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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Descoberta da Vacina / Pintura de Ernest Board

"Por que só pensar? Por que não experimentar?" Edward Jenner

Edward Jenner (1749 – 1823) foi uma das figuras mais admiráveis da história da medicina. Certa vez, uma jovem camponesa foi ao seu consultório e os dois começaram a discutir sobre a varíola. Ela disse “não corro o risco de contrair a varíola humana, pois já tive a varíola das vacas.” A frase impressionou Jenner, que pôde verificar sua veracidade ao observar as famílias dos fazendeiros. Em 14 de maio de 1796, Jenner, convicto que havia descoberto a vacina, extraiu o conteúdo de uma pústula da mão de Sarah Nelmes, uma jovem leiteira afetada pela varíola das vacas, e com o mesmo estilete contaminado escarificou o braço de James Phipps, um garoto de oito anos de idade.

Não houve efeitos colaterais e a experiência foi um sucesso, pois o menino não contraiu varíola. Estava descoberta a vacina.

No quadro abaixo, pintado por Ernest Board em 1915, aparece Edward Jenner vacinando James Phipps com material colhido da mão de Sarah:

Edward Jenner Vacinando James Phipps (1915); Ernest Board.

Em homenagem à “vaca”, surgiu o termo “vacina”.

LEIA MAIS:

Os Efeitos da Vacina Antivariólica / James Gillray


REFERÊNCIAS:
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Ed. Manole - São Paulo, 1998.
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Exoftalmia na Arte / Pere Borrell del Caso

Um exemplo de exoftalmia pode ser visto em um charmoso óleo sobre tela do pintor espanhol Pere Borrell del Caso (1835 - 1910):


Fugindo da Crítica (1874), óleo sobre tela, Pere Borrell del Caso.

A pintura mostra um menino fugindo das críticas através do próprio quadro. A exoftalmia, juntamente com a elevação excessiva da pálpebra superior, é um sinal que pode indicar hipertireoidismo.

REFERÊNCIAS:
Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116

sábado, 28 de agosto de 2010

"A Transfiguração de Cristo" de Rafael Sanzio

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz”. Mt 17:1-2

Em “A Transfiguração de Cristo” do italiano renascentista Rafael Sanzio (1483 – 1520) aparece um adolescente com seqüelas de meningite, epiléptico, presenciando a cena em que Jesus Cristo conduz Tiago, Pedro e João a uma montanha. O rosto de Cristo resplandece como o sol, suas vestes tornam-se incandescentemente brancas e os apóstolos vêem ao seu lado os profetas Elis e Moisés:


A Transfiguração de Cristo, 1520; Rafael Sanzio. Óleo sobre painel, 405 x 278 cm. Pinacoteca Apostólica do Vaticano (Vaticano).

Rafael pintou a luminosidade da eternidade de modo a representar a aura do enfermo. O menino, com a boca entreaberta, urra em um grito epiléptico, revira os olhos e estende os membros superiores, deixando sua forte musculatura em franca evidência. O pai, aflito com a impossibilidade de cura, o ampara enquanto os que o cercam apontam-no para Jesus, clamando por sua cura, fazendo-nos lembrar os versículos de São Mateus: “Senhor, tem misericórdia de meu filho, porque ele é epiléptico e está enfermo, pois cai muitas vezes no fogo e na água, e eu o trouxe aos teus discípulos, mas eles não o puderam curar”. Mt 17:14-16


Para representar o acontecimento relatado nos Evangelhos, Rafael usa uma associação de luz e sombra. Segundo a neurologista Yacubian, considerando que a epilepsia desde a antiguidade até os dias atuais está associada à escuridão, podemos concluir que o artista tentou retratar, ao mesmo tempo, a escuridão do preconceito social em relação com a epilepsia e a luz presente no inconsciente dos próprios epilépticos, à medida que procuram sair das sombras.

REFERÊNCIAS:
1.Yacubian, Elza Márcia Targas e Pinto, Graziela R. S. Costa. Arte, Poder e Epilepsia. 2ª. edição, Editorial Lemos, 2003
2.Lucy Campos Piccinin, O pensamento de Paul Tillich: epilepsia e arte, UMESP
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003
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domingo, 22 de agosto de 2010

Candidatos à internação numa enfermaria casual - Luke Fields

O pintor e ilustrador inglês Sir Samuel Luke Fildes (1843 - 1927) sempre deixou transparecer sua preocupação com os pobres, motivo que o fez juntar-se, no ano de 1869, à equipe do Jornal The Graphic, uma revista semanal editada pelo reformador social William Thomas Luson. Fildes compartilhava com Thomas a crença no poder das imagens para mudar a opinião pública sobre temas como a pobreza e a injustiça. Ambos esperavam que a comoção da sociedade diante das ilustrações resultasse em atos de caridade e ação social coletiva. Sob esta perspectiva, Luke Fildes pintou “Candidatos à internação numa enfermaria casual”, quadro que expressa vividamente o sofrimento dos pobres:

Candidatos à Internação numa Enfermaria Casual, Luke Fields, 1874; Óleo sobre tela, 137 x 243cm; Royal Holloway College de Londres Unversity

Aqui, o problema da saúde é tratado através da representação de um elenco de personagens familiares organizados em fila na porta de uma enfermaria. Observamos uma mãe solteira, talvez viúva, com duas crianças com fome, o funcionário com deficiência, buscando apoio do Estado, o bêbado na cartola, as crianças esfarrapadas, dentre outros.

Ainda nos dias atuais, a imagem acima é amplamente utilizada em diversas fontes para ilustrar os problemas da saúde pública.

LEIA MAIS:
"O Doutor" - Samuel Luke Fildes

sábado, 21 de agosto de 2010

William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra / Robert Hannah

"Sou obrigado a concluir que o sangue percorre sem cessar um circuito circular, que é função do coração propeli-lo através da pulsação, e que é esta a única razão para que o coração pulse." William Harvey

O medico britânico William Harvey (1578 – 1657) estudou na Itália, mais precisamente na cidade de Pádua, que à época abrigava a maior escola de anatomia do mundo. Durante seus estudos no exterior, ele descobre que o sangue sai do coração e segue através de um sistema de vasos fechados até a periferia do corpo e de lá retorna ao coração. Entende o médico que o coração, órgão que, acreditava-se ser a sede do amor e do afeto, é na verdade a bomba motora do sangue. William Harvey, descobre, assim, a circulação sanguínea. Ao regressar a Londres, Harvey é recebido em palácio pelo rei Carlos I.

Robert Hannah registrou esse momento no quadro intitulado: William Harvey demonstrando a circulação sanguínea ao rei Carlos I, da Inglaterra:


Na pintura, vamos o médico, com orgulho de súdito, segurando em sua mão esquerda um coração aberto e explicando ao rei como o sangue se movimenta através das quatro cavidades. Ao lado de Harvey está presente uma criança que, com ar admirado, não percebe que está presenciando uma das cenas mais marcantes da história da Medicina. O príncipe, que calado a tudo assistia, ao crescer não quis ser médico, apesar de ter sido testemunha ocular de um evento histórico. Preferiu ser advogado, tendo se destacado na história do Direito ao instituir no mundo jurídico o instrumento do habeas corpus. Após ser coroado rei, escolheu ser chamado de James II.

Na Literatura: Em 1628 William Harvey publicou sua obra clássica: Exercitatio anatômica de motu cordis et sanguinis in animalibus, livro em que explica como o sangue flui do ventrículo esquerdo do coração para a aorta, sendo, então, distribuído para todas as partes do corpo; o sangue venoso é transportado pelas veias para o ventrículo direito, e da artéria pulmonar para os pulmões, onde novamente se transforma em sangue arterial. Após passar pelas veias pulmonares, o sangue chega à aurícula esquerda e dali volta para o ventrículo esquerdo.

Outra excelente obra de Harvey foi publicada em 1651, De generatione animalium é de vital importância na história da embriologia, pois contém a teoria da “epigênese” segundo a qual o organismo não existe como uma entidade diminuta dentro do óvulo, mas se desenvolve gradualmente.

Harvey morreu em 1657, deixando para posteridade a marca de seu trabalho.

REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
MARGOTTA, Roberto "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os Barbeiros-cirurgiões na Arte

Durante a idade média, a cirurgia foi pouco beneficiada pelos progressos da anatomia. Os cirurgiões ainda eram considerados inferiores e, por conseguinte, mal remunerados. Nos séculos XVI e XVII, eram os barbeiros-cirurgiões - barbeiros que atuavam como médicos - que exerciam toda a prática manual da medicina através de pequenas cirurgias. Os profissionais desta área pertenciam a uma classe desprestigiada, cujo trabalho era basicamente mecânico, sem preparação científica. Somente em 1686, após a recuperação de Luís XIV de uma fístula anal crônica, nas mãos do cirurgião Félix, é que a prática cirúrgica provou ser nobre e rentável.

Uma gravura satírica, datada de 1570, demonstra bem a imagem que o público possuía dos barbeiros-cirurgiões, nela aparecem macacos utilizando os instrumentos dos barbeiros para tirar sangue, extrair dentes e cortar cabelos:

Isaac Koedyck (1616 -1677), sensibilizado com as críticas dirigidas a quem tratava dos humildes camponeses, documentou em sua obra a figura do barbeiro-cirurgião. Em duas de suas pinturas, eles aparecem trabalhando cuidadosamente nos pacientes:

O Barbeiro Cirurgião, Isaac Koedyck, 1647.

Um Cirurgião Barbeiro Cuidando do Pé de um Camponês, Isaac Koedyck, 1650.


Na literatura: Em “O Físico - A epopéia de um médico medieval”, Noah Gordon traz-nos um barbeiro cirurgião como personagem de sua obra magna. Barber, um homem amoral a viajar pelas cidades da Inglaterra, prometia cura para as enfermidades, vendendo seu específico: um xarope para quase todas as doenças. O velho barbeiro cirurgião ensinou muitas coisas a Rob, protagonista do livro que algum tempo depois viria a ser médico. Desde a arte do malabarismo até o método cirúrgico.

REFERÊNCIAS:
FIGUEIREDO, B. G.: ‘Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI(2): 277-91, jul.-out. 1999.
MARGOTTA, R. "História Ilustrada da Medicina" Editora Manole - São Paulo, 1998

domingo, 15 de agosto de 2010

"A Parábola dos Cegos" de Pieter Bruegel

"Diz-se a um cego, estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ali ficou parado no meio de rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar." José Saramago.

A doença ocular tem merecido lugar de destaque nas artes. Na pintura, há registros de casos de estrabismo, catarata e cegueira, dentre outros interessantes temas. Pieter Bruegel “O Velho” é o responsável pela notável A Parábola dos Cegos, na qual vê-se cegos de mãos dadas, numa fila, tateando com bengalas o caminho a percorrer. O quadro faz alusão ao Evangelho de Mateus, 15:14, que diz: “Não se preocupem com eles, são guias cegos. E quando um cego guia o outro, os dois acabam caindo no buraco”.

A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel; Óleo sobre tela, 154 x 86 cm; Galeria Nacional, Nápoles

Uma inspeção mais próxima dos seus rostos fornece evidências físicas que nos fazem supor as condições que determinaram a cegueira de cada um.

O rosto do primeiro homem não é visto. O segundo homem aparece sem pálpebras e globos de ambos os lados, o que sugere a possibilidade de enucleação bilateral.


Leucoma corneano é o diagnóstico proposto para explicar a cegueira da terceira figura retratada na pintura com evidente opacificação da córnea.



O quarto homem parece demonstrar sinais consistentes com uma resposta inflamatória ocular grave. A lesão facial do lado direito de sua face parece sugerir que fora vítima de um insulto externo, tal como queimadura.



Os olhos do quinto homem não são vistos sob a viseira. É considerada a possibilidade de fotofobia ou cegueira severa resultando na completa perda da percepção luminosa. Quanto ao sexto homem, argumenta-se que suas características faciais indicam o diagnóstico de cegueira conseguinte à pênfigo bolhoso.


REFERÊNCIAS:
1.SALER, V. "Medical conditions in works of art"British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2
2.SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das. Letras, 1995.
3.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Estruturas Anatômicas Torácicas na Capela Sistina - Michelangelo

“Deus mandou o homem profundo sono e enquanto ele dormia tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela [...] fez uma mulher” Gênesis 2:21

Em meio aos afrescos que pintou no teto da Capela Sistina, Michelangelo espalhou um número considerável de estruturas anatômicas ocultas em sua obra. Em “A Criação de Eva” encontramos uma artística representação de estruturas contidas no tórax humano:



Cena: O Criador ordena que Eva se levante de dentro do tórax de Adão. Este repousa ao lado de um tronco seccionado que se ramifica e se trifurca mais acima.

Pista: O tórax esquerdo aberto de Adão. Além disso, o manto de Deus possui um volume dorsal muito grande em relação ao posicionamento dos pés, como se estes estivessem deslocados para a frente.

Achados anatômicos: Se observássemos dentro do tórax aberto de Adão, veríamos a lateral do pulmão esquerdo. Essa visão corresponde exatamente à forma do manto sobre o corpo do Criador. Compare a forma do manto com a figura anatômica do pulmão esquerdo. E Adão repousa sobre o tronco da árvore, que apresenta uma forma muito semelhante à de um segmento de árvore brônquica. Pode-se argumentar aqui que qualquer estrutura dendrítica de uma árvore é capaz de representar a árvore brônquica. Porém, chama a atenção nessa cena o fato de Michelangelo ter pintado, no Paraíso, um pedaço de árvores com ramos seccionados e desprovidos de folhas. Concluí-se, portanto, que essa estrutura complementa a representação do pulmão.



CONFIRA:

O Anatomista Michelangelo Revelado no Teto da Capela Sistina

Michelangelo: O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso - Anatomia da Região Cervical


REFERÊNCIAS:
BARRETO, Gilson "A Arte Secreta de Michelangelo - Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx, 2004

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Circuncisão do Menino Jesus

"E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido." Lc 2:21

A exérese do prepúcio, conhecida popularmente por circuncisão, é praticada há mais de 5 mil anos. Após a onfalotomia, o procedimento representa o tipo mais antigo de operação cirúrgica. De acordo com a bíblia, seguindo a tradição judaíca, a Virgem Maria levou Jesus, oito dias após seu nascimento, a um sacerdote para ser circuncidado.

Esse momento marcante na vida de Cristo foi representado por muitos artistas, inclusive pelo pintor italiano Andrea Mantegna num belíssimo quadro intitulado Circuncisão:

Circuncisão (1470); Andrea Mantegna (1431-1506); têmpera sobre madeira em trípico; Galeria Uffizi (Florença)

Num close do cirurgião (sacerdote), identificamos um bisturi de lâmina fixa em sua mão direita. Já na bandeja que lhe é apresentada pelo instrumentador (criança que o auxilia), vemos uma tesoura e uma atadura:

Detalhe do sacerdote com o bisturi e da criança segurando a bandeja de instrumentação cirúrgica

No Século XIV, Jean Purcelle (1300-1355) conhecido como o mais perfeito iluminador gótico da Escola de Paris, também documentou a circuncisão de Cristo em sua arte:

A Circuncisão de Cristo; Jean Purcelle (1300-1355); Breviário Martin de Aragão.

Outras representações:


A Sagrada Circuncisão de Jesus; Friedrich Herlin, 1466; Rottenburgo ob der Tauber.

Circuncisão de Cristo,1600; Guido Reni; Museu de Siena.

REFERÊNCIAS:
1.BEZERRA, Armando "Admirável mundo médico: a arte na história da medicina" - Brasília, 2002
2.Steinberg L. _ The Sexuality of Christ in Renaisance Art and in Modern Oblivion,1992
3.Timothy J. Etherington; The Circumcision of Christ; Box D-266, NT 503D Greek Exegesis I

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Distrofia Miotônica de Steinert / Juan Bautista Maíno

Um possível caso de Distrofia Miotônica de Steinert (DMS) foi documentado na arte pelo respeitado pintor espanhol Juan Bautista Maíno (1581-1649):


"Retrato de caballero". Juan Bautista Maíno. Óleo sobre tela, 96 x 73 cm. ca. 1613-1618. Madrid, Museo Nacional del Prado

O Retrato de Cavalheiro reproduz a imagem de um homem de meia idade, cuja notável ptose palpebral simétrica o proporciona uma fisionomia de cansaço. Na pintura, destaca-se também a calvice frontal do personagem (presente em 80% dos portadores de DMS do sexo masculino), é também visível a atrofia do músculo temporal e em menor grau do masseter. Não é possível constatar, sob a roupa do personagem, se o tórax é assimétrico, mas a elevada angulação entre o pescoço e o ombro sugere a cifoescoliose. Em decorrência da fraqueza muscular, a face apresenta uma aparência característica, é longa, estreita e com a pele brilhante, delgada e clara. Nota-se também a diminuição dos sulcos e rugas no rosto do indivíduo. Sob a luva percebemos o gesto da mão (flexão em pinça dos dois primeiros dedos e ligeira flexão das metacarpofalangeanas dos últimos três dedos) Obviamente, seria desconfortável permanecer nesta posição por longos períodos - como em uma pose para um retrato de qualidade - na prática, o incômodo se resolve com a flexão ou extensão completa de todos os dedos. Observando as mãos assim representadas, neurologistas que analisaram o quadro supõem que a falta de uma completa flexão dos últimos três dedos sugere uma fraqueza dos músculos flexores da mão (fenômeno miotônico).

Em conjunto, as características retratadas são típicas da Distrofia Miotônica de Steinert.

REFERÊNCIAS:
Roberto Cano de la Cuerda, Susana Collado-Vázquez ;“Deficiencia, discapacidad, neurología y arte”; Rev Neurol 2010; 51 (2): 108-116

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

"O Doutor" - Samuel Luke Fildes

O inglês Sir Samuel Luke Fields foi o artista responsável por um dos mais belos quadros que têm médicos como tema. A célebre obra retrata um médico pensativo observando uma criança gravemente doente:

" The Doctor",1891; Samuel Luke Fildes (1844-1927), Óleo sobre tela, Galeria Tate (Londres)

Ao pintar a criança enferma Fields inspirou-se no drama que viveu com o falecimento do seu filho na noite de natal de 1877. O quadro foi uma homenagem do pintor ao médico prestativo que assistiu seu filho até a hora da morte. Para que a tela fosse mais real possível, Luke Fields reproduziu no seu ateliê a sala de sua casa, palco do óbito de seu herdeiro.

No quadro, nota-se o médico em primeiro plano, olhando para sua paciente enquanto pensa se, a despeito do grau da enfermidade, é possível encontrar uma terapêutica eficaz.Observa-se também uma jovem doente, pálida, fraca e adormecida.

No fundo vemos uma mãe aflita, preocupada e desesperançosa, sua cabeça baixa traduz o desespero de quem espera o pior. Também é notável a expressão do pai, que não pode conter sua preocupação com a doença de sua filha, mas procura manter a calma, a fim de confortar a mãe. Se levarmos em consideração a época em que a tela foi pintada, é possível supor que o quadro retrata uma vítima de alguma doença infecciosa incurável, comum na era pré-antibiótica.



O Doutor foi concluído em 1891, atendendo a um pedido da rainha Vitória, da Inglaterra. O trabalho que custou três mil libras esterlinas, foi intermediado por Sir Henry Tate, em cuja homenagem existe atualmente em Londres, na Galeria Tates, onde essa obra de arte encontra-se exposta.

terça-feira, 27 de julho de 2010

"O Louco" de Pablo Picasso

Pablo Picasso foi um dos muitos artistas que retratou um alienado em sua obra. Seu período azul - fase artística que durou de 1901-1904, caracterizada por temas melancólicos e cores sombrias – tem como belo exemplo uma aquarela sobre cartolina intitulada O Louco:

O Louco (1904).Pablo Picasso (1881-1973).Aquarela sore cartolina, 85 x 35 cm .Museu Picasso (Barcelona)

Concluída em 1904, Picasso representou na aquarela um doente mental que perambulava pelas ruas de Barcelona.

O Louco encontra-se no acervo do Museu Picasso, em Barcelona.

domingo, 25 de julho de 2010

Opistótono na Pintura do Dr. Charles Bell

O termo “Opistótono” designa a posição do corpo em que a coluna vertebral, o pescoço e a cabeça formam um arco côncavo para trás. O doente apóia-se na cabeça e nos calcanhares. A posição é resultante da contração sustentada dos músculos posteriores do pescoço e do tronco, e pode ocorrer, dentre outras causas, em pacientes com meningite, tétano, tumor cerebral e em intoxicados por estricnina; algumas lesões neurológicas também podem ocasionar tal postura anormal.

O médico escocês Charles Bell (o mesmo da paralisia de Bell) - famoso anatomista, fisiologista e cirurgião – com sua notável habilidade para o desenho, registrou magnificamente um caso de opistótono na arte:

Óleo sobre tela, Opistótono, 1809; Charles Bell; Colégio de Cirugiões de Edimburgo (Escócia).

Na pintura, vê-se um soldado que desenvolveu tétano após ser lesionado em uma batalha, a posição é uma das manifestações da doença, resultante da ação da Tetanoespamina (neurotoxina produzida pelo Clostridium tetani). A potente toxina é responsável pela presença de espasmos musculares intermitentes e rigidez generalizada.

A obra “Opistótono” foi concluída no ano de 1809 e está exposta no Colégio de Cirurgiões de Edimburgo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vicent van Gogh - Os Dois Pólos do Artista

Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo. As pessoas da região que são doentes como eu, falam a verdade: podemos viver muito ou pouco, mas sempre haverá momentos em que perderemos a cabeça. Peço-lhe portanto que não diga que eu não tenho nada. Se aprecias meu trabalho, tudo bem, mas continuo sempre louco. Vicent van Gogh a Theo, Arles (1888)
 Vicent van Gogh nasceu em 30 de março de 1853, em Zundert, na aldeia holandesa de Brabant, sendo o mais velho entre os cinco filhos de um pastor protestante.

Vicent foi um menino sonhador, tímido, sensível e ligado a família. O laço afetivo que o unia ao irmão mais jovem, Theodore, a quem chamava carinhosamente de Theo, duraria enquanto vivesse. Entretanto, a bela história de amor entre dois irmãos não teve um final feliz. Em 27 de julho de 1890, Vincent caminhou até o campo de trigo onde costumava pintar, no entanto, dessa vez, não levou pincéis nem tintas, mas uma pistola. Num momento de desespero, atirou contra o próprio peito. Ferido, conseguiu arrastar-se até o café Ravoux, onde vivia, em Auvers (lugarejo próximo a Paris). Alguém trouxe o seu médico que, após examiná-lo, concluiu que a bala não podia ser extraída. Na manhã seguinte, quando Theo foi informado do que aconteceu, correu pra junto do irmão, e encontrou-o cachimbando placidamente na cama. Os dois passaram o dia juntos, falando holandês e reencontrando a harmonia dos velhos tempos. Ao fim do dia, Theo recusou-se a partir e passou a noite ao lado do irmão, na mesma cama, ouvindo-o murmurar “A tristeza não tem fim”. Vicent morreu por volta de 1h30 da madrugada do dia 29 julho de 1890, aos 37 anos de idade.

Que motivo o faria tirar a própria vida? Que doença atormentava um dos mais conhecidos pintores pós-impressionistas?

A DOENÇA DE VAN GOGH
Quanto a mim, estou me sentindo melhor. Minha digestão melhorou tremendamente desde o mês passado. Alguns dias ainda sofro involuntários ataques de excitação nervosa ou de tristeza total, mas isso vai passar, e quando passar, fico mais tranquilo. Vou esperar meus nervos ficarem estáveis... Vicent a Theo (1888)
Dono de uma personalidade difícil e temperamental, ao longo de sua vida, Van Gogh deu provas de instabilidade mental. Em 1888, deixando o irmão em Paris, fixou-se em Arles, onde produziu cerca de duzentos quadros e cem desenhos. No período em que iniciou sua série de Girassóis, o pintor Gauguin veio juntar-se a ele. Por ironia, foi a chegada de seu amigo mais caro, e a quem considerava um mestre, que provocou sua primeira crise nervosa.

Os dois artistas viviam juntos. No intenso contato cotidiano, Van Gogh começou a perceber como eram diferentes os princípios e modos de cada um deles ver a pintura. Quando Gauguin pintou um retrato dele, Van Gogh recusou-se a aceitá-lo. Não queria reconhecer-se num quadro em que Gauguin o representava como um homem pintando girassóis com certo ar de loucura. Numa violenta discussão, desestabilizado, Van Gogh se deixa atormentar por crises de humor, e, no auge do desespero, tenta ferir Gauguin com uma navalha. À noite, arrependido, com a mesma navalha Van Gogh decepou a própria orelha.

Ele documentou o evento em seu célebre Auto-Retrato com Orelha Enfaixada:


Orelha Enfaixada e Cachimbo (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela, 51 x 54 cm.Coleção Niarchos (Chicago)

No hospital Saint-Paul, aonde foi levado nesse episódio, ele foi atendido pelo Dr. Rey, que lhe suturou a orelha. Depois da convalescença, Vicent pintou um retrato do médico:

Retrato do Dr. Félix Rey (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela, 64 x 53 cm. Museu Pushkin (Moscou)

Van Gogh registrou sua passagem pelo hospital pintando também o pátio interno e a enfermaria, onde os pacientes aparecem desesperançosos e cansados do fardo que a doença os proporciona:

Enfemaria do Hospital de Arles (1889).Vincent van Goght (1853-1890).Óleo sobre tela, 74 x 92 cm.Coleção Oska Renhart (Winterthur)

O Dr. Félix Rey diagnosticou epilepsia psico-motora agravada pelo uso de absinto, e após prescrever brometo de potássio e suspensão de alcool, aconselhou Van Gogh a internar-se no hospital Saint Remy de Provence. Inicialmente o pintor não aceitou a idéia com prazer, porém, dias depois, percebendo que os moradores de Arles estavam amedrontados com seu jeito introspectivo e com suas fases de “excitação nervosa” e “tristeza total”, ele pediu a Theo que o levasse até Saint-Remy, asilo mental onde permaneceu por pouco mais de um ano. No seu registro de admissão, o Dr. Peyron escreveu:
Como diretor do asilo de Saint-Rémy, certifico e assino que van Gogh (Vincent), 36 anos de idade, nascido na Holanda e domiciliado atualmente em Arles, tendo sido tratado no hospital daquela cidade, apresenta mania aguda e alucinações visuais e auditivas que o levaram à automutilação, cortando a orelha. Atualmente parece recuperado, mas ele refere não apresentar coragem e força para a vida independente e, voluntariamente, solicita a admissão nesta instituição. Como resultado da exposição acima, acredito que o Sr. van Gogh apresenta crises epilépticas infreqüentes sendo aconselhável que permaneça em observação prolongada neste estabelecimento (Dr. Peyron, 9 de maio de 1889)
Ainda no hospício, van Gogh fica sabendo que em Auvers-sur-Oise reside um conceituado médico chamado Paul-Ferdinand Gachet, e solicita alta da clínica de Saint-Rémy. Com o consentimento de Theo, segue para Auvers-sur-Oise com o objetivo de se tratar com o Dr. Gachet, cujo diagnóstico proposto foi de intoxicação por terebintina. Gachet prescreve trabalho para Vicent, o médico via na pintura a melhor terapia para ele. Segundo críticos, seus melhores trabalhos são produzidos nessa época. A amizade com o doutor Gachet anima Vincent, que escreve a Theo afirmando que agora está feliz. Mas, pouco tempo depois entra em crise e acusa o médico de tentar matá-lo.

Centenas de médicos e psiquiatras tentaram definir as condições médicas e emocionais de Van Gogh ao longo dos anos, porém, especialistas estão longe de chegar a um acordo. Inúmeros transtornos foram diagnosticados postumamente nesta artista – epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, doença de Ménière - nenhum desses isentos de contradições. Entretanto, a maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele "a tristeza não tem fim" carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

A FAMÍLIA DE VAN GOGH
Havia uma frase em sua carta que me surpreendeu: 'Por vezes desejo estar longe de tudo e de todos, pois sou a causa dos males da minha família. Em mim só há miséria e sirvo apenas para levar tristeza para toda a gente.' Estas palavras me surpreenderam porque esse mesmo sentimento, da mesma forma, nem mais nem menos, também existe na minha consciência. (Vicent a Theo; Amsterdam, 30 May 1877)
Além de Van Gogh, três de seus irmãos apresentaram doença mental. O texto acima é um testemunho do que os historiadores afirmam: Théo sofreu depressão e ansiedade, anos após o forte abalo que a morte de Van Gogh provocou sobre ele, levou-o a falecer por "demência paralítica”. Sua irmã Wilhelmina, por ser esquizofrênica, passou a maior parte de sua vida internada num hospício - onde morreu. De forma trágica, seu outro irmão, Cornelius, cometeu suicídio aos 33 anos de idade.

Essas considerações reforçam a idéia de que havia um componente familiar genético na provável doença de van Gogh – o transtorno afetivo bipolar.

O MUNDO EM AMARELO
A cor expressa algo em si simplesmente porque existe, e deve-se aproveitar isso, pois o que é belo é também verdadeiro. Van Gogh
O uso do amarelo caracteriza muitas pinturas do holandês pós-impressionista e traduz o fascínio de Van Gogh por este pigmento vibrante. Ele simplesmente gosta da cor, ou sua preferência foi influenciada por alguma condição médica? Várias teorias surgiram para explicar como a qualidade de vida de Van Gogh pôde influenciar seu trabalho. A primeira delas, relativa à ingestão de absinto pelo artista, dizia que o consumo excessivo deste licor por van Gogh o induziu a ver todos os objetos com uma tonalidade amarela. No entanto, investigações conduzidas em 1991, mostraram que uma pessoa deve beber 182 litros de absinto para produzir este efeito visual, por isso podemos desconsiderar essa teoria. Uma segunda e mais provável explicação envolve o uso de digitálicos (droga derivada da Digitalis purpúrea). Seu médico, Dr. Gachet, utilizava o medicamento para tratar a possível epilepsia do artista (prática comum naquela época). O uso excessivo desta droga pode causar xantopsia em pacientes submetidos a tratamento com altas e repetidas doses, estes se queixam de ver “manchas amarelas em tudo o que olham”. Se observarmos os quadros da série "Os Girassóis", veremos que a quantidade de girassóis vai aumentando e que o fundo fica mais amarelo à medida que o tempo passa, o que faz com que os estudiosos acreditem que o aumento do consumo de absinto e/ou o nível da intoxicação por digitálicos, foram os responsáveis pelo excesso do uso da cor no final da famosa série.

A TRISTEZA REPRESENTADA NA ARTE
Não preciso sair da rotina para exprimir tristeza e o extremo da solidão. Vicent a Theo (Arles, 1890)
Em janeiro de 1882, Vicent conheceu Christine Sien, prostituta que tinha um bebê e estava grávida de outro. A vida desta mulher pareceu penosa a Van Gogh, que acolheu-a como companheira e modelo. Devido a convivência diária, Van Gogh apaixonou-se por ela, mas apesar dos esforços para manter um relacionamento, a ligação não durou. Depois do parto, Sien voltou a beber excessivamente e ele não teve mais como ajudá-la. Quando Vicent decidiu mudar-se para o campo, Christine não o acompanhou. No mais famoso retrato que pintou dela, Tristeza, o rosto não aparece, mas o corpo nu, revela o drama de uma vida:

Tristeza, 11 de novembro de 1882.

Internado no hospital de Saint-Remy, Vicent pintou “Velho Homem em Tristeza” onde representou um dos seus infelizes companheiros:

Óleo – Velho homem em tristeza (no limiar da eternidade); Saint-Rémy; abril, 1890)
 
O RECONHECIMENTO

Enquanto vivo, Van Gogh vendeu apenas uma única tela “ A Vinha Encarnada” por cerca de 400 francos. Apesar da tristeza que sentia por causa do fracasso profissional, ele nunca abandonou a crença de que sua arte - onde depositou seus profundos sentimentos - chegaria às gerações futuras. Em carta escrita ao irmão, pouco antes de morrer, Van Gogh escrevera:
Diga-me, o que posso fazer se meus quadros não se vendem? [...] mas sabe no que muitas vezes penso? No que já lhe disse há algum tempo atrás... que mesmo que eu não tenha sucesso, ainda acredito que Deus fará com que aquilo no que tenho trabalhado seja levado adiante. Futuramente, talvez, o que fiz valerá mais do que o que pagamos pelas tintas que uso. Van Gogh a Theo, Arles (1890)
No texto acima, vê-se claramente os sentimentos que dominavam Van Gogh: desespero e esperança, a despeito do diagnóstico de sua doença, eram esses os dois pólos do artista. Quanto a sua vasta obra, Vicent não profetizou em vão: Exatamente cem anos após sua morte, o seu “Retrato do Dr. Gachet” foi leiloado por US$ 82,5 milhões, um recorde até então. Hoje, as telas do artista se enquadram entre as mais caras do mundo.

REFERÊNCIAS:
1.BLUMER, D; Van Gogh: geniality and disease J Bras Patol Med Lab • Volume 46 • Número 1 • fevereiro 2010 ISSN 1676-2444
2.WOLF, p; Creativity and chronic disease Vincent van Gogh; West J Med. 2001 November; 175(5): 348.
3.VAN GOGH, V. "Cartas a Theo" Paidós Estética. Barcelona.
4.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
5.BLUMER, D (2002): The Illness of Van Gogh. Am. J. Psychiatry; 159: 519-526.
6.JAMISOM, KR (1993): Touched with fire. Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament. New York.
7.JASPERS, K (2001): Genio artístico y locura. Strindberg y Van Gogh. El Acantilado. Barcelona.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Rinofima na Arte

Denomina-se rinofima a desfiguração do nariz resultante de uma intensa hiperplasia das suas glândulas sebáceas. Considerado o estágio final da acne rosácea, caracteriza-se pelo aparecimento de grandes cistos sebáceos de retenção decorrentes da obstrução dos duelos de drenagem das glândulas do ápice e asas do nariz.As alterações morfológicas têm início com a dilatação e engurgitamento dos vasos capilares e se fazem acompanhar de distorcão grosseira do tecido subcutâneo, das cartilagens alares e do músculo nasal. Essa desfiguração do nariz se processa de modo lento e progressivo; apesar de acometer jovens e mulheres, é mais prevalente em homens idosos.

O rinofima tem despertado a curiosidade de médicos e de artistas de diversas áreas. William Shakespeare faz referência à doença em sua obra Henrique V. Entretanto, é na pintura que essa deformidade está mais dramaticamente representada. Domenico di Tomaso Bigordi Ghirlandaio, conhecido por Ghirlandaio, pintou, em 1480, o óleo sobre madeira Um Velho e Seu Neto, também chamado O Ancião e a Criança:

O Ancião e a Criança (1480).Domenico Ghirlandaio ( 1449-1494). Óleo sobre madeira , 62 x 46 cm Museu do Louve (Paris)

Durante muito tempo, as identidades do velho e da criança eram simplesmente desconhecidas. Pensava-se que o ancião fosse um membro da família Ridolfi, uma vez que o quadro de Ghirlandaio esteve durante muitos anos com essa família.Posteriormente, estudiosos de arte, analisando o quadro Francesco Sassetti com seu Filho Teodoro (pertencente ao acervo de Jules Bache, de Nova York) e estudando um retrato a óleo existente no Museu de Arte de Estocolmo (Suécia), e ainda os afrescos da capela privativa do Palácio dos Sasseti, concluíram que o quadro, atualmente exposto no Museu do Louvre (Paris), representa Sasseti e Teodoro.

Em 1528, Joos van Cleeve (1485-1540) pintou o Retrato de um Ancião. A obra, atualmente exposta no Museu do Prado (Madrid), retrata o famoso matemático e geógrafo Sebastián Münster (1489-1552). Münster, que lecionava na Universidade de Heidelberg (Alemanha), e na Universidade da Basiléia (Suíça), era muito conhecido por ser o autor do livro Cosmografia Universal (1544), onde aparece a primeira descrição geográfica do mundo feita por um alemão.

Retrato de um Ancião (1580). Joons van Cleeve (1485-1540).Óleo sobre tela , 62 x 47 cm. Museu do Prado (Madrid)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Frida Kahlo: Vida Marcada por Doenças

"Pés, para que os quero se tenho asas para voar." Frida Kahlo

Maldalena Carmen Frida Kahlo retrata a trajetória de um dos maiores ícones das artes plásticas do México e do mundo. Com sua singular biografia e uma produção artística riquíssima, Frida expressava, em grande parte de suas pinturas, a dor e a mutilação, presentes, diariamente, em sua rotina de vida:

ESPINHA BÍFIDA

O primeiro problema neurológico apresentado por Frida Kahlo, espinha bífida, iniciou-se antes mesmo de seu nascimento. Espinha bífida significa espinha cindida ou dividida. Esta divisão se dá nas primeiras semanas de gravidez, quando a medula espinhal, então em formação, não se fecha corretamente. Dependendo da gravidade da fusão, a espinha bífida pode ser assintomática ou associada a diferentes manifestações esqueléticas, urogenitais e neurológicas, incluindo deformações e desordens tróficas das extremidades, paresia e outras. A maioria dos estudos bibliográficos ignoram tal patologia ou a citam de forma rápida, sem especificidade. Entretanto, sabe-se que a maior parte dos problemas ortopédicos apresentados pela pintora, têm relação direta com tal anormalidade do tubo neural. Apesar de não existirem documentos médicos especificando o defeito congênito, uma pintura intitulada: “O que eu vejo na água”, aponta tal anomalia. O elemento dominante da pintura é a presença dos pés aderidos na banheira. A presença de deformidades no hálux e segundo dedo no pé direito, é um defeito típico associado ao disrafismo congênito, incluindo a espinha bífida:



" O que eu vejo na água", 1938

Outro fato que marcou sua infância foi ter contraído poliomielite aos seis anos de idade. A doença a deixou como marcas a musculatura atrofiada e o membro inferior direito mais curto. Para encobrir a deficiência, Frida passou a usar saias longas como as das indígenas mexicanas. Já famosa, as intelectuais de sua época e as mulheres de um modo geral acharam que ela estava lançando moda e começaram a também usar aquelas saias longas.

TRAUMAS DA COLUNA VERTEBRAL E A “ÁRVORE DA ESPERANÇA”

Em 17 de setembro de 1925, na Cidade do México, um bonde bateu em um ônibus. O acidente seria esquecido se dentro do segundo veículo não estivesse a jovem Magdalena Carmen Frida Kahlo. A colisão moldou a existência da mais valorizada pintora latino-americana. Aos 18 anos, ela teve a coluna comprometida em três regiões, a perna dilacerada, o pé esmagado e a cintura pélvica fraturada. Uma barra de ferro ainda atravessou seu abdome. O sofrimento foi representado em sua arte com traços mórbidos:

Árvore da Esperança, Mantém-te Firme (1946).Frida Kahlo (1907-1954).Óleo. 56 x 40.5 cm. Galeria de Artes Isadora Ducasse (Nova York)

Sobre A Árvore da Esperança, Frida escreveu em seu diário: "Estou quase terminando o quadro que nada mais é que o resultado da tal operação. Estou sentada à beira de um precipício - com o colete em uma das mãos. Atrás estou deitada numa maca de hospital - com o rosto voltado para a paisagem - um tanto das costas está descoberto, onde se vê a cicatriz das facadas que me deram os cirurgiões filhos de sua recém-casada mamãe."

Segundo ela, um verdadeiro milagre a permitiu sobreviver: porém, lhe deixou graves seqüelas físicas. Devido a fratura de pelve, Frida foi informada de que não poderia ter filhos de parto normal, e era recomendável portanto que evitasse engravidar. O mesmo acidente destruiu seu sonho de ser médica. Em 1929 ela sofreu o primeiro aborto; em 1932, o segundo e último. Seu grande desejo era ter filhos, e a impossibilidade de concretizá-lo naturalmente deixou-a extremamente traumatizada.Felizmente, mais adiante, conseguiu voltar a caminhar. A artista foi submetida a mais de trinta operações e, mesmo assim, nunca deixou de pintar.

A COLUNA PARTIDA

Em 1944, Frida pintou o auto-retrato intitulado A Coluna Partida. A obra expressa o sofrimento da artista, pois sua saúde piorara a ponto de ter de usar um colete de aço. Uma coluna artificial, partida em vários lugares, toma o lugar de sua coluna fraturada. As rachaduras em seu corpo e os pregos espalhados pela superfície corporal são símbolos da dor e solidão:

“A coluna partida”, 1944.

A DOR DE UMA MÃE QUE PERDEU O FILHO

Em 1932, Frida pintou o quadro O Hospital Henry Ford, também conhecido como A Cama Voadora. O quadro mostra a pintora deitada no leito do hospital, localizado em Detroit, EUA. Flutuando sobre o leito, pode ser visto um feto do sexo masculino, um caramujo e um modelo anatômico de abdome e de pelve. No chão, abaixo do leito, são vistos uma pelve óssea, uma flor e um autoclave. Todas as seis figuras estão presas à mão esquerda de Frida por meio de artérias, de modo a lembrar os vasos de um cordão umbilical. O lençol sob Frida está bastante ensangüentado. Seu corpo é demasiadamente pequeno em relação ao tamanho do leito hospitalar, de modo a sugerir seu sofrimento e sua grande solidão:


Cama Voadora (1932).Frida Kahlo (1907-1954).Óleo sobre metal 77,5 x 96,5.Coleção Fundaçao Dolores Olmedo (México)

Do olho esquerdo de Frida goteja uma enorme lágrima, simbolizando a dor de uma mãe pela perda do filho; a pelve óssea é um testemunho da causa anatômica da impossibilidade de ser mãe.

O CARINHO POR SEU MÉDICO NO PERÍODO MARCADO POR INÚMERAS CIRÚRGIAS (1950-1951)

"Estive doente durante um ano: 1950-1951. Sete operações na coluna. O Dr. Farill salvou-me. Restituiu-me a alegria de viver. Ainda estou numa cadeira de rodas e não sei quando poderei voltar a andar de novo.Tenho um colete de gesso que, em vez de ser horrivelmente maçador, me ajuda a suportar melhor a coluna. Não sinto dores, só um grande cansaço... e, como é natural, por vezes desespero. Um desespero indescritível. No entanto quero viver. Já comecei o pequeno quadro que vou dar ao Dr. Farill e que estou fazendo com todo meu carinho por ele”.

“Auto-Retrato com o Dr. Juan Farril”, 1951

Nessa pintura, Frida Kahlo aparece numa cadeira de rodas, em frente a um retrato do seu médico, num cavalete. Uma espécie de oferenda ao médico que salvou a artista do seu sofrimento e aparece no lugar de santo. A paciente pinta a tela com seu próprio sangue e utiliza o coração como pincel.

EPISÓDIO DA AMPUTAÇÃO

Em 27 de julho de 1953, Frida tem a perna direita amputada até a altura do joelho. Em seu diário, encontra-se o desenho da perna amputada como uma coluna rodeada de espinhos.

"Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida.Vou esperar mais um pouco..."

Após atentar diversas vezes contra a própria vida, Frida Kahlo, que havia contraído uma grave pneumonia, foi encontrada morta no dia 13 de julho de 1954. Embolia pulmonar é a causa registrada em seu atestado de óbito, no entanto, a última anotação em seu diário permite aventar-se a hipótese de suicídio:

"Espero alegre a saída e espero nunca voltar."

Apesar do explícito sofrimento em sua obra, Frida nunca pintou com o interesse de se lastimar; pelo contrário, as imagens cruentas que vemos em muitos de seus quadros – colunas partidas, abortos, sangue, mortes – manifestam uma espécie de provocação, de atitude desafiante frente ao mundo, porque ela era assim. Fosse para buscar a si mesma ou para expressar toda sua sensibilidade, Frida retratou-se no conjunto de sua obra. Poucos artistas se revelaram tanto. Poucos tiveram – como ela teve – na arte o seu maior conforto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Marco Orsini 1; Marcos RG de Freitas 2; “Frida Kahlo: A arte como desafio à deficiência e à dor, com enfoque na poliomielite anterior aguda” Rev Bras Neurol,44,3:5-12;2008
BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os "bichinhos de pelúcia" da corte francesa

A hipertricose (também conhecida como a síndrome do lobisomem), seja universal ou localizada, é uma doença de natureza endócrina perenizada em telas. A hipertricose generalizada pode ocorrer na anorexia nervosa, no hipotireoidismo, na porfiria, em certas doenças do sistema nervoso e com o uso drogas (ex: fenobarbital).

O primeiro caso de hipertricose foi documentado em 1648. Pedro Gonzales, sofreu de hipertricose universal (doença tão bizarra que beira a ficção).


Pedro Gonzales, seu filho, suas duas filhas e um neto foram afetados pelo transtorno e enviados à França como uma curiosidade para os nobres. Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canárias, em 1556, Pedro foi dado de presente à corte de Henrique II, como se fosse um bichinho de pelúcia.

Um dos primeiros casos conhecidos de hipertricose universal congênita foi, portanto, o de Pedro Gonzales. Em razão de sua inteligência e de sua presença marcante, Henrique II fez dele um de seus mais importantes embaixadores. A artista Lavinia Fontana de Zappis, filha do também artista Prosperam Fontana - amigo de Michelangelo Buonarroti e retratista do papa Júlio – representou artisticamente a hipertricose dos Gonzales. Abaixo, o retrato de Gonzales:

Gonzales (1585).Lavínia Fontana de Zappis (1552-1614).Óleo sobre tela.Castelo de Ambras (Innsbruck)

Nascida na Holanda em 1572, Antonieta Gonzales, conhecida por Tonina, herdou do pai, Pedro Gonzales, casado com uma bela holandesa, a hipertricose universal congênita.

Em 1592, Ulisses Aldrovandi, médico e professor da Universidade de Bolonha, examinou os Gonzales e documentou os casos em seu livro ilustrado com xilogravuras, o qual recebeu o título de História de Monstros. No final do capítulo, o médico registra ter recebido a notícia de que Tonina havia se casado e dado à luz um filho peludo. O óleo sobre tela ao lado, intitulado Filha de Gonzales foi pintado também por Lavinia Fontana em 1585, e encontra-se exposto no Kunsthistorishes Museum (Viena).

"Toninha" (Séc. XVI); Lavinia Fontana.

REFERÊNCIAS:
 1.BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.
2Cardoso CBMA, Bordallo MAN, CKA. Hirsutismo . Adolesc. Saude. 2005;2(1):37-40

sábado, 26 de junho de 2010

Síndrome de Stendhal


"A beleza é apenas a promessa de felicidade" Stendhal

A rara Síndrome de Stendhal ou Síndrome da Sobredose de Beleza caracteriza a presença de sintomas num indivíduo sensível quando este se encontra diante de belas obras artísticas. Foi descrita em 1979, por Graziella Magherini, à época chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria Novella, em Florença. A psiquiatra observou que muitos turistas que visitavam Florença, quando portadores de grande sensibilidade emocional, eram afetados por um transtorno psíquico repentino. Foram identificados alguns sintomas comuns nessas pessoas, principalmente taquicardia, dispnéia e vertigem, que duravam desde momentos até diversos dias.

O nome escolhido para o distúrbio foi inspirado no grande escritor francês Stendhal (1783-1842), que descreveu em seu diário o transtorno emocional vivido ao visitar a Igreja de Santa Croce (Florença), a vertigem psíquica que ele sofreu foi tal, que o obrigou a sair da basílica para se recuperar:

"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)

O espectro de sintomas parece ser bem variado. Segundo Magherini, algumas pessoas sofrem com alucinações e até mesmo alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer em outras. A remissão costuma ser rápida, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos. Esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde, entretanto, insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera, que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.

O escritor russo Dostoiévski também foi acometido por estranhas sensações quando viu “Cristo morto”, de Hans Holbein (Museu da Basiléia):

"A visão do rosto de Cristo após seu martírio desumano era terrível... Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhar o quadro me fazia mal, e fui para outra sala. Voltei 20 minutos depois e Fiodor ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. Seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, ele se acalmou lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara". Por A. Snitkina (Esposa do escritor)




Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521).
Tão forte foi a emoção sentida por Dostoiévski diante do quadro que, no romance O Idiota, ele descreveu sua experiência de “estranha inquietação” ao ver a pintura, através do personagem Hipólito:

“[...] Lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. [..] Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. […] Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças.”
O Idiota, F.M. Dostoiévski
Marcel Proust (1871/1922), no quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido (A Prisioneira) relata a experiência do escritor Bergotte, frente ao quadro de Johannes Vermeer “A Vista de Delft”. A beleza provocou tão forte emoção, que o escritor sofreu um ataque fulminante e morreu ali mesmo, no chão do museu:

Jan Vermeer: Vista de Delft (1660). Óleo sobre tela. Museu Mauritshuis, Haia, Holanda

Curiosamente, a interessante síndrome serviu de mote para que o cineasta Dario Argento produzisse um filme (“La Síndrome di Stendhal”). Nele, a personagem principal “sente” os “sintomas” quando está frente ao quadro “A queda de Ícaro”, de Bruegel:



REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

MAGHERINI, Graziella. “La Sindrome di Stendhal”. Firenze, Ponte Alle Grazie, 1989. [1]
DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro
AMANCIO, Edson José. Dostoevsky and Stendhal´s sydrome. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2005, vol.63, n.4 [cited 2010-01-04], pp. 1099-1103
ALTIMARI, D.C; A Síndrome de Florença ou “Síndrome de Stendhal”; FCMSCSP