"A beleza é apenas a promessa de felicidade" Stendhal
A rara Síndrome de Stendhal ou Síndrome da Sobredose de Beleza caracteriza a presença de sintomas num indivíduo sensível quando este se encontra diante de belas obras artísticas. Foi descrita em 1979, por Graziella Magherini, à época chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria Novella, em Florença. A psiquiatra observou que muitos turistas que visitavam Florença, quando portadores de grande sensibilidade emocional, eram afetados por um transtorno psíquico repentino. Foram identificados alguns sintomas comuns nessas pessoas, principalmente taquicardia, dispnéia e vertigem, que duravam desde momentos até diversos dias.
O nome escolhido para o distúrbio foi inspirado no grande escritor francês Stendhal (1783-1842), que descreveu em seu diário o transtorno emocional vivido ao visitar a Igreja de Santa Croce (Florença), a vertigem psíquica que ele sofreu foi tal, que o obrigou a sair da basílica para se recuperar:"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)
O espectro de sintomas parece ser bem variado. Segundo Magherini, algumas pessoas sofrem com alucinações e até mesmo alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer em outras. A remissão costuma ser rápida, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos. Esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde, entretanto, insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera, que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.
O escritor russo Dostoiévski também foi acometido por estranhas sensações quando viu “Cristo morto”, de Hans Holbein (Museu da Basiléia):
"A visão do rosto de Cristo após seu martírio desumano era terrível... Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhar o quadro me fazia mal, e fui para outra sala. Voltei 20 minutos depois e Fiodor ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. Seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, ele se acalmou lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara". Por A. Snitkina (Esposa do escritor)
Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521).
Tão forte foi a emoção sentida por Dostoiévski diante do quadro que, no romance O Idiota, ele descreveu sua experiência de “estranha inquietação” ao ver a pintura, através do personagem Hipólito:
“[...] Lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. [..] Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. […] Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças.” O Idiota, F.M. Dostoiévski
Marcel Proust (1871/1922), no quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido (A Prisioneira) relata a experiência do escritor Bergotte, frente ao quadro de Johannes Vermeer “A Vista de Delft”. A beleza provocou tão forte emoção, que o escritor sofreu um ataque fulminante e morreu ali mesmo, no chão do museu:
Jan Vermeer: Vista de Delft (1660). Óleo sobre tela. Museu Mauritshuis, Haia, HolandaCuriosamente, a interessante síndrome serviu de mote para que o cineasta Dario Argento produzisse um filme (“La Síndrome di Stendhal”). Nele, a personagem principal “sente” os “sintomas” quando está frente ao quadro “A queda de Ícaro”, de Bruegel:
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:
MAGHERINI, Graziella. “La Sindrome di Stendhal”. Firenze, Ponte Alle Grazie, 1989. [1]
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
AMANCIO, Edson José. Dostoevsky and Stendhal´s sydrome. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2005, vol.63, n.4 [cited 2010-01-04], pp. 1099-1103
ALTIMARI, D.C; A Síndrome de Florença ou “Síndrome de Stendhal”; FCMSCSP





