sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lepra no Antigo Testamento

O que é, nos dias de hoje, a lepra da Bíblia? A lepra bíblica é a mesma doença que atualmente conhecemos como hanseníase? A resposta resumida é que a Bíblia não menciona de maneira explícita ou inequívoca a hanseníase (nome com o qual atualmente designamos o complexo clínico de sinais e sintomas causado pelo Mycobacterium leprae). O termo “lepra”, durante séculos, foi utilizado para designar diversas doenças dermatológicas de origem e gravidade variáveis.

1. Falou mais o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo:

2. Quando um homem tiver na pele da sua carne, inchação, ou pústula, ou mancha lustrosa, na pele de sua carne como praga da lepra, então será levado a Arão, o sacerdote, ou a um de seus filhos, os sacerdotes.

3. E o sacerdote examinará a praga na pele da carne; se o pêlo na praga se tornou branco, e a praga parecer mais profunda do que a pele da sua carne, é praga de lepra; o sacerdote o examinará, e o declarará por imundo.


Estes versículos fazem parte do capítulo 13 do Levítico, que é inteiramente dedicado ao diagnóstico da lepra. A doença parece ter sido frequente na antiguididade, mas – e talvez por causa disso – o rótulo pode ter incluído vários outros problemas de pele. Além disso, havia o estigma; o contágio com enfermidades da pele muitas vezes envolve o contato íntimo, com todas as implicações possíveis. Durante muitos anos, os sacerdotes estiveram à frente do cuidado de pessoas que sofriam de lepra. À época de Moisés não existia ainda o templo de Jerusalém; mas, na construção deste, foi previsto um lugar especial para o exame de suspeitos. A doença é a maneira pela qual Deus castiga os pecadores e os inimigos do povo eleito: “Se não guardares e não cumprires as palavras da Lei e se não tiveres temor ao nome glorioso e terrível do Senhor teu Deus, Ele te castigará, e a teus filhos, com a praga” (Deuteronômio, 28:58-59).

A lepra é conhecida como "a doença mais antiga do mundo", afetando a humanidade há pelo menos 4000 anos e sendo os primeiros registros escritos conhecidos encontrados no Egito, datando de 1350 a.C..

REFERÊNCIAS:
1. Lepra na Bíblia: estigma e realidade / Stanley George Browne . — Viçosa : Ultimato, 2003.
2. Bíblia Sagrada – Tradução de João Ferreira de Almeida.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"O Paralítico" - Jean-Baptiste Greuze

O mais belo exemplo de medicina paliativa representada na arte pode ser apreciado em O Paralítico, do pintor francês Jean-Baptiste Greuze (1725-1805):

O Paralítico - Os frutos de uma boa educação; Greuze, Jean-Baptiste, 1763; Óleo sobre tela; The Hermitage, St. Petersburg.

A cena passa-se no quarto da casa de um idoso fragilizado. Esticado - deitado, meio sentado - um homem debilitado ("o paralítico") olha passivamente pra um prato de comida que lhe está sendo oferecido por um cavalheiro que está flexionado em sua direção. Em contraste com o pálido paralítico, que veste um casaco marrom, o jovem homem em pé está bem vestido e tem a face corada. Os braços do paralítico, ligeiramente flexionados, estendem-se sobre seu corpo, um pé repousa sobre um banquinho e suas pernas estão cuidadosamente cobertas com um cobertor.

Em torno do homem idoso há uma família numerosa que lhe dedica toda atenção. A cena conta também com a presença dos filhos e de um cão. A única figura que não está olhando para o paciente é um menino que se ajoelha ao seu lado, com um braço colocado delicadamente sobre sua perna paralítica.

Detalhe de O Paralítico - Os frutos de uma boa educação.

Greuze pintou o quadro de forma que o idoso, em sua posição esticada, ocupa um grande espaço no centro da imagem, sugerindo assim a importância do enfermo, que domina a cena. A atenção do espectador é mais atraída por esta figura central, também a iluminação - o fundo é escuro, enquanto a almofada contra a qual repousa o homem é clara e brilhante – faz com que a figura do homem apareça sob um banho de luz. Assim, o espectador participa com a família em focar a atenção sobre o paciente.

O Paralítico mostra a dedicação oferecida a um idoso apaixonado por sua família. A intenção de Greuze seria a de despertar no público a consciência de que a atenção ao enfermo é um ato de amor imprescindível para manter o conforto de quem necessita de cuidados especiais.

"Luto e Melancolia" - Sigmund Freud

É da teoria da bílis negra que se cunha o termo melancolia. Este é derivado do grego melas (negro) e kholé (bile) que corresponde à transliteração latina melaina-kole.

Antigamente, predominava a teoria hipocrática que dividia a humanidade em quatro humores (líquidos corporais): o melancólico (bílis negra), o colérico (bílis amarela), o sanguíneo (sangue) e o fleumático (água). A melancolia decorreria de um excesso da bílis negra circulando pelo corpo e causando sentimentos negativos (apatia, tristeza, autopunição).

A melancolia é atualmente definida como um estado psíquico de depressão sem causa específica, caracterizada pela falta de prazer nas atividades diárias e desânimo como reação a um estimulo agradável que em geral causaria prazer.

Sigmund Freud, em seus estudos sobre o superego, se deparou com essa forma de depressão conhecida por melancolia que, segundo ele, diferia do luto em apenas um ponto: não havia necessariamente uma perda para tais indivíduos manifestarem tristeza, senão uma perda narcisista.

Em seu famoso texto sobre a depressão, intitulado Luto e Melancolia, Freud investiga a melancolia, um estado patológico, a partir do paradigma do luto, um estado normal:
O luto afasta a pessoa de suas atitudes normais para com a vida, mas sabemos que este afastamento não é patológico, normalmente é superado após certo tempo e é inútil e prejudicial qualquer interferência em relação a ele. Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. A perturbação da auto-estima normalmente esta ausente no luto, fora isto as características são as mesmas.[...]Isso sugeriria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda. [...] O melancólico exibe ainda outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. [...] Quando, o melancólico em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie. Luto e Melancolia - Sigmund Freud (1915).
Curiosidade: Fora atribuído a Aristóteles (384-322 a.C.), o primeiro tratado sobre a melancolia, o qual prevaleceu por toda a antiguidade. No tratado, Aristóteles fala-nos da relação entre a genialidade e a loucura, em que a melancolia passa a ser vista como uma condição de genialidade, concepção que muitos defendem até os dias atuais. Aqui, a melancolia não é vista como doença, mas como natureza dos filósofos e poetas, sendo que muitos homens ilustres – como Sócrates e Platão, possuíam uma visão romântica da melancolia, atrelada à idéia de que “o homem triste é também o homem profundo”. Por conta da repercussão que a obra de Aristóteles teve, tanto em sua época quanto posteriormente, a melancolia durante muito tempo foi considerada como uma condição bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma.

REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. “Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente”. v.II. Rio de Janeiro: Imago.



domingo, 3 de outubro de 2010

Deformidade em Pescoço de Cisne / Gravura de Jan van Eyck

A deformidade em pescoço de cisne dos dedos das mãos, comumente causada por lesão ou por condições inflamatórias - como artrite reumatóide, é resultado da hiperextensão da articulação interfalângica proximal (IFP) e da flexão, com incapacidade de extensão, da interfalângica distal (IFD). Patogenicamente, podemos encontrar inflamações específicas ou não específicas produzindo afrouxamento dos ligamentos e cápsula, com destruição da articulação e elementos contensores do tendão. Na doença reumatóide, a causa é a grande instabilidade articular e tendinosa que se instala.

Jan van Eyck, um dos mais influentes pintores belgas, retratou John IV, duque de Brabant:

Jan van Eyck, John IV, Duque de Brabant (1441). Rotterdam, Museum Boymannsvan Beuningen

No desenho, é claramente perceptível uma deformidade em pescoço de cisne nos dedos da mão direita:

Detalhe evidenciando a deformidade em pescoço de Cisne na mão direita do Duque de Brabant.

Curiosamente, pouco tempo depois de concluir o desenho, Van Eyke, com a intenção de espalhar realidade em todos os seus pormenores, revolucionou as técnicas pictóricas inventando a pintura a óleo.

REFERÊNCIAS:
1.RONALDO J. AZZE, RAMES MATTAR JR., ANTÔNIO C. CANEDO; Técnica cirúrgica para correção da deformidade em pescoço de cisne dos dedos; RBO; Abril - 1993
2. DEQUEKER, J; Arthritis in Flemish paintings (1400-1700); British Medical_Journal, 1977, 1, 1203-1205.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Os Aleijados" Pieter Bruegel

Alguns deficientes do aparelho locomotor podem ser vistos em Os Aleijados, de Pieter Bruegel (1525 – 1569):

Os Aleijados (1568). Pieter Bruegel. "O Velho". Óleo sobre madeira. 22 x 18 cm.

O artista pintou cinco portadores de necessidades especiais que se movimentam ajudados por órteses artesanais. Três deles olham para o espectador da cena. Suas fisionomias sugerem retardo mental. Quatro dos cinco deficientes usam capas com caudas de raposas penduradas nos casacos; tais capas, símbolo da degradação humana, eram utilizadas por leprosos e serviam de advertência aos transeuntes para que se mantivessem a uma prudente distância do hanseniano.

Para Bruegel, as pessoas sadias não se importavam com os demais. Uma curiosidade que pode ser vista nesse quadro, é que os portadores de necessidades especiais se encontram juntos, como se estivessem isolados pela sociedade por serem diferentes da maioria. Os cinco deficientes representam classes sociais distintas. Pelos toucados que apresentam nas cabeças tratar-se-ia de um rei, um bispo, um soldado, um burguês e um camponês. Bruegel, ironicamente, pintou-os com deformidades físicas. A única pessoa sadia da cena, uma freira que aparece de costas para os demais, afasta-se do grupo.

A intenção de Bruegel em Os Aleijados seria a de mostrar o que a pessoa se tornou e o que qualquer um poderia se tornar, alertando a população sobre a suscetibilidade de todos às afecções, pois todos são imperfeitos e, portanto, iguais.

A obra integra o acervo do Museu do Louvre, em Paris.

1.CIVITA Victor. Mestres da Pintura: Brueghel. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
2.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
3.Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Código de Hamurabi

Hamurabi, rei da babilônia que viveu no século XVIII a.C., foi o primeiro a instituir um código civil e criminal concernente à prática médica.

Coluna de basalto negro contendo o Código de Hamurabi. Museu do Louvre (Paris). Acima: detalhe da coluna mostra Hamurabi (à esquerda) adorando o deus Sol Shamashi.

Estima-se que o código tenha sido elaborado por volta de 1.700 a.C. Atualmente exposto no Louvre (Paris), dele fazem parte os seguintes artigos:

1.Se o médico trata de um Senhor, abre-lhe um abscesso e lhe salva um olho, receberá dez moedas de prata. Se o paciente é um escravo, seu dono pagará por ele duas moedas de prata.

2.Se o médico abre um abscesso com uma faca de bronze e provoca a morte do paciente, ou lhe faz perder um olho, suas mãos devem ser cortadas. No caso de se tratar, porem, de um escravo, o médico comprará outro e o dará em seu lugar.

3.Se um médico cura um osso doente ou um órgão doente, receberá cinco moedas de prata. Em se tratando de um escravo liberto, este pagará três moedas de prata. Se for um escravo, então o dono pagará ao médico duas moedas de prata.

4.Será nulo o contrato de venda de escravos que estiverem atacados de epilepsia ou lepra.

5.Os leprosos serão banidos do convívio social. Nunca mais conhecerão os caminhos de sua residência.

6.Se o aborto é provocado e a mulher morre, o culpado também será morto.

7.Se um homem casado viola uma jovem, o pai da jovem fará com sua mulher a pena do talião e ela ficará à sua disposição.

8.Será punida com a ablação dos seios a nutriz que deixar morrer seu filho, alimentando um outro.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Depressão na Obra de Pablo Picasso

“... toda mulher tem dois braços, dois olhos, dois seios, que são sempre assimétricos. O pintor pode e deve ressaltar as diferenças e não as semelhanças”. Pablo Picasso

A obra de Picasso foi profundamente influenciada por seus diversos relacionamentos amorosos. Em janeiro de 1936, o poeta Paul Eluard apresentou-lhe a fotógrafa e artista Dora Maar. Picasso retratou-a como mulher sofisticada, intelectual e dominadora (Retrato de Dora Maar,1937):


Retrato de Dora Maar (1937), Óleo sobre tela, 61 x 81 cm, Museu Picasso (Paris)

Com o passar do tempo, Dora revelou-se temperamental e depressiva, tornando-se a musa da aflição e do sofrimento de Picasso, sendo retratada com grandes distorções (Mulher Chorando,1937):


Mulher Chorando (1937); Óleo sobre tela, 60 x 40 cm; Tate Gallery (Londres)

Em 1944, a frágil Dora Maar sofreu depressão psicótica após separar-se de Picasso. A crise determinou o seu internamento num hospital psiquiátrico, embarcando posteriormente numa análise prolongada nas mãos de um jovem e, na altura, promissor psicanalista, chamado Jacques Lacan.

Dora viveu durante décadas acompanhada apenas por recordações do inesquecível amante. Conta-se que ela foi a única mulher que esteve intelectualmente à altura de Picasso.

REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, A. J. C. ; ARAÚJO, Jordano Pereira . Anatomia na obra de Pablo Picasso. Ética Revista, Brasília, v. 3, n. 2, p. 16-18, 2005.