sábado, 28 de agosto de 2010

"A Transfiguração de Cristo" de Rafael Sanzio

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz”. Mt 17:1-2

Em “A Transfiguração de Cristo” do italiano renascentista Rafael Sanzio (1483 – 1520) aparece um adolescente com seqüelas de meningite, epiléptico, presenciando a cena em que Jesus Cristo conduz Tiago, Pedro e João a uma montanha. O rosto de Cristo resplandece como o sol, suas vestes tornam-se incandescentemente brancas e os apóstolos vêem ao seu lado os profetas Elis e Moisés:


A Transfiguração de Cristo, 1520; Rafael Sanzio. Óleo sobre painel, 405 x 278 cm. Pinacoteca Apostólica do Vaticano (Vaticano).

Rafael pintou a luminosidade da eternidade de modo a representar a aura do enfermo. O menino, com a boca entreaberta, urra em um grito epiléptico, revira os olhos e estende os membros superiores, deixando sua forte musculatura em franca evidência. O pai, aflito com a impossibilidade de cura, o ampara enquanto os que o cercam apontam-no para Jesus, clamando por sua cura, fazendo-nos lembrar os versículos de São Mateus: “Senhor, tem misericórdia de meu filho, porque ele é epiléptico e está enfermo, pois cai muitas vezes no fogo e na água, e eu o trouxe aos teus discípulos, mas eles não o puderam curar”. Mt 17:14-16


Para representar o acontecimento relatado nos Evangelhos, Rafael usa uma associação de luz e sombra. Segundo a neurologista Yacubian, considerando que a epilepsia desde a antiguidade até os dias atuais está associada à escuridão, podemos concluir que o artista tentou retratar, ao mesmo tempo, a escuridão do preconceito social em relação com a epilepsia e a luz presente no inconsciente dos próprios epilépticos, à medida que procuram sair das sombras.

REFERÊNCIAS:
1.Yacubian, Elza Márcia Targas e Pinto, Graziela R. S. Costa. Arte, Poder e Epilepsia. 2ª. edição, Editorial Lemos, 2003
2.Lucy Campos Piccinin, O pensamento de Paul Tillich: epilepsia e arte, UMESP
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Olhai os Lírios do Campo" - Érico Veríssimo

Os médicos são personagens freqüentes na obra de Érico Veríssimo (1905 – 1975). Alguma vivência com o tema deu-lhe o período em que trabalhou numa farmácia, em sua terra natal, Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. Mais que os aspectos técnicos, no entanto, interessava-lhe a dimensão humana da profissão. Olhai os Lírios do Campo, do qual foi extraído o trecho abaixo, é exemplar nesse sentido:

“Ele principiava a ser um médico de verdade, estava diante da vida, atendia os seus clientes com toda a solicitude e às vezes tinha de esforçar-se para ser delicado e não se encolher diante de criaturas que, pelo aspecto físico ou pela natureza de seus males, lhe inspiravam repugnância ou mal-estar. Fazia-lhes perguntas, interessava-se pela vida deles. Aos poucos ia perdendo os velhos temores de fracasso e aquela sensação de que os outros não tinham confiança nele. Atirava-se à clínica cheio de coragem e isso já era a metade da vitória.”

Olhai os Lírios do Campo conta a história do dr. Eugênio Fontes, que, menino pobre, estuda medicina, apaixona-se por uma idealista colega, Olivia – mas opta por uma vida de conforto, casando com Eunice, filha de um rico empresário. Desgostoso com a existência fútil, volta a exercer a medicina, mas agora encarando a profissão por seu lado social e humano. Escrita em 1938, a obra denuncia a comercialização da medicina e propõe soluções: um sistema socializado, que imporia também uma triagem: “só seguiriam a profissão médica os que tivessem vocação”, diz Eugênio a seu colega e mentor, o dr. Seixas. Esse projeto encaixa-se num contexto mais amplo de transformação, pois é a sociedade que está doente: “A vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitava-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam”.

Para Érico Veríssimo, a medicina é, sobretudo, um ato de amor.

REFERÊNCIAS:
1.VERÍSSIMO, Érico. Olhai os lírios do campo. 32. ed. Porto Alegre: Globo, 1976
2.SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo,
1996


domingo, 22 de agosto de 2010

Candidatos à internação numa enfermaria casual - Luke Fields

O pintor e ilustrador inglês Sir Samuel Luke Fildes (1843 - 1927) sempre deixou transparecer sua preocupação com os pobres, motivo que o fez juntar-se, no ano de 1869, à equipe do Jornal The Graphic, uma revista semanal editada pelo reformador social William Thomas Luson. Fildes compartilhava com Thomas a crença no poder das imagens para mudar a opinião pública sobre temas como a pobreza e a injustiça. Ambos esperavam que a comoção da sociedade diante das ilustrações resultasse em atos de caridade e ação social coletiva. Sob esta perspectiva, Luke Fildes pintou “Candidatos à internação numa enfermaria casual”, quadro que expressa vividamente o sofrimento dos pobres:

Candidatos à Internação numa Enfermaria Casual, Luke Fields, 1874; Óleo sobre tela, 137 x 243cm; Royal Holloway College de Londres Unversity

Aqui, o problema da saúde é tratado através da representação de um elenco de personagens familiares organizados em fila na porta de uma enfermaria. Observamos uma mãe solteira, talvez viúva, com duas crianças com fome, o funcionário com deficiência, buscando apoio do Estado, o bêbado na cartola, as crianças esfarrapadas, dentre outros.

Ainda nos dias atuais, a imagem acima é amplamente utilizada em diversas fontes para ilustrar os problemas da saúde pública.

LEIA MAIS:
"O Doutor" - Samuel Luke Fildes

sábado, 21 de agosto de 2010

William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra / Robert Hannah

"Sou obrigado a concluir que o sangue percorre sem cessar um circuito circular, que é função do coração propeli-lo através da pulsação, e que é esta a única razão para que o coração pulse." William Harvey

O medico britânico William Harvey (1578 – 1657) estudou na Itália, mais precisamente na cidade de Pádua, que à época abrigava a maior escola de anatomia do mundo. Durante seus estudos no exterior, ele descobre que o sangue sai do coração e segue através de um sistema de vasos fechados até a periferia do corpo e de lá retorna ao coração. Entende o médico que o coração, órgão que, acreditava-se ser a sede do amor e do afeto, é na verdade a bomba motora do sangue. William Harvey, descobre, assim, a circulação sanguínea. Ao regressar a Londres, Harvey é recebido em palácio pelo rei Carlos I.

Robert Hannah registrou esse momento no quadro intitulado: William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra:


Na pintura, vamos o médico, com orgulho de súdito, segurando em sua mão esquerda um coração aberto e explicando ao rei como o sangue se movimenta através das quatro cavidades. Ao lado de Harvey está presente uma criança que, com ar admirado, não percebe que está presenciando uma das cenas mais marcantes da história da Medicina. O príncipe, que calado a tudo assistia, ao crescer não quis ser médico, apesar de ter sido testemunha ocular de um evento histórico. Preferiu ser advogado, tendo se destacado na história do Direito ao instituir no mundo jurídico o instrumento do habeas corpus. Após ser coroado rei, escolheu ser chamado de James II.

Na Literatura: Em 1628 William Harvey publicou sua obra clássica: Exercitatio anatômica de motu cordis et sanguinis in animalibus, livro em que explica como o sangue flui do ventrículo esquerdo do coração para a aorta, sendo, então, distribuído para todas as partes do corpo; o sangue venoso é transportado pelas veias para o ventrículo direito, e da artéria pulmonar para os pulmões, onde novamente se transforma em sangue arterial. Após passar pelas veias pulmonares, o sangue chega à aurícula esquerda e dali volta para o ventrículo esquerdo.

Outra excelente obra de Harvey foi publicada em 1651, De generatione animalium é de vital importância na história da embriologia, pois contém a teoria da “epigênese” segundo a qual o organismo não existe como uma entidade diminuta dentro do óvulo, mas se desenvolve gradualmente.

Harvey morreu em 1657, deixando para posteridade a marca de seu trabalho.

REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Mente Artística de Virginia Apgar – Idealizadora da Escala de Apgar

Virginia Apgar, médica anestesiologista famosa por sua tremenda contribuição à neonatologia, também costumava tocar viola com reconhecida destreza. De sua mente criativa, impulsionada pela inclinação musical, brotou a idéia que revolucionaria a história da Medicina.

A violinista que criou os próprios instrumentos musicais

O interesse de Virginia pela música iniciou-se ainda na infância, provavelmente assistindo os concertos domiciliares promovidos pelo pai. Na vida adulta, já médica e cientista reconhecida, o apego à música era tanto que, conforme consta, ela sempre levava seus instrumentos às viagens científicas. Enquanto desbravava seu nome na história da medicina, Apgar tocou em três orquestras: Teaneck Symphony of New York, Amateur Music Players e Catgut Acoustical Society. A partir de um determinado momento de sua vida, a Dra. Virginia passou a construir seus próprios instrumentos musicais. Aparentemente simples, o violino moderno é composto por 70 peças independentes. Por essa razão, ou seja, dado a complexidade do engenho usualmente são necessários artesãos bem adestrados para a tarefa. Então, como uma médica anestesiologista – ocupadíssima em salvar recém-nascidos e devolvê-los ativos às mães – foi transformar-se numa fabricante de violinos? A história é a seguinte. Dentre suas pacientes, estava Carleen Hutchins, uma fabricante de instrumentos de cordas. Enquanto se recuperava da cirurgia, deitada num leito de hospital, Hutchins percebe, manuseando e percutindo uma espécie de concha onde se alojava o aparelho de telefone, que o material poderia muito bem transformar-se nas costas de uma viola. Hutchins dirige-se a sua médica, Virginia Apgar, e pergunta se ela poderia ter aquela concha. Virginia atenciosamente garantiu que logo consultaria a direção do hospital. Naturalmente, o hospital não permitiu a doação e, de pronto, uma das mulheres mais importantes da história da Medicina moderna e sua paciente arquitetaram um plano audacioso. Enquanto a primeira vigiava, a moribunda, armada com uma serra e uma barra, tratou de substituir a tão cobiçada concha por outra peça não muito diferente. O plano foi um sucesso! Se o gosto musical e a adversidade já uniam aquelas duas mulheres, agora um “golpe” as tornava cúmplices. A mistura entre atenção médica, música e crime fez surgir uma forte amizade entre médica e paciente. Nos anos que se seguiram, Apgar construiu uma viola, um violino, um mezzo violino e um violoncelo, tudo sob a orientação de Hutchins.

A criação da Escala de Apgar

Em 1952, Virginia fez sua maior intervenção na Pediatria, mais especificamente, na neonatologia. Graças a ela, sempre que uma criança nasce aplica-se um teste de vitalidade denominado Escala de Apgar. Freqüência cardíaca, esforço e frequência respiratória, reflexos, tônus muscular e cor da pele são os critérios aplicados ao rebento; Zero, 1 ou 2 pontos, são atribuídos, em ordem decrescente de gravidade, a cada um dos importantes parâmetros. Em função desses resultados um conjunto de cuidados especiais é imediatamente dispensado ao bebê. Antes deste teste, a atenção pós-parto era quase que totalmente dedicada às mães, advindo dessa prática altas taxas de mortalidade dos infantes. Esta brilhante idéia surgiu durante um café da manhã no hospital em que trabalhava, do qual participavam Virginia e um estudante de medicina. Por alguma razão desconhecida, o estudante chamou-lhe a atenção para a necessidade de se avaliar melhor as crianças que nasciam naquela instituição. Convencida, Virginia disse ao estudante: “Isto é fácil. Faça desta maneira.” Assim, tomando um pequeno pedaço de papel distribuído pelo refeitório com orientações sobre como carregar a própria bandeja, Virginia escreveu os critérios que definiriam afinal a consagrada Escala de Apgar. Os resultados superaram as expectativas dos membros do hospital, visto que o método reduziu drasticamente a mortalidade infantil. Hoje em dia, este é o primeiro teste a que se submete qualquer recém-nascido.

Em 1974, durante a cerimônia fúnebre de Apgar,o prof. Stanley James, ex-assistente da mestra, pronunciou as seguintes palavras: "Aprender, era o foco de sua vida. Sua curiosidade era insaciável... ela nunca estava satisfeita. Essa rara qualidade capacitou-a a seguir na vida sem que se deixasse enjaular pelos costumes ou tradiçoes". Sem dúvida alguma, o anseio por descobrir e fazer mais, sentimento que emoldurou a trajetória de Virginia Apgar, está firmemente alicerçado na curiosidade.

Os instrumentos construídos por Virginia hoje repousam na Universidade de Columbia, como um marco do zelo e carinho de Apgar pela inventividade artística e música erudita.

REFERÊNCIAS:
Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida, a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.
Goodwin, JW. “A personal recollection of Virginia Apgar. L Obstet Gynaecolofy; 2002.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os Barbeiros-cirurgiões na Arte

Durante a idade média, a cirurgia foi pouco beneficiada pelos progressos da anatomia. Os cirurgiões ainda eram considerados inferiores e, por conseguinte, mal remunerados. Nos séculos XVI e XVII, eram os barbeiros-cirurgiões - barbeiros que atuavam como médicos - que exerciam toda a prática manual da medicina através de pequenas cirurgias. Os profissionais desta área pertenciam a uma classe desprestigiada, cujo trabalho era basicamente mecânico, sem preparação científica. Somente em 1686, após a recuperação de Luís XIV de uma fístula anal crônica, nas mãos do cirurgião Félix, é que a prática cirúrgica provou ser nobre e rentável.

Uma gravura satírica, datada de 1570, demonstra bem a imagem que o público possuía dos barbeiros-cirurgiões, nela aparecem macacos utilizando os instrumentos dos barbeiros para tirar sangue, extrair dentes e cortar cabelos:

Isaac Koedyck (1616 -1677), sensibilizado com as críticas dirigidas a quem tratava dos humildes camponeses, documentou em sua obra a figura do barbeiro-cirurgião. Em duas de suas pinturas, eles aparecem trabalhando cuidadosamente nos pacientes:

O Barbeiro Cirurgião, Isaac Koedyck, 1647.

Um Cirurgião Barbeiro Cuidando do Pé de um Camponês, Isaac Koedyck, 1650.


Na literatura: Em “O Físico - A epopéia de um médico medieval”, Noah Gordon traz-nos um barbeiro cirurgião como personagem de sua obra magna. Barber, um homem amoral a viajar pelas cidades da Inglaterra, prometia cura para as enfermidades, vendendo seu específico: um xarope para quase todas as doenças. O velho barbeiro cirurgião ensinou muitas coisas a Rob, protagonista do livro que algum tempo depois viria a ser médico. Desde a arte do malabarismo até o método cirúrgico.

REFERÊNCIAS:
FIGUEIREDO, B. G.: ‘Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI(2): 277-91, jul.-out. 1999.
MARGOTTA, R. "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Esculápio e Telésforo

Esculápio, que na mitologia greco-romana representa o deus da medicina e da cura, é por vezes visto nas esculturas e pinturas apoiando-se em um bastão no qual enrola-se uma serpente.

É dessa forma que ele aparece numa antiga escultura em mármore, exposta no Museu do Louvre:

Asclépio e Telésforo. Museu do Louvre (Paris)

Em muitas ocasiões, a representação artística do deus da medicina se faz acompanhar de uma criança. Muitos médicos se perguntam: quem é o jovem que pode ser visto junto à perna esquerda de Esculápio? Trata-se de Telésforo, seu filho, deus da convalescença.