segunda-feira, 5 de julho de 2010

Síndrome de Jó

"Mesmo com a pele aos pedaços, eu verei a Deus." Jó 19:26

A síndrome de Jó ou síndrome da hiperimunoglobulina E, é uma rara condição de imunodeficiência, sem etiologia definida, caracterizada por infecções da pele associadas a níveis elevados de imunoglobulina E, que pode acometer também os tratos respiratórios superior e inferior. Primeiramente descrita por Davis em 1966, a síndrome recebeu essa denominação devido ao personagem bíblico Jó, cuja fé inabalável fora testada de diversas formas, inclusive através do incômodo causado pela presença de ferimentos cutâneos e pústulas.

Dermatologicamente, a doença se manifesta com erupções cutâneas moderadas a graves, pruriginosas e eczematosa. A erupção não tem variação sazonal e está presente, em algum grau, em todos os momentos. São comuns episódios intermitentes de abscessos por estafilococos.

Os sinais e sintomas são facilmente reconhecidos na leitura do livro bíblico de Jó:

Acometimento cutâneo: "A doença devora a sua pele, e a peste rói os seus membros." Jó 18:13

Acometimento difuso da pele:"E Satã saiu da presença de Javé. Satã feriu Jó com feridas graves, desde a planta do pé até à cabeça." Jó 2:7

Prurido: "Então Jó pegou num caco de telha para se coçar, sentado no meio da cinza." Jó 2:8

Pústulas: "A minha carne está cheia de vermes e feridas, e a minha pele rompe-se e supura." Jó 7:5

Não existe cura para esta condição.

Os "bichinhos de pelúcia" da corte francesa

A hipertricose (também conhecida como a síndrome do lobisomem), seja universal ou localizada, é uma doença de natureza endócrina perenizada em telas. A hipertricose generalizada pode ocorrer na anorexia nervosa, no hipotireoidismo, na porfiria, em certas doenças do sistema nervoso e com o uso drogas (ex: fenobarbital).

O primeiro caso de hipertricose foi documentado em 1648. Pedro Gonzales, sofreu de hipertricose universal (doença tão bizarra que beira a ficção).


Pedro Gonzales, seu filho, suas duas filhas e um neto foram afetados pelo transtorno e enviados à França como uma curiosidade para os nobres. Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canárias, em 1556, Pedro foi dado de presente à corte de Henrique II, como se fosse um bichinho de pelúcia.

Um dos primeiros casos conhecidos de hipertricose universal congênita foi, portanto, o de Pedro Gonzales. Em razão de sua inteligência e de sua presença marcante, Henrique II fez dele um de seus mais importantes embaixadores. A artista Lavinia Fontana de Zappis, filha do também artista Prosperam Fontana - amigo de Michelangelo Buonarroti e retratista do papa Júlio – representou artisticamente a hipertricose dos Gonzales. Abaixo, o retrato de Gonzales:

Gonzales (1585).Lavínia Fontana de Zappis (1552-1614).Óleo sobre tela.Castelo de Ambras (Innsbruck)

Nascida na Holanda em 1572, Antonieta Gonzales, conhecida por Tonina, herdou do pai, Pedro Gonzales, casado com uma bela holandesa, a hipertricose universal congênita.

Em 1592, Ulisses Aldrovandi, médico e professor da Universidade de Bolonha, examinou os Gonzales e documentou os casos em seu livro ilustrado com xilogravuras, o qual recebeu o título de História de Monstros. No final do capítulo, o médico registra ter recebido a notícia de que Tonina havia se casado e dado à luz um filho peludo. O óleo sobre tela ao lado, intitulado Filha de Gonzales foi pintado também por Lavinia Fontana em 1585, e encontra-se exposto no Kunsthistorishes Museum (Viena).

"Toninha" (Séc. XVI); Lavinia Fontana.

REFERÊNCIAS:
 1.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
2Cardoso CBMA, Bordallo MAN, CKA. Hirsutismo . Adolesc. Saude. 2005;2(1):37-40

domingo, 27 de junho de 2010

Theodor Billroth - Medicina e Música

“É uma das superficialidades do nosso tempo julgar como opostas a ciência e a arte. A imaginação é mãe de ambas.” Theodor Billroth

Christian Albert Theodor Billroth, conhecido como “pai” da moderna cirurgia abdominal, também foi um talentoso pianista e violinista amador.

O MÉDICO:

Billroth trabalhou como médico de 1853-1860 na Charité , em Berlim. De 1860-1867 foi professor na Universidade de Zurique e diretor do hospital cirúrgico de Zurique. Lá, publicou seu livro clássico: Die Allgemeine chirurgische Pathologie und Therapie (1863). Cinco anos depois, Billroth tornou-se professor de cirurgia na Universidade de Viena e, posteriormente, foi nomeado chefe da Clínica Cirúrgica II no Krankenhaus Allgemeine (Hospital Geral de Viena), foi nessa instituição que ele desenvolveu plenamente seus extraordinários talentos e inovações nas técnicas cirúrgicas. O quadro abaixo, pintado por Seligman em 1890, retrata Billroth operando no Krankenhaus Allgemeine:

O cirurgião, descrito como intuitivo e inventivo, foi responsável por uma série de cirurgias, incluindo a primeira esofagectomia (1871), a primeira laringectomia (1873) e a mais famosa, a gastrectomia (1881) para câncer gástrico que recebeu seu nome (Billroth I – gastrectomia com duodenostomia e Billroth II – gastrectomia com jejunostomia). Conta-se que Billroth foi apedrejado quase até a morte nas ruas de Viena, quando o primeiro paciente submetido à gastrectomia morreu após o procedimento.

O MÚSICO:

Relatos biográficos deixam claro que o primeiro amor de Billroth foi a música. Quando jovem, não pensava em ser médico; graças ao incentivo da mãe e família, entrou na escola médica, onde foi considerado um aluno deficiente e com incapacidade de se concentrar em quaisquer coisas que não a música. Tempos depois, apaixonado pela profissão de médico, o cirurgião escreveria “Descobri que a medicina é uma arte tão encantadora quanto as outras”. Passou a valorizar seu ofício, mas mesmo depois que tornou-se famoso como cirurgião, Billroth continuou a ser apaixonado por música clássica. Seus avós, ambos profissionais cantores de ópera, ensinaram-o a tocar piano durante a infância, desde então passou a ser familiarizado com as obras de compositores clássicos. Em 1960, Billroth conheceu Johannes Brahms, época em que o compositor era ainda uma estrela em ascensão da cena musical vienense. Eles se tornaram amigos íntimos, e, influenciado por ele, o cirurgião resolveu escrever um livro chamado "Wer ist Musikalisch?" , segundo ele, tratava-se de uma “pequena obra fisiológica e psicológica sobre a música”. A obra, publicada postumamente por Hanslick, foi uma das primeiras tentativas de aplicar métodos científicos à musicalidade. Em 1887, vítima de insuficiência cardíaca, Billroth morreu em Opatija, Áustria-Hungria , antes que pudesse concluir a investigação.

O notável médico historiador Henry Sigerist descreveu Billroth como um herói carismático e um dos mais agradáveis personagens da história da cirurgia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Kazi RA, Peter RE. "Christian Albert Theodor Billroth: master of surgery"; J Postgrad Med 2004; 50:82-83.
Tan S Y, MD, JD and Davis C A; “Theodor Billroth (1829-1894): pioneer of modern surgery”; Singapore Med J 2008; 49 (1) : 4

sábado, 26 de junho de 2010

Síndrome de Stendhal


"A beleza é apenas a promessa de felicidade" Stendhal

A rara Síndrome de Stendhal ou Síndrome da Sobredose de Beleza caracteriza a presença de sintomas num indivíduo sensível quando este se encontra diante de belas obras artísticas. Foi descrita em 1979, por Graziella Magherini, à época chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria Novella, em Florença. A psiquiatra observou que muitos turistas que visitavam Florença, quando portadores de grande sensibilidade emocional, eram afetados por um transtorno psíquico repentino. Foram identificados alguns sintomas comuns nessas pessoas, principalmente taquicardia, dispnéia e vertigem, que duravam desde momentos até diversos dias.

O nome escolhido para o distúrbio foi inspirado no grande escritor francês Stendhal (1783-1842), que descreveu em seu diário o transtorno emocional vivido ao visitar a Igreja de Santa Croce (Florença), a vertigem psíquica que ele sofreu foi tal, que o obrigou a sair da basílica para se recuperar:

"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)

O espectro de sintomas parece ser bem variado. Segundo Magherini, algumas pessoas sofrem com alucinações e até mesmo alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer em outras. A remissão costuma ser rápida, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos. Esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde, entretanto, insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera, que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.

O escritor russo Dostoiévski também foi acometido por estranhas sensações quando viu “Cristo morto”, de Hans Holbein (Museu da Basiléia):

"A visão do rosto de Cristo após seu martírio desumano era terrível... Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhar o quadro me fazia mal, e fui para outra sala. Voltei 20 minutos depois e Fiodor ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. Seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, ele se acalmou lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara". Por A. Snitkina (Esposa do escritor)




Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521).
Tão forte foi a emoção sentida por Dostoiévski diante do quadro que, no romance O Idiota, ele descreveu sua experiência de “estranha inquietação” ao ver a pintura, através do personagem Hipólito:

“[...] Lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. [..] Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. […] Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças.”
O Idiota, F.M. Dostoiévski
Marcel Proust (1871/1922), no quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido (A Prisioneira) relata a experiência do escritor Bergotte, frente ao quadro de Johannes Vermeer “A Vista de Delft”. A beleza provocou tão forte emoção, que o escritor sofreu um ataque fulminante e morreu ali mesmo, no chão do museu:

Jan Vermeer: Vista de Delft (1660). Óleo sobre tela. Museu Mauritshuis, Haia, Holanda

Curiosamente, a interessante síndrome serviu de mote para que o cineasta Dario Argento produzisse um filme (“La Síndrome di Stendhal”). Nele, a personagem principal “sente” os “sintomas” quando está frente ao quadro “A queda de Ícaro”, de Bruegel:



REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

MAGHERINI, Graziella. “La Sindrome di Stendhal”. Firenze, Ponte Alle Grazie, 1989. [1]
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
AMANCIO, Edson José. Dostoevsky and Stendhal´s sydrome. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2005, vol.63, n.4 [cited 2010-01-04], pp. 1099-1103
ALTIMARI, D.C; A Síndrome de Florença ou “Síndrome de Stendhal”; FCMSCSP

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman (Rembrandt)

Sucessor do Dr. Tulp, Joan Deyman também contratou Rembrandt para pintar sua lição de anatomia. Infelizmente, seu rosto não ficou para posteridade por meio desse quadro, datado de 1656, porque um incêndio, ocorrido em 8 de novembro de 1723, danificou a obra que estava exposta o Colégio Médico de Amsterdã. Para recuperar o quadro, dando-lhe estética, os especialistas em restauração foram obrigados a recortar a cabeça queimada do anatomista.

Rembrandt. A lição de anatomia do Dr. Deyman (1656). 100 x 134 cm. Rijksmuseum, Amsterdã.

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman é raríssima, pois trata-se de uma neurodissecação (os dois hemisférios cerebrais podem ser facilmente identificados).Por trás do cadáver identificamos o professor, cujas mãos, segurando um bisturi, é tudo o que restam dele.Na pintura, o anatomista é retratado retirando a foice do cérebro do espaço formado pela fissura longitudinal. O corpo que aparece é de Joris Fonteijn, um ladrão conhecido como “Black Jan”, condenado a morte em 27 de janeiro de 1656.A calota craniana é segurada por Gijsbert Kalkoen, filho de Matthys Evertsz Kalkoen (também pintado por Rembrandt, 24 anos antes, na Lição de Anatomia do Dr. Tulp). Talvez esta seja a única lição em que o corpo é colocado sobre a mesa na posição podo-cranial. Para pintar o cadáver nessa perspectiva, Rembrandt provavelmente inspirou-se na pintura O Cristo Morto (1480), de Mantegna.


O Cristo Morto,1480, Andrea Mantegna.

sábado, 19 de junho de 2010

História da Artrite do Artista / Pierre A. Renoir

"A dor passa, mas a beleza permanece." Renoir

No entendimento particular de que a genialidade é maior que a arte e de que a própria arte pode se traduzir facilmente através da genialidade, focalizo Pierre Auguste Renoir. Segundo o reumatologista Valderílio Azevedo, este conceito particular de genialidade está centrado numa tentativa de utilização por parte do ser humano de seus dons naturais em busca da superação de suas limitações e enfrentamento das ameaças à sua existência individual e da própria sociedade de que é parte. Nesse sentido, Renoir é considerado um gênio. Qualquer um que entre em contato com uma coleção de pintura francesa do século XIX sentirá, ao ver os quadros de Renoir, as mais joviais e festivas comemorações à vida retratadas. Suas pinturas, tão belas, são uma festa para os olhos. Renoir retratou a beleza da figura humana, da natureza e das paisagens, traduzindo-as em um espetáculo de cores, de alegria e júbilo com a vida. Mesmo sofrendo intensamente ao final de sua existência, não parou de pintar e de produzir arte.


Pierre Auguste Renoir (1841-1919) nascido em 25 de fevereiro de 1841, em Limoges (França), foi vítima de uma artrite reumatóide grave nas últimas décadas de sua vida. Há dúvida sobre o ano em que as manifestações surgiram, estudiosos crêem que em torno de 1892, quando Renoir tinha cerca de 50 anos de idade. Quando já com 60 anos (1903) a doença assumiu uma forma mais agressiva, e a progressão o fez ficar muito deficiente, principalmente a partir dos 70 anos de idade, nos últimos sete anos da sua vida. Apesar da ausência de registros médicos, é possível, graças às fotografias, cartas pessoais e notas biográficas de pessoas que o conheciam intimamente, ter uma idéia razoável sobre o curso de sua doença:

Fig.1: Fotografia do ano de 1896. Renoir com 55 anos. Observando atentamente a imagem, é possível vizualizar o inchaço das articulações metacarpofalangeanas:



Fig.2: Em 1903, vemos que a artrite assumiu uma forma mais agressiva. A fotografia revela que Renoir, na idade de 62 anos, tenta com dificuldade segurar o seu inseparável cigarro em suas mãos deformadas:


Fig.3: Quando Renoir tinha 71 anos, a natureza agressiva da doença atacou-o de tal forma que resultou na anquilose de seu ombro direito e rupturas de tendões extensores dos dedos e punhos, levando a função deficiente das mãos. Com essas mãos deformadas, ele continuou a enrolar seus cigarros e, segundo seu neto, produziu mais de 400 obras.


Uma série de imagens ilustra como a doença afetou suas pernas e pés. Em 1901, com 60 anos de idade, quando seu filho caçula Claude (Coco) nasceu, ele precisou usar uma bengala para se locomover (Fig.4). Já em 1908, tornou-se difícil andar com apenas uma, e Renoir passou a utilizar duas bengalas (Fig.5).





Fig.6: A partir de 1912, Renoir passou a ocupar uma cadeira de rodas. Nesta fotografia ele está sentado ao lado de suas telas e de sua modelo Dédée (Blonde à la Rose 1915).



Fig.7: As deformidades dos pés progrediram a tal ponto que o fez incapaz de usar sapatos. Seus pés tinham de ser envolvidos em chinelos de lã.



Fig. 8: A doença não impedia que Renoir continuasse seus passeios, e quando precisava ir a lugares em que era difícil chegar através da cadeira de rodas, o pintor pedia para ser transportado em sua liteira por seus amigos e familiares.



Há evidências de que a artrite reumatóide afetou não apenas as articulações. Alguns relatos afirmam que no início da doença Renoir foi acometido por uma pleurite e, posteriormente, por uma paralisia facial, que foi tratada com eletroterapia. Em 1904, na faixa etária de 63 anos, ele começou a perder massa magra por causa da caquexia reumatóide (Fig.9). Cinicamente, ele relata isso em uma carta: "É impossível ficar sentado porque sou extremamente magro. Não pode haver gordura em quarenta e seis quilos. Meus ossos estão furando a minha pele, apesar do meu bom apetite".

Fig. 10: Apesar das dores consideradas incapacitantes, da deformidade progressiva de suas mãos, da anquilose no ombro, e da dificuldade de segurar o pincel, Renoir continuou a realizar seu belíssimo trabalho. Quando ficou difícil segurar a paleta na mão, ele pediu para que ela fosse fixa, como uma mesinha rotatória, no braço de sua cadeira de rodas.Além disso, Renoir, para adaptar sua técnica de pintura, pedia que sua esposa amarrasse os pincéis em suas mãos.



Após 1912, os nódulos existentes em suas costas tornaram-se muito incômodos. No ano de 1913, estes nódulos foram removidos pelo Dr. Prat (cirurgião do Hospital Belvédère, em Nice). Em 1918 foi descrita uma gangrena no pé, mesmo ano em que, apesar de muito cuidado, ele desenvolveu escaras. É interessante observar que, surpreendentemente, o artista começou a esculpir durante os últimos 12 anos de sua vida. Quando a doença que o acometia já estava num estado bem avançado, Renoir fez um busto e mais tarde um medalhão (fig. 11) da cabeça de seu filho caçula.


Em 03 de dezembro de 1919, Renoir veio a falecer devido a uma pneumonia, depois de passar várias horas da noite pintando uma natureza morta, para representar as maçãs que Coco, seu filho predileto, trouxe-lhe numa cesta no dia anterior.

A atitude demonstrada por este artista no enfrentamento de seus problemas de saúde por meio das técnicas que utilizou para superar a dor e continuar pintando mesmo com as restrições imposta pela atividade da artrite reumatóide e por suas sequelas articulares, numa época em que as opções do tratamento eficaz desta enfermidade eram de certa forma muito pobres, faz dele um objeto de grande admiração.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.BOONEN, A., REST, Jan van; “How Renoir coped with rheumatoid arthritis” BMJ 1997;315:1704-1708
2. Azevedo, V; A Beleza e a Dor: artistas visuais famosos e suas doenças reumáticas; Curitiba: Artes Gráficas e Editora Unificado, 2008.
3.WHITHE , B; "Renoir, his life, art and letters". New York: Abrams, 1984.
4.LOUIE, J; "Renoir, his art and his arthritis." In: Appelboom T, ed. Art, history and antiquity of rheumatic diseases. Brussels: Elsevier, 1987:43-4.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Sibilos" na Literatura Francesa - Marcel Proust

Marcel Proust, no terceiro dos sete livros de Em Busca do Tempo Perdido intitulado O Caminho de Guermantes traz-nos um capítulo inteiro dedicado à doença de sua avó, onde conta de forma poética desde a história clínica até o prognóstico. Encontramos, no capítulo primeiro da segunda parte, uma artística descrição dos sibilos que surgiam "feito uma canção" do peito da enferma:

“[...]Eu saíra um instante do quarto. Quando tornei a entrar, achei-me como diante de um milagre. Acompanhada em surdina por um murmúrio incessante, minha avó parecia dirigir-nos um longo canto feliz que enchia o quarto, rápido e musical. Compreendi logo que esse canto não era menos inconsciente, que era tão puramente mecânico como o arquejar de há pouco. Provinha principalmente, como o ar já não passava da mesma forma pelos brônquios, de uma mudança no registro da respiração. Livre graças à dupla ação do oxigênio e da morfina, o sopro da minha avó não mais se debatia, não mais gemia, mas vivo, leve, deslizava, patinando, para o fluido delicioso. Talvez ao alento, insensível como o do vento na frauta de um caniço, se mesclasse, naquele canto, um desses suspiros mais humanos que, libertados à aproximação da morte, fazem acreditar em impressões de sofrimento e felicidade naqueles que já não sentem, e viessem acrescentar um acento mais melodioso, mas sem mudar-lhe o ritmo, àquela longa frase que se elevava, subia ainda mais, depois retombava, para lançar-se de novo, do peito aliviado, em perseguição do oxigênio. Depois, chegado assim tão alto, prolongado com tamanha força, o canto, mesclado de um murmúrio de súplica na volúpia, parecia em certos momentos parar de todo como uma fonte que se esgota.”