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sábado, 26 de junho de 2010

Síndrome de Stendhal


"A beleza é apenas a promessa de felicidade" Stendhal

A rara Síndrome de Stendhal ou Síndrome da Sobredose de Beleza caracteriza a presença de sintomas num indivíduo sensível quando este se encontra diante de belas obras artísticas. Foi descrita em 1979, por Graziella Magherini, à época chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria Novella, em Florença. A psiquiatra observou que muitos turistas que visitavam Florença, quando portadores de grande sensibilidade emocional, eram afetados por um transtorno psíquico repentino. Foram identificados alguns sintomas comuns nessas pessoas, principalmente taquicardia, dispnéia e vertigem, que duravam desde momentos até diversos dias.

O nome escolhido para o distúrbio foi inspirado no grande escritor francês Stendhal (1783-1842), que descreveu em seu diário o transtorno emocional vivido ao visitar a Igreja de Santa Croce (Florença), a vertigem psíquica que ele sofreu foi tal, que o obrigou a sair da basílica para se recuperar:

"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)

O espectro de sintomas parece ser bem variado. Segundo Magherini, algumas pessoas sofrem com alucinações e até mesmo alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer em outras. A remissão costuma ser rápida, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos. Esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde, entretanto, insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera, que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.

O escritor russo Dostoiévski também foi acometido por estranhas sensações quando viu “Cristo morto”, de Hans Holbein (Museu da Basiléia):

"A visão do rosto de Cristo após seu martírio desumano era terrível... Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhar o quadro me fazia mal, e fui para outra sala. Voltei 20 minutos depois e Fiodor ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. Seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, ele se acalmou lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara". Por A. Snitkina (Esposa do escritor)




Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521).
Tão forte foi a emoção sentida por Dostoiévski diante do quadro que, no romance O Idiota, ele descreveu sua experiência de “estranha inquietação” ao ver a pintura, através do personagem Hipólito:

“[...] Lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. [..] Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. […] Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças.”
O Idiota, F.M. Dostoiévski
Marcel Proust (1871/1922), no quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido (A Prisioneira) relata a experiência do escritor Bergotte, frente ao quadro de Johannes Vermeer “A Vista de Delft”. A beleza provocou tão forte emoção, que o escritor sofreu um ataque fulminante e morreu ali mesmo, no chão do museu:

Jan Vermeer: Vista de Delft (1660). Óleo sobre tela. Museu Mauritshuis, Haia, Holanda

Curiosamente, a interessante síndrome serviu de mote para que o cineasta Dario Argento produzisse um filme (“La Síndrome di Stendhal”). Nele, a personagem principal “sente” os “sintomas” quando está frente ao quadro “A queda de Ícaro”, de Bruegel:



REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

MAGHERINI, Graziella. “La Sindrome di Stendhal”. Firenze, Ponte Alle Grazie, 1989. [1]
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
AMANCIO, Edson José. Dostoevsky and Stendhal´s sydrome. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2005, vol.63, n.4 [cited 2010-01-04], pp. 1099-1103
ALTIMARI, D.C; A Síndrome de Florença ou “Síndrome de Stendhal”; FCMSCSP

sábado, 12 de junho de 2010

O Amor como Fator Patogênico/Thomas Mann

"É necessário arrancar o gênero humano dos estados primitivos do medo e da apatia passiva e conduzi-lo rumo à fase da atividade consciente do seu objetivo. É mister ensinar-lhe que desaparecem os efeitos cujas causas primeiro reconhecemos e depois abolimos, e que quase todos os males do indivíduo são enfermidades do organismo social." Thomas Mann

A Montanha Mágica, concluída por Thomas Mann em 1924, surgiu a partir de uma experiência pessoal cujo o escritor assim descreve: “Em 1912 minha esposa teve um problema pulmonar que, embora não sério, exigiu uma permanência de seis meses num sanatório em Davos, Suiça.” Hospedado numa localidade vizinha, Mann também ficou doente; o médico diagnosticou uma “mancha úmida” no pulmão e recomendou uma hospitalização, igualmente por seis meses. “Em vez disso”, conta Mann, “escrevi A Montanha Mágica.”

A citação abaixo, tema de grande controvérsia na área médica, faz parte de uma palestra em que um dos personagens, o psiquiatra do sanatório, Dr. Krokowski, explica aos pacientes a relação entre a doença e a paixão. O analista acredita que as enfermidades são resultado de uma sensibilidade exacerbada, o que facilitaria a suscetibilidade às moléstias:

Existia então uma tensão extraordinária, uma paixão que ultrapassava as medidas habituais, burguesas, e essa tensão se fazia sentir entre os dois grupos de forças, que eram a necessidade de amor e os impulsos contrários, dentre os quais cumpria mencionar a vergonha e o asco. Travada nos abismos da alma, essa luta impedia, nos ditos casos, que os instintos extraviados chegassem a ser abrigados, protegidos e moralizados, daquele modo que conduzia à harmonia usual e à vida erótica regular. E como terminava esse combate – pois tratava-se de um combate – entre as potências da castidade e do amor? Terminava,aparentemente, com a vitória da castidade. O medo, as conveniências, a repugnância pudica, o trêmulo desejo de pureza – todos eles oprimiam o amor, mantinham-no agrilhoado, nas trevas, davam acesso à consciência e à atividade, quando muito a uma parte, jamais, porém, ao todo múltiplo e vigoroso das suas reivindicações confusas. No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Eis o que disse o Dr. Krokowski:
– Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MANN, Thomas; A Montanha Mágica, 1924.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Grito Neurastênico de Munch

Eu não me desfaria da minha doença, pois há muita coisa em minha arte que devo a ela. Edvard Munch
O artista que mais enfatizou o aspecto humano da arte como um compromisso emocional e intelectual foi, sem dúvida, Edvard Munch. Uma citação de seu diário certifica essa afirmação: “Não devemos pintar interiores com pessoas lendo e mulheres tricotando; devemos pintar pessoas que vivem, respiram, sentem, sofrem e amam”.

Apesar de obter cedo o reconhecimento como o artista mais talentoso de sua geração, a maior ambição de Munch era empreender a expressão existencial por meio da arte. A vida do pintor fora marcada por perdas que influenciaram incisivamente sua atividade artística. Tanto as doenças quanto o sofrimento moldaram fortemente seu estilo pictórico.

Sua mãe, Laura Cathrine, faleceu em decorrência de uma tuberculose pulmonar quando Munch tinha apenas cinco anos de idade (1868); a mesma doença veio a matar, nove anos depois, sua jovem irmã Sophie, que à época tinha cerca de quinze anos.

A mãe morta e a criança
(1897-1899, óleo s/tela, 105 x 178,5 cm - Galeria Nacional, Oslo)

Obras como A Criança Doente (1886) e A Mãe Morta e a Criança (1900) expressam o sofrimento de Munch diante do falecimento da mãe e da irmã. Acima, Sophie aparece em primeiro plano, perto da cama, tapando os ouvidos com as mãos para não ouvir o chamado da morte.


A criança doente
(1896, óleo s/tela, 121,5 x 118,5 cm - Galeria Nacional, Oslo)

Para seguir carreira artística, Munch cortou relações com o pai, homem que, extremamente controlador e devoto, beirava a demência; também Laura (fonte de inspiração para A Melancolia), sua irmã favorita, portava doença bipolar e ficou internada durante muito tempo num hospital psiquiátrico.

Melancolia (Laura),1899. Óleo sobre tela 110 x 126cm. Galeria Nacional, Oslo.
Seu mais famoso quadro, onde é notável seu desespero existencial, foi pintado em 1893. N’O Grito ele expressou o seu cotidiano inferno interior e o mal-estar que a loucura lhe causava.

A estampa no fundo é a doca de Oslofjord, ao pôr-do-sol, em Oslo, em 26 de agosto de 1883. Dia em que um grande tsunami tirou do mapa a ilha vulcânica de Krakatoa, em Java, na Indonésia. A explosão de lava vulcânica colidindo com imensas ondas pôde ser sentida em diversas partes do mundo. O artista, que passava com seus amigos na zona portuária, grafou em seu diário: “De repente, tudo ficou vermelho e uma profunda melancolia e tensão se apossou de mim. Meus amigos foram embora e eu fiquei só, trêmulo e ansioso, como se tivesse ouvido um grito cortante e interminável atravessando a natureza”.

A obra também reflete o sofrimento mental pelo qual estava passando Munch em conseqüência de sua vida marcada por doenças. Os elementos reproduzidos são quase todos tortos para representar a dor que provocou um grito de forte intensidade. Também é válido atentar para a falta de cabelos, a qual demonstra um precário estado de saúde.

O Grito (1893, óleo s/tela, 91 x 73,5cm - Galeria Nacional, Oslo)

Especialista apontam a infância de Munch como um arsenal de desgraças. “Doença, loucura e morte foram os anjos que acompanharam -me no berço, e desde então tem me seguido durante toda a vida." Registrou o artista em seu diário.

Em 1890, Munch esteve internado durante dois meses em Le Havre, na França, para tratamento psiquiátrico. Em 1900, tratou-se na Suíça e, cinco anos depois na Turíngia, onde foi diagnosticado como portador de grave neurastenia.

O consumo excessivo de álcool, a fadiga pelo intenso trabalho e a decepção amorosa por um frustrado caso com uma mulher casada provocaram-lhe um esgotamento mental no ano de 1908, a partir de então, o pintor foi internado numa clínica em Copenhagen; meses depois, voltou pra Noruega, onde morou até falecer, em 23 de janeiro de 1944, vítima de uma pneumonia.

REFERÊNCIAS:
1. Marques, J. "Doenças e sofrimento moldaram o conjunto da obra do pintor norueguês Edward Munch". CREMESP, Edição 47. 2009.
2..BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003
3.http://www.edvardmunch.info/
4.Scream' Is Found Undamaged in Norway. New York Times. May 8, 1994. p8(N), p6(L), col 3
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Machado de Assis e "O Alienista"

Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia. Machado de Assis 
Considerada a primeira novela de Machado de Assis maduro, O Alienista (1882) conta a história de Simão Bacamarte, um conceituado médico interessado nos estudos psíquicos.


 O doutor, demasiadamente humano, inicia um estudo sobre a loucura e seus graus na diminuta população de Itaguaí. 
O nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral.
 A obra inclui críticas relacionadas às condições desumanas em que viviam os mentecaptos, destituídos de tratamento eficaz:
Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua.
Valorizando uma anamnese detalhada, o doutor Simão penetrava nas particularidades de cada doente.
Analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família.
Através dos ideais de um personagem médico, Machado de Assis dá-nos uma lição de atuação humanística. Simão Bacamarte exercia a Medicina incansavelmente, tratava os enfermos de modo exemplar, aplicava detalhes às histórias clínicas, instituía admiráveis formas de tratamentos individuais e, acima de tudo, não largava o paciente até julgá-lo completamente curado.

Confira alguns dos interessantes casos retratados na obra: 

 Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes ( porque não olhava nunca para nenhuma pessoa ) toda a sua genealogia, que era esta: —Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu. Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:—Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Não falo dos casos de monomania religiosa: citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.

REFERÊNCIAS:
MACHADO DE ASSIS - O Alienista