segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Corcunda Quasímodo em “Notre Dame de Paris”

Em O Corcunda de Notre Dame, como é popularmente conhecido o livro Notre Dame de Paris (1831), de autoria do romancista francês Victor Hugo, encontramos no capítulo V do livro primeiro o seguinte trecho:

Não tentaremos dar ao leitor uma idéia desse nariz tetraédrico, dessa boca recurva como uma ferradura; desse pequenino olho esquerdo obstruído por uma sobrancelha ruiva e áspera como tojo, enquanto o olho direito desaparecia completamente sob a enorme verruga, dessa dentadura desordenada, aqui e além brechada, como as ameias de um forte; desse lábio caloso, por sobre o qual avança um desses dentes como uma presa de elefante; desse queixo fendido; e principalmente da fisionomia diluída sobre tudo isto; desse misto de malícia, de estranheza ou de mágoa [...] Uma cabeça gigantesca, erriçada de uma cabeleira ruiva; entre os dois ombros uma bossa enorme que, com o movimento, fazia vulto por diante; um sistema de coxas e pernas tão singularmente descambadas que apenas se podiam aproximar pelos joelhos e que, vistas de frente, pareciam duas lâminas recurvas de foice, unidas pelo cabo; pés largos, mãos monstruosas [...] Dir-se-ia um gigante despedaçado e inabilmente recomposto.[...] Quasímodo não respondeu; Era, com efeito, surdo. (Victor Hugo, 1831).

Observando a descrição detalhada que o autor faz a respeito de Quasímodo, é evidente supor que a grave deformidade física do personagem central deve-se as manifestações da sífilis congênita tardia:

Nariz Sifilítico ou em Sela“Nariz tetraédrico”
Microftalmia - “ pequenino olho esquerdo”
Ptose palpebral - “o olho direito desaparecia completamente sob a enorme verruga”
Fronte olímpica“Uma cabeça gigantesca”
Dentes de Hutchinson“dentadura desordenada, aqui e além brechada”
Cifose “entre os dois ombros uma bossa enorme que, com o movimento, fazia vulto por diante”
Genu Valgum“Um sistema de coxas e pernas tão singularmente descambadas que apenas se podiam aproximar pelos joelhos e que, vistas de frente, pareciam duas lâminas recurvas de foice, unidas pelo cabo.”
Acromegalia “Pés largos, mãos monstruosas”
Surdez neurológica - “Era, com efeito, surdo.”

REFERÊNCIAS:
1.HUGO, Victor "Nossa Senhora de Paris", EDIGRAF, São Paulo, 1958.
2,SARACENI, Valéria "A sífilis, a gravidez e a sífilis congênita",2005
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domingo, 9 de maio de 2010

O "Grande Mal" que deu Luz a "O Idiota", de Dostoiévski.

Sim, eu tenho a doença das quedas, a qual não é causa de vergonha para ninguém. E a doença das quedas não impede a vida. F.M. Dostoiévski

O escritor russo Fíodor M. Dostoiévski (1821-1881) foi vítima de uma epilepsia – possivelmente com foco epileptogênico no lobo temporal – que influenciou consideravelmente sua atividade artística. Encontramos em sua vasta obra três personagens portadores da síndrome: Smerdiakov, de Os Irmãos Karamázov; Kirilov, de Os Demônios e o protagonista de O Idiota, príncipe Míchkin.

Há relatos de que o autor apresentou, pelo menos, 500 crises epilépticas generalizadas (Grande Mal) entre os 25 e 60 anos de idade, quando veio a falecer por hemoptise decorrente de Tuberculose.

O romance O Idiota começou a ser produzido em setembro de 1867, em Genebra, Suíça, e fora concluído em meados de 1869, em Florença, Itália. Nesse período, o estado de saúde do autor era bem precário. Repetidos ataques epilépticos, mais fortes do que nunca, deixavam-no em lamentável situação de irritabilidade nervosa. A hiperestesia torturava-o, prejudicando-lhe a atividade intelectual. Em carta dessa época, Dostoiévski escreve: Pedem-me acabamento artístico, uma genuína expressão poética, sem o esforço tornar-se visível; lembram-me o exemplo de Tolstói e Gontcharov, mas não sabem as condições em que estou trabalhando.

Dostoiévski acreditava que um meio de conviver com uma doença crônica incurável seria usá-la como fonte de inspiração visando transformá-la por seu gênio artístico. O autor encontrou uma forma de provar isso transferindo poeticamente as manifestações de sua moléstia para um de seus grandes heróis, o príncipe Míchkin:

ESCOTOMA CINTILANTE COMO AURA:
...Lembrou-se, por exemplo, que sempre um minuto antes do ataque epiléptico, (quando lhe vinham ao estar acordado) lhe iluminava o cerébro, em meio à tristeza, ao abatimento e à treva espiritual, um jorro de luz e logo, com extraordinário ímpeto, todas as suas forças vitais se punham a trabalhar em altíssima tensão. A sensação de vivencia, a consciência do eu decuplicavam naquele momento, que era como um relâmpago de fulguração. O seu espírito e o seu coração se inundavam com uma extraordinária luz. Tal momento, tal relâmpago, que era apenas o prelúdio desse único segundo (que não era mais que um segundo) com que o ataque começava. Esse segundo era naturalmente insuportável.
MÚLTIPLOS ESCOTOMAS CINTILANTES NA AURA; O GRITO EPILÉPTICO (provocado quando, na fase de contração tônica, o ar é expulso através da glote fechada) E A CRISE GENERALIZADA:
... Apenas se recordou de que pensou ter gritado: "Parfion, mas é inacreditável!" e nisto alguma coisa pareceu girar em partículas diante dele! Toda a sua alma se inundou de intensa claridade interior. Duraria esse momento, o que? Meio segundo, talvez; mas ainda assim, clara e conscientemente se lembrou do começo, do primeiro som do pavoroso grito que rompeu do seu peito e que não pode evitar de modo algum. Depois a sua consciência instantaneamente se extinguiu e trevas completas se seguiram. Era um ataque epiléptico, o primeiro que tinha depois de uma longa pausa. É bem conhecido que o ataque epiléptico sobrevém inesperadamente. Nesse momento, o rosto se deforma horrivelmente, de modo particular os olhos. Não só o corpo inteiro como os traços do rosto trabalham com sacudidelas convulsivas e contorções.Um terrível e indescritível grito, que não se assemelha a coisa alguma é emitido pela vítima. Nesse grito tudo o quanto é humano fica obliterado; é impossível, ou dificílimo, ao observador, imaginar, ou admitir, que seja um homem quem o defere. É como se outro ser estivesse gritando dentro do homem. A cena de um homem acometido de ataque epiléptico enche os que testemunham de verdadeiro e inexprimível horror, tanto no acesso como no horror resultante havendo um elemento de mistério.
ESTADO PÓS-ICTAL (período logo após a crise marcado por disfunção da área cerebral afetada):
...Eu acabava de ter uma série violenta e lancinante de ataques da minha doença. Sempre que eu piorava e os acessos vinham com mais frequência, eu caía depois numa completa estupefação. Perdia a memória e, embora o meu cérebro trabalhasse, parecia que a sequência lógica das minhas idéias se tinham quebrado. Era incapaz de ligar mais do que dois ou três pensamentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
W.Kunze - O "Idiota" de Dostoiévski (na revista "Die-Drei", junho, 1924)
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
Lovell J. Epilepsy and art of F.M. Dostoievski. Aust Farm Physician 26 (1) 62-63, 1997


sábado, 8 de maio de 2010

O Anatomista Michelangelo Revelado no Teto da Capela Sistina

"Em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso ele se espelha." Trecho de soneto de Michelangelo

A CRIAÇÃO DE ADÃO - O criador está dentro de um corte sagital do crânio. Podem ser observados a calota craniana com as três camadas - Osso compacto interno, externo e díploe (a), o lobo temporal (b), a hipófise (c) e o tronco cerebral (d).

A ligação de Michelangelo com a medicina foi reflexo da efervescência cultural e científica do Renascimento. Antes de fazer o esboço das figuras que iria esculpir, Michelangelo empreendia uma investigação minuciosa, analisando corpos e fazendo moldes em cera ou madeira das estruturas. As primeiras sessões de dissecação de que participou, ainda adolescente, aconteceram por iniciativa de Elia Del Medigo, médico-filósofo que frequentava o palácio de Lorenzo de Medici.

Segundo um artigo publicado em 1990 pelo médico norte-americano Frank Lynn Meshberger no Journal of the American Medical Association, há uma interpretação, baseada na neuroanatomia para A criação de Adão: o contorno que se inicia no quadril do anjo em frente ao criador e continua ao longo dos ombros de Deus corresponde ao sulcus cinguli (fenda que separa os lobos parietal e temporal). A encharpe verde pendente corresponde à artéria vertebral em seu curso ascendente, curvando-se em torno do processo articular e fazendo contato com a superfície inferior da ponte cerebral, representada pelas costas do anjo que se estende lateralmente abaixo da figura do criador. O quadril e a perna esquerda do anjo corresponde ao cordão espinal. a haste e a hipófise são representadas pela perna e pelo pé do anjo na base da figura.

Nesse mesmo trabalho, Meshberger chama a atenção, ainda, para um detalhe sutil "... os pés de Deus e de adão possuem cinco dedos; no entanto, o do anjo, que representa a haste e a hipófise, possui um pé bífido. A perna direita desse mesmo anjo está flexionada no quadril e no joelho. A coxa representa o nervo óptico; o joelho, o quiasma óptico transeccionado; e a perna, o aparelho óptico."

Meshberger concluía o estudo afirmando que a intenção de Michelangelo seria a de representar Deus fornecendo a Adão o intelecto.

LEIA MAIS:

Michelangelo: O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso - Anatomia da Região Cervical

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MESHBERGER, Frank Lynn. "An interpretation of Michelangelo's creation of Adam based on neuroanatomy, Journal of the American Medical Association, vol.264, n-14, Blackwell publishing, 1990
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004