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domingo, 30 de maio de 2010

"Um Médico Rural" de Franz Kafka

"A literatura é sempre uma expedição à verdade." Franz Kafka


Ein Landarzt publicado no Brasil sob o título Um Médico Rural é um conto escrito por Franz Kafka, indubitavelmente o escritor tcheco mais importante do século XX. É uma de suas histórias mais enigmáticas, do tipo que possibilita ao leitor uma experiência individual devido às diversas interpretações que podem ser extraídas do texto.


Num campo, um médico é chamado para atender um paciente criticamente doente a umas dez milhas de distância, numa noite fria, em que neva. Seu único cavalo havia morrido na noite anterior, e não há meios adequados para locomoção. Pede que sua empregada Rosa parta em busca de um cavalo emprestado, mas ela volta de mãos vazias. É nesse cenário que inicia a trama. Misteriosamente um homem aparece oferecendo uma parelha de magníficos cavalos, em contrapartida, esse homem morde a empregada e dá mostras de que tenciona estuprá-la, o médico o repreende, mas logo percebe que está em dívida com ele devido ao favor e, apesar do risco em deixar a menina sozinha com o desconhecido, segue à casa do jovem paciente a fim de cumprir as obrigações do seu ofício. "Era o único médico do distrito e cumpria a minha função até ao máximo, quase até aos limites do possível. Apesar de mal pago, era generoso...” Finalmente, o médico chega a casa do seu paciente. A figura do médico é vista pela família como um deus a quem depositam os únicos resquícios de esperança. Kafka escreve "Os pais do meu doente correram para fora de casa, seguidos pela irmã. Fui quase literalmente erguido do cabriolé, não conseguindo perceber uma palavra das suas confusas exclamações." fragmento que denota tanto a ansiedade com que todos esperavam o doutor, quanto o desespero que a doença do ente amado os submetia. Durante todo o texto, encontramos detalhes que nos incitam a acreditar que o personagem estava a todo o momento preocupado em cumprir suas obrigações profissionais como médico da forma mais correta possível “Quis abrir uma janela, mas primeiro tinha de ver o paciente.” Num primeiro momento, o menino lhe parece completamente saudável “Magro, sem febre, nem frio nem quente e de olhar vago, com o tronco nu, o jovem ergueu-se na cama de penas, atirou-me os braços ao pescoço e sussurro-me ao ouvido:´Deixe-me morrer, Sr. Doutor.´” Pasmo, e com os pensamentos centrados em Rosa, tenta não ficar irritado por ter sido chamado “em vão” e por ter deixado sua empregada numa situação perigosa.“Mais uma vez tinha sido chamado sem necessidade, coisa a que já estava habituado, pois todo o distrito me fazia à vida num inferno com chamadas noturnas.” Trata então de examinar seu paciente como parte da rotina “A mãe estava junto ao leito do doente, persuadindo-me a assisti-lo. Encostei a cabeça ao peito do rapaz, que estremeceu sob a minha barba molhada. Confirmei o que sabia já: o rapaz estava fino; tinha qualquer coisa anormal na circulação, saturada de café pela solícita mãe, mas estava fino e o melhor que havia a fazer era pô-lo da cama para fora.”


“Não sou eu, porém, que vou reformar o mundo e, portanto, deixei-o mentir.” Pensando assim, o doutor resolve prescrever um placebo “Passar receitas é fácil, mas fazer as pessoas compreender as coisas é difícil.”, e estava prestes a fazê-lo quando percebeu que a irmã do menino segurava uma toalha manchada de sangue. Retorna então ao leito do paciente para fazer um minucioso exame físico "Ao dirigir-me para ele, acolheu-me com um sorriso, como se eu lhe levasse o mais alimentício dos caldos de dieta” e descobre uma enorme ferida aberta no lado direito, na região das ancas, que já estava infestada por vermes. "Cor-de-rosa, de tonalidades várias, escura no interior e mais clara nos bordos, ligeiramente granulada, parecia uma mina a céu aberto exposta à luz do dia, vista à distância. Observada de mais perto, contudo, revelava outro distúrbio. Não consegui evitar um assobio de surpresa. Do estreito interior da ferida coleavam em direção à luz uns vermes da grossura e comprimento do meu dedo mínimo, igualmente cor-de-rosa e manchados de sangue, de cabeças pequeninas e muitas pernas minúsculas. Pobre rapaz, já ninguém podia fazer nada por ti. " O pequeno paciente, cheio de esperanças, rende-se ao desejo de viver e suplica ao médico que o tire dessa situação “Salve-me, sim?,sussurrou o rapaz com um soluço, que a vida da própria ferida quase abafou." Diante da própria impotência, nosso protagonista começa a divagar sobre o quanto as pessoas esperam de gente da sua profissão “A gente do meu distrito é assim. Esperam sempre coisas impossíveis do Médico [...] consideram-no onipotente, com a sua misericordiosa mão de cirurgião.” Vendo que a família esperava o veredicto, e apesar de nada poder fazer pelo doente, manteve a postura que considerava adequada a um médico “olhei calmamente para as pessoas, com os dedos na barba e a cabeça inclinada para um lado. Estava inteiramente senhor de mim e à altura da situação, e assim me mantive, apesar de não ter salvação.” Ciente de que todos esperavam que fizesse alguma coisa, e não havendo uma forma de tratamento eficaz, diz ao garoto: “Eu já estive em todos os quartos de doentes, por todo o lado, e digo-lhe uma coisa: a sua ferida não é assim tão grave.” É a única conduta que está ao seu alcance, e dessa forma tenta fazer com que o paciente continue, até o último momento, com esperanças de que logo ficará bem “Isso é verdade ou está a aproveitar-se da minha febre para me enganar?” “É mesmo verdade, aceite a palavra de honra de um médico oficial.” E ele aceitou-a e sossegou.” e assim, o doutor garantiu uma morte menos penosa à criança.


Veja a bela adaptação japonesa feita por Koji Yamamura:






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FRANZ KAFKA, "Um Médico Rural"

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Machado de Assis e "O Alienista"

Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia. Machado de Assis 
Considerada a primeira novela de Machado de Assis maduro, O Alienista (1882) conta a história de Simão Bacamarte, um conceituado médico interessado nos estudos psíquicos.


 O doutor, demasiadamente humano, inicia um estudo sobre a loucura e seus graus na diminuta população de Itaguaí. 
O nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral.
 A obra inclui críticas relacionadas às condições desumanas em que viviam os mentecaptos, destituídos de tratamento eficaz:
Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua.
Valorizando uma anamnese detalhada, o doutor Simão penetrava nas particularidades de cada doente.
Analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família.
Através dos ideais de um personagem médico, Machado de Assis dá-nos uma lição de atuação humanística. Simão Bacamarte exercia a Medicina incansavelmente, tratava os enfermos de modo exemplar, aplicava detalhes às histórias clínicas, instituía admiráveis formas de tratamentos individuais e, acima de tudo, não largava o paciente até julgá-lo completamente curado.

Confira alguns dos interessantes casos retratados na obra: 

 Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes ( porque não olhava nunca para nenhuma pessoa ) toda a sua genealogia, que era esta: —Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu. Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:—Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Não falo dos casos de monomania religiosa: citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.

REFERÊNCIAS:
MACHADO DE ASSIS - O Alienista