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terça-feira, 6 de julho de 2010

Frida Kahlo: Vida Marcada por Doenças

"Pés, para que os quero se tenho asas para voar." Frida Kahlo

Maldalena Carmen Frida Kahlo retrata a trajetória de um dos maiores ícones das artes plásticas do México e do mundo. Com sua singular biografia e uma produção artística riquíssima, Frida expressava, em grande parte de suas pinturas, a dor e a mutilação, presentes, diariamente, em sua rotina de vida:

ESPINHA BÍFIDA

O primeiro problema neurológico apresentado por Frida Kahlo, espinha bífida, iniciou-se antes mesmo de seu nascimento. Espinha bífida significa espinha cindida ou dividida. Esta divisão se dá nas primeiras semanas de gravidez, quando a medula espinhal, então em formação, não se fecha corretamente. Dependendo da gravidade da fusão, a espinha bífida pode ser assintomática ou associada a diferentes manifestações esqueléticas, urogenitais e neurológicas, incluindo deformações e desordens tróficas das extremidades, paresia e outras. A maioria dos estudos bibliográficos ignoram tal patologia ou a citam de forma rápida, sem especificidade. Entretanto, sabe-se que a maior parte dos problemas ortopédicos apresentados pela pintora, têm relação direta com tal anormalidade do tubo neural. Apesar de não existirem documentos médicos especificando o defeito congênito, uma pintura intitulada: “O que eu vejo na água”, aponta tal anomalia. O elemento dominante da pintura é a presença dos pés aderidos na banheira. A presença de deformidades no hálux e segundo dedo no pé direito, é um defeito típico associado ao disrafismo congênito, incluindo a espinha bífida:



" O que eu vejo na água", 1938

Outro fato que marcou sua infância foi ter contraído poliomielite aos seis anos de idade. A doença a deixou como marcas a musculatura atrofiada e o membro inferior direito mais curto. Para encobrir a deficiência, Frida passou a usar saias longas como as das indígenas mexicanas. Já famosa, as intelectuais de sua época e as mulheres de um modo geral acharam que ela estava lançando moda e começaram a também usar aquelas saias longas.

TRAUMAS DA COLUNA VERTEBRAL E A “ÁRVORE DA ESPERANÇA”

Em 17 de setembro de 1925, na Cidade do México, um bonde bateu em um ônibus. O acidente seria esquecido se dentro do segundo veículo não estivesse a jovem Magdalena Carmen Frida Kahlo. A colisão moldou a existência da mais valorizada pintora latino-americana. Aos 18 anos, ela teve a coluna comprometida em três regiões, a perna dilacerada, o pé esmagado e a cintura pélvica fraturada. Uma barra de ferro ainda atravessou seu abdome. O sofrimento foi representado em sua arte com traços mórbidos:

Árvore da Esperança, Mantém-te Firme (1946).Frida Kahlo (1907-1954).Óleo. 56 x 40.5 cm. Galeria de Artes Isadora Ducasse (Nova York)

Sobre A Árvore da Esperança, Frida escreveu em seu diário: "Estou quase terminando o quadro que nada mais é que o resultado da tal operação. Estou sentada à beira de um precipício - com o colete em uma das mãos. Atrás estou deitada numa maca de hospital - com o rosto voltado para a paisagem - um tanto das costas está descoberto, onde se vê a cicatriz das facadas que me deram os cirurgiões filhos de sua recém-casada mamãe."

Segundo ela, um verdadeiro milagre a permitiu sobreviver: porém, lhe deixou graves seqüelas físicas. Devido a fratura de pelve, Frida foi informada de que não poderia ter filhos de parto normal, e era recomendável portanto que evitasse engravidar. O mesmo acidente destruiu seu sonho de ser médica. Em 1929 ela sofreu o primeiro aborto; em 1932, o segundo e último. Seu grande desejo era ter filhos, e a impossibilidade de concretizá-lo naturalmente deixou-a extremamente traumatizada.Felizmente, mais adiante, conseguiu voltar a caminhar. A artista foi submetida a mais de trinta operações e, mesmo assim, nunca deixou de pintar.

A COLUNA PARTIDA

Em 1944, Frida pintou o auto-retrato intitulado A Coluna Partida. A obra expressa o sofrimento da artista, pois sua saúde piorara a ponto de ter de usar um colete de aço. Uma coluna artificial, partida em vários lugares, toma o lugar de sua coluna fraturada. As rachaduras em seu corpo e os pregos espalhados pela superfície corporal são símbolos da dor e solidão:

“A coluna partida”, 1944.

A DOR DE UMA MÃE QUE PERDEU O FILHO

Em 1932, Frida pintou o quadro O Hospital Henry Ford, também conhecido como A Cama Voadora. O quadro mostra a pintora deitada no leito do hospital, localizado em Detroit, EUA. Flutuando sobre o leito, pode ser visto um feto do sexo masculino, um caramujo e um modelo anatômico de abdome e de pelve. No chão, abaixo do leito, são vistos uma pelve óssea, uma flor e um autoclave. Todas as seis figuras estão presas à mão esquerda de Frida por meio de artérias, de modo a lembrar os vasos de um cordão umbilical. O lençol sob Frida está bastante ensangüentado. Seu corpo é demasiadamente pequeno em relação ao tamanho do leito hospitalar, de modo a sugerir seu sofrimento e sua grande solidão:


Cama Voadora (1932).Frida Kahlo (1907-1954).Óleo sobre metal 77,5 x 96,5.Coleção Fundaçao Dolores Olmedo (México)

Do olho esquerdo de Frida goteja uma enorme lágrima, simbolizando a dor de uma mãe pela perda do filho; a pelve óssea é um testemunho da causa anatômica da impossibilidade de ser mãe.

O CARINHO POR SEU MÉDICO NO PERÍODO MARCADO POR INÚMERAS CIRÚRGIAS (1950-1951)

"Estive doente durante um ano: 1950-1951. Sete operações na coluna. O Dr. Farill salvou-me. Restituiu-me a alegria de viver. Ainda estou numa cadeira de rodas e não sei quando poderei voltar a andar de novo.Tenho um colete de gesso que, em vez de ser horrivelmente maçador, me ajuda a suportar melhor a coluna. Não sinto dores, só um grande cansaço... e, como é natural, por vezes desespero. Um desespero indescritível. No entanto quero viver. Já comecei o pequeno quadro que vou dar ao Dr. Farill e que estou fazendo com todo meu carinho por ele”.

“Auto-Retrato com o Dr. Juan Farril”, 1951

Nessa pintura, Frida Kahlo aparece numa cadeira de rodas, em frente a um retrato do seu médico, num cavalete. Uma espécie de oferenda ao médico que salvou a artista do seu sofrimento e aparece no lugar de santo. A paciente pinta a tela com seu próprio sangue e utiliza o coração como pincel.

EPISÓDIO DA AMPUTAÇÃO

Em 27 de julho de 1953, Frida tem a perna direita amputada até a altura do joelho. Em seu diário, encontra-se o desenho da perna amputada como uma coluna rodeada de espinhos.

"Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida.Vou esperar mais um pouco..."

Após atentar diversas vezes contra a própria vida, Frida Kahlo, que havia contraído uma grave pneumonia, foi encontrada morta no dia 13 de julho de 1954. Embolia pulmonar é a causa registrada em seu atestado de óbito, no entanto, a última anotação em seu diário permite aventar-se a hipótese de suicídio:

"Espero alegre a saída e espero nunca voltar."

Apesar do explícito sofrimento em sua obra, Frida nunca pintou com o interesse de se lastimar; pelo contrário, as imagens cruentas que vemos em muitos de seus quadros – colunas partidas, abortos, sangue, mortes – manifestam uma espécie de provocação, de atitude desafiante frente ao mundo, porque ela era assim. Fosse para buscar a si mesma ou para expressar toda sua sensibilidade, Frida retratou-se no conjunto de sua obra. Poucos artistas se revelaram tanto. Poucos tiveram – como ela teve – na arte o seu maior conforto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Marco Orsini 1; Marcos RG de Freitas 2; “Frida Kahlo: A arte como desafio à deficiência e à dor, com enfoque na poliomielite anterior aguda” Rev Bras Neurol,44,3:5-12;2008
BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman (Rembrandt)

Sucessor do Dr. Tulp, Joan Deyman também contratou Rembrandt para pintar sua lição de anatomia. Infelizmente, seu rosto não ficou para posteridade por meio desse quadro, datado de 1656, porque um incêndio, ocorrido em 8 de novembro de 1723, danificou a obra que estava exposta o Colégio Médico de Amsterdã. Para recuperar o quadro, dando-lhe estética, os especialistas em restauração foram obrigados a recortar a cabeça queimada do anatomista.

Rembrandt. A lição de anatomia do Dr. Deyman (1656). 100 x 134 cm. Rijksmuseum, Amsterdã.

A Lição de Anatomia do Dr. Deyman é raríssima, pois trata-se de uma neurodissecação (os dois hemisférios cerebrais podem ser facilmente identificados).Por trás do cadáver identificamos o professor, cujas mãos, segurando um bisturi, é tudo o que restam dele.Na pintura, o anatomista é retratado retirando a foice do cérebro do espaço formado pela fissura longitudinal. O corpo que aparece é de Joris Fonteijn, um ladrão conhecido como “Black Jan”, condenado a morte em 27 de janeiro de 1656.A calota craniana é segurada por Gijsbert Kalkoen, filho de Matthys Evertsz Kalkoen (também pintado por Rembrandt, 24 anos antes, na Lição de Anatomia do Dr. Tulp). Talvez esta seja a única lição em que o corpo é colocado sobre a mesa na posição podo-cranial. Para pintar o cadáver nessa perspectiva, Rembrandt provavelmente inspirou-se na pintura O Cristo Morto (1480), de Mantegna.


O Cristo Morto,1480, Andrea Mantegna.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sinal de Babinski nas Representações Artísticas do Menino Jesus

O sinal de Babinski, observado quando há a extensão do hálux e a abertura em leque dos dedos em decorrência de um estímulo na planta do pé, foi descrito inicialmente por Joseph Jules François Félix Babinski (1903), neurologista que lhe dá o nome como indicativo de lesão neurológica. A presença do sinal representa a desinibição do reflexo espinal normal decorrente de lesão das vias inibitórias descendentes desde o cérebro ou medula espinal.

Clinicamente, o sinal de Babinski é produzido passando-se cuidadosamente na parte lateral do pé um objeto de ponta arredondada e estendendo o estímulo discretamente para o aspecto medial através da área metatársica. A resposta positiva tem dois componentes: dorsiflexão do hálux e abdução discreta (abertura em leque) dos outros artelhos. No reflexo normal, observado nas crianças com mais de dois anos e nos adultos, há a flexão plantar dos dedos do pé em resposta ao estímulo.



Grandes artistas, provando possuírem uma capacidade singular de observação, representaram a presença do sinal de Babinski no menino Jesus:







REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
2.KAHAN, Scott; Sinais e Sintomas; GUANABARA KOOGAN, RJ, 2005.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Smierdiakov - O Epiléptico em "Os Irmãos Karamazov" de Dostoiévski

"O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente." F.M. Dostoiévski

O livro que segundo Sigmund Freud classifica-se como “a maior obra da história” traz-nos uma surpresa atrás da outra quanto à epilepsia do personagem parricida de Dostoiévski.

Filho de uma mendiga sem juízo, Smierdiakov cresceu como criado na casa do provável pai, que nunca o reconheceu como filho. Acometido pela síndrome desde a infância, o menino apresentou inúmeras crises generalizadas, inclusive do tipo pequeno mal.

No decorrer da história, Dostoiévski faz uma curiosa comparação da possível crise de ausência de Smierdiakov com o quadro de um famoso pintor russo:

[...] Uma semana depois, teve ele uma primeira crise de epilepsia, doença que não o deixou mais dali por diante. Os ataques variavam de intensidade, ora fraquíssimos, ora violentos.[...]Às vezes, em casa, no pátio ou na rua, acontecia do rapaz parar, deter-se ensimesmado, e ficar assim uma dezena de segundos. O fisionomista que o olhasse veria que ali não havia pensamento nem idéia, apenas uma espécie de devaneio. Há um notável quadro do pintor Kramskói, intitulado O Contemplativo. Uma floresta no inverno; sobre a estrada vê-se um mujique, vestido com um cafetã rasgado e com sapatos de tília. Ali está numa solidão profunda e parece refletir, mas não pensa, contempla alguma coisa. Se se desse nele um encontrão, certamente estremeceria e nos fitaria como quem desperta dum sono profundo, mas sem compreender. Voltaria logo a si, é verdade; mas se lhe perguntassem em que pensava, com toda certeza não se lembraria de nada. (Dostoiévski.)

Na trama, Smierdiakov tem uma crise logo após cometer um crime, a partir daí, entra num estado de mal epiléptico:

“Deram-lhe a entender que era uma crise extraordinária, que se repetira diversas vezes, pondo em perigo a vida do doente. Agora, graças às medidas tomadas, podia-se afirmar que ele escaparia, mas talvez, acrescentou o Doutor Herzenstube, sua razão ficasse perturbada, se não para sempre, pelo menos por muito tempo.”

Essa condição levou o juri a crer que no momento do assassínio Smierdiakov já estava em crise e o fato de ser "doente" tornou-o insuspeito de ter matado o pai, culpa que cai sobre seu irmão mais velho, que é condenado injustamente em seu lugar.

Leia Mais: O Grande Mal que deu Luz a "O Idiota" De Dostoiévski: http://bit.ly/9F5CWP

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DOSTOIÉVSKI, Fíodor; Os Irmãos Karamazov, trad. Raquel de Queiroz, JOSÉ OLYMPIO, RJ, 1962

terça-feira, 1 de junho de 2010

Síndrome de Alice no País das Maravilhas (SAPM) / Síndrome de Todd

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.
“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”
“Como sabe que sou louca?” perguntou Alice.
“Só pode ser”, respondeu o Gato, “do contrário, não estaria aqui.” Lewis Carroll

A Síndrome de Todd foi descrita em 1955 pelo psiquiatra inglês John Todd que, leitor e fã de Lewis Carroll, propôs que a chamassem de Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Trata-se de uma desordem neurológica que afeta a condição humana de percepção, proporcionando uma distorção do espaço, tempo e imagem corporal. Está freqüentemente associada com tumores cerebrais, uso de drogas psicoativas (incluindo cogumentos alucinógenos; LSD) e, principalmente, com enxaqueca. Seja qual for a causa, as distorções podem ocorrer várias vezes ao dia e podem durar de minutos a semanas. O sofredor vê os objetos com o tamanho e/ou forma errada, há uma considerável alteração da perspectiva e do senso do tempo; é comum a distorção do tamanho de outras modalidades sensoriais, bem como a imagem do próprio corpo. Afeta também sensação de toque e audição; usualmente ocorrem intensas alucinações e a interpretação de diversos eventos pode estar prejudicada. Alguns distúrbios podem estar associados, dentre eles: apraxia, agnosia, alterações de linguagem e delírios. A leitura de “Alice Através do Espelho” e “Alice no País das Maravilhas” possibilita-nos conhecer as evidências sintomatológicas que justificam tal nomenclatura:


Macropsia
[...] Era certamente um Mosquito muito grande: “Mais ou menos do tamanho de uma galinha”, Alice pensou.
[...] "E que flores enormes devem ser aquelas!” foi o que pensou em seguida. “Como se fossem cabanas sem teto e com hastes... e que quantidade de mel devem produzir.”


Micropsia
[...] No entanto, aquilo era tudo menos uma abelha comum: era um elefante...

Alteração da perspectiva
[...] quanto mais ando em direção ao ovo, mais longe ele parece ficar.
[...] A loja parecia cheia de toda sorte de coisas curiosas... mas o mais estranho de tudo era que, cada vez que fixava os olhos em alguma prateleira para distinguir o que havia nela, essa prateleira especifica estava sempre completamente vazia, embora as outras em torno estivessem completamente abarrotadas.


Alucinação
[...] Todo tipo de coisas aconteceu ao mesmo tempo. As velas cresceram todas até o teto, parecendo um canteiro de juncos com fogos de artifício na ponta. Quanto as garrafas, cada uma se apossou de um par de pratos, ajeitando-os rapidamente como se fossem asas, e assim, usando garfos como pernas, saíram esvoaçando para todo lado –“se parecem muito com pássaros”, pensou Alice.

Afetação tátil
[...] No seu pavor, agarrou o que estava mais perto da sua mão, que calhou ser a barba da Cabra. Mas a barba pareceu se dissolver quando ela a tocou.

Afetação da linguagem
[...] “Cada vez mais estranhíssimo!” exclamou Alice (a surpresa fora tanta que por um instante realmente esqueceu como se fala direito)
[...] Começou a recitar, mas sua voz soava rouca e estranha e as palavras não vieram como costumavam.

Afetação auditiva
[...] De onde vinha o barulho, Alice não conseguia distinguir: o ar parecia repleto dele, e ressoava em toda a sua cabeça até deixá-la completamente surda.

Distorção da percepção das formas
[...] Alice agarrou o bebê com certa dificuldade, pois a criaturinha tinha uma forma estranha, com braços e pernas esticados em todas as direções “Igualzinho a uma estrela do mar” pensou Alice.
[...] Não havia a menor dúvida de que possuía um nariz extremamente arrebitado; além disso, os olhos eram um tanto miúdos para um bebê: no todo, Alice não gostou da aparência da criatura.

Distorção da percepção da própria imagem corporal
[...] Seu queixo estava tão comprido contra seu pé que mal tinha como abrir a boca.
[...] descobriu que não achava seus ombros em lugar algum: tudo o que conseguia ver, quando olhava pra baixo, era uma imensa extensão de pescoço.

Sensação de encolhimento ou crescimento
[...] Que sensação estranha!” disse Alice; “devo estar encolhendo como um telescópio!”
[...] ”Agora já estou espichando como o maior telescópio que já existiu! Adeus, pés!” (pois quando olhou para eles, pareciam quase fora do alcance de sua vista, de tão distantes).
[...] Sentiu a cabeça forçando o teto e teve de se abaixar para não quebrar o pescoço”.

Dissociação [...] “Quem é você?” perguntou a lagarta
“Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então”
“Que quer dizer com isso? Esbravejou a Lagarta. “explique-se!”
“receio não poder explicar”, respondeu Alice “porque não sou eu mesma, entende?”
“Então, acha que está mudada, não é?”
“Receio que sim, Sir”, disse Alice. “Não consigo me lembrar das coisas como antes...”

[...] “E agora, quem sou eu? Vou me lembrar, se puder! Estou decidida!” mas estar decidida não ajudou muito...

Micropsia + Macropsia
[...]Mas a rainha já não estava ao seu lado: reduzira-se subitamente ao tamanho de uma bonequinha, e agora estava sobre a mesa, correndo alegremente em voltas e mais voltas à procura de seu xale, que se arrastava atrás dela [...] só seu rosto foi ficando muito pequeno, e os olhos ficando grandes e verdes, e cada vez mais, enquanto Alice continuava a sacudi-la, ia ficando menor... e mais gordinha... e mais macia... e mais redonda... e...afinal de contas era mesmo uma gatinha.
[...]Mais tarde, contou que nunca em toda sua vida vira uma cara como a que o Rei fez ao ser erguido e espanado no ar por uma mão invisível. Ele ficou espantado demais para gritar, mas seus olhos e sua boca foram ficando cada vez maiores, e cada vez mais redondos...

A obra de Carroll também é responsável por outro epônimo médico: a Síndrome de Cheshire Cat (SCC), descrita pela primeira vez em 1968 pelo médico britânico Eric George Lapthorne Bywaters.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
J. Todd:
Alice in Wonderland syndrome. Canadian Medical Association Journal, Ottawa
Lewis Carroll:
Alice no País das Maravilhas. Londres 1865.
Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá



sábado, 22 de maio de 2010

A Lição Clínica do Doutor Charcot

Uma teoria, por mais excelente que seja, não coíbe a existência. Jean M. Charcot

Jean Martin Charcot, que com justiça é considerado o pai da neurologia moderna, lecionou na Universidade de Paris de 1860 a 1893. Jovem de sensibilidade artística, teria sido pintor ou arquiteto, mas como também gostava de ler, o pai encaminhou-o à medicina. O grande clínico marcou sua carreira com uma série de brilhantes trabalhos, descreveu magistralmente a histeria, a atrofia muscular progressiva, esclerose múltipla, paralisia agitante e esclerose lateral amiotrófica (esta última, em sua homenagem, é denominada “doença de Charcot”). O vienense Pierre Charroux imortalizou uma aula sobre histeria ministrada pelo Dr. Charcot no Hospital Salpêtriére:

Une leçon clinique à la Salpêtrière, Pierre-André Brouillet Charroux,1887. Óleo sobre tela, Museu de Nice.

A paciente, em opistótono, chama-se Blanche Wittman. Provavelmente tratava-se de um caso grave, deduzimos isso ao observar a maca da paciente denunciando sua incapacidade de deambulação. Amparando com o braço esquerdo a paciente espástica, encontramos o Dr. Babinski (o do sinal de Babinski), à época seu aluno.



É oportuno destacar que quando Charcot chegou pra trabalhar em Salpêtriere, em 1862, acreditava-se que a doença histeria (do grego, hystéra = útero) era uma desordem do sistema nervoso de fundo emocional, causada por alterações nos fluidos uterinos.Esse termo vinha de longe. Designava, desde a antiguidade, uma desordem paroxística semelhante à epilepsia (a ala que Charcot chefiava era o Setor de Epilepsia Simples), originada no útero, que era considerado um ser autônomo:
“No meio da bacia, encontra-se o útero, órgão sexual que se diria dotado de vida própria. Move-se espontaneamente [...] dirigindo-se para o lado direito, para o esquerdo. Gosta dos odores agradáveis e deles se aproxima” Hipócrates
“Platão comparou o útero a um animal ávido de procriação que, frustrado em seu desejo, causa desordens em todo o corpo”. Galeno

A histeria seria o resultado do “sufocamento” do útero, manifestando-se por dificuldade de respirar, palpitações, perda de voz, ansiedade e confusão. Lembremos que na renascença esses sintomas eram interpretados como evidência de bruxaria ou possessão, e as vítimas eram submetidas à inquisição.

“São submetidas a torturas atrozes e abomináveis, até confessarem” Cornelius Agrippa

Tudo coincide num ponto: histeria é doença de mulher. De início, Charcot retorna à teoria uterina e fala de uma “hipersensibilidade ovariana” nas histéricas. Com isso, não são poucos os ovários extraídos para curar a doença. Depois, experimenta com mentais,com a hipnose. Tropeça sempre com um problema: neurologista, ele raciocina em termos de lesões do sistema nervoso – que não existem na histeria. Finalmente, chega a idéia da histeria traumática. À época, tornavam-se comuns os acidentes, sobretudo em estradas de ferro. As vítimas frequentemente ficavam com sintomas histéricos; por exemplo, paralisias, pelas quais pediam indenização. Mediante hipnose, Charcot produz sintomas semelhantes, mostrando assim que não se trata de lesão orgânica. O pai da neurologia também foi professor de seu amigo Sigmund Freud, que aprendeu com ele a hipnotizar seus pacientes.

Hospital Salpêtrière, Paris.

domingo, 9 de maio de 2010

O "Grande Mal" que deu Luz a "O Idiota", de Dostoiévski.

Sim, eu tenho a doença das quedas, a qual não é causa de vergonha para ninguém. E a doença das quedas não impede a vida. F.M. Dostoiévski

O escritor russo Fíodor M. Dostoiévski (1821-1881) foi vítima de uma epilepsia – possivelmente com foco epileptogênico no lobo temporal – que influenciou consideravelmente sua atividade artística. Encontramos em sua vasta obra três personagens portadores da síndrome: Smerdiakov, de Os Irmãos Karamázov; Kirilov, de Os Demônios e o protagonista de O Idiota, príncipe Míchkin.

Há relatos de que o autor apresentou, pelo menos, 500 crises epilépticas generalizadas (Grande Mal) entre os 25 e 60 anos de idade, quando veio a falecer por hemoptise decorrente de Tuberculose.

O romance O Idiota começou a ser produzido em setembro de 1867, em Genebra, Suíça, e fora concluído em meados de 1869, em Florença, Itália. Nesse período, o estado de saúde do autor era bem precário. Repetidos ataques epilépticos, mais fortes do que nunca, deixavam-no em lamentável situação de irritabilidade nervosa. A hiperestesia torturava-o, prejudicando-lhe a atividade intelectual. Em carta dessa época, Dostoiévski escreve: Pedem-me acabamento artístico, uma genuína expressão poética, sem o esforço tornar-se visível; lembram-me o exemplo de Tolstói e Gontcharov, mas não sabem as condições em que estou trabalhando.

Dostoiévski acreditava que um meio de conviver com uma doença crônica incurável seria usá-la como fonte de inspiração visando transformá-la por seu gênio artístico. O autor encontrou uma forma de provar isso transferindo poeticamente as manifestações de sua moléstia para um de seus grandes heróis, o príncipe Míchkin:

ESCOTOMA CINTILANTE COMO AURA:
...Lembrou-se, por exemplo, que sempre um minuto antes do ataque epiléptico, (quando lhe vinham ao estar acordado) lhe iluminava o cerébro, em meio à tristeza, ao abatimento e à treva espiritual, um jorro de luz e logo, com extraordinário ímpeto, todas as suas forças vitais se punham a trabalhar em altíssima tensão. A sensação de vivencia, a consciência do eu decuplicavam naquele momento, que era como um relâmpago de fulguração. O seu espírito e o seu coração se inundavam com uma extraordinária luz. Tal momento, tal relâmpago, que era apenas o prelúdio desse único segundo (que não era mais que um segundo) com que o ataque começava. Esse segundo era naturalmente insuportável.
MÚLTIPLOS ESCOTOMAS CINTILANTES NA AURA; O GRITO EPILÉPTICO (provocado quando, na fase de contração tônica, o ar é expulso através da glote fechada) E A CRISE GENERALIZADA:
... Apenas se recordou de que pensou ter gritado: "Parfion, mas é inacreditável!" e nisto alguma coisa pareceu girar em partículas diante dele! Toda a sua alma se inundou de intensa claridade interior. Duraria esse momento, o que? Meio segundo, talvez; mas ainda assim, clara e conscientemente se lembrou do começo, do primeiro som do pavoroso grito que rompeu do seu peito e que não pode evitar de modo algum. Depois a sua consciência instantaneamente se extinguiu e trevas completas se seguiram. Era um ataque epiléptico, o primeiro que tinha depois de uma longa pausa. É bem conhecido que o ataque epiléptico sobrevém inesperadamente. Nesse momento, o rosto se deforma horrivelmente, de modo particular os olhos. Não só o corpo inteiro como os traços do rosto trabalham com sacudidelas convulsivas e contorções.Um terrível e indescritível grito, que não se assemelha a coisa alguma é emitido pela vítima. Nesse grito tudo o quanto é humano fica obliterado; é impossível, ou dificílimo, ao observador, imaginar, ou admitir, que seja um homem quem o defere. É como se outro ser estivesse gritando dentro do homem. A cena de um homem acometido de ataque epiléptico enche os que testemunham de verdadeiro e inexprimível horror, tanto no acesso como no horror resultante havendo um elemento de mistério.
ESTADO PÓS-ICTAL (período logo após a crise marcado por disfunção da área cerebral afetada):
...Eu acabava de ter uma série violenta e lancinante de ataques da minha doença. Sempre que eu piorava e os acessos vinham com mais frequência, eu caía depois numa completa estupefação. Perdia a memória e, embora o meu cérebro trabalhasse, parecia que a sequência lógica das minhas idéias se tinham quebrado. Era incapaz de ligar mais do que dois ou três pensamentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
W.Kunze - O "Idiota" de Dostoiévski (na revista "Die-Drei", junho, 1924)
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
Lovell J. Epilepsy and art of F.M. Dostoievski. Aust Farm Physician 26 (1) 62-63, 1997