representa, talvez, a libertação do constrangimento dos pequenos por serem “bebês abandonados”, já que a educação e as demais condições fornecidas pelo instituto priorizavam o bem estar psíquico dos residentes, proporcionando a cada criança "orfã" a capacidade de livrar-se desse estigma (nas esculturas, a própria criança desenfaixa seu corpo) . Outro detalhe interessante é que os braços das crianças foram esculpidos livres e abertos, como se clamassem aos visitantes: “Adotem-me”.

À esquerda: Atual Logomarca da Sociedade Brasileira de Pediatria (1968). Francisco Confort. Rio de Janeiro.

Em 1936, o médico Adamastor Barbosa, que presidia a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), encomendou um símbolo para ornamentar o diploma de sócio da entidade. O autor do desenho se inspirou nos medalhões esculpidos por della Robbia presentes no orfanato. Em 1957, na gestão do Dr. Martinho da Rocha, o símbolo foi modernizado, mas manteve a figura do menino enfaixado. A mais recente modificação foi feita em 1968, quando o Dr. Telles era o presidente da SBP. Coube a Francisco Confort, designer da Casa da Moeda do Brasil, fazer a mais recente estilização.

Curiosidades:

O orfanato Spedale degli Innocenti foi construído e projetado em 1419 por Filippo Brunelleschi (artista considerado o fundador da arquitetura do renascimento italiano), sendo o primeiro lugar a ser dedicado exclusivamente ao cuidado e educação das crianças abandonadas. Hoje, o clássico prédio funciona como museu de arte, mas o instituto nunca interrompeu suas atividades em favor das crianças e adolescentes.

Um símbolo também baseado nas crianças de della Robia foi adotado pela American Academy of Pediatrics em 1930.

O ato de enfaixar o abdome das crianças até que caia o umbigo talvez tenha surgido a partir da herança cultural judaica. Até hoje, o costume perdura em algumas cidades do interior do Brasil.

REFERÊNCIAS:
1.KAHN,Lawrence. The "Ospedale degli Innocenti" and the "Bambino" of the American Academy of Pediatrics. PEDIATRICS Vol. 110 No. 1 July 2002, pp. 175-180.
2.Gavitt, P. Criança e Caridade na Florença renascentista: O Ospedale degli Innocenti, 1410-1536 (Ann Arbor, MI: Universidade de Michigan Press, 1990)
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003
4.
História da Sociedade Brasileira de Pediatria
5.
Wikipédia - Andrea della Robbia


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Estatueta de Imhotep

Imhotep, egípcio que viveu durante a Terceira Dinastia, é considerado o primeiro arquiteto, engenheiro e médico do início da história.

Além de famoso construtor de pirâmides, ele era, sobretudo, um excelente médico, sendo mais tarde considerado deus pelos egípcios. Os gregos o relacionaram a Asclépio (ou Esculápio, em Roma) o deus grego da medicina.

Imhotep foi um dos poucos mortais a ser esculpido como parte de uma estátua do faraó. Tempos depois, ele também foi reverenciado como um exímio poeta e filósofo.

Estatueta de Imhotep em bronze. Egito ptolemaico (332-30 a.C.). Museu do Louvre, Paris.
Imhotep é creditado como sendo o fundador da medicina e o autor de um tratado médico notável, o chamado papiro de Edwin Smith (1700 aC), contendo observações anatômicas, doenças e curas.

Sendo o médico mais importante na história egípcia, salvou a vida do infante príncipe Djoser e a de sua mãe. Anos mais tarde, ele foi recompensado por suas ações pelo Faraó Djoser que o designou como seu vizir, sacerdote, arquiteto chefe e astrólogo.

O nome Imhotep significa "Aquele que vem em contentamento". Foi por causa de seus muitos talentos que o povo naturalmente presumiu que apenas alguém que tinha estreitas ligações com os deuses podia ter tão grande conhecimento.

Assim, Imhotep foi deificado após a sua morte, um dos únicos mortais não-faraó que se tornou um deus.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"A Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch" / Jan van Neck

Frederik Ruysch (1638-1731) foi um botânico holandês, anatomista e um dos pioneiros em técnicas de preservação de órgãos e tecidos. Ele estudou medicina na Universidade de Leiden, onde obteve seu diploma em 28 de julho de 1664. O principal interesse de Ruysch era anatomia, para a qual nutria uma paixão desde a sua juventude (conta-se que ele pagava coveiros para abrir as covas para que ele pudesse fazer investigações anatômicas nos cadáveres!).

Ruysch foi o primeiro a demonstrar a existência de vasos sanguíneos em quase todos os tecidos do corpo humano, destruindo assim a crença galênica de que determinadas áreas do corpo não tinham suprimento vascular. Também investigou detalhadamente as válvulas do sistema linfático, as artérias brônquicas e os plexos vasculares do coração, e foi o primeiro a apontar a nutrição do feto através do cordão umbilical. Graças às originais técnicas de preservação de tecidos, Ruysch é considerado o médico que melhor fazia preparações anatômicas.

Pintado por Jan van Neck em 1683, A Lição de Anatomia do Dr. Ruysch é o único quadro que retrata numa lição anatômica não o cadáver de um adulto, mas de um natimorto:

A Lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch (1683). Jan van Neck. Óleo sobre tela, 142 x 203 cm. Museu histórico de Amsterdã.

É interessante observar que uma criança está presente à aula de anatomia. Trata-se do filho do Dr. Ruysch, o pequeno Hendrick, que na ocasião tinha apenas 9 anos de idade. Hendrick auxiliava o pai nas preparações anatômicas e, impulsionado por esta prática, apaixonou-se também pela anatomia. O jovem Ruysch, que ao crescer tornou-se médico, tem em suas mãos o esqueleto de um recém nascido.

O quadro é tipicamente holandês, nele van Neck utilizou propositalmente a coloração escura para que o feto se destaque.

LEIA MAIS:

Dioramas Anatômicos do Dr. Frederik Ruysch

REFERÊNCIAS:
1.N. T. Hazen:Johnson’s Life of Frederic Ruysch. Bulletin of the History of Medicine, Baltimore, 1939; 7: 324.
2.P. Scheltema:Het leven van Frederik Ruysch. M.D. dissertation, 1886.

domingo, 17 de outubro de 2010

São Lucas: Médico, Artista e Santo

“Saúda-vos Lucas, o médico amado.” Apóstolo Paulo (Colossenses 4:14).

São Lucas, evangelista e patrono dos pintores, é considerado também patrono da classe médica. 18 de outubro, data consagrada a Lucas pela igreja, foi escolhida para ser o dia do médico.


São Lucas com o Símbolo de Asclépio; Arlindo C. de Carli (1910 – 1985). Museu São Lucas (São Paulo).

Quem foi o médico Lucas? Ele teria estudado medicina na Antioquia (Síria), onde pela primeira vez os seguidores de Cristo foram chamados de cristãos. Pagão, converteu-se a fé cristã. Sem esposa nem filhos, começou a estudar medicina em sua cidade natal, onde havia uma famosa escola. Buscando aperfeiçoamento na arte de curar, mudou-se para Alexandria, Atenas e Pérgamo. Nesta última cidade, consultou e curou São Paulo, que partir de então se tornou seu grande amigo e, mais tarde, juntos, difundiram os ensinamentos de Jesus entre os gentios.

A tradição de ter Lucas como o patrono dos médicos é bem antiga. Em 1463, a Universidade de Pádua passou a iniciar o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas, proclamado patrono do "Colégio dos filósofos e dos médicos".

Além de médico, Lucas possuía várias habilidades artísticas: era pintor, músico e escritor; por possuir maior cultura que os outros evangelistas, seu evangelho utiliza uma linguagem mais aprimorada que os demais, o que revela seu perfeito domínio do idioma grego.

São Lucas Pintando a Virgem; Martin de Vos (1532 - 1603); Antuérpia, Koninklijk Museum Voor Schone Kunsten.

Entre outras pinturas que retratam são Lucas médico, destacam-se o painel de Mantegna, na pinacoteca de Brera (Milão), e o da capela de São Lucas, na igreja de São Francisco, em Moncalvo (Itália). Neste último, o santo é representado em meio a diversos livros de Medicina de autoria de Avicena e Galeno.

Na Literatura: A vida de São Lucas, como médico e como evangelista, foi tema de um romance histórico muito difundido, intitulado Médico de Homens e de Almas, da consagrada escritora inglesa Taylor Caldwell. A obra levou quarenta e seis anos para ser produzida. Em uma narrativa encantadora e comovente, a autora apresenta dados, previamente pesquisados e coletados, que oferece pormenores significativos para a história da vida de seu protagonista, cuja maior missão fora se dedicar ao serviço da saúde, como médico, utilizando suas habilidades para curar pessoas.

REFERÊNCIAS:
1.CALDWELL, T. – Médico de homens e de almas.(trad.). 31. ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2002.
2.RIBEIRO, E.B. – Médico, pintor e santo. São Paulo, São Paulo Editora, 1970.
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Origem do Palavra "Morfina" / "Morfeu", de Houdon

Na medicina, nem mesmo as drogas escaparam à influência da mitologia grega. O mais conhecido narcótico do grupo dos opióides, a morfina, obteve seu nome de Morfeu, deus grego dos sonhos.

O nome Morfeu foi criado pelo poeta romano Ovídio na sua grande obra Metamorphoses e vem do grego “morphe”, que significa “forma”. O nome seria uma alusão às formas que enxergamos nos sonhos.

Escultura em mármore, Morfeu (1777); Jean-Antoine Houdon; Salão do Louvre (Paris)

Morfeu foi enviado por seu pai, Hipnos (deus do sono) para junto dos adormecidos, a fim de assumir qualquer forma ou aspecto de figura humana e aparecer nos sonhos das pessoas. Ele adormecia aqueles que tocava com uma papoula. Houdon o representa sonolento, mas com as asas alertas, pronto para voar e mudar de fisionomias. Foi com essa obra-prima que o escultor foi admitido, em 1777, na Academia Real de Pintura e Escultura.

Em 1804, o boticário alemão Friedrich Serturner, em honra de Morfeu, deu o nome de morfina à droga que havia isolado a partir do látex da papoula, visto que ela propicia ao usuário sonolência e efeitos análogos aos sonhos.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Obra Literária "Frankenstein" e as Questões de Ética Médica

"Eu via o horrível espectro de um homem estendido, que, sob a ação de alguma máquina poderosa, mostrava sinais de vida e se agitava com um movimento meio vivo, desajeitado. Deve ter sido medonho, pois terrivelmente espantoso devia ser qualquer tentativa humana para imitar o estupendo mecanismo Criador do mundo.” Mary Shelley – Prefácio de Frankenstein (1818).

O famoso romance de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres, relata a história de um estudante de ciências naturais que criou um monstro em seu laboratório. O monstro na obra de Shelley, criado pelo protagonista do livro, Victor Frankenstein, surge como uma falha do projeto obsessivo desse cientista pela busca do conhecimento, que se estende desde o aprendizado de antigos alquimistas, como Paracelso e Cornelius Agrippa, até os grandes nomes pioneiros da química moderna.

E quem era eu? Tudo ignorava de minha criação e de meu criador; mas sabia que não tinha dinheiro, amigos ou espécie alguma e propriedade. Era, além do mais, dotado de um aspecto hediondo, deformado e repelente; eu nem era da mesma natureza que o homem. Era mais ágil do que ele e podia viver com alimentação mais parca; suportava quase sem problemas os extremos do frio e do calor; minha estatura era muito superior à dele. Quando olhava ao redor ninguém encontrava que se assemelhasse. Era eu, então, um monstro, uma nódoa sobre a terra, de quem todos fugiam e a quem todos renegavam?

Com essas palavras o monstro criado pelo Dr. Victor Frankenstein dá-se conta de sua triste condição. – Um ser incomum gerado por um cientista aparece de repente como um ser humano adulto, mas entra no mundo sem nada saber sobre si mesmo, à maneira de uma criança. Uma criatura delicada vem a amar a natureza e aprende sobre a humanidade observando as pessoas. No entanto, ao tentar se comunicar com o mundo é rejeitado pela sociedade devido à sua aparência grotesca.

Também seu criador, o jovem universitário e cientista, ao ver-se diante de sua criatura horrível, rejeita-a; esta rejeição, fruto do seu erro e da percepção deste erro, fará brotar no monstro a vingança e, conseqüentemente, a desgraça em sua vida.

"Frankenstein" revela muitos desafios médicos e sociais que a nossa sociedade enfrenta hoje. A obra de Shelley desperta uma série de questionamentos éticos, dentre eles: como lidamos com o mal, o feio ou o deformado em nossa sociedade? Qual a essência do ser humano? Quais os reais problemas na experimentação científica com a vida (pesquisas com células-tronco embrionárias, manipulação genética, etc.)? O que é ciência aceitável, e quando ela vai longe demais?

Aprenda, se não pelos meus preceitos, antes por meu exemplo, o perigo que representa a assimilação indiscriminada da ciência, e quanto é mais feliz o homem para quem o mundo não vai além do seu ambiente quotidiano, do que aquele que aspira tornar-se maior de que sua natureza lhe permite. Victor Frankenstein

A experiência do protagonista seria, de certa forma, precursora das experiências genéticas feitas pelo homem atualmente. Assim como o médico da novela mostra a determinação apaixonada para tentar o que parecia impossível, a melhor das intenções da medicina moderna tem gerado alguns dos maiores sucessos e alguns dos piores pesadelos.

Mary Shelley escreveu a história quando tinha apenas 19 anos, entre 1816 e 1817, e a obra foi primeiramente publicada em 1818.

REFERÊNCIAS:
1. Shelley, Mary; Frankenstein ou o Moderno Prometeu.; São Paulo, Publifolha. 1998.
2. FLORESCU, Radu. Em busca de Frankenstein: o monstro de Mary Shelley e seus mitos.; Trad. Luiz Carlos Lisboa. São Paulo: Mercuryo,1998

3. Silveira, G.; Nepomuceno, L. Atos de criação: questões éticas no Frankenstein de Mary Shelley e em “O golem”, de António Vieira; Patos de Minas: UNIPAM, (6): 293-306, out. 2009

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Leopold Auenbrugger - Músico Criador do Revolucionário Método de Examinar os Pacientes Através da Percussão das Cavidades

“A Auenbrugger pertence esta bela descoberta”. Jean-Nicolas Corvisart (1808)

Como o austríaco Auenbrugger, memorável personagem do universo médico, mudou completamente o modo de detectar as doenças que acometem as cavidades orgânicas?

As coisas se deram mais ou menos assim: até o século dezoito os principais meios diagnósticos disponíveis consistiam em ouvir adequadamente a história do paciente, inspecioná-lo, contar a freqüência respiratória e o pulso. Aferir a temperatura ainda era algo novo e não constava no exame padrão recomendado pelos professores da época. Estetoscópio? Nem pensar, ainda não existia (seria inventado por Laennec décadas mais tarde). Se uma determinada cavidade do corpo, a chamada caixa torácica, por exemplo, fosse acometida por uma doença qualquer, se enchia de um líquido estranho e os médicos não tinham outra forma de detectar a agressão senão no exame pós-morte, a autópsia. Com o mal longe dos olhos e das mãos dos médicos os danos eram inexoráveis.

Aí aparece a inventividade do nosso personagem, o médico e flautista Joseph Leopold Auenbrugger. Filho de um estalajadeiro, o médico aprendeu com o pai a avaliar a quantidade de vinho de uma barrica pela percussão. Quando se formou em medicina, teve a idéia – diz-se ele – de adaptar tal procedimento ao exame do doente. Ele foi o criador de um novo e revolucionário modo de examinar os pacientes: a percussão das cavidades orgânicas. Músico, ele estava familiarizado com coisas como ressonância, timbre, altura do som, o que lhe ajudou muito em seus estudos sobre o novo método.

Em condições normais as vibrações produzidas pela percussão do tórax são abafadas devido a grande diferença acústica observada entre a parede torácica e o parênquima pulmonar. Se o parênquima é substituído pelo ar, como ocorre na situação conhecida como penumotórax, a diferença acústica se acentua ainda mais, e o abafamento do som se torna mais pronunciado. O resultado é um som de maior amplitude e duração, francamente musical, descrito sempre como “timpânico” (em referência ao tímpano) instrumento musical presente em qualquer orquestra sinfônica da atualidade. Se o tecido pulmonar é preenchido por líquido ou algo sólido, a dita diferença acústica é minimizada e o som produzido se torna de baixa amplitude e curta duração, descrito usualmente como “surdo”.

Na literatura: Em 1761, o famoso médico publicou seu Inventum Novum ex Percussione Thoracis Humani, obra escrita em latim, de 97 páginas, que apresentou o revolucionário meio de investigação das cavidades orgânicas. Ao apresentar sua obra à comunidade científica, Auenbrugger escreveu:

Apresento ao leitor um novo método para detecção de doenças, descoberto por mim. Consiste na percussão do tórax e na avaliação das condições internas da cavidade de acordo com a ressonância do som assim produzido. Minhas descobertas não foram antes confiadas ao papel por causa de um incontrolável impulso ou pelo desejo de teorizar. Sete anos de observação tornaram o assunto claro pra mim, o suficiente para que me sinta em condições de publicá-lo. Sei que encontrarei oposição às minhas opiniões. A inveja e a acusação, o ódio e a calúnia sempre foram o ônus daqueles que iluminaram a arte ou a ciência com suas descobertas. Leopold Auenbrugger (1761).

De fato, somente 46 anos depois, quando o clínico francês Jean Nicolas Corvisart, médico pessoal de Napoleão Bonaparte, introduziu o método percussivo na prática clínica e divulgou sua tradução em francês do trabalho de Auenbrugger é que a importância do invento foi definitivamente estabelecida.

REFERÊNCIAS:
1. Sakula, Alex. Auenbrugger: Opus and Opera. J.Roy. College Physicians,Vol 12; 1978.
2. Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996