quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman (Rembrandt)

Sucessor do Dr. Tulp, Joan Deyman também contratou Rembrandt para pintar sua lição de anatomia. Infelizmente, seu rosto não ficou para posteridade por meio desse quadro, datado de 1656, porque um incêndio, ocorrido em 8 de novembro de 1723, danificou a obra que estava exposta o Colégio Médico de Amsterdã. Para recuperar o quadro, dando-lhe estética, os especialistas em restauração foram obrigados a recortar a cabeça queimada do anatomista.

Rembrandt. A lição de anatomia do Dr. Deyman (1656). 100 x 134 cm. Rijksmuseum, Amsterdã.

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman é raríssima, pois trata-se de uma neurodissecação (os dois hemisférios cerebrais podem ser facilmente identificados).Por trás do cadáver identificamos o professor, cujas mãos, segurando um bisturi, é tudo o que restam dele.Na pintura, o anatomista é retratado retirando a foice do cérebro do espaço formado pela fissura longitudinal. O corpo que aparece é de Joris Fonteijn, um ladrão conhecido como “Black Jan”, condenado a morte em 27 de janeiro de 1656.A calota craniana é segurada por Gijsbert Kalkoen, filho de Matthys Evertsz Kalkoen (também pintado por Rembrandt, 24 anos antes, na Lição de Anatomia do Dr. Tulp). Talvez esta seja a única lição em que o corpo é colocado sobre a mesa na posição podo-cranial. Para pintar o cadáver nessa perspectiva, Rembrandt provavelmente inspirou-se na pintura O Cristo Morto (1480), de Mantegna.


O Cristo Morto,1480, Andrea Mantegna.

sábado, 19 de junho de 2010

História da Artrite do Artista / Pierre A. Renoir

"A dor passa, mas a beleza permanece." Renoir

No entendimento particular de que a genialidade é maior que a arte e de que a própria arte pode se traduzir facilmente através da genialidade, focalizo Pierre Auguste Renoir. Segundo o reumatologista Valderílio Azevedo, este conceito particular de genialidade está centrado numa tentativa de utilização por parte do ser humano de seus dons naturais em busca da superação de suas limitações e enfrentamento das ameaças à sua existência individual e da própria sociedade de que é parte. Nesse sentido, Renoir é considerado um gênio. Qualquer um que entre em contato com uma coleção de pintura francesa do século XIX sentirá, ao ver os quadros de Renoir, as mais joviais e festivas comemorações à vida retratadas. Suas pinturas, tão belas, são uma festa para os olhos. Renoir retratou a beleza da figura humana, da natureza e das paisagens, traduzindo-as em um espetáculo de cores, de alegria e júbilo com a vida. Mesmo sofrendo intensamente ao final de sua existência, não parou de pintar e de produzir arte.


Pierre Auguste Renoir (1841-1919) nascido em 25 de fevereiro de 1841, em Limoges (França), foi vítima de uma artrite reumatóide grave nas últimas décadas de sua vida. Há dúvida sobre o ano em que as manifestações surgiram, estudiosos crêem que em torno de 1892, quando Renoir tinha cerca de 50 anos de idade. Quando já com 60 anos (1903) a doença assumiu uma forma mais agressiva, e a progressão o fez ficar muito deficiente, principalmente a partir dos 70 anos de idade, nos últimos sete anos da sua vida. Apesar da ausência de registros médicos, é possível, graças às fotografias, cartas pessoais e notas biográficas de pessoas que o conheciam intimamente, ter uma idéia razoável sobre o curso de sua doença:

Fig.1: Fotografia do ano de 1896. Renoir com 55 anos. Observando atentamente a imagem, é possível vizualizar o inchaço das articulações metacarpofalangeanas:



Fig.2: Em 1903, vemos que a artrite assumiu uma forma mais agressiva. A fotografia revela que Renoir, na idade de 62 anos, tenta com dificuldade segurar o seu inseparável cigarro em suas mãos deformadas:


Fig.3: Quando Renoir tinha 71 anos, a natureza agressiva da doença atacou-o de tal forma que resultou na anquilose de seu ombro direito e rupturas de tendões extensores dos dedos e punhos, levando a função deficiente das mãos. Com essas mãos deformadas, ele continuou a enrolar seus cigarros e, segundo seu neto, produziu mais de 400 obras.


Uma série de imagens ilustra como a doença afetou suas pernas e pés. Em 1901, com 60 anos de idade, quando seu filho caçula Claude (Coco) nasceu, ele precisou usar uma bengala para se locomover (Fig.4). Já em 1908, tornou-se difícil andar com apenas uma, e Renoir passou a utilizar duas bengalas (Fig.5).





Fig.6: A partir de 1912, Renoir passou a ocupar uma cadeira de rodas. Nesta fotografia ele está sentado ao lado de suas telas e de sua modelo Dédée (Blonde à la Rose 1915).



Fig.7: As deformidades dos pés progrediram a tal ponto que o fez incapaz de usar sapatos. Seus pés tinham de ser envolvidos em chinelos de lã.



Fig. 8: A doença não impedia que Renoir continuasse seus passeios, e quando precisava ir a lugares em que era difícil chegar através da cadeira de rodas, o pintor pedia para ser transportado em sua liteira por seus amigos e familiares.



Há evidências de que a artrite reumatóide afetou não apenas as articulações. Alguns relatos afirmam que no início da doença Renoir foi acometido por uma pleurite e, posteriormente, por uma paralisia facial, que foi tratada com eletroterapia. Em 1904, na faixa etária de 63 anos, ele começou a perder massa magra por causa da caquexia reumatóide (Fig.9). Cinicamente, ele relata isso em uma carta: "É impossível ficar sentado porque sou extremamente magro. Não pode haver gordura em quarenta e seis quilos. Meus ossos estão furando a minha pele, apesar do meu bom apetite".

Fig. 10: Apesar das dores consideradas incapacitantes, da deformidade progressiva de suas mãos, da anquilose no ombro, e da dificuldade de segurar o pincel, Renoir continuou a realizar seu belíssimo trabalho. Quando ficou difícil segurar a paleta na mão, ele pediu para que ela fosse fixa, como uma mesinha rotatória, no braço de sua cadeira de rodas.Além disso, Renoir, para adaptar sua técnica de pintura, pedia que sua esposa amarrasse os pincéis em suas mãos.



Após 1912, os nódulos existentes em suas costas tornaram-se muito incômodos. No ano de 1913, estes nódulos foram removidos pelo Dr. Prat (cirurgião do Hospital Belvédère, em Nice). Em 1918 foi descrita uma gangrena no pé, mesmo ano em que, apesar de muito cuidado, ele desenvolveu escaras. É interessante observar que, surpreendentemente, o artista começou a esculpir durante os últimos 12 anos de sua vida. Quando a doença que o acometia já estava num estado bem avançado, Renoir fez um busto e mais tarde um medalhão (fig. 11) da cabeça de seu filho caçula.


Em 03 de dezembro de 1919, Renoir veio a falecer devido a uma pneumonia, depois de passar várias horas da noite pintando uma natureza morta, para representar as maçãs que Coco, seu filho predileto, trouxe-lhe numa cesta no dia anterior.

A atitude demonstrada por este artista no enfrentamento de seus problemas de saúde por meio das técnicas que utilizou para superar a dor e continuar pintando mesmo com as restrições imposta pela atividade da artrite reumatóide e por suas sequelas articulares, numa época em que as opções do tratamento eficaz desta enfermidade eram de certa forma muito pobres, faz dele um objeto de grande admiração.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.BOONEN, A., REST, Jan van; “How Renoir coped with rheumatoid arthritis” BMJ 1997;315:1704-1708
2. Azevedo, V; A Beleza e a Dor: artistas visuais famosos e suas doenças reumáticas; Curitiba: Artes Gráficas e Editora Unificado, 2008.
3.WHITHE , B; "Renoir, his life, art and letters". New York: Abrams, 1984.
4.LOUIE, J; "Renoir, his art and his arthritis." In: Appelboom T, ed. Art, history and antiquity of rheumatic diseases. Brussels: Elsevier, 1987:43-4.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Sibilos" na Literatura Francesa - Marcel Proust

Marcel Proust, no terceiro dos sete livros de Em Busca do Tempo Perdido intitulado O Caminho de Guermantes traz-nos um capítulo inteiro dedicado à doença de sua avó, onde conta de forma poética desde a história clínica até o prognóstico. Encontramos, no capítulo primeiro da segunda parte, uma artística descrição dos sibilos que surgiam "feito uma canção" do peito da enferma:

“[...]Eu saíra um instante do quarto. Quando tornei a entrar, achei-me como diante de um milagre. Acompanhada em surdina por um murmúrio incessante, minha avó parecia dirigir-nos um longo canto feliz que enchia o quarto, rápido e musical. Compreendi logo que esse canto não era menos inconsciente, que era tão puramente mecânico como o arquejar de há pouco. Provinha principalmente, como o ar já não passava da mesma forma pelos brônquios, de uma mudança no registro da respiração. Livre graças à dupla ação do oxigênio e da morfina, o sopro da minha avó não mais se debatia, não mais gemia, mas vivo, leve, deslizava, patinando, para o fluido delicioso. Talvez ao alento, insensível como o do vento na frauta de um caniço, se mesclasse, naquele canto, um desses suspiros mais humanos que, libertados à aproximação da morte, fazem acreditar em impressões de sofrimento e felicidade naqueles que já não sentem, e viessem acrescentar um acento mais melodioso, mas sem mudar-lhe o ritmo, àquela longa frase que se elevava, subia ainda mais, depois retombava, para lançar-se de novo, do peito aliviado, em perseguição do oxigênio. Depois, chegado assim tão alto, prolongado com tamanha força, o canto, mesclado de um murmúrio de súplica na volúpia, parecia em certos momentos parar de todo como uma fonte que se esgota.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Autorretrato de Goya com o Doutor Arrieta

"Goya em gratidão ao seu amigo Arrieta pela competência e o cuidado com que ele salvou sua vida em sua doença aguda e perigosa sofrida no final de 1819 na idade de 73 anos. Pintou-o em 1820." F. Goya (inscrição que consta na parte inferior do Autorretrato de Goya com Dr. Arrieta)



Foi no outono de 1792 que Francisco José de Goya y Lucientes, pintor favorito dos reis de Bourbon, ficou febril e hemiplégico à direita, mesma época em que tornou-se surdo, possuía ele 46 anos de idade. Goya já tinha a saúde bastante debilitada, queixava-se frequentemente de fortes dores e fraqueza muscular, sintomas conseqüentes a uma intoxicação crônica resultante da absorção, por seu organismo, do chumbo (saturnismo) existente no pigmento branco da tinta que usava. Aos 73 anos (1819), sofreu novo acidente vascular cerebral, o que agravou sua hemiplegia. Seriamente doente, entregou-se aos cuidados do médico e amigo Eugenio García Arrieta. Logo que seu estado de saúde melhorou, Goya pintou o Autorretrato de Goya com o Doutor Arrieta para presentear ao médico como prova de sua gratidão pelo amparo recebido durante a doença. Nessa belíssima pintura, o artista retratou-se agonizante, com o rosto pálido, a boca ligeiramente aberta, aparentemente sem forças e sustentado pelo Dr. Arrieta, que com carinho e delicadeza ampara o enfermo enquanto lhe administra um medicamento por via oral.

sábado, 12 de junho de 2010

O Amor como Fator Patogênico/Thomas Mann

"É necessário arrancar o gênero humano dos estados primitivos do medo e da apatia passiva e conduzi-lo rumo à fase da atividade consciente do seu objetivo. É mister ensinar-lhe que desaparecem os efeitos cujas causas primeiro reconhecemos e depois abolimos, e que quase todos os males do indivíduo são enfermidades do organismo social." Thomas Mann

A Montanha Mágica, concluída por Thomas Mann em 1924, surgiu a partir de uma experiência pessoal cujo o escritor assim descreve: “Em 1912 minha esposa teve um problema pulmonar que, embora não sério, exigiu uma permanência de seis meses num sanatório em Davos, Suiça.” Hospedado numa localidade vizinha, Mann também ficou doente; o médico diagnosticou uma “mancha úmida” no pulmão e recomendou uma hospitalização, igualmente por seis meses. “Em vez disso”, conta Mann, “escrevi A Montanha Mágica.”

A citação abaixo, tema de grande controvérsia na área médica, faz parte de uma palestra em que um dos personagens, o psiquiatra do sanatório, Dr. Krokowski, explica aos pacientes a relação entre a doença e a paixão. O analista acredita que as enfermidades são resultado de uma sensibilidade exacerbada, o que facilitaria a suscetibilidade às moléstias:

Existia então uma tensão extraordinária, uma paixão que ultrapassava as medidas habituais, burguesas, e essa tensão se fazia sentir entre os dois grupos de forças, que eram a necessidade de amor e os impulsos contrários, dentre os quais cumpria mencionar a vergonha e o asco. Travada nos abismos da alma, essa luta impedia, nos ditos casos, que os instintos extraviados chegassem a ser abrigados, protegidos e moralizados, daquele modo que conduzia à harmonia usual e à vida erótica regular. E como terminava esse combate – pois tratava-se de um combate – entre as potências da castidade e do amor? Terminava,aparentemente, com a vitória da castidade. O medo, as conveniências, a repugnância pudica, o trêmulo desejo de pureza – todos eles oprimiam o amor, mantinham-no agrilhoado, nas trevas, davam acesso à consciência e à atividade, quando muito a uma parte, jamais, porém, ao todo múltiplo e vigoroso das suas reivindicações confusas. No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Eis o que disse o Dr. Krokowski:
– Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MANN, Thomas; A Montanha Mágica, 1924.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sinal de Babinski nas Representações Artísticas do Menino Jesus

O sinal de Babinski, observado quando há a extensão do hálux e a abertura em leque dos dedos em decorrência de um estímulo na planta do pé, foi descrito inicialmente por Joseph Jules François Félix Babinski (1903), neurologista que lhe dá o nome como indicativo de lesão neurológica. A presença do sinal representa a desinibição do reflexo espinal normal decorrente de lesão das vias inibitórias descendentes desde o cérebro ou medula espinal.

Clinicamente, o sinal de Babinski é produzido passando-se cuidadosamente na parte lateral do pé um objeto de ponta arredondada e estendendo o estímulo discretamente para o aspecto medial através da área metatársica. A resposta positiva tem dois componentes: dorsiflexão do hálux e abdução discreta (abertura em leque) dos outros artelhos. No reflexo normal, observado nas crianças com mais de dois anos e nos adultos, há a flexão plantar dos dedos do pé em resposta ao estímulo.



Grandes artistas, provando possuírem uma capacidade singular de observação, representaram a presença do sinal de Babinski no menino Jesus:







REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
2.KAHAN, Scott; Sinais e Sintomas; GUANABARA KOOGAN, RJ, 2005.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Manuel Bandeira - O Poeta Tuberculoso

Mas então não farei mais nada porque em mim o poeta é a tuberculose. Eu sou Manuel Bandeira, o Poeta Tísico. Manuel Bandeira

Em 1904, o jovem Bandeira, com apenas 18 anos, teve que abandonar o sonho de ser arquiteto devido a um diagnóstico de tuberculose, pois naquele tempo tal sentença equivalia a uma condenação. O poeta, convencido pelos médicos da impossibilidade de viver naquelas condições por mais de quinze anos, passou boa parte da vida esperando a morte iminente. À época, os tratamentos eram realizados em sanatórios situados em lugares elevados por causa dos supostos benefícios da atmosfera rarefeita das alturas, locais estes que possibilitavam também o isolamento e o repouso. Foi nesse ambiente tedioso que Bandeira iniciou sua atividade literária, talvez por isso seja a tuberculose tão marcante em sua obra; grande parte de seus escritos são dedicados à doença. Em Pneumotórax Manuel Bandeira fala de sua experiência pessoal:

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos, /
A vida inteira que poderia ter sido e não foi. /
Tosse, tosse, tosse. /
Mandou chamar o médico. /
Diga trinta e três. /
Trinta e três... trinta e três... trinta e três... /
Respire /
O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo /
e o pulmão direito infiltrado. /
Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax? /
Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

No tempo em que a tuberculose era considerada a “moléstia que não perdoa” o pneumotórax era o único procedimento capaz de aliviar a enfermidade; nos casos graves, quando já não era possível instituir nem esse tipo de tratamento, restava apenas a esperança ou, como diz Bandeira,“Tocar um tango argentino”.

Manuel não morreu por conta da temida tuberculose que tanto influenciou na criação de seus poemas. A doença tornou-se crônica e, com o bloco de fibrose que tinha em lugar de pulmão, conseguiu o poeta viver durante muitos anos. Sua morte (consequência de uma hemorragia digestiva alta) ocorreu apenas em 1968, possuía ele pouco mais de 80 anos.